Mar 9 2010

As cores do tempo da graça

Luiz Car­los Ramos

 A pre­ga­ção do Evan­ge­lho é tanto mais efi­caz quanto melhor for a comu­ni­ca­ção da Igreja. Comu­ni­ca­ção é mais do que dis­curso, pois se dá no nível ver­bal e no nível não-verbal. A Igreja evan­ge­liza não somente pelo que ela fala, mas tam­bém (ou prin­ci­pal­mente) pelo que ela demons­tra. Dizem os estu­di­o­sos que mais de dois ter­ços da área cere­bral humana é des­ti­nada ao pro­ces­sa­mento de infor­ma­ções visu­ais. Assim, cada vez mais, fica evi­dente a impor­tân­cia da comu­ni­ca­ção visual. E a com­bi­na­ção das cores é um impor­tante ele­mento no estí­mulo à per­cep­ção visual humana.

Assim como as pará­bo­las foram uti­li­za­das por Jesus como recurso comu­ni­ca­tivo para esti­mu­lar a ima­gi­na­ção (imagem+ação) de seus dis­cí­pu­los, a Igreja emprega recur­sos visu­ais, prin­ci­pal­mente na ambi­en­ta­ção de seus espa­ços cúl­ti­cos, visando ao anún­cio da Tempo da Graça. E foi com a expe­ri­ên­cia acu­mu­lada ao longo da his­tó­ria da Igreja, que o emprego das cores nos luga­res de culto dei­xou de ser feito de maneira ale­a­tó­ria, para ser usada com cri­té­rios esté­ti­cos e teológicos.

Secu­lar­mente, o estudo das cores pas­sou a ser feito mais sis­te­ma­ti­ca­mente no período do Renas­ci­mento, por Leon Batista Alberti que rela­ci­o­nou as cores com os qua­tro ele­men­tos da natu­reza: ver­me­lho — fogo, azul — ar, verde — água, cinza — terra; e por Leo­nardo Da Vinci, que propôs a seguinte sim­bo­lo­gia cro­má­tica: branco — luz, ama­relo — terra, verde — água, azul — ar, ver­me­lho — fogo e preto — trevas.

Desde então, confirmou-se, cien­ti­fi­ca­mente, que as cores afe­tam o meta­bo­lismo humano basi­ca­mente da seguinte maneira: as cores quen­tes (ver­me­lho, ama­relo) ace­le­ram o bati­mento car­díaco e aumen­tam a pres­são arte­rial; ao passo que as cores frias (azul, verde) acal­mam e relaxam.

Geo­me­tri­ca­mente, as cores são assim repre­sen­ta­das: Qua­drado — ver­me­lho (que sugere ação cen­trí­fuga, i.e., do cen­tro para fora), cír­culo — azul (que sugere ação cen­trí­peta, i.e., de fora para o cen­tro) e tri­ân­gulo — verde (que sugere estabilidade).

Com estas infor­ma­ções, fica mais fácil enten­der por que a Igreja con­ven­ci­o­nou o uso do ver­me­lho para o período de Pen­te­cos­tes, pois é uma época de mis­são (de den­tro para fora); e o uso do verde para o Tempo Comum, suge­rindo a esta­bi­li­dade e a per­sis­tên­cia dos fiéis no cotidiano.

Veja­mos, bre­ve­mente, o esquema tra­di­ci­o­nal das cores litúrgicas:

  • Branco e a cor de ouro: sim­bo­li­zam a Divin­dade, luz, gló­ria, ale­gria e vitó­ria. São usa­das para cele­brar a obra reden­tora de Cristo (Natal, Epi­fa­nia, Batismo do Senhor, Trans­fi­gu­ra­ção do Senhor, Pás­coa, Ascen­são do Senhor, Trin­dade e Cristo, o Rei do Universo);
  • Ver­me­lho: sím­bolo do fogo e do san­gue dos már­ti­res, é a cor das cele­bra­ções do Espí­rito Santo e da Igreja: Pen­te­cos­tes, Dia da Reforma, ani­ver­sá­rio de igre­jas locais, orde­na­ção e inves­ti­dura de pastores;
  • Roxo ou lilás ou vio­leta: carac­te­ri­zam as épocas do ano cris­tão dedi­ca­das à refle­xão, arre­pen­di­mento e pre­pa­ra­ção, como o Advento e a Qua­resma.  (Note que o roxo é a mis­tura de uma cor quente – o ver­me­lho – e uma cor fria – o azul – , isso é repre­sen­ta­tivo da ten­são pró­pria dos perío­dos de expec­ta­tiva: o e o ainda não).
  • Azul claro: expressa espe­rança. Alguns teó­lo­gos (Barth, Tilich e von Almen) suge­rem o azul como sendo a cor ideal para o tem­plo, lugar para onde os fiéis con­ver­gem, por sim­bo­li­zar a ação cen­trí­peta da pró­pria comu­nhão. Suge­rem tam­bém que o cír­culo é a forma arqui­tetô­nica ideal para a dis­po­si­ção dos fiéis no tem­plo (com a mesa da comu­nhão ao centro).
  • Verde: é a cor da natu­reza, da vida e do cres­ci­mento e é usado ao longo do Tempo Comum (ou da Cri­a­ção) por ser uma cor que denota esta­bi­li­dade e constância.
  • Preto: denota a morte e o luto e é usado na Quarta-Feira de Cin­zas e na Sexta-Feira da Paixão.

Obvi­a­mente, esta é uma con­ven­ção basi­ca­mente oci­den­tal. Em outras cul­tu­ras, as cores podem assu­mir outros sig­ni­fi­ca­dos, ou até mes­mos sig­ni­fi­ca­dos opos­tos. De qual­quer forma, se con­se­guir­mos uti­li­zar o pode­roso poder de comu­ni­ca­ção visual das cores de forma inte­li­gente e teo­lo­gi­ca­mente coe­rente, esta­re­mos melho­rando nossa capa­ci­dade de pre­gar o Evan­ge­lho em uma soci­e­dade mar­cada pelo fas­cí­nio das imagens.

25 de Janeiro de 2000

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As cores do tempo da graça de Luiz Car­los Ramos é licen­ci­ado sob uma Licença Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso não-comercial-No Deri­va­tive Works 3.0 Bra­sil.


Mar 8 2010

O fio da história

Dia Inter­na­ci­o­nal da Mulher

Luiz Car­los Ramos
Ede­mir Antu­nes Filho

   

Lá esta­vam elas, ao som dos tea­res, tecendo com fio lilás
os teci­dos que deve­riam ves­tir e aque­cer outros cor­pos — rou­pas que elas mes­mas jamais vestiriam.

Já pró­xi­mas ao limite de suas for­ças, exaus­tas pelas 16 horas de lida diá­ria, as ope­rá­rias ainda encon­tra­vam ânimo para socor­rer com­pa­nhei­ras que se esvaiam tuber­cu­lo­sas; para sau­dar cri­an­ças recém-nascidas que sal­ta­vam pra den­tro da vida ali mesmo, sob os tea­res; e para cho­rar as enve­lhe­ci­das jovens que aos 30 anos ago­ni­za­vam em seus pos­tos e se des­pe­diam de sua breve vida.

Entre­tanto, emba­la­das pelo ritmo das máqui­nas, e, com o colo molhado pelas lágri­mas, ges­ta­vam sonhos de espe­rança: salá­rios dig­nos, melho­res con­di­ções de saúde, jor­nada de tra­ba­lho que lhes per­mi­tisse abra­çar mais lon­ga­mente suas cri­an­ças, bei­jar mais ter­na­mente seus mari­dos e sabo­rear um pouco mais a comu­nhão à mesa na sim­pli­ci­dade dos seus lares.

Con­ta­gi­a­das por esse sonho, foram compartilhá-lo com o patrão. Mas o patrão, indig­nado com tama­nho absurdo, jul­gou ser este um caso de polí­cia e resol­veu trans­for­mar aquele sonho divino em um pesa­delo infernal.

No dia 8 de março de 1857, as por­tas da fábrica Cot­ton de Nova York foram tran­ca­das e o edi­fí­cio trans­for­mado em um grande cre­ma­tó­rio onde 129 mulhe­res foram sacrificadas.

Mas… a fumaça daquele holo­causto espalhou-se por todo lugar levando con­sigo o sonho daque­las mulhe­res, con­ta­gi­ando e sen­si­bi­li­zando pes­soas em todo o mundo que se encar­re­ga­ram de tor­nar rea­li­dade aquele ideal.

Már­ti­res cre­ma­das, fios lila­ses, ges­tan­tes de um mundo melhor, ins­pi­ra­ram Clara Zet­kin, a pro­por, durante o Con­gresso Inter­na­ci­o­nal de Mulhe­res, rea­li­zado na Noru­ega em 1910,  a ins­ti­tui­ção do Dia Inter­na­ci­o­nal da Mulher.

Desde então, a cada 8 de março, mulhe­res e homens rea­fir­mam sua tarefa como tece­lãs e tece­lões de uma nova História.

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O fio da his­tó­ria: Dia Inter­na­ci­o­nal da Mulher de Luiz Car­los Ramos é licen­ci­ado sob uma Licença Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso não-comercial-No Deri­va­tive Works 3.0 Bra­sil.


Feb 28 2010

“Nem só de pão vive a humanidade” (Fotos)

Fotos: Car­los Nagumo


Feb 28 2010

“Nem só de pão vive a humanidade”

Capela da Serra

Litur­gia qua­res­mal, 28 de feve­reiro de 2010

Cli­que na ima­gem  ou no link abaixo para abrir o arquivo PDF:
Capela da Serra — 2010-02-28 — Quaresma

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“Nem só de pão vive a humanidade” — Liturgia Qua­res­mal de Luiz Car­los Ramos é licen­ci­ado sob uma Licença Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso não-comercial-No Deri­va­tive Works 3.0 Bra­sil.


Feb 25 2010

Capela da serra — Convite

Cele­bra­ção do dia 28 de fevereiro

Arte: Juli­ana Mesquita

 

“Nem só de pão vive a huma­ni­dade” (Lc 4.4.)

Que­ri­das ami­gas e ami­gos da Capela da Serra,

Esta­mos com mui­tas sau­da­des de todos, e por isso mesmo, muito feli­zes com a apro­xi­ma­ção da nossa pró­xima cele­bra­ção, que será no último domingo de feve­reiro, dia 28. A par­tir das 11 horas já esta­re­mos a pos­tos para pre­pa­rar as músi­cas e o ambi­ente. Às 11:30 horas ini­ci­a­re­mos a celebração.

Litur­gi­ca­mente, esta­mos já no Ciclo Pas­cal, e estes 40 dias que ante­ce­dem a festa máxima do cris­ti­a­nismo é dedi­cado a um tempo de ora­ção e purificação.

Por isso, em meio às mui­tas pala­vras e ruí­dos do coti­di­ano, bus­ca­re­mos a Pala­vra, e em meio aos mui­tos sen­ti­dos, ou sem-sendidos exis­ten­ci­ais, bus­ca­re­mos em ora­ção o grande Sen­tido.
Você é nosso con­vi­dado espe­cial, jun­ta­mente com os seus que­ri­dos, que serão muito bem-vindos.

Para o ofer­tó­rio, soli­ci­ta­mos aos que pude­rem que tra­gam copos des­car­tá­veis (para água), que será des­ti­nado ao Grupo de Defesa da Cri­ança com Cân­cer (GRENDACC).

Abraço fra­ter­nal,

Rev. Luiz Car­los Ramos   e   Rev. Pedro Nolasco Toso
luiz.carlos.ramos@terra.com.br    pedronct@uol.com.br

Rua Ângelo Per­nam­buco, 180 Jar­dim Ermida II, Eloy Cha­ves Jun­diaí — SP
nas depen­dên­cias da Escola Geraldo P. D. Paes (pró­ximo à Serra do Japi)

Aces­sem o mapa aqui: http://www.luizcarlosramos.net/?p=490
Litur­gias e fotos de encon­tros pas­sa­dos no site: http://luizcarlosramos.net


Feb 11 2010

O ciclo pascal

 Luiz Car­los Ramos

O Ciclo Pas­cal — que com­pre­ende a Qua­resma, a Semana Santa, o Tempo Pas­cal pro­pri­a­mente dito, e encerra-se com o Pen­te­cos­tes — formou-se a par­tir de um pro­cesso de refle­xão e sis­te­ma­ti­za­ção do cris­ti­a­nismo que vai do pri­meiro ao quarto século da era Cristã. A par­tir deste ciclo se cons­ti­tuiu todo o calen­dá­rio litúrgico.

Nas comu­ni­da­des pri­mi­ti­vas, era comum a reu­nião no pri­meiro dia de cada semana na qual celebrava-se a memó­ria de Jesus. A ori­gem do culto cris­tão remonta a essa “Pás­coa Sema­nal”, que ocor­ria no cha­mado “Dia do Senhor”.

Em boa parte por influên­cia do judaísmo cris­tão, desenvolveu-se uma cele­bra­ção anual da Pás­coa como um “grande dia do Senhor”, cuja festa se pro­lon­gava por cinqüenta dias, sendo o último, o dia de che­gada do Espí­rito, o Pen­te­cos­tes Cris­tão, isso já no século II.

No século IV, desenvolveu-se a tra­di­ção de revi­ver e refle­tir de um modo mais sis­te­ma­ti­zado, os momen­tos da pai­xão, isso deu ori­gem às cele­bra­ções da Semana Santa. Desde o século III as vés­pe­ras da Pás­coa já eram dias de refle­xão. Os cate­cú­me­nos que por dois anos vinham sendo pre­pa­ra­dos, agora eram acom­pa­nha­dos por toda a comu­ni­dade. Inspirando-se nos qua­renta dias de pre­paro de Jesus para seu minis­té­rio, nas­ceu o período da qua­resma. Assim, em torno da cele­bra­ção da morte e res­sur­rei­ção de Jesus, desenvolveu-se todo o Ciclo Pas­cal do Calen­dá­rio Litúr­gico Cris­tão, mar­cado pela peni­tên­cia e con­fis­são, mas tam­bém pela ale­gria e exul­ta­ção do cru­ci­fi­cado e ressuscitado.

A Qua­resma é o período no qual se enfa­tiza a impor­tân­cia da con­tri­ção, do pre­paro e da con­ver­são. Inicia-se no qua­dra­gé­simo dia antes da Pás­coa (não se con­tam os domin­gos). O iní­cio na Quarta-feira de Cin­zas retoma à tra­di­ção bíblica do arre­pen­di­mento com cin­zas e ves­tes de saco (Jn 3.5 – 6). É um momento opor­tuno para refle­tir sobre a con­fis­são e o valor do per­dão de Deus.

Sua espi­ri­tu­a­li­dade enfa­tiza momen­tos de pre­paro na his­tó­ria bíblica geral e da vida de Jesus:

  • Qua­renta dias de Jesus no deserto (Mt 4.2; Lc 4.1ss);
  • Qua­renta dias de Moi­sés no Sinai (Êx 34.28);
  • Qua­renta anos do povo no deserto (Êx 16.35);
  • Elias em dire­ção ao Horeb (1Rs 19.8).

A Semana Santa tem iní­cio no Domingo de Ramos, cele­bra­ção de Cristo como o Mes­sias, sal­va­dor dos pobres, o rei dos humil­des. Reflete-se, nessa semana, passo a passo, os últi­mos momen­tos da vida de Jesus.

Este é o momento da vigí­lia de pre­paro para a ressurreição.

Sua espi­ri­tu­a­li­dade chama-nos a aten­ção para os momen­tos finais de Jesus até o ápice de sua paixão:

  • A Santa Ceia (Mt 26.17 – 30);
  • O Lava-pés (Jo 13.1 – 17);
  • Jesus no Get­sê­mani (Mt 26.36 – 46; Mc 14.26 – 31);
  • O jul­ga­mento, sepul­ta­mento e a cru­ci­fi­ca­ção (Mt 27; Mc 15; Lc 23; Jo 19).

A Pás­coa¸ pro­pri­a­mente, é a festa da res­sur­rei­ção e da liber­ta­ção. Um novo Êxodo ocorre, e a huma­ni­dade passa do cati­veiro da morte para a vida.

Sua sole­ni­dade pode iniciar-se já na Quinta-Feira Santa (ins­ti­tui­ção da ceia), que dá iní­cio ao cha­mado Trí­duo Pas­cal. Con­tudo a cele­bra­ção da res­sur­rei­ção começa com uma vigí­lia na noite de sábado encon­trando sua ple­ni­tude no rom­per da aurora do Domingo da Pás­coa, quando Cristo é lem­brado como o sol da jus­tiça que traz a luz da nova vida, na ressurreição.

A espi­ri­tu­a­li­dade nor­te­a­dora da Pás­coa aponta para a res­sur­rei­ção nos mais vari­a­dos rela­tos das comu­ni­da­des do século I d.C.:

  • A res­sur­rei­ção (Mt 28.1 – 20; Mc 16.1 – 8; Lc 24.1 – 12; Jo 20.1 – 18; At 1.14);
  • Cân­ti­cos Pas­cais (Sl 113 ao 118 e Êx 12).

Entre os hebreus, era comum a cele­bra­ção da cha­mada “festa das sema­nas” ou Pen­te­cos­tes, isso por­que ela se dava sete sema­nas, ou cinqüenta dias, após a Pás­coa. Nela, o povo dava gra­ças ao Senhor pela colheita. Mais tarde, adqui­riu mais uma dimen­são cele­bra­tiva, a da pro­cla­ma­ção da lei (ins­tru­ção) no Sinai, cinqüenta dias após a liber­ta­ção do Egito.

Na era cristã, o Pen­te­cos­tes tornou-se o último dia do ciclo pas­cal, quando celebra-se a che­gada do Espí­rito Santo como aquele que atu­a­liza a pre­sença do res­sus­ci­tado entre nós, dando força para que as comu­ni­da­des sejam tes­te­mu­nhas de Jesus na história.

A espi­ri­tu­a­li­dade que nos ori­enta nesse período fala da pre­sença conso­ladora do Espí­rito que semeia nos cora­ções a espe­rança do Reino de Deus e nos impul­si­ona para a missão:

  • Festa das sema­nas (Êx 34.22; Lv 23.15);
  • Jesus pro­mete o Con­so­la­dor (Jo 16.7);
  • Jesus res­sus­ci­tado sopra seu Espí­rito (Jo 20.22);
  • A che­gada do Espí­rito Santo no dia de Pen­te­cos­tes (At 2).

Feb 9 2010

Um beijo no meio do caminho

Rev. Luiz Car­los Ramos

Para o povo cris­tão, o período de 40 dias que ante­cede a Pás­coa  é um tempo de recon­ci­li­a­ção. A pará­bola do filho pró­digo (Lc 15. 11 – 32) nos ensina muito a esse res­peito. Aquele filho expe­ri­men­tou um tempo qua­res­mal: teve de pas­sar por um jejum for­çado; teve oca­sião para medi­tar lon­ga­mente sobre sua con­di­ção mise­rá­vel ao lado dos por­cos; e o resul­tado é que ele se arre­pen­deu amar­ga­mente de seus enga­nos e desenganos…

É então que ele toma uma deci­são: “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai”. Ime­di­a­ta­mente o rapaz se levan­tou e foi ao encon­tro do pai. Da mesma forma, o relato nos diz que, quando ele ainda vinha longe, o pai saiu ao encon­tro do filho. Ambos se encon­tra­ram no meio do cami­nho e se bei­ja­ram. Houve recon­ci­li­a­ção, a paz foi  restaurada.

Note­mos que, para que a recon­ci­li­a­ção acon­teça, é pre­ciso que alguém dê o pri­meiro passo e que alguém dê o pri­meiro beijo. Se é pre­ciso que alguém volte, tam­bém é pre­ciso que o outro saia ao encon­tro. Recon­ci­li­a­ção é isso: reen­con­tro. E para que acon­teça, bas­tam duas coi­sas: um passo e um beijo.

Neste tempo que ante­cede a Pás­coa, quando nos lem­bra­mos do grande passo de Deus em Cristo ven­cendo a infi­nita dis­tân­cia que nos sepa­rava dele, nos damos conta de que já está mais do que na hora de nos levan­tar­mos, e dar­mos tam­bém nós esse impor­tante passo em dire­ção a Deus e em dire­ção ao próximo.

Diz o Antigo Tes­ta­mento que há tempo para abra­çar e tempo de afastar-se de abra­çar, pois este é o tempo de abra­çar. Para isso basta dar­mos um passo e um beijo no meio do caminho.


Feb 3 2010

Confissões de mal-me-quer

Luiz Car­los Ramos

 

O luxo mal-me-quer,
O lixo bem-me-quer.

A casa grande mal-me-quer,
A sen­zala bem-me-quer.

A escola mal-me-quer,
A escó­ria bem-me-quer.

A cate­dral mal-me-quer,
A praça da matriz, bem-me-quer.

Alpha­ville mal-me-quer,
A favela bem-me-quer.

A cris­tan­dade mal-me-quer,
O Cristo bem-me-quer.


Jan 25 2010

A Prática Homilética de John Wesley

(e pos­sí­veis apro­xi­ma­ções latino-americanas)[1]

Luiz Car­los Ramos[2] 

John Wes­ley pre­gando no túmulo do seu pai

Intro­du­ção

Neste artigo pro­cu­ra­re­mos ana­li­sar a prá­tica homi­lé­tica de John Wes­ley a par­tir dos cri­té­rios que ele pró­prio usava para ava­liar os pre­ga­do­res que esta­vam sob sua super­vi­são no iní­cio do movi­mento metodista. 

A fama do pre­ga­dor John Wesley

Conta-se que Wes­ley, depois de ter pre­gado em Peasholm Greem no domingo, foi até a sede da paró­quia. O pároco, notando pelas ves­tes de Wes­ley, que se tra­tava de um clé­rigo, mesmo sem conhecê-lo, ofereceu-lhe o púl­pito. Depois do culto, o padre per­gun­tou ao ecônomo/zelador quem era aquele pre­ga­dor. “Senhor”, disse o ecô­nomo, “esse é o vaga­bundo Wes­ley, a res­peito de quem o senhor nos adver­tira.” “Ah, é… de fato!” disse o per­tur­bado rei­tor, “fomos tra­pa­ce­a­dos; mas deixa pra lá, pelo menos tive­mos um bom ser­mão”.[3] 

Em geral, Wes­ley tem a fama de ter sido um grande pre­ga­dor, mas é difí­cil che­gar a essa con­clu­são obje­ti­va­mente somente com base nos rela­tos de seus con­tem­po­râ­neos. Não fal­tam empol­ga­dos elo­gios que fazem de John Wes­ley uma nova ver­são do Após­tolo João, nem crí­ti­cos seve­ros que dizem que Wes­ley fazia um papel ridí­culo, com sua pequena esta­tura e voz esga­ni­çada… É natu­ral que não pos­sa­mos espe­rar crí­ti­cas dos admi­ra­do­res nem elo­gios dos opo­si­to­res, e é com­pre­en­sí­vel que tenha havido não pou­cos exa­ge­ros tanto da parte de uns como de outros. 

Cri­té­rios para análise

É neces­sá­rio, por­tanto, que se esta­be­le­çam alguns cri­té­rios mais isen­tos para que se possa for­mar uma idéia mais apro­pri­ada a res­peito do pre­ga­dor Rev. John Wes­ley. Uma ini­ci­a­tiva nesse sen­tido foi feita pelo his­to­ri­a­dor Richard. P. Heit­zen­ra­ter, em seu ensaio “Prin­cí­pios e Prá­ti­cas da Pre­ga­ção de John Wes­ley”, publi­cado em 1977, nas Lec­tu­res on Severl Occa­si­ons, número 1, do Cen­tro de Estu­dos Meto­dis­tas da Bibli­o­teca Bridwell. Nesse ensaio, Heit­zen­ra­ter se propôs a ana­li­sar a prá­tica de Wes­ley submetendo-a aos cri­té­rios que o pró­prio Wes­ley havia esta­be­le­cido para ava­liar os pre­ga­do­res meto­dis­tas que esta­vam sob sua lide­rança. A con­clu­são de Heit­zen­ra­ter foi a de que nem sem­pre Wes­ley cor­res­pon­deu às suas pró­prias expec­ta­ti­vas, e nem sem­pre cum­priu à risca suas pró­prias reco­men­da­ções e determinações. 

Pro­posta de abordagem

No pre­sente artigo, pro­cu­ra­re­mos fazer algo seme­lhante: com­pa­ra­re­mos a prá­tica de Wes­ley à luz dos seus prin­cí­pios homi­lé­ti­cos. Para isso, levan­ta­re­mos as mes­mas ques­tões pro­pos­tas por Heit­zen­ra­ter: No enten­di­mento e na prá­tica de Wes­ley, quem deve pre­gar, onde e para quem, quando por quanto tempo e com que freqüên­cia, bem como o que e como pregar? 

Acres­cen­ta­re­mos, entre­tanto, algu­mas con­si­de­ra­ções a res­peito das pos­sí­veis apro­xi­ma­ções da prá­tica homi­lé­tica de Wes­ley com os desa­fios pró­prios da Amé­rica Latina dos nos­sos dias. 

Prin­cí­pios de Wesley

Come­ce­mos relem­brando quais foram as prin­ci­pais regras esta­be­le­ci­das por Wes­ley quanto à tarefa homi­lé­tica de seus pastores/pregadores. 

Regras para a pre­ga­ção (Minu­tes, 1747, 48): 

1. Faça tudo pra come­çar e ter­mi­nar na hora determinada. 

2. […]. 

3. Esforce-se para ser sério, pon­de­rado e solene em todo o pro­ce­di­mento diante da congregação. 

4. Esco­lha os tex­tos mais sim­ples possíveis. 

5. Tome cui­dado para não se dei­xar des­viar do seu texto, mas mantenha-se sem­pre den­tro dele, e rea­lize o que planejou. 

6. Sem­pre esco­lha um assunto apro­pri­ado para a sua audiência. 

7. Tenha cui­dado para não usar muita ale­go­ria ou espi­ri­tu­a­li­zar demais. 

8. Evite ges­tos ou modo de falar rebus­ca­dos ou inadequados. 

9. Falem uns cons os outros se obser­va­rem alguma coisa desse tipo. 

Exame dos Pre­ga­do­res (Minu­tes, 1746, 30 – 31): 

1. Eles sabem em quem têm crido? Eles têm o amor de Deus em seus cora­ções? Eles dese­jam e bus­cam somente a Deus? Eles são san­tos em todo o seu comportamento? 

2. Eles têm dons (e tam­bém a graça) para o tra­ba­lho? Eles têm (em um grau tole­rá­vel) uma com­pre­en­são clara e pro­funda? Eles têm o jul­ga­mento cor­reto das coi­sas de Deus? Eles têm a con­cep­ção justa da sal­va­ção pela fé? Deus lhes deu o dom da elo­cu­ção? Eles falam justa, fácil e claramente? 

3. Eles têm fru­tos? Quando falam, geral­mente têm sido só para con­ver­ter ou influ­en­ciar seus ouvin­tes? Ou eles têm obtido a remis­são dos peca­dos medi­ante suas pre­ga­ções? E tam­bém uma sen­sa­ção clara e dura­doura do amor de Deus? 

Tendo estas três mar­cas, ocor­rido ine­ga­vel­mente em qual­quer um deles, reco­nhe­ce­mos que ele foi cha­mado por Deus para pre­gar. Nós as acei­ta­mos como evi­dên­cias, razo­a­vel­mente sufi­ci­en­tes, de que ele é movido pelo Espí­rito Santo. 

Con­se­lho aos pre­ga­do­res, 1o. de agosto de 1786 (Minu­tes, 193 – 34) 

1. Sem­pre con­clua o culto em cerca de uma hora. 

2. Nunca grite. 

3. Nunca se apóie ou bata na Bíblia. 

4. Onde quer que você pre­gue, reúna a Soci­e­dade.
[…] 

7. Nunca pre­gue um ser­mão fúne­bre a não ser por uma
pes­soa emi­nen­te­mente santa; nem, ainda, sem con­sul­tar o Assis­tente. Não pre­gue por dinheiro. Cui­dado com pane­gí­ri­cos, par­ti­cu­lar­mente em Londres. 

[…]. 

À luz des­sas regras, pro­cu­ra­re­mos abor­dar a pró­pria prá­tica de Wesley. 

1. Quem deve pregar?

Veja­mos quem, no enten­di­mento de Wes­ley, esta­ria apto para pregar. 

Os pre­ga­do­res

Segundo consta, Char­les Wes­ley era muito mais exi­gente e severo na sele­ção de pre­ga­do­res do que seu irmão John. Conta-se que certa vez, abor­re­cido com o fato de alguém, “sem o auxí­lio de Deus”, ter feito de um alfai­ate pre­ga­dor, ele teria dito que estava pronto, “com o auxí­lio de Deus”, a fazer do pre­ga­dor nova­mente um alfai­ate. John, entre­tanto, estava pre­o­cu­pado em ter pre­ga­do­res em número sufi­ci­ente para aten­der às deman­das das soci­e­da­des meto­dis­tas e, por­tanto, era mais tole­rante. Ele che­gou a reco­men­dar a Char­les que “não repro­vasse os jovens sem muita neces­si­dade” e dizia: “entre os dois [a graça ou os dons], eu pre­firo mais a graça do que os dons”. 

Não obs­tante, John esta­ria longe de admi­tir qual­quer pes­soa, pois sabe-se que teria orde­nado a “expul­são de todos os que anda­vam desor­de­na­da­mente, efe­mi­na­dos, intro­me­ti­dos e levi­a­nos”, mas adver­tira Char­les de que “eles pre­ci­sa­vam de pelo menos qua­renta pre­ga­do­res ou ‘deve­riam dei­xar algu­mas das soci­e­da­des’”.[4] 

Os pre­ga­do­res, por­tanto, eram exa­mi­na­dos cri­te­ri­o­sa­mente antes de serem admi­ti­dos como tais. Eles tam­bém deve­riam per­ma­ne­cer coe­ren­tes em seu com­por­ta­mento e con­vic­ções teo­ló­gi­cas, de acordo com os prin­cí­pios esta­be­le­ci­dos pelos irmãos Wes­ley. Por­tanto, além do exame ini­cial, eram exa­mi­na­dos freqüen­te­mente, para ave­ri­gua­ção de sua cons­tân­cia e fide­li­dade. John e Char­les se reu­ni­ram em con­fe­rên­cia com os pre­ga­do­res em várias oca­siões (somente em 1751, foram três encon­tros) para examiná-los a res­peito da “graça, dons e fru­tos de cada um deles”. 

Os pre­ga­do­res leigos

O sur­gi­mento de pre­ga­do­res lei­gos no meto­dismo se deu mais pela neces­si­dade do que por pla­ne­ja­mento. Na con­fe­de­ra­ção das soci­e­da­des em desen­vol­vi­mento, os Wes­ley depen­diam dos líde­res locais den­tre os gru­pos para man­ter as soci­e­da­des fun­ci­o­nando na sua ausên­cia. Devido à con­tro­vér­sia entre o movi­mento das soci­e­da­des e a tra­di­ção reli­gi­osa na Ingla­terra – divi­dida entre os seg­men­tos cal­vi­nis­tas, morá­vios e wes­leya­nos –, os Wes­ley esta­vam per­dendo os clé­ri­gos ali­a­dos. Enquanto isso, iam ganhando assis­tên­cia leiga.[5] A carên­cia de obrei­ros clé­ri­gos levou à admis­são dos pre­ga­do­res leigos. 

Wes­ley ficava irri­tado com o fato dos bis­pos angli­ca­nos se recu­sa­rem a orde­nar os pre­ga­do­res da sua cone­xão, por­que os con­si­de­rava melho­res pre­pa­ra­dos do que os minis­tros clé­ri­gos. Não obs­tante, Wes­ley adver­tiu os meto­dis­tas quanto a não cha­ma­rem os pre­ga­do­res lei­gos de minis­tros

As mulhe­res

Segundo Heit­zen­ra­ter, “nenhum dos pre­ga­do­res iti­ne­ran­tes ou locais era mulher, entre­tanto, algu­mas mulhe­res esta­vam pre­gando e às vezes fora das reu­niões de suas soci­e­da­des locais”.[6] Embora [Wes­ley] tenha dito não achar “errado que as mulhe­res falas­sem em público desde que falem pelo Espí­rito de Deus”, acon­se­lha a Sra. Grace Wal­ton, em 1761, a res­trin­gir suas falas a “peque­nas exor­ta­ções”, pro­cu­rando “man­ter isso o mais longe pos­sí­vel do que é cha­mado de pre­ga­ção. Por­tanto, nunca tome um texto; nunca fale em um dis­curso con­tí­nuo sem alguma parada, cerca de qua­tro ou cinco minu­tos”. E, em 1761, Wes­ley teria dito espe­ci­fi­ca­mente a Sarah Crosby que “os meto­dis­tas não per­mi­tem que as mulhe­res pre­guem”. Entre­tanto, Wes­ley estava dis­posto a fazer con­ces­sões às regras comuns da dis­ci­plina. Con­tes­tado por Mary Bosan­quet, na pri­ma­vera de 1771, Wes­ley acei­tou os argu­men­tos que defen­diam o meto­dismo como um “cha­mado extra­or­di­ná­rio”, reco­nhe­cendo que não ape­nas a pre­ga­ção leiga, mas tam­bém que algu­mas mulhe­res “têm um cha­mado extra­or­di­ná­rio para isso [falar em público], e ai daquela que não o obe­dece” (Docu­ments, 4:171). Em 1787, Sarah Mal­let rece­beu de Joseph
Har­per, Assis­tente de Norwish, auto­ri­za­ção para pre­gar naquela área. Wes­ley a acon­se­lhava e enco­ra­java freqüen­te­mente em sua tarefa. 

Nota­mos, por­tanto, que Wes­ley estava dis­posto a supe­rar suas pró­prias regras, na medida em que iam cres­cendo sua com­pre­en­são e expe­ri­ên­cia no ser­viço do Evangelho. 

2. Onde pre­gar e para quem?

Wes­ley reco­men­dava que o pre­ga­dor somente deve­ria apre­sen­tar um ser­mão se hou­vesse pelo menos 20 pes­soas pre­sen­tes ao culto, ou à reu­nião – isso, dizia ele, para não bara­tear o Evangelho. 

Os des­ti­na­tá­rios

Nas Large Minu­tes, lemos: “Você não deve fazer nada a não ser sal­var almas. Por­tanto, gaste e seja gasto nesse tra­ba­lho; e vá sem­pre não ape­nas àque­les que que­rem, mas àque­les que mais neces­si­tam de você.” 

Esse pare­cer a res­peito dos des­ti­na­tá­rios, segundo o qual os pre­fe­ren­ci­ais não são os que que­rem, mas os que pre­ci­sam, fez com que o meto­dismo alcan­çasse uma mul­ti­dão de pes­soas, até então des­pre­za­das, pela Igreja da Ingla­terra: os pobres, os pri­si­o­nei­ros, os ope­rá­rios, os tra­ba­lha­do­res das minas, as cri­an­ças, as viú­vas, os desem­pre­ga­dos, os enfer­mos, os famin­tos, os endi­vi­da­dos, os sem-teto, os men­di­gos, enfim, o povo que vagava pelas ruas, e pelas cata­cum­bas de um mundo gros­seiro, sujo e violento. 

Wes­ley assim se expres­sou na carta escrita nos anos 1770 a seu irmão Charles: 

Sua tarefa, bem como a minha, é sal­var almas. Quando assu­mi­mos a ordem sacer­do­tal, nos com­pro­me­te­mos a fazer disso nossa única ocu­pa­ção. Penso em cada dia per­dido que não foi empre­gado (prin­ci­pal­mente) nesse mis­ter. Sum totus in illo [a isto me com­pro­meto com­ple­ta­mente]”.[7] 

Entre­tanto, pela resis­tên­cia da parte da igreja ofi­cial em rela­ção a seu movi­mento, Wes­ley não somente não foi comis­si­o­nado para uma paró­quia, como mui­tas vezes impe­dido de exer­cer seu minis­té­rio den­tro das fron­tei­ras da pró­pria Igreja Angli­cana. Desde muito cedo, John Wes­ley tomou cons­ci­ên­cia de que sua mis­são não pode­ria ser com­pleta se esti­vesse limi­tada pelas con­ven­ções típi­cas do sis­tema cle­ri­cal inglês. 

Isto for­çou Wes­ley a bus­car novos cam­pos “paro­qui­ais”, o que o levou à grande des­co­berta da pre­ga­ção ao ar livre. Em 1739, quando foi cri­ti­cado por pre­gar fora dos tem­plos nos limi­tes de uma das paró­quias de Bris­tol, dirigiu-se ao bispo Joseph Butler dizendo que ele não tinha um comis­si­o­na­mento espe­cí­fico para uma paró­quia em par­ti­cu­lar, mas: “uma dis­pen­sa­ção do evan­ge­lho me foi con­fi­ada [1Cor 9.17], e ‘ai de mim se eu não pre­gar o evan­ge­lho’ [1Co 9.16], onde quer que esteja no mundo habi­tado”.[8] 

Esta é a base do seu prin­cí­pio, “eu con­si­dero todo o mundo como minha paró­quia”. E, nas pala­vras de Heit­zen­ra­ter, Wes­ley não se con­si­de­rava limi­tado pelas fron­tei­ras e méto­dos da paró­quia convencional. 

Os locais de pregação

Assim, pre­gar além das fron­tei­ras paro­qui­ais e ecle­siás­ti­cas, se tor­na­ria uma carac­te­rís­tica pri­má­ria do rea­vi­va­mento meto­dista. Ele mesmo expli­cou que não tinha inten­ção de pre­gar ao ar livre até que os púl­pi­tos se foram fechando para ele. As gran­des mas­sas de gente tam­bém não goza­vam de bom con­ceito para os irmãos Wes­ley. Char­les se refe­ria às pes­soas da mul­ti­dão como “bes­tas sel­va­gens”. Em sua Short His­tory of the Peo­ple Cal­led Metho­dists, Wes­ley assim expôs tal processo: 

Sendo assim excluído das igre­jas e incon­for­mado com o silên­cio, restou-me somente pre­gar a céu aberto; o que fiz a prin­cí­pio não por esco­lha, mas por neces­si­dade; desde então, não obs­tante, eu tenho encon­trado razões abun­dan­tes para glo­ri­fi­car a sábia pro­vi­dên­cia de Deus pela cri­a­ção de um meio para que miría­des [sic] de pes­soas que nunca entra­ram em nenhuma igreja, nem sequer gos­ta­riam de fazê-lo, pudes­sem ouvir aquela pala­vra na qual encon­tra­riam o poder de Deus para a salvação. 

O incen­ti­va­dor de Wes­ley para a pre­ga­ção a céu aberto foi George Whi­te­fi­eld. A prin­cí­pio, Wes­ley achou aquele um “estra­nho modo de pre­gar”.[9] John e Char­les che­ga­vam a con­si­de­rar um sacri­lé­gio alguém converter-se fora do con­texto de um culto rali­zado den­tro de uma igreja. 

Embora con­ti­nu­asse a pre­gar em algu­mas igre­jas paro­qui­ais, assim como na capela da pri­são de New­gate e no asilo de Lawford’s Gate, Wes­ley pas­sou a empenhar-se no exer­cí­cio da pre­ga­ção ao ar livre. “Qual­quer lugar aberto era ade­quado, desde que o povo pudesse se reu­nir e o pre­ga­dor pudesse ser ouvido.”[10] Sua inten­ção era ir aonde o povo esti­vesse. Assim, logo des­co­briu os cemi­té­rios, ao lado de igre­jas que ser­viam de con­cha acús­tica; as pra­ças do mer­cado que fun­ci­o­na­vam como anfi­te­a­tros rode­a­dos de pré­dios; e mesmo algu­mas árvo­res cuja forma ser­via para ampli­fi­car o som; tam­bém as esca­va­ções de minas, muito apro­pri­a­das para aco­mo­dar gran­des audi­tó­rios. Como expli­cara a John Smith, ele fez mais em três dias pre­gando junto à tumba do seu pai em Epworth do que pre­gando por três anos em seu púlpito. 

Os deta­lhes tecnológicos

Wes­ley tornou-se fas­ci­nado pela téc­nica (e pela “tec­no­lo­gia”) da pre­ga­ção ao ar livre. Ele sem­pre se colo­cava acima da mul­ti­dão, fosse subindo em uma cadeira ou em um túmulo. Ele geral­mente usava um púl­pito por­tá­til feito de madeira. Ele pro­cu­rava luga­res nos quais pudesse falar para um grande número de pes­soas e ser ouvido. 

Com essa prá­tica, Wes­ley con­se­guia pre­gar para um número admi­rá­vel de pes­soas (segundo seu regis­tro, no pri­meiro mês de sua expe­ri­ên­cia de pre­gar no campo, ele havia atin­gido 47.500 pes­soas – nos meses seguin­tes, esse número cres­ceu ainda mais). Entre­tanto, se com­pa­rar­mos o número de pes­soas que real­mente eram arro­la­das nas soci­e­da­des, pode­mos con­cluir que tal expe­ri­ên­cia homi­lé­tica cam­pal não pro­du­zia tan­tos resul­ta­dos assim. De acordo com Heit­zen­ra­ter, “na mai­o­ria das vezes em que as pes­soas rece­be­ram a remis­são dos peca­dos ou foram con­for­ta­das, isso acon­te­ceu nas peque­nas reu­niões de gru­pos, não nos gran­des cul­tos ao ar livre”.[11] 

Assim, em 1763, depois de ter se desi­lu­dido com a pos­si­bi­li­dade de poder se dedi­car exclu­si­va­mente à pre­ga­ção ao ar livre sem a pre­o­cu­pa­ção de for­mar soci­e­da­des, con­cluiu que “pre­gar como um após­tolo, sem reu­nir aque­les que foram des­per­ta­dos e treiná-los nos cami­nhos de Deus, é como entre­gar cri­an­ças nas mãos de assas­si­nos”. A pre­ga­ção sem for­ma­ção de soci­e­da­des, sem dis­ci­plina nem ordem ou cone­xão resul­tou em que “nove em dez daque­les que haviam sido des­per­ta­dos este­jam agora mais ador­me­ci­dos do que nunca” (Jour­nal and Dia­ries IV – Works, 21:424 – 25 de agosto, 1763). 

3. Quando e com que freqüên­cia pregar?

As pre­ga­ções diá­rias, sema­nais e itinerantes

A pre­ga­ção meto­dista mais notá­vel, por sua sin­gu­la­ri­dade, era aquela que acon­te­cia dia­ri­a­mente às 5 horas da manhã, antes do povo ir para o tra­ba­lho. Wes­ley dizia que a pre­ga­ção da manhã fazia bem para o corpo e para a alma. Nisso Wes­ley foi rigo­ro­sa­mente pontual. 

Quanto ao tempo da pre­ga­ção, Wes­ley não foi tão fiel aos seus pre­cei­tos assim. A regra esta­be­le­cida nas Minu­tes era: “certifique-se de come­çar e ter­mi­nar pre­ci­sa­mente no tempo esti­pu­lado”, isto é, no inter­valo de uma hora. Entre­tanto, em mui­tas oca­siões, Wes­ley que­brou suas pró­prias regras. Há vários rela­tos seus dando-nos conta de que algu­mas vezes ele ultra­pas­sou o tempo em uma, duas ou mesmo três horas. Isto não nos deixa dúvi­das de que, no cora­ção de Wes­ley, as regras esta­vam em segundo plano em rela­ção à “ação do Espí­rito”, pelo menos neste caso.[12] 

Tam­bém quanto à freqüên­cia com que se deve pre­gar, Wes­ley não se enqua­dra em seus pró­prios prin­cí­pios. A regra deter­mi­nava que os pre­ga­do­res não deve­riam pre­gar mais do que duas vezes por dia durante a semana e três vezes nos domin­gos. Ele che­gou a cri­ti­car dura­mente aque­les que pre­ga­vam três vezes, por­que esta­riam com­pro­me­tendo o bem estar físico e men­tal, tanto do pre­ga­dor quanto dos ouvin­tes. “Prega tanto quanto pude­res, mas não mais do que pude­res”, escre­veu ele a Tel­ford em 1775. Não obs­tante, por seus diá­rios, sabe­mos que não foram raras as vezes em que ele mesmo pre­gou qua­tro ou cinco vezes num único dia. Segundo Char­les W. Clay, na intro­du­ção aos Tre­chos do Diá­rio de João Wes­ley, Wes­ley teria pre­gado mais de 42.000 ser­mões, tendo via­jado mais de 400.000 quilô­me­tros a pé, a cavalo, de car­ru­a­gem e de navio.[13] Feliz­mente, para Wes­ley, ele gozava de boa saúde e de um físico resis­tente, apto a enfren­tar as intem­pé­ries pró­prias das suas árduas jornadas. 

4. O que pregar?

Temas recor­ren­tes

Em vários luga­res Wes­ley define a mis­são do meto­dismo como sendo pri­o­ri­ta­ri­a­mente “espa­lhar san­ti­dade”. Ele sin­te­tiza as prin­ci­pais dou­tri­nas do movi­mento numa trí­plice rela­ção que con­si­dera con­ter todo o res­tante: arre­pen­di­mento, fé, e san­ti­dade – o pri­meiro, arre­pen­di­mento, é como o pór­tico da reli­gião; a segunda, a fé, é como a porta; e a ter­ceira, a san­ti­dade, é a pró­pria reli­gião. A isto, John Wes­ley chama de “as gran­des dou­tri­nas bíbli­cas”.[14] 

Os cha­ma­dos ser­mões evan­ge­lis­ti­cos (gos­pel ser­mons), muito popu­la­res no seu tempo, não eram bem vis­tos nem bem-vindos entre os meto­dis­tas. Wes­ley con­si­de­rava esse tipo de pre­ga­ção como sendo “uma rap­só­dia des­co­nec­tada de pala­vras sem significado”. 

Em seus “Pen­sa­men­tos sobre os minis­tros do evan­ge­lho”, Wes­ley define quem são os ver­da­dei­ros pre­ga­do­res do evan­ge­lho: Não basta falar dos decre­tos eter­nos – uma crí­tica aos cal­vi­nis­tas – para que alguém tenha o direito ao título de minis­tro do evan­ge­lho; tam­bém não basta falar apai­xo­na­da­mente sobre a jus­tiça e o san­gue de Cristo, se não pro­clama o dever do crente ao mesmo tempo que os sofri­men­tos de Cristo; não é minis­tro ver­da­deiro qual­quer que trate acerca das pro­mes­sas de Deus sem referir-se ao ter­ror da lei, à ira de Deus con­tra a impi­e­dade e a injus­tiça dos homens – “estes são tra­fi­can­tes de pro­mes­sas não são minis­tros do evan­ge­lho”; tam­pouco é minis­tro qual­quer que pre­gue a jus­ti­fi­ca­ção pela fé, se não for além e insis­tir tam­bém na san­ti­fi­ca­ção, sobre­tudo na pro­du­ção dos fru­tos da fé, na san­ti­dade uni­ver­sal – se não decla­rar todo o con­se­lho de Deus, não é um minis­tro do evan­ge­lho; então, 

quem é um minis­tro do evan­ge­lho em sen­tido com­pleto e bíblico da pala­vra? Aquele, e uni­ca­mente aquele, de qual­quer deno­mi­na­ção, que anun­cia todo o con­se­lho de Deus, que prega todo o evan­ge­lho, incluindo a jus­ti­fi­ca­ção e a san­ti­fi­ca­ção, como meios para se che­gar à gló­ria. Aquele que não separa o que Deus uniu, senão que anun­cia tanto a Cristo que mor­reu por nós, como a Cristo que vive em nós. Aquele que cons­tan­te­mente aplica estas ver­da­des ao cora­ção dos ouvin­tes, estando dis­posto a dar-se e a ser con­su­mido por eles, tendo a mente de Cristo e seguindo seus pas­sos sem desviar-se. Aquele, e só aquele, pode ser cha­mado ver­da­dei­ra­mente um minis­tro do evan­ge­lho.[15] 

Tex­tos preferidos

Embora afir­masse que o ver­da­deiro minis­tro deve­ria pre­gar todo o con­teúdo do evan­ge­lho, Wes­ley tinha os seus tex­tos pre­fe­ri­dos, aos quais recor­ria rei­te­ra­das vezes (por exem­plo: 2Co 8.9; Is 55.7; Ef 2.8; Hb 12.28). O texto de Efé­sios 2.8 foi uti­li­zado 34 vezes nas pre­ga­ções entre o ano 1749 – 54 (cinco anos). 

A lin­gua­gem dos seus ser­mões era pro­fun­da­mente influ­en­ci­ada pelo texto bíblico. De fato, 

o uni­verso que serve de fonte básica para seu voca­bu­lá­rio, ima­gi­ná­rio, e mesmo de fonte de ilus­tra­ção, é o mundo bíblico: ele repre­senta a matriz da sua cui­da­dosa abor­da­gem dos mate­ri­ais oriun­dos de outras fon­tes.[16] 

Wes­ley reco­men­dava aos pre­ga­do­res que esco­lhes­sem tex­tos fáceis para pre­gar e que per­ma­ne­ces­sem no texto esco­lhido. Esta seria outra regra que Wes­ley nem sem­pre teria seguido. No ser­mão “Quase Cris­tão” (“The Almost Chris­tian”), ele se des­via do texto, se não o torce com­ple­ta­mente.[17] 

Ser­mões repetidos

Havia uma idéia cor­rente, na época, de que os velhos ser­mões deviam ser quei­ma­dos a cada sete anos. Wes­ley con­si­de­rava essa uma pés­sima idéia. Ele dizia que seria impos­sí­vel fazer melhor agora cer­tos ser­mões escri­tos há vinte ou trinta anos. Sabe-se que Wes­ley pre­gou sobre Mar­cos 1.15 (“O reino de Deus está pró­ximo, arrependei-vos e crede no evan­ge­lho”) pelo menos 190 vezes. De fato, antes de serem escri­tos em ver­são defi­ni­tiva e publi­ca­dos, seus ser­mões eram pre­ga­dos inú­me­ras vezes, cor­ri­gi­dos, revi­sa­dos, ampli­a­dos até que esti­ves­sem em um for­mato ade­quado para ser impresso. Ao que parece, como Whi­te­fi­eld[18], Wes­ley tinha cons­ci­ên­cia de que a lin­gua­gem oral era dife­rente da escrita e que, para se obter o mesmo efeito, elas pre­ci­sa­vam ser arran­ja­das diferentemente. 

5. Como pregar?

A pre­o­cu­pa­ção com a for­ma­ção do pre­ga­dor (quem está apto?)

Em “Um Dis­curso aos Clé­ri­gos”, Wes­ley trata da ques­tão “Que classe de homens [pre­ga­do­res] deve­mos ser?”. Como pro­ve­do­res da Igreja de Deus, com rela­ção aos dons, os minis­tros devem ter, (1) pri­mei­ra­mente, um bom enten­di­mento, uma clara apre­en­são, um juízo sólido e uma capa­ci­dade de raci­o­ci­nar com certa pre­ci­são; (2) em segundo lugar, tenha viva­ci­dade e faci­li­dade de pen­sa­mento; e (3), em ter­ceiro lugar, ter uma boa memó­ria. Com rela­ção aos conhe­ci­men­tos adqui­ri­dos, ter um bom cabe­dal de conhe­ci­men­tos: (1) pri­meiro de seu pró­prio ofí­cio, da grande res­pon­sa­bi­li­dade que rece­beu e da impor­tante tarefa para a qual foi cha­mado – isto é, cons­ci­ên­cia a res­peito do que con­siste sua tarefa; (2) conhe­ci­mento das Escri­tu­ras, o sig­ni­fi­cado lite­ral de cada pala­vra, ver­sí­culo e capí­tulo e ser capaz de dedu­zir os coro­lá­rios apro­pri­a­dos, espe­cu­la­ti­vos e prá­ti­cos de cada texto para resol­ver as difi­cul­da­des que sur­jam e para res­pon­der às obje­ções que pos­sam exis­tir, e fazer apli­ca­ção ade­quada aos ouvin­tes; (3) em ter­ceiro lugar, ter conhe­ci­mento das lín­guas ori­gi­nais para poder com­pre­en­der as pas­sa­gens mais con­tro­ver­ti­das; (4) em quarto lugar, ter conhe­ci­mento da his­tó­ria pro­fana: os cos­tu­mes anti­gos, a cro­no­lo­gia e a geo­gra­fia; (5) em quinto lugar, ter algum conhe­ci­mento das ciên­cias prin­ci­pal­mente a lógica, a arte do bom sen­tido, e com­pre­en­der as coi­sas cor­re­ta­mente, jul­gar com a ver­dade a raci­o­ci­nar de forma con­vin­cente, bem como ter uma ligeira fami­li­a­ri­dade com a meta­fí­sica, a filo­so­fia natu­ral, a geo­me­tria; (6) em sexto lugar, ter conhe­ci­mento dos Pais da Igreja, dos mais autên­ti­cos comen­ta­ris­tas das Escri­tu­ras, espe­ci­al­mente dos que escre­ve­ram antes do Con­cí­lio de Nicéia, mas tam­bém os que segui­ram: São Cri­sós­tomo, Basí­lio, Jerô­nimo, Agos­ti­nho e, sobre tudo, o homem de cora­ção que­bran­tado, Efrem o Sírio; (7) em sétimo lugar, o conhe­ci­mento do mundo, um conhe­ci­mento dos huma­nos: suas máxi­mas, tem­pe­ra­men­tos e cos­tu­mes, tal e qual se apre­sen­tam na vida real; (8) em oitavo lugar, a pru­dên­cia, que con­si­dera todas as cir­cuns­tân­cias de alguma coisa (quem, que, onde, com que meios, por quê, como, quando); (9) em nono lugar, o clé­rigo deve ter bons modos, com­por­ta­mento e con­duta ade­quada: a cor­te­sia de um cava­lheiro unida à de uma pes­soa bem edu­cada, uma voz clara, forte e musi­cal, eloqüên­cia tanto na pro­nún­cia quanto nas ati­tu­des. Aque­les que se entre­gam com entu­si­asmo a seu tra­ba­lho em rela­ção a estes dons, mui­tos dos quais não se podem alcan­çar sem um con­si­de­rá­vel esforço, con­tam com a pro­messa da ajuda daquele que é a fonte de todo o conhecimento. 

A pre­o­cu­pa­ção com a forma da pregação

Seu estilo é abso­lu­ta­mente lógico. O arranjo do seu mate­rial dis­cur­sivo obe­dece a um plano homi­lé­tico rigo­roso, com pro­po­si­ções cla­ras e argu­men­ta­ção con­seqüente, coe­rente, exaus­tiva… (Ape­nas a título de exem­plo, reco­men­da­mos a obser­va­ção do Ser­mão 4 ). 

A pre­o­cu­pa­ção com a elo­cu­ção da pregação

Sobre a qua­li­dade da voz e o uso dos ges­tos na pre­ga­ção, a pes­quisa de Heit­zen­ra­ter nos ofe­rece impor­tan­tes ele­men­tos de para aná­lise. Wes­ley pro­cu­rava falar jus­ta­mente, com­pre­en­si­vel­mente e cla­ra­mente. “Eu pre­paro ver­da­des sim­ples para o povo simples”. 

Cla­reza é par­ti­cu­lar­mente neces­sá­ria […] por­que esta­mos ins­truindo pes­soas de pouco enten­di­mento […]. Deve­ría­mos usar cons­tan­te­mente as mais comuns, as meno­res e as pala­vras mais fáceis que nossa lin­gua­gem possa ofe­re­cer (desde que sejam puras e apro­pri­a­das).[19] 

Heit­zen­ra­ter comenta ainda que Wes­ley se opu­nha à ora­tó­ria rebus­cada e flo­re­ada tão comum nos púl­pi­tos ingle­ses; bem como às espe­cu­la­ções filo­só­fi­cas e às pala­vras e ter­mos téc­ni­cos difí­ceis, não obs­tante uti­li­zasse freqüen­te­mente cita­ções em latim, para não falar do hebraico e do grego abun­dan­tes em seus sermões. 

Quanto à voz, Wes­ley teria reco­mendo a John King, no ano de 1775: “nunca fale acima do volume natu­ral da sua voz”. Wes­ley, por­tanto, con­de­nava a pre­ga­ção gri­tada: “fale com todo seu cora­ção, mas com voz moderada”. 

John Hamp­son, o pri­meiro bió­grafo de Wes­ley, escre­veu: “a maneira de Wes­ley era gra­ci­osa e aces­sí­vel – sua voz não era alta, mas clara e natu­ral; seu estilo sim­ples, pers­pi­caz, e admi­ra­vel­mente adap­tado à capa­ci­dade dos seus ouvin­tes”. De qual­quer forma, em ter­mos de voz e de locução, 

Wes­ley não era um pre­ga­dor da mesma cate­go­ria de um Whi­te­fi­eld, que podia impres­si­o­nar as mai­o­res mul­ti­dões e, segundo o ator Gar­rick, podia enchar­car seus ouvin­tes de lágri­mas ape­nas com sua pro­nún­cia da pala­vra “Meso­po­tâ­mia”.[20] 

Quanto aos ges­tos, reco­men­dava: “Evite palha­ça­das. Seja Cor­tez com todos”; “cui­dado com qual­quer exa­gero ou afe­ta­ção, mesmo nos ges­tos e na pro­nún­cia”. Sobre pro­nún­cia e ges­tos, Wes­ley che­gou a escre­ver um pan­fleto, no qual reco­men­dava que não se devia abrir os bra­ços mais do que a dis­tân­cia de um pé do outro. Não é de se admi­rar, por­tanto, que um obser­va­dor da pre­ga­ção de Wes­ley em Lin­colnshire tivesse regis­trado: “Há tão pouco esforço no pre­ga­dor que, a não ser por algum oca­si­o­nal levan­ta­mento da sua mão direita, ele pare­cia ser uma está­tua falante”.[21] 

Os pre­ga­do­res deve­riam, ainda, ser não ape­nas “mode­los de lim­peza” mas tam­bém “mode­los de dili­gên­cia”: Wes­ley reco­menda que cor­tem o cabelo, tirem os pio­lhos, curem as sar­nas […] Outras reco­men­da­ções se seguem…[22] 

Seja como for, para Char­les, Wes­ley teria con­se­guido “jun­tar o que esti­vera por tanto tempo sepa­rado: conhe­ci­mento e pie­dade”. Reit­zen­ra­ter relata que o pro­fes­sor J. H Liden, depois de ter ouvido Wes­ley pre­gar excla­mou: “Ele tem a apa­rên­cia do pior dos sacer­do­tes sue­cos, mas ensina como um bispo […]. Ele é a per­so­ni­fi­ca­ção da pie­dade, e parece para mim como uma repre­sen­ta­ção viva do amo­roso Após­tolo João”.[23] 

Con­clu­são

Que con­tri­bui­ções a prá­tica homi­lé­tica de Wes­ley pode dar para a pre­ga­ção do evan­ge­lho no con­texto da Amé­rica Latina atual? Tal­vez pos­sa­mos arris­car apro­xi­ma­ções entre os desa­fios enfren­ta­dos há três sécu­los e os que enfren­ta­mos hoje diante das con­tra­di­ções pró­prias da tarefa homilética: 

A for­ma­ção (cul­tura geral) do pregador/a e o número cres­cente de voca­ções para o minis­té­rio pas­to­ral 

Na Amé­rica Latina obser­va­mos o cres­ci­mento do número de voca­ções para o minis­té­rio pas­to­ral. Já não pade­ce­mos da falta de obrei­ros, como em outras épocas. Que impli­ca­ções têm isso para o pro­cesso de admis­são à ordem? Justifica-se, ainda, a orde­na­ção de pre­ga­do­res com for­ma­ção leiga? Qual seria seu papel, diante de um qua­dro cada vez maior de pas­to­res aca­de­mi­ca­mente capacitados? 

A com­ple­xi­dade da comu­ni­ca­ção com des­ti­na­tá­rios tão diver­si­fi­ca­dos e o papel das mulhe­res que, sendo mai­o­ria, são dis­cri­mi­na­das e sub­me­ti­das como mino­ria  

Na Amé­rica Latina, a mem­bre­sia das igre­jas meto­dis­tas é com­posta majo­ri­ta­ri­a­mente por mulhe­res. O reco­nhe­ci­mento do seu minis­té­rio, cle­ri­cal ou laico, bem como sua acei­ta­ção, faz parte do ama­du­re­ci­mento de um pro­cesso que teve iní­cio há 300 anos, com os pri­mei­ros meto­dis­tas.[24] 

A agenda reli­gi­osa, social e polí­tica, imposta por uma cul­tura glo­ba­li­zada 

Quem seriam, hoje, na Amé­rica Latina, os que mais pre­ci­sam da aten­ção e da pre­ga­ção meto­dista? Aque­les e aque­las, víti­mas da vio­lên­cia e do trá­fico, da misé­ria e da fome, da dis­cri­mi­na­ção e do pre­con­ceito, do desem­prego e da angús­tia, da enfer­mi­dade e da dor…? 

As pos­si­bi­li­da­des e con­tra­di­ções das novas tec­no­lo­gias bem como o pro­cesso de mer­can­ti­li­za­ção da fé e do comér­cio de bens sim­bó­li­cos frente à essên­cia meto­dista do viver a graça. 

A expe­ri­ên­cia acús­tica do nosso tempo passa pelo avanço tec­no­ló­gico dos Meios de Comu­ni­ca­ção de Massa. Como pode­mos atu­a­li­zar a prá­tica de Wes­ley e levar a graça aos povos da Amé­rica Latina domi­na­dos pelos Meios a ser­viço do lucro e do mercado? 

A polui­ção temá­tica, o lixo teo­ló­gico, a super­fi­ci­a­li­dade e a falta de qua­li­dade das infor­ma­ções e das pré­di­cas pro­nun­ci­a­das dos púl­pi­tos ecle­si­ais e vir­tu­ais, trans­mi­ti­das por toda essa aldeia global. 

A neces­si­dade da sis­te­ma­ti­za­ção da pro­du­ção homi­lé­tica que demons­tre com­pro­misso com as futu­ras gera­ções 

Embora a pre­ga­ção tenha um papel pro­e­mi­nente no con­texto ecle­sial latino-americano, pouco se tem escrito e pro­du­zido a res­peito. Fal­tam aná­li­ses cri­te­ri­o­sas, fal­tam pes­qui­sa­do­res que se empe­nhem na com­pre­en­são, e inter­pre­ta­ção do fenô­meno homi­lé­tico contemporâneo. 

Estas ques­tões, entre outras, con­ti­nuam a nos desa­fiar. Pelo menos pode­mos pen­sar que temos pela frente outros tre­zen­tos anos para encon­trar as res­pos­tas (ou refor­mu­lar as perguntas). 

Refe­rên­cias bibliográficas

Chil­cot, Paul Wes­ley. John Wes­ley and the Women Pre­a­chers of early Metho­dism. Lon­dres: The Ame­ri­can The­o­lo­gi­cal Library Asso­ci­a­tion and the Saca­re­crow Press, Inc. 1991. 

Heit­zen­ra­ter, Richard P. John Wesley’s prin­ci­ples and prac­tice of pre­a­ching. Lec­tu­res on Seve­ral Occa­si­ons, n. 1, Dal­las: Cen­ter for Metho­dist Stu­dies at Bridwell Library, Per­kins School  of The­o­logy, 1997. p. 25 – 51. 

______. Wes­ley e o Povo Cha­mado Meto­dista. São Ber­nardo do Campo: Edi­teo; Rio de Janeiro: Ben­nett, 1996. 

Obras de Wes­ley, Tomo IX, Espi­ri­tu­a­li­dade e him­nos; Notas al Nuevo Tes­ta­mento: pri­mera parte. Fran­klin: Pro­vi­dence House Publishers, 1998. 

Pat­ti­son, T. Harwood. The His­tory of Crhis­tian Pre­a­ching. Phi­la­delphia: Ame­ri­can Bap­tist Publi­ca­tion Soci­ety, 1903. 

Wes­ley, john. Tre­chos do diá­rio de João Wes­ley. Col. Paul Eugene Buyers.  São Paulo: Junta Geral de Edu­ca­ção Cristã da Igreja Meto­dista do Bra­sil, 1965. 


[1] Estudo apre­sen­tado em setem­bro 2003 durante a Semana da Atu­a­li­za­ção Teo­ló­gica da Facul­dade de Teo­lo­gia da Uni­ver­si­dade Meto­dista de São Paulo, Umesp. 

[2] Dou­tor em Ciên­cias da Reli­gião, poro­fes­sor de Homi­lé­tica no Curso de Teo­lo­gia da Uni­ver­si­dade Metod­sita de São Paulo. 

[3] Cf. Luke Tyer­man, The Life and Times of the Rev. John Wes­ley, 2 vols. (Lon­don: Hod­der and Stough­ton, 1870 – 71), 2:71. Apud Heit­zen­ra­ter, Richard  P. John Wesley’s prin­ci­ples and prac­tice of pre­a­ching. Lec­tu­res on Seve­ral Occa­si­ons, n. 1, Dal­las: Cen­ter for Metho­dist Stu­dies at Bridwell Library, Per­kins School  of The­o­logy, 1997. p. 25 – 51. 

[4] Heit­zen­ra­ter. Richard P. Wes­ley e o Povo Cha­mado Meto­dista. São Ber­nardo do Campo: Edi­teo; Rio de Janeiro: Ben­nett, 1996. p. 182ss. 

[5] Ibi­dem, p. 113ss. 

[6] Ibi­dem, p. 235. 

[7] Cf. Heit­zen­ra­ter, Richard  P. John Wesley’s prin­ci­ples and prac­tice of pre­a­ching. Lec­tu­res on Seve­ral Occa­si­ons, n. 1, Dal­las: Cen­ter for Metho­dist Stu­dies at Bridwell Library, Per­kins School  of The­o­logy, 1997. p. 29. 

[8] Ibidem. 

[9] Heit­zen­ra­ter, Richard P. Wes­ley e o povo cha­mado meto­dista. p. 99. 

[10] Idem, p. 99. 

[11] Ibi­dem, p. 100. 

[12] Cf. Heit­zen­ra­ter, Richar, P. Prin­ci­ples…, p. 37 

[13] Cf. Apre­sen­ta­ção de Tre­chos do diá­rio de João Wes­ley. São Paulo: Junta Geral de Edu­ca­ção Cristã da Igreja Meto­dista do Bra­sil, 1965. p. 9 – 10. 

[14] Ibi­dem, p. 41 – 42, 

[15] Cf. Obras de Wes­ley, Tomo IX, Espi­ri­tu­a­li­dade e him­nos; Notas al Nuevo Tes­ta­mento: pri­mera parte. Fran­klin: Pro­vi­dence House Publishers, 1998., p. 191 – 193 (trad. nossa). 

[16] Cf. Heit­zen­ra­ter, Richard P. Prin­ci­ples…, p. 47. 

[17] Idem, p. 48. 

[18] Sobre a pre­ga­ção de Whi­te­fi­eld (1714 – 1770), ver PATTISON, T. Harwooe. The His­tory of Crhis­tian Pre­a­ching. Phi­la­delphia: Ame­ri­can Bap­tist Publi­ca­tion Soci­ety, 1903. p. 264 – 270. 

[19] Tel­ford, Let­ters, apud Heit­zen­ra­ter, Richard P. John Wesley’s prin­ci­ples…, p. 38 (trad. nossa). 

[20] Heit­zen­ra­ter, Richard P. John Wesley’s prin­ci­ples, p. 40. 

[21]  Ibidem. 

[22] Cf. Heit­zen­ra­ter, Richard P. Wes­ley e o povo cha­mado meto­dista. p. 237. 

[23] Heit­zen­ra­ter, Richard P. John Wesley’s prin­ci­ples…, p. 41 (trad. nossa). 

[24] A esse res­peito, suge­ri­mos a lei­tura de Chil­cot, Paul Wes­ley. John Wes­ley and the Women Pre­a­chers of early Metho­dism. Lon­dres: The Ame­ri­can The­o­lo­gi­cal Library Asso­ci­a­tion and the Saca­re­crow Press, Inc. 1991.


Jan 21 2010

Outra história de Natal

Ele­nise Ramos
(Natal 2009)

As his­tó­rias de Natal acon­te­ce­ram há muito tempo em diver­sos luga­res do mundo, pois eu digo a vocês: aqui em Cas­tro tam­bém tem uma his­tó­ria, só que essa é bem recente

 55 anos atrás havia um Papai Noel e uma Mamãe Noel… bem eles ainda não eram Papai e Mamãe Noel.

Vou expli­car: Eles se namo­ra­ram pri­meiro, noi­va­ram e final­mente se casa­ram num belo dia de chuva, com direito a bolo e tudo o mais.

Mas sem filhi­nhos como pode­riam se mamãe e papai Noel? Que eu saiba pra ser papai e mamãe tem que haver filhi­nhos, então, eles come­ça­ram a tra­ba­lhar nessa árdua tarefa.

 Che­gou a pri­meira, era uma anji­nha linda e muito amada, mas só veio dar um beijo na face de cada um disse-lhe que tudo daria certo e foi, morar com outro papai, o Papai do Céu.

 Então veio a segunda filhi­nha, toda ale­gre e sor­ri­dente, eles gos­ta­ram muito de seu sor­riso e cada vez que ela sor­ria, a casa ficava cheia de luz. E assim come­çou a Natal da Famí­lia Noel na Rua Maes­tro Bene­dito Pereira, 960.

Mas a bebe­zi­nha não tinha com quem brincar.

 Então eles tive­ram outra filhi­nha, toda cheia de vida, olhos gran­des e ávidos pela vida, curi­osa e sob os cui­da­dos da irmã mais velha pre­en­che­ram a casa, o jar­dim da vovó Noel e com mais ale­gria pre­en­chiam a casa de mais sor­ri­sos, por isso a casa a cada dia ficava ainda mais ilu­mi­nada, e quem pas­sava por perto dizia: nossa que casa iluminada!

 Papai e Mamãe Noel pen­sa­ram que pode­riam ter filhi­nhos meni­ni­nhos… e tive­ram, o pri­meiro muito inte­res­sado nas letras e figu­ras desde cedo, come­çou sua sabe­do­ria com os mes­tres Pati­nhas, Zé Cari­oca, Pato Donald, um tal de Fan­tasma, ah, e tinha o recruta Zero. Pes­soas que lhe pas­sa­vam vali­o­sos con­cei­tos de viver com sor­riso sem­pre largo e farto.

E com isso ale­gria ia aumentando.

 Che­gou então o segundo pia­zi­nho. Atleta exí­mio, dedi­cado, fez a ale­gria da casa com suas meda­lhas e vitó­rias em diver­sos cam­pe­o­na­tos. Todos batiam pal­mas e quando a gente bate pal­mas, sem­pre sorri, e assim casa espa­lhava cada vez mais luzes.

 Quando acha­ram que não cabia mais ale­gria na casa, che­gou a última filhi­nha, essa um pouco mais cho­rona mas sob o cui­dado de todos apren­deu a se sen­tir segura e amada e …lógico, apren­deu a arte do riso ensi­nada por todos.

 Papai e Mamãe Noel esta­vam ple­na­mente feli­zes até que um dia cada um foi tomando seu rumo ( os filhos pre­ci­sam tomar seus rumos pra se tor­na­rem outros Papais e Mamães Noel) e de tem­pos em tem­pos cada sor­riso foi-se indo, outros fica­vam, alguns vol­ta­vam, uns vinham só a pas­seio, e cada vez que a casa recebia-os de novo, era Natal.

 Che­ga­ram pes­soas novas, todas cri­an­ças que foram se tor­nando jovens e adul­tos e mesmo de longe, a cada sor­riso era Natal. Papai e Mamãe Noel final­mente se tor­na­ram Mamãe e Papai, Vovô e Vovó  e hoje são até Bisavô e Bisavó Noel.

O nome deles de ver­dade é Beto e Beta. Estão dis­far­ça­dos, para serem só nos­sos, pra nossa ale­gria nunca acabar. 

 No Natal em que Jesus nas­cia A cada sor­riso seu uma luz se acendia.

Por­tanto nessa famí­lia é natal todos os dias.