Aug 30 2010

Diva, a latinha que entrou pra história

Texto: Luiz Car­los Ramos
Ilus­tra­ções: Sil­vio Gon­çal­ves Mota
Arte final: Mar­cos Brescovici


Aug 10 2010

Brevíssimas considerações sobre Pastoral da Cidadania

 Luiz Car­los Ramos

 

Intro­du­ção[1]

O

 cres­ci­mento do cris­ti­a­nismo em todo o mundo, e par­ti­cu­lar­mente dos evan­gé­li­cos no Bra­sil, coloca em che­que a tra­di­ci­o­nal teo­ria de que a con­ver­são do “homem” resul­ta­ria, auto­ma­ti­ca­mente, na con­ver­são do “mundo”.

Nunca houve tan­tas igre­jas, tanta lite­ra­tura evan­gé­lica, tan­tos pro­gra­mas reli­gi­o­sos de rádio e TV, tan­tas cam­pa­nhas evan­ge­lís­ti­cas, cor­ren­tes de ora­ção, mar­chas, con­cen­tra­ções em está­dios e em pra­ças públi­cas etc. etc. etc.

A per­gunta que se faz é: quais os resul­ta­dos, ou melhor, os bene­fí­cios soci­ais, que o cres­ci­mento dos cris­tãos em geral, e dos evan­gé­li­cos em par­ti­cu­lar, trouxe para a huma­ni­dade? O mundo é melhor por­que há mais cristãos/evangélicos nele?

O Pro­blema

A aná­lise do com­pro­misso reli­gi­oso de grande parte das pes­soas que se dizem cris­tãs parece evi­den­ciar que essas pes­soas res­trin­gem sua vivên­cia cristã tão somente à dimen­são pri­vada da fé. Exer­ci­tam uma fé mágica e de con­sumo par­ti­cu­lar. O sig­ni­fi­cado e as impli­ca­ções de sua prá­tica reli­gi­osa per­ma­ne­cem insen­sí­veis e into­ca­das pela dimen­são pública, comu­ni­tá­ria e social da fé.

Afi­nal, a fé tem mesmo des­do­bra­men­tos exter­nos ao indi­ví­duo? A fé tem mesmo uma dimen­são pública? O Evan­ge­lho tem algo a ver com a sociedade?

Bem, na opi­nião de alguns de nós, a res­posta é “Sim!” e, por­tanto, é pre­ciso, urgen­te­mente, res­sig­ni­fi­car a fé à luz de uma dimen­são pública!

Mas, o que é isso, afinal?

Dimen­são pública da fé? Que dia­bos é isso, afi­nal? Bom, na ver­dade não é novi­dade nenhuma. Desde que existe fé, existe a cons­ci­ên­cia da impli­ca­ção social dessa mesma fé. Sem nos deter­mos na longa tra­je­tó­ria das his­tó­rias da igreja ao longo dos sécu­los, abor­de­mos dire­ta­mente o pro­blema em nos­sos dias.

Para que a fé exerça livre­mente sua dimen­são pública, isto é, para que a ela possa ser efe­ti­va­mente uma “fé cidadã”, é impres­cin­dí­vel que se esta­be­leça uma soci­e­dade demo­crá­tica. Creio que é per­ti­nente, a esta altura, per­gun­tar­mos: O que é Demo­cra­cia? O que é Cida­da­nia? O que é Pastoral?

O que é Democracia?

Longe de nós ten­tar expli­car aqui tal con­ceito que há milê­nios vem gerando tanta dis­cus­são e deba­tes. Sabe­mos, porém, que a pala­vra demo­cra­cia foi usada pela pri­meira vez (pelo menos é o que mui­tos acham), na peça “As supli­can­tes” de Ésquilo em 468 a.C., na Gré­cia antiga. Em seu sen­tido eti­mo­ló­gico, demo­cra­cia sig­ni­fica lite­ral­mente “poder do povo”. Daí em diante sur­gi­ram mui­tas demo­cra­cias: as radi­cais (dire­tas), as libe­rais (repre­sen­ta­tiva e plu­ra­lis­tas) e as soci­ais, entre outras, que se esta­be­le­ce­ram em dife­ren­tes e espe­cí­fi­cos con­tex­tos his­tó­ri­cos, polí­ti­cos, cul­tu­rais, soci­ais e econô­mi­cos. De qual­quer forma, demo­cra­cia é sem­pre enten­dida como con­tra­posta a todas as for­mas de governo auto­crá­tico; é enten­dida tam­bém como a pos­si­bi­li­dade de toma­das de deci­sões cole­ti­vas. Seja como for, na prá­tica ainda não existe a demo­cra­cia ideal. O que temos, na melhor das hipó­te­ses, é um pro­cesso de demo­cra­cia em cons­tru­ção. A per­gunta é: que papel desem­pe­nham os cris­tãos na cons­tru­ção demo­crá­tica e na con­quista da cidadania?

O que é Cidadania?

Cida­da­nia é a qua­li­dade de cida­dão. E cida­dão, segundo Micha­e­lis, é o “indi­ví­duo no gozo dos direi­tos civis e polí­ti­cos de um Estado”. Uma pes­soa adquire cida­da­nia, não por herança, mas por con­quista. Não se nasce cida­dão, torna-se. Isto se dá quando nos tor­na­mos cons­ci­en­tes de que “o Estado sou eu”, e nos dis­po­mos a

“cons­truir uma soci­e­dade livre, justa e soli­dá­ria; garan­tir o desen­vol­vi­mento naci­o­nal; erra­di­car a pobreza e a mar­gi­na­li­za­ção e redu­zir as desi­gual­da­des soci­ais e regi­o­nais; pro­mo­ver o bem de todos, sem pre­con­cei­tos de ori­gem, raça, sexo, cor, idade e quais­quer outras for­mas de dis­cri­mi­na­ção” (Cons­ti­tui­ção, Art. 3o Dos Prin­cí­pios Fundamentais).

O que é Pastoral?

Vou direto ao ponto: pas­to­ral não é somente aquilo que é refe­rente ao pas­tor pro­fis­si­o­nal, tam­pouco é aquela página nos bole­tins das igre­jas locais na qual o pas­tor escreve, tam­bém não é aquele tipo de agre­mi­a­ção que encon­tra­mos em esco­las e hos­pi­tais. Pas­to­ral é a ação da igreja, o minis­té­rio dos cris­tãos, o ser­viço que a Igreja presta ao mundo. A pas­to­ral é a prá­tica da dou­trina. Afi­nal, ao lado da orto­do­xia tem que haver uma orto­pra­xis.

A prá­tica da igreja se expressa em três fren­tes dis­tin­tas, mas inter­co­nec­ta­tas, como nos lem­brou certa vez o revmo. Bispo Nel­son Cam­pos Leite: (a) a pri­meira pode­mos cha­mar de mis­são ad intra, e diz res­peito à dimen­são pes­soal, íntima e par­ti­cu­lar da fé; (b) a segunda cha­ma­re­mos de ad enter, por­que se refere à prá­tica entre os da famí­lia da fé – entre irmãos, comu­ni­da­des e deno­mi­na­ções reli­gi­o­sas (é a dimen­são ecu­mê­nica); © e a ter­ceira vamos cha­mar de ad extra, por­que diz res­peito ao com­pro­misso dos cris­tãos (como indi­ví­duos e como comu­ni­dade) para com o pró­ximo, seja ele cris­tão ou não – aqui está, mais expli­ci­ta­mente loca­li­zada a pas­to­ral da cida­da­nia.

E essa mis­são da Igreja não se dá suces­si­va­mente, mas simul­ta­ne­a­mente. Isto quer dizer que os cris­tãos pen­sam e agem glo­bal e local­mente, a uma só vez. É uma coisa e outra.[2]

A inser­ção no espaço público

A inser­ção dos cris­tãos no espaço público tem de ser mais do que a con­quista da visi­bi­li­dade (estar na mídia, cres­cer nume­ri­ca­mente). Tem que se evi­den­ciar numa pre­sença qua­li­ta­tiva. Para não ser con­si­de­rada per­fei­ta­mente dis­pen­sá­vel, a par­ti­ci­pa­ção cristã tem que ser rele­vante no pro­cesso de busca de res­pos­tas para as gran­des ques­tões contemporâneas.

As revo­lu­ções da humanidade

Muita água rolou debaixo da ponte desde que o “homem” rece­beu o ape­lido de “sapi­ens”! (a) A pri­meira grande revo­lu­ção, dizem[3], foi a que con­se­guiu ampliar o sis­tema mus­cu­lar humano, o que foi pos­sí­vel com a inven­ção da roda e da ala­vanca. (b) A segunda, foi a que con­se­guiu ampliar o sis­tema diges­tivo, pela inven­ção da máquina a vapor e da indus­tri­a­li­za­ção. (b) E a ter­ceira, é a que está con­se­guindo ampliar o nosso sis­tema neu­ro­ló­gico – é isso que tenta fazer a tec­no­lo­gia da infor­ma­ção (informatização).

Um impor­tante teó­rico da comu­ni­ca­ção[4], certa vez, men­ci­o­nou que as três mai­o­res trans­for­ma­ções sofri­das pela huma­ni­dade foram as que se deram por oca­sião (1) da inven­ção da imprensa – pois sur­giu uma nova lin­gua­gem (forma de comu­ni­ca­ção); (2) da des­co­berta da Amé­rica – pois descobriu-se um novo mundo inex­plo­rado; (3) e da Reforma Pro­tes­tante – por­que uma nova maneira de con­cei­tuar e enca­rar o sen­tido da vida foi des­co­berto. Os para­le­los con­tem­po­râ­neos des­sas três seriam: (1) a inven­ção do com­pu­ta­dor – que inau­gu­rou uma nova forma de comu­ni­ca­ção, um nova lin­gua­gem; (2) a cri­a­ção da inter­net que nos des­cor­ti­nou um novo mundo vir­tual intei­ra­mente novo e inex­plo­rado; falta, entre­tanto a ter­ceira grande trans­for­ma­ção que não diz res­peito à téc­nica, ou à tec­no­lo­gia, nem à forma, mas diz res­peito ao con­teúdo e ao sen­tido da vida. Quem serão os refor­ma­do­res con­tem­po­râ­neos que terão cora­gem de fixar suas “95 teses”, não nas por­tas, mas nas jane­las (win­dows) da inter­net e pro­por uma nova cos­mo­vi­são segundo os prin­cí­pios do Evan­ge­lho? Por enquanto os mais bem suce­di­dos têm sido os hac­kers.

A atmos­fera contemporânea

Antes de alguém ofe­re­cer res­pos­tas, pre­cisa ouvir as per­gun­tas. “O que será que será que andam per­gun­tando nos becos” e nas pra­ças, atu­al­mente? O mundo está mar­cado for­te­mente, entre outras coi­sas, pelo:

  • Pes­si­mismo: a decep­ção com os mode­los polí­ti­cos deca­den­tes, com as pro­pos­tas reli­gi­o­sas tra­di­ci­o­nais e com as tra­di­ções morais;
  • Hedo­nismo: que ali­menta a indus­tria do entre­te­ni­mento e leva às últi­mas con­seqüên­cias o indi­vi­du­a­lismo descomprometido;
  • Mis­ti­cismo: carac­te­ri­zado pela pri­va­ti­za­ção da fé, que age como ali­ado mágico para refor­çar ambi­ções mes­qui­nhas e jus­ti­fi­car con­quis­tas iníquas;
  • Con­su­mismo: resul­tante de uma obses­são pela pros­pe­ri­dade – o verbo ter ascen­deu à cate­go­ria do ser.

O que é pre­ciso para se imple­men­tar uma Pas­to­ral da Cidadania

A imple­men­ta­ção de uma Pas­to­ral da Cida­da­nia, e mesmo uma Pas­to­ral Urbana, pres­su­põe:

  • Uma fé par­ti­ci­pa­tiva – não um mero ati­vismo ingê­nuo, mas um enga­ja­mento cons­ci­ente e cons­ci­en­ti­za­dor, que “ative nas pes­soas a cons­ci­ên­cia ética”, e que opere publi­ca­mente mui­tos “sinais e pro­dí­gios” (cf. At. 2.43 e Han­nah Arendt, mila­gre = acon­te­ci­mento abso­lu­ta­mente ines­pe­rado, capa­ci­dade de ini­ciar algo novo);
  • Uma teo­lo­gia da encar­na­ção – geo­grá­fica, cul­tu­ral, reli­gi­osa, polí­tica etc. 
  • Uma teo­lo­gia da extra­po­la­ção – idem, i.e., que con­siga rom­per com as bar­rei­ras e pre­con­cei­tos geo­grá­fi­cos, cul­tu­rais, reli­gi­o­sos, polí­ti­cos, raci­ais etc. 
  • Uma  des­pri­va­ti­za­ção da fé – dis­po­si­ção para supe­rar a reli­gião “self ser­vice” e imple­men­tar a “comu­ni­dade mis­si­o­ná­ria a ser­viço do povo” (slo­gan da Igreja Meto­dista); 
  • Uma pai­xão pela cidade (polis) – o reco­nhe­ci­mento de que as gran­des áreas urba­nas cons­ti­tuem um espaço pri­vi­le­gi­ado para a mis­são da Igreja e a con­quista da cida­da­nia; 
  • Uma cons­ci­ên­cia meta-pastoral – a com­pre­en­são de que, além de ser uma ins­tân­cia espe­cí­fica, a teo­lo­gia da Pas­to­ral da Cida­da­nia constitui-se num refe­ren­cial para todas as demais ações pas­to­rais da Igreja.
  • Uma dis­po­si­ção para ouvir, sen­tir e par­ti­lhar a vida do povo – o “cris­tão” é o “cida­dão”, as neces­si­da­des e con­quis­tas, a angús­tias e as ale­grias, as der­ro­tas e as vitó­rias do povo são tam­bém as suas. Não é pre­ciso fazer a opção entre ser um cida­dão ou ser um cris­tão, pois ambos são a mesma pessoa.

Con­si­de­ra­ções finais

Cató­li­cos e pro­tes­tan­tes têm manei­ras dis­tin­tas de fazer mis­são. Nisso há van­ta­gens e des­van­ta­gens. No caso dos cató­li­cos, estes orga­ni­zam sua prá­tica numa maneira tri­cên­trica tra­di­ci­o­nal: ao redor da igreja, da praça e da mora­dia[5]; isto é, os pró­prios bair­ros e a vizi­nhança já lhes for­ne­cem as con­di­ções ide­ais para sua inser­ção e ação.

Os pro­tes­tan­tes, por sua vez, estão dis­tri­buí­dos de maneira mais dis­persa. A comu­ni­dade à qual uma pes­soa evan­gé­lica per­tence não está, neces­sa­ri­a­mente, geo­gra­fi­ca­mente pró­xima à sua casa (pode estar do outro lado da cidade). Isto, de certa forma, difi­culta um enga­ja­mento cen­tra­li­zado geo­gra­fi­ca­mente (por exem­plo: numa asso­ci­a­ção de bairro).

Entre­tanto, o mundo moderno (ou, se pre­fe­ri­rem, pós-moderno) já não está mais se estru­tu­rando de maneira tra­di­ci­o­nal. As soci­e­da­des urba­nas, cada vez mais, estão se orga­ni­zando poli­cen­tri­ca­mente. A loca­li­za­ção da mora­dia não é, neces­sa­ri­a­mente, a refe­rên­cia para o cen­tro de inte­resse das pes­soas. Na ver­dade, há mui­tos cen­tros defi­ni­dos por inte­res­ses os mais vari­a­dos: econô­mi­cos, polí­ti­cos, cul­tu­rais, de lazer etc.

Nesse sen­tido, tal­vez sejam, jus­ta­mente, os pro­tes­tan­tes os mais bem pre­pa­ra­dos para atuar pas­to­ral­mente junto a essa popu­la­ção urbana que vaga como “ove­lhas que não têm pastor”.

É um desa­fio tre­mendo. Que Deus nos ajude a enfrentá-lo!


[1] Para escre­ver este texto, servi-me abu­si­va­mente da refle­xão do Prof. Dr. Clo­vis Pinto de CASTRO, da Uni­ver­si­dade Meto­dista de São Paulo, con­forme expressa em seu livro Por uma fé cidadã: a dimen­são pública da igreja – fun­da­men­tos para um pas­to­ral da cida­da­nia (Umesp/Loyola, 2000). Considero-me, com a devida licença do/a leitor/a, escu­sado por não repe­tir as res­pec­ti­vas refe­rên­cias e cré­di­tos, ao longo do texto.

[2] Cf. Jung Mo SUNG em pales­tra pro­fe­rida por oca­sião do 5o Con­gresso de Pro­du­ção Cien­tí­fica da UMESP, em 8 de novem­bro de 2000.

[3] Cf. Antô­nio Joa­quim SEVERINO, em pales­tra pro­fe­rida na UMESP em junho de 2000.

[4] Citado por Fer­nando ALTEMEYER JÚNIOR, em pales­tra pro­fe­rida durante a XX Semana de Atu­a­li­za­ção Teo­ló­gica, pro­mo­vida pelo CEBEP, em Vinhedo, SP, de 20 a 23 de julho de 2000.

[5] Cf. João Batista LIBÂNIO, no artigo “A Igreja na cidade”, na revista Pers­pec­tiva Teo­ló­gica no 18 (1996), edi­tada pela Facul­dade de Teo­lo­gia do Cen­tro de Estu­dos Supe­ri­o­res da Com­pa­nhia de Jesus – CES.


Jul 24 2010

Espiritualidade e convívio universitário

 Luiz Car­los Ramos

 © Paul Cox/arabianEye/Corbis (royalty-free)

Univer­si­dade lem­bra Uni­verso, uni­ver­sal, que por sua vez remete à oikou­mene, “todo o mundo habi­tado”. O susto que a gente leva quanto ingressa na Uni­ver­si­dade tem a ver em parte com a trans­cen­dên­cia de um ambi­ente mais domés­tico e íntimo vivido nas comu­ni­da­des de fé, para vis­lum­brar um hori­zonte uni­ver­sal e ecu­mê­nico expe­ri­men­tado no mundo acadêmico.

Esse susto pode tornar-se crise. E den­tre as mui­tas cri­ses vivi­das pelo alu­nado, pode­mos des­ta­car aque­las rela­ti­vas ao con­flito entre e razão, tão esti­mu­lado e exa­ge­rado no mundo acadêmico.

Novas cos­mo­vi­sões — fé x razão

Quanto mais pre­ten­si­o­sas forem as nos­sas ver­da­des, mais sec­tá­rios nos tor­na­mos. De um lado, se entrin­cheira a reli­gião e, de outro, a ciên­cia, ambas com suas nume­ro­sas sei­tas. E é pró­prio das sei­tas pele­ja­rem, guer­re­a­rem entre si. Cada qual com a pre­ten­são de sub­me­ter a outra e deter o mono­pó­lio da verdade.

Só que, na prá­tica, as coi­sas fun­ci­o­nam mais ou menos como na lógica semita (con­forme aprendi do meu colega Prof. Paulo Gar­cia): eu con­tra meu irmão; meu irmão e eu con­tra o nosso primo; nosso primo, meu irmão e eu con­tra o estran­geiro.

No dia a dia, a gente age da mesma forma para enfren­tar os con­fli­tos no âmbito da fé e da razão: bri­ga­mos na igreja local con­tra gru­pos de quem dis­cor­da­mos; mas nos uni­mos como tra­di­ção reli­gi­osa (por exem­plo, como pro­tes­tan­tes) para con­fron­tar outras tra­di­ções (como os cató­li­cos); e ainda nos uni­mos como cris­tãos (cató­li­cos e pro­tes­tan­tes), para lutar con­tra outras expres­sões de fé (isla­mismo, budismo, espi­ri­tismo…); e por fim, nos uni­mos como pes­soas reli­gi­o­sas para con­fron­tar as não reli­gi­o­sas (cien­tis­tas, ateus…).

Isso prova que, quando que­re­mos (ou pre­ci­sa­mos), não há bar­rei­ras que não pos­sam ser que­bra­das, acor­dos que não pos­sam ser fei­tos, sepa­ra­ções que não pos­sam ser uni­das. Quanto menos uni­ver­sal nossa visão, menos pos­si­bi­li­da­des de uni­dade na prática.

Isso nos pro­voca a pen­sar que até a divi­são entre reli­gião e ciên­cia pode ser repen­sada. Tal­vez pos­sa­mos ser ali­a­dos na luta con­tra outros deu­ses (ou demô­nios). Nós, reli­gi­o­sos, ten­de­mos a olhar des­con­fi­a­dos para a ciên­cia por­que ela se parece muito com Deus. Mas a ciên­cia não é o único novo deus que encon­tra­mos na Uni­ver­si­dade. Novas visões geram sem­pre novos con­fli­tos, e novos con­fli­tos pro­vo­cam novas con­ver­sões. Há uma infi­ni­dade de novos deu­ses (e novos demô­nios), todos ávidos e empe­nha­dos em nossa con­ver­são. Den­tre eles pode­mos identificar:

  • O deus Mer­cado, que quer nos con­ver­ter a todos em con­su­mi­do­res (Ah, se tivés­se­mos a com­pre­en­são de Gandhi. Conta-se que, quando foi levado para visi­tar um shop­ping cen­ter, em Lon­dres, obser­vando as vitri­nes, excla­mou: “Puxa vida, quan­tas coi­sas das quais eu não preciso!”)
  • O deus Entre­te­ni­mento, que quer que abra­mos mão da rea­li­dade, e nos con­ver­ta­mos em meros espec­ta­do­res da pró­pria vida.
  • O deus Pra­zer, que nos pro­mete a juven­tude eterna, mas com prazo de vali­dade curto e sem garantia.
  • O deus Vio­lên­cia, que vive nos ame­a­çando com um Juízo Final pre­ma­turo. Etc.

Enfim, esses, entre tan­tos outros, são todos deu­ses muito into­le­ran­tes e anti-ecumênicos. E é quase impos­sí­vel não tro­pe­çar­mos em seus sun­tu­o­sos tem­plos, inclu­sive nos campi uni­ver­si­tá­rios, pois são deu­ses que tam­bém aspi­ram à oni­po­tên­cia, à oni­pre­sença e à onisciência.

Igreja & Uni­ver­si­dade: seme­lhan­ças e diferenças

Por outro lado, tal­vez não devês­se­mos nos assus­tar tanto com a Uni­ver­si­dade, afi­nal, na essên­cia, ela não é assim tão dife­rente da Igreja Local. Se não, vejamos:

  • Na Igreja, a gente se filia.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente se matricula.
  • Na Igreja, a gente assiste aos cul­tos.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente freqüenta as aulas.
  • Na Igreja, a gente se senta pra ouvir o pro­fes­sor da fé.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente se senta pra ouvir o pre­ga­dor da ciência.
  • Na Igreja, a gente tem que con­tri­buir com o dízimo.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente tem que pagar a mensalidade.
  • Na Igreja, a gente tem que apren­der as dou­tri­nas da fé.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente tem que pro­fes­sar os dog­mas da ciência.
  • Na Igreja, a gente tem que obser­var os pre­cei­tos divi­nos.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente tem que cum­prir os man­da­men­tos do método car­te­si­ano, ou do his­tó­rico crítico.
  • Na Igreja, a gente é exco­mun­gado se não cum­pre as nor­mas ecle­siás­ti­cas.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente é expulso se não cum­pre o regu­la­mento acadêmico.
  • Na Igreja, a gente par­ti­cipa dos ritos e litur­gias ecle­si­ais (batis­mos, euca­ris­tias, fune­rais.…). Na Uni­ver­si­dade, a gente par­ti­cipa dos ritos e sole­ni­da­des aca­dê­mi­cas (aulas inau­gu­rais, for­ma­tu­ras, ban­cas, con­ces­são de títulos…).

Ora, con­quanto a Igreja à qual assis­ti­mos seja local, e a Uni­ver­si­dade na qual estu­da­mos se pre­tenda uni­ver­sal, cada igreja local tem o dever de ter um espí­rito uni­ver­sal — pois o Evan­ge­lho é para todos: “até os con­fins da terra” (At 1.8) —; e a Uni­ver­si­dade tem a obri­ga­ção de cum­prir sua voca­ção social — que é a de pres­tar ser­vi­ços à comu­ni­dade local.

Como se vê, as coi­sas não são muito dife­ren­tes lá e cá.

 Mesmo assim, há algu­mas dife­ren­ças entre Uni­ver­si­dade e igreja local para as quais eu gos­ta­ria de cha­mar a atenção:

  • Con­quanto a Uni­ver­si­dade se ocupe de for­mar pro­fis­si­o­nais de sucesso, é a igreja que ofe­rece o suporte quando expe­ri­men­ta­mos o fracasso.
  • Enquanto a Uni­ver­si­dade forma pes­soas para serem ven­ce­do­ras, a igreja pode aju­dar a nos reno­var a espe­rança quando sofre­mos as ine­vi­tá­veis der­ro­tas da vida.
  • A Uni­ver­si­dade nos pre­para para acer­tar, a igreja nos ajuda a cor­ri­gir o rumo quando erramos.
  • A Uni­ver­si­dade nos ofe­rece uma série de cren­ças sobre as cren­ças, na igreja a gente cele­bra a pró­pria essên­cia da fé.
  • A Uni­ver­si­dade nos ensina a fazer o certo, a igreja nos ensina a fazer o bem.
  • Enquanto a Uni­ver­si­dade pre­para as pes­soas para ganhar (bens, fama, pres­tí­gio, sta­tus…), a igreja nos con­sola quando per­de­mos, inclu­sive quando per­de­mos as pes­soas que amamos.

É ver­dade que nem todas as igre­jas e nem todas as uni­ver­si­da­des são assim. Mas essas idéias ser­vem para demons­trar que, con­quanto seme­lhan­tes, essas duas ins­ti­tui­ções têm voca­ções deferentes.

Essas dife­ren­ças, entre­tanto, não impli­cam na exclu­são sec­tá­ria de uma ou de outra. Mos­tram, antes, jus­ta­mente o con­junto que for­mam, a neces­si­dade que uma têm da outra. Por­que na vida, as dife­ren­ças somam e todos nos com­ple­men­ta­mos, inclu­sive a Igreja à Uni­ver­si­dade e a Uni­ver­si­dade à Igreja.

Con­cluindo…

Se a escola é uma comu­ni­dade de cren­ças na vida (na ciên­cia, no pro­gresso, no conhe­ci­mento, na razão…), a vida mesma é uma escola que ensina a pró­pria vida. A vida nos ensina que pre­ci­sa­mos uns dos outros, que pre­ci­sa­mos umas das outras.

Mas o que é que impede essa comunhão?

No fundo, somos como a cebola do Shrek, uma suces­são de cama­das com mui­tas cas­cas e pouca cons­ci­ên­cia da nossa essên­cia. Se fôs­se­mos tão esper­tos quanto quer a Uni­ver­si­dade, e tão sábios quanto a Igreja gos­ta­ria que fôs­se­mos, sabe­ría­mos que se pode­mos nos unir em cer­tos casos, pode­mos nos unir sem­pre.

Qual é o ele­mento que engen­dra e que com­porta todas as nos­sas con­tra­di­ções? A res­posta é uma só: a Vida! A vida é a única ins­tân­cia, ou melhor a ins­tân­cia comum a todos nós. E é em torno da vida que nos uni­mos para defen­der a pró­pria vida.

A vida é o ponto de encon­tro dos ami­gos. Um famoso teó­logo e filó­sofo do século xvii, quando per­gun­tado sobre sua espe­ci­a­li­dade, respondeu: — Eu, eu sou expert em ami­zade! O resto é brin­ca­deira de cri­ança, e até isso é mais gos­toso em com­pa­nhia de gente amiga. A Uni­ver­si­dade cum­pre seu papel quando forma ami­gos e a Igreja, quando cele­bra o sacra­mento da amizade.

Gos­ta­ria de con­cluir com uma afir­ma­ção de fé que escrevi há alguns anos, na qual declaro a minha na vida como uma escola:

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a conhe­cer as razões e a res­pei­tar os mistérios;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a coo­pe­rar para cons­truir e a con­fron­tar para resistir;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a pen­sar com o cora­ção e a amar com inteligência;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a huma­ni­dade divina e a divina humanidade:

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina que a feli­ci­dade é um verbo que se con­juga no plu­ral
e que a misé­ria é o antô­nimo de Deus;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a ser e a conhe­cer,
a fazer e a con­vi­ver,
a saber, enfim, trans­mi­tir a pró­pria vida,
na força da espe­rança, com a ter­nura da paz,
e no com­pro­misso da jus­tiça para todos.

Amém!