Diva, a latinha que entrou pra história
Texto: Luiz Carlos Ramos
Ilustrações: Silvio Gonçalves Mota
Arte final: Marcos Brescovici
Texto: Luiz Carlos Ramos
Ilustrações: Silvio Gonçalves Mota
Arte final: Marcos Brescovici
Luiz Carlos Ramos
| O |
crescimento do cristianismo em todo o mundo, e particularmente dos evangélicos no Brasil, coloca em cheque a tradicional teoria de que a conversão do “homem” resultaria, automaticamente, na conversão do “mundo”.
Nunca houve tantas igrejas, tanta literatura evangélica, tantos programas religiosos de rádio e TV, tantas campanhas evangelísticas, correntes de oração, marchas, concentrações em estádios e em praças públicas etc. etc. etc.
A pergunta que se faz é: quais os resultados, ou melhor, os benefícios sociais, que o crescimento dos cristãos em geral, e dos evangélicos em particular, trouxe para a humanidade? O mundo é melhor porque há mais cristãos/evangélicos nele?
A análise do compromisso religioso de grande parte das pessoas que se dizem cristãs parece evidenciar que essas pessoas restringem sua vivência cristã tão somente à dimensão privada da fé. Exercitam uma fé mágica e de consumo particular. O significado e as implicações de sua prática religiosa permanecem insensíveis e intocadas pela dimensão pública, comunitária e social da fé.
Afinal, a fé tem mesmo desdobramentos externos ao indivíduo? A fé tem mesmo uma dimensão pública? O Evangelho tem algo a ver com a sociedade?
Bem, na opinião de alguns de nós, a resposta é “Sim!” e, portanto, é preciso, urgentemente, ressignificar a fé à luz de uma dimensão pública!
Dimensão pública da fé? Que diabos é isso, afinal? Bom, na verdade não é novidade nenhuma. Desde que existe fé, existe a consciência da implicação social dessa mesma fé. Sem nos determos na longa trajetória das histórias da igreja ao longo dos séculos, abordemos diretamente o problema em nossos dias.
Para que a fé exerça livremente sua dimensão pública, isto é, para que a ela possa ser efetivamente uma “fé cidadã”, é imprescindível que se estabeleça uma sociedade democrática. Creio que é pertinente, a esta altura, perguntarmos: O que é Democracia? O que é Cidadania? O que é Pastoral?
Longe de nós tentar explicar aqui tal conceito que há milênios vem gerando tanta discussão e debates. Sabemos, porém, que a palavra democracia foi usada pela primeira vez (pelo menos é o que muitos acham), na peça “As suplicantes” de Ésquilo em 468 a.C., na Grécia antiga. Em seu sentido etimológico, democracia significa literalmente “poder do povo”. Daí em diante surgiram muitas democracias: as radicais (diretas), as liberais (representativa e pluralistas) e as sociais, entre outras, que se estabeleceram em diferentes e específicos contextos históricos, políticos, culturais, sociais e econômicos. De qualquer forma, democracia é sempre entendida como contraposta a todas as formas de governo autocrático; é entendida também como a possibilidade de tomadas de decisões coletivas. Seja como for, na prática ainda não existe a democracia ideal. O que temos, na melhor das hipóteses, é um processo de democracia em construção. A pergunta é: que papel desempenham os cristãos na construção democrática e na conquista da cidadania?
Cidadania é a qualidade de cidadão. E cidadão, segundo Michaelis, é o “indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado”. Uma pessoa adquire cidadania, não por herança, mas por conquista. Não se nasce cidadão, torna-se. Isto se dá quando nos tornamos conscientes de que “o Estado sou eu”, e nos dispomos a
“construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (Constituição, Art. 3o Dos Princípios Fundamentais).
Vou direto ao ponto: pastoral não é somente aquilo que é referente ao pastor profissional, tampouco é aquela página nos boletins das igrejas locais na qual o pastor escreve, também não é aquele tipo de agremiação que encontramos em escolas e hospitais. Pastoral é a ação da igreja, o ministério dos cristãos, o serviço que a Igreja presta ao mundo. A pastoral é a prática da doutrina. Afinal, ao lado da ortodoxia tem que haver uma ortopraxis.
A prática da igreja se expressa em três frentes distintas, mas interconectatas, como nos lembrou certa vez o revmo. Bispo Nelson Campos Leite: (a) a primeira podemos chamar de missão ad intra, e diz respeito à dimensão pessoal, íntima e particular da fé; (b) a segunda chamaremos de ad enter, porque se refere à prática entre os da família da fé – entre irmãos, comunidades e denominações religiosas (é a dimensão ecumênica); © e a terceira vamos chamar de ad extra, porque diz respeito ao compromisso dos cristãos (como indivíduos e como comunidade) para com o próximo, seja ele cristão ou não – aqui está, mais explicitamente localizada a pastoral da cidadania.
E essa missão da Igreja não se dá sucessivamente, mas simultaneamente. Isto quer dizer que os cristãos pensam e agem global e localmente, a uma só vez. É uma coisa e outra.[2]
A inserção dos cristãos no espaço público tem de ser mais do que a conquista da visibilidade (estar na mídia, crescer numericamente). Tem que se evidenciar numa presença qualitativa. Para não ser considerada perfeitamente dispensável, a participação cristã tem que ser relevante no processo de busca de respostas para as grandes questões contemporâneas.
Muita água rolou debaixo da ponte desde que o “homem” recebeu o apelido de “sapiens”! (a) A primeira grande revolução, dizem[3], foi a que conseguiu ampliar o sistema muscular humano, o que foi possível com a invenção da roda e da alavanca. (b) A segunda, foi a que conseguiu ampliar o sistema digestivo, pela invenção da máquina a vapor e da industrialização. (b) E a terceira, é a que está conseguindo ampliar o nosso sistema neurológico – é isso que tenta fazer a tecnologia da informação (informatização).
Um importante teórico da comunicação[4], certa vez, mencionou que as três maiores transformações sofridas pela humanidade foram as que se deram por ocasião (1) da invenção da imprensa – pois surgiu uma nova linguagem (forma de comunicação); (2) da descoberta da América – pois descobriu-se um novo mundo inexplorado; (3) e da Reforma Protestante – porque uma nova maneira de conceituar e encarar o sentido da vida foi descoberto. Os paralelos contemporâneos dessas três seriam: (1) a invenção do computador – que inaugurou uma nova forma de comunicação, um nova linguagem; (2) a criação da internet que nos descortinou um novo mundo virtual inteiramente novo e inexplorado; falta, entretanto a terceira grande transformação que não diz respeito à técnica, ou à tecnologia, nem à forma, mas diz respeito ao conteúdo e ao sentido da vida. Quem serão os reformadores contemporâneos que terão coragem de fixar suas “95 teses”, não nas portas, mas nas janelas (windows) da internet e propor uma nova cosmovisão segundo os princípios do Evangelho? Por enquanto os mais bem sucedidos têm sido os hackers.
Antes de alguém oferecer respostas, precisa ouvir as perguntas. “O que será que será que andam perguntando nos becos” e nas praças, atualmente? O mundo está marcado fortemente, entre outras coisas, pelo:
A implementação de uma Pastoral da Cidadania, e mesmo uma Pastoral Urbana, pressupõe:
Católicos e protestantes têm maneiras distintas de fazer missão. Nisso há vantagens e desvantagens. No caso dos católicos, estes organizam sua prática numa maneira tricêntrica tradicional: ao redor da igreja, da praça e da moradia[5]; isto é, os próprios bairros e a vizinhança já lhes fornecem as condições ideais para sua inserção e ação.
Os protestantes, por sua vez, estão distribuídos de maneira mais dispersa. A comunidade à qual uma pessoa evangélica pertence não está, necessariamente, geograficamente próxima à sua casa (pode estar do outro lado da cidade). Isto, de certa forma, dificulta um engajamento centralizado geograficamente (por exemplo: numa associação de bairro).
Entretanto, o mundo moderno (ou, se preferirem, pós-moderno) já não está mais se estruturando de maneira tradicional. As sociedades urbanas, cada vez mais, estão se organizando policentricamente. A localização da moradia não é, necessariamente, a referência para o centro de interesse das pessoas. Na verdade, há muitos centros definidos por interesses os mais variados: econômicos, políticos, culturais, de lazer etc.
Nesse sentido, talvez sejam, justamente, os protestantes os mais bem preparados para atuar pastoralmente junto a essa população urbana que vaga como “ovelhas que não têm pastor”.
É um desafio tremendo. Que Deus nos ajude a enfrentá-lo!
[2] Cf. Jung Mo SUNG em palestra proferida por ocasião do 5o Congresso de Produção Científica da UMESP, em 8 de novembro de 2000.
[3] Cf. Antônio Joaquim SEVERINO, em palestra proferida na UMESP em junho de 2000.
[4] Citado por Fernando ALTEMEYER JÚNIOR, em palestra proferida durante a XX Semana de Atualização Teológica, promovida pelo CEBEP, em Vinhedo, SP, de 20 a 23 de julho de 2000.
[5] Cf. João Batista LIBÂNIO, no artigo “A Igreja na cidade”, na revista Perspectiva Teológica no 18 (1996), editada pela Faculdade de Teologia do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus – CES.
Luiz Carlos Ramos
© Paul Cox/arabianEye/Corbis (royalty-free)
Universidade lembra Universo, universal, que por sua vez remete à oikoumene, “todo o mundo habitado”. O susto que a gente leva quanto ingressa na Universidade tem a ver em parte com a transcendência de um ambiente mais doméstico e íntimo vivido nas comunidades de fé, para vislumbrar um horizonte universal e ecumênico experimentado no mundo acadêmico.
Esse susto pode tornar-se crise. E dentre as muitas crises vividas pelo alunado, podemos destacar aquelas relativas ao conflito entre fé e razão, tão estimulado e exagerado no mundo acadêmico.
Quanto mais pretensiosas forem as nossas verdades, mais sectários nos tornamos. De um lado, se entrincheira a religião e, de outro, a ciência, ambas com suas numerosas seitas. E é próprio das seitas pelejarem, guerrearem entre si. Cada qual com a pretensão de submeter a outra e deter o monopólio da verdade.
Só que, na prática, as coisas funcionam mais ou menos como na lógica semita (conforme aprendi do meu colega Prof. Paulo Garcia): eu contra meu irmão; meu irmão e eu contra o nosso primo; nosso primo, meu irmão e eu contra o estrangeiro.
No dia a dia, a gente age da mesma forma para enfrentar os conflitos no âmbito da fé e da razão: brigamos na igreja local contra grupos de quem discordamos; mas nos unimos como tradição religiosa (por exemplo, como protestantes) para confrontar outras tradições (como os católicos); e ainda nos unimos como cristãos (católicos e protestantes), para lutar contra outras expressões de fé (islamismo, budismo, espiritismo…); e por fim, nos unimos como pessoas religiosas para confrontar as não religiosas (cientistas, ateus…).
Isso prova que, quando queremos (ou precisamos), não há barreiras que não possam ser quebradas, acordos que não possam ser feitos, separações que não possam ser unidas. Quanto menos universal nossa visão, menos possibilidades de unidade na prática.
Isso nos provoca a pensar que até a divisão entre religião e ciência pode ser repensada. Talvez possamos ser aliados na luta contra outros deuses (ou demônios). Nós, religiosos, tendemos a olhar desconfiados para a ciência porque ela se parece muito com Deus. Mas a ciência não é o único novo deus que encontramos na Universidade. Novas visões geram sempre novos conflitos, e novos conflitos provocam novas conversões. Há uma infinidade de novos deuses (e novos demônios), todos ávidos e empenhados em nossa conversão. Dentre eles podemos identificar:
Enfim, esses, entre tantos outros, são todos deuses muito intolerantes e anti-ecumênicos. E é quase impossível não tropeçarmos em seus suntuosos templos, inclusive nos campi universitários, pois são deuses que também aspiram à onipotência, à onipresença e à onisciência.
Por outro lado, talvez não devêssemos nos assustar tanto com a Universidade, afinal, na essência, ela não é assim tão diferente da Igreja Local. Se não, vejamos:
Ora, conquanto a Igreja à qual assistimos seja local, e a Universidade na qual estudamos se pretenda universal, cada igreja local tem o dever de ter um espírito universal — pois o Evangelho é para todos: “até os confins da terra” (At 1.8) —; e a Universidade tem a obrigação de cumprir sua vocação social — que é a de prestar serviços à comunidade local.
Como se vê, as coisas não são muito diferentes lá e cá.
Mesmo assim, há algumas diferenças entre Universidade e igreja local para as quais eu gostaria de chamar a atenção:
É verdade que nem todas as igrejas e nem todas as universidades são assim. Mas essas idéias servem para demonstrar que, conquanto semelhantes, essas duas instituições têm vocações deferentes.
Essas diferenças, entretanto, não implicam na exclusão sectária de uma ou de outra. Mostram, antes, justamente o conjunto que formam, a necessidade que uma têm da outra. Porque na vida, as diferenças somam e todos nos complementamos, inclusive a Igreja à Universidade e a Universidade à Igreja.
Se a escola é uma comunidade de crenças na vida (na ciência, no progresso, no conhecimento, na razão…), a vida mesma é uma escola que ensina a própria vida. A vida nos ensina que precisamos uns dos outros, que precisamos umas das outras.
Mas o que é que impede essa comunhão?
No fundo, somos como a cebola do Shrek, uma sucessão de camadas com muitas cascas e pouca consciência da nossa essência. Se fôssemos tão espertos quanto quer a Universidade, e tão sábios quanto a Igreja gostaria que fôssemos, saberíamos que se podemos nos unir em certos casos, podemos nos unir sempre.
Qual é o elemento que engendra e que comporta todas as nossas contradições? A resposta é uma só: a Vida! A vida é a única instância, ou melhor a instância comum a todos nós. E é em torno da vida que nos unimos para defender a própria vida.
A vida é o ponto de encontro dos amigos. Um famoso teólogo e filósofo do século xvii, quando perguntado sobre sua especialidade, respondeu: — Eu, eu sou expert em amizade! O resto é brincadeira de criança, e até isso é mais gostoso em companhia de gente amiga. A Universidade cumpre seu papel quando forma amigos e a Igreja, quando celebra o sacramento da amizade.
Gostaria de concluir com uma afirmação de fé que escrevi há alguns anos, na qual declaro a minha fé na vida como uma escola:
Cremos na vida como uma escola
que nos ensina a conhecer as razões e a respeitar os mistérios;
Cremos na vida como uma escola
que nos ensina a cooperar para construir e a confrontar para resistir;
Cremos na vida como uma escola
que nos ensina a pensar com o coração e a amar com inteligência;
Cremos na vida como uma escola
que nos ensina a humanidade divina e a divina humanidade:
Cremos na vida como uma escola
que nos ensina que a felicidade é um verbo que se conjuga no plural
e que a miséria é o antônimo de Deus;
Cremos na vida como uma escola
que nos ensina a ser e a conhecer,
a fazer e a conviver,
a saber, enfim, transmitir a própria vida,
na força da esperança, com a ternura da paz,
e no compromisso da justiça para todos.
Amém!