Jun 23 2010

A fé e a arte na construção do kosmos

Luiz Car­los Ramos

“Ars longa, vita bre­vis”
(Hipócrates)

Nós somos o resul­tado da equa­ção natura+cultura.

De mui­tos pro­du­tos in natura depende a nossa vida, tais como a água e o ar. Estes, quanto menos sofre­rem a inter­fe­rên­cia humana, quanto menos adul­te­ra­dos, quanto menos con­ta­mi­na­dos e quanto mais puros forem pre­ser­va­dos, melhor ser­vi­rão à humanidade.

Mas tam­bém nós, huma­nos, não sobre­vi­ve­mos sem o segundo ele­mento da equa­ção: a cul­tura. Mui­tos pro­du­tos manu­fa­tu­ra­dos garan­tem a nossa sobre­vi­vên­cia: o pão, as ves­tes, a habi­ta­ção, os livros… Todos esses são ela­bo­ra­ções cul­tu­rais de notó­ria utilidade.

Mas, além de pro­du­tos úteis, a cul­tura tam­bém pro­duz a arte. Como já ensi­nava Santo Agos­ti­nho, há obje­tos fei­tos para serem usa­dos e outros para serem usu­fruí­dos. E, segundo o mesmo santo, estes últi­mos são supe­ri­o­res aos primeiros.

Para os chi­ne­ses, a pala­vra “arte” se escreve com­pondo dois carac­te­res: um que sig­ni­fica “conhe­ci­mento” e outro que sig­ni­fica “beleza”. Arte, por­tanto, é a com­bi­na­ção pre­cisa entre conhe­ci­mento (ou sabe­do­ria) e beleza. Umberto Eco, como esteta, diz algo pare­cido: Arte é quando a forma comenta o con­teúdo e o con­teúdo comenta a forma.

Em outras pala­vras, a arte é sem­pre inten­ci­o­nal. Um pôr-do-sol pode ser belo, uma mon­ta­nha pode ser bela, uma árvore pode ser bela, mas não são arte, por­que nelas não foi apli­cado o conhe­ci­mento e a sabe­do­ria huma­nas – pode­mos, no máximo, considerá-las, obras de arte do Criador.

Para que algo seja con­si­de­rado legi­ti­ma­mente como obra de arte, é pre­ciso que seja inten­ci­o­nal­mente belo.

Em geral, todas as reli­giões enten­dem que o kos­mos é a orde­na­ção do caos pelas mãos hábeis e pelas pala­vras cri­a­ti­vas do Cri­a­dor. Essa orde­na­ção não pres­cinde da beleza.

Na nar­ra­tiva bíblica da cri­a­ção, no livro de Gêne­sis, lê-se que: no sétimo dia, viu Deus que tudo era bom/belo. E, ainda: “Do solo fez o SENHOR Deus bro­tar toda sorte de árvo­res agra­dá­veis à vista e boas para ali­mento”. Note-se a inten­ção divina de que esse jar­dim deve­ria “agra­dar à vista” e pro­ver sus­tento com coi­sas “boas para ali­mento”. Deus com­bina, nesse jar­dim, ques­tões plás­ti­cas e prá­ti­cas, esté­ti­cas e téc­ni­cas, poé­ti­cas e éticas. Deus não se con­tenta com uma beleza que não sus­tente a vida, nem quer uma vida que não nos ale­gre e torne as pes­soas mais felizes.

Arti­cu­lar arte — fé — e — cida­da­nia nos leva pen­sar que os seres huma­nos, sendo a ima­gem do Cri­a­dor, devem imitá-lo no pro­cesso de orde­na­ção do caos, cola­bo­rando na cons­tru­ção do kosmos.

Que esse kos­mos deve man­ter intac­tas cer­tas áreas de pre­ser­va­ção, por­que delas depende a nossa pró­pria vida.

Que esse kos­mos não deve ser sim­ples­mente útil, mas igual­mente belo. E para isso deve­mos empe­nhar o nosso conhe­ci­mento e apli­car a nossa sabedoria.

Sabe­mos que esta­mos diante de uma “obra de arte” quando essa mesma obra nos faz trans­cen­der. Quando ela nos arre­bata e nos leva para além da sua dimen­são uti­li­tá­ria. As fer­ra­men­tas nos tor­nam máqui­nas pro­du­ti­vas mais efi­ci­en­tes. A arte nos torna mais huma­nos, e por isso mesmo no levam para mais perto de Deus.

Tor­nar o mundo mais inte­li­gente e mais belo é tarefa do artista, essa tam­bém é a tarefa de toda pes­soa cristã, por­que essa sem­pre foi a inten­ção do Criador.

A vida é breve, mas a arte é eterna!


Jun 9 2010

Namorados

Um tre­cho do “Cân­tico dos cânticos”

Ver­são de Luiz Car­los Ramos

Este é o mais belo poema jamais escrito por uma mulher que amou o seu homem apaixonadamente.

[…]

Ami­gas e Amigos:

Você é uma mulher bela
entre as mais belas mulheres.

Ele:

Meu amor,
Seu andar é gra­ci­oso e sedu­tor.
São lin­das as mechas
dos seus cabe­los.
Em meio aos belos cola­res
bri­lha belís­simo o seu colo.
Quero hoje pre­sen­tear você
com jóias de ouro
incrus­ta­das de prata!

Ela:

Espere, meu prín­cipe,
enquanto meu per­fume
esparge sua fra­grân­cia.
Você, meu amor,
é o per­fume da minha pele.
Você, meu amor, é para mim
um buquê de flo­res exuberantes.

[…]

Ele:

Como você é linda, meu amor;
Bela como uma cidade len­dá­ria,
for­mosa como a cidade da paz,
majes­tosa como estrela cin­ti­lante.
Eu lhe peço, não me olhes assim
pois seus olhos me seduzem!

Seus cabe­los negros
aca­ri­ci­ando os ombros;
seu sor­riso ale­gre e per­feito;
suas faces cora­das,
ver­me­lhas como maçãs…

Sei que há deze­nas de rai­nhas
e inú­me­ras mulhe­res,
mas você, minha pom­bi­nha amada,
é única;
você é a mulher da minha vida!
Tão que­rida pelos da sua casa;
a vizi­nhança vem para felicitá-la:
rai­nhas e prin­ce­sas
não se can­sam de elogiá-la.

Ami­gos e amigas:

Mas quem é essa for­mo­sura?
Tão admi­rá­vel como a aurora:
bela como a lua,
e esplen­do­rosa como o sol;
majes­tosa como as estrelas?

Ela:

Desci ao jar­dim das noguei­ras
para ver o vale flo­rido,
os reben­tos da vide,
e as maci­ei­ras em flor.
E, antes que me desse conta,
minha pai­xão me trans­for­mara
numa car­ru­a­gem de fogo!

[…]

IMAGEM: Young Lovers
© Hans Neleman/Corbis; COLEÇÃO: zefa (RF);
Pre­mium Royalty-Free (RF): 42 – 18030174


Apr 29 2010

Trabalho

Luiz Car­los Ramos

Tripa­lium já foi tor­tura
Tra­ba­lho já foi suplí­cio
Aos pou­cos vai se trans­for­mando em far­tura
Como deve­ria ter sido desde o início.

* * *

O mundo muda pelo tra­ba­lho
de quem tem
mãos hábeis e olhar pro­fundo,
pés ágeis e mente lúcida,
cora­ção que ama o que faz
e que, por isso, faz o que ama.

* * *

Traba­lho:
tran­subs­tan­ci­a­ção de suor em pão.

* * *

IMAGEM  (Far­mer Hol­ding Ear of Wheat): © Ron Chapple/Corbis;
COLEÇÃO Cor­bis Yel­low; Value Royalty-Free (RF), 42 – 18912519


Apr 25 2010

“Imagine”

(Como pou­cos conseguiriam)


(“Ima­gine”, de John Len­non, na ver­são do elenco de Glee, com par­ti­ci­pa­ção de um grupo de estu­dan­tes surdos)

Ima­gine

John Len­non (trad. Luiz C. Ramos)

Ima­gine there’s no hea­ven,         [Ima­gina que não haja paraíso,]
it’s easy if you try,                           [é fácil se ten­ta­res,]
no hell below us,                              [nem inferno lá em abaixo,]
above us only sky,                          [acima de nós, só  o céu,]
ima­gine all the peo­ple                   [ima­gina todas as pes­soas]
living for today…                            [vivendo o presente…]

Ima­gine there’s no coun­tries,    [Ima­gina que não haja fron­tei­ras,]
it isn’t hard to do,                            [não é difí­cil fazê-lo,]
nothing to kill or die for,              [nada pelo que matar ou mor­rer,]
no reli­gion too,                                 [tam­pouco reli­gião,]
ima­gine all the peo­ple                   [ima­gina  todas as pes­soas]
living life in peace…                        [vivendo em paz…]

Ima­gine no pos­ses­si­ons,               [Ima­gina nada de pos­ses,]
I won­der if you can,                        [pergunto-me se és capaz,]
no need for greed or hun­ger,      [sem carên­cia ou fome por causa da ambi­ção,]
a brotherhood of men,                   [uma fra­ter­ni­dade humana,]
ima­gine all the peo­ple                    [ima­gina todos os povos]
sha­ring all the world…                    [com­par­tindo o mundo.]

You may say I’m a dre­a­mer,         [Tu dirás que sou um sonha­dor,]
but I’m not the only one,                [mas não sou o único,]
I hope some day you’ll join us,    [espero que algum dia te jun­tes a nós,]
and the world will live as one       [então o mundo será um.]


Mar 8 2010

O fio da história

Dia Inter­na­ci­o­nal da Mulher

Luiz Car­los Ramos
Ede­mir Antu­nes Filho

   

Lá esta­vam elas, ao som dos tea­res, tecendo com fio lilás
os teci­dos que deve­riam ves­tir e aque­cer outros cor­pos — rou­pas que elas mes­mas jamais vestiriam.

Já pró­xi­mas ao limite de suas for­ças, exaus­tas pelas 16 horas de lida diá­ria, as ope­rá­rias ainda encon­tra­vam ânimo para socor­rer com­pa­nhei­ras que se esvaiam tuber­cu­lo­sas; para sau­dar cri­an­ças recém-nascidas que sal­ta­vam pra den­tro da vida ali mesmo, sob os tea­res; e para cho­rar as enve­lhe­ci­das jovens que aos 30 anos ago­ni­za­vam em seus pos­tos e se des­pe­diam de sua breve vida.

Entre­tanto, emba­la­das pelo ritmo das máqui­nas, e, com o colo molhado pelas lágri­mas, ges­ta­vam sonhos de espe­rança: salá­rios dig­nos, melho­res con­di­ções de saúde, jor­nada de tra­ba­lho que lhes per­mi­tisse abra­çar mais lon­ga­mente suas cri­an­ças, bei­jar mais ter­na­mente seus mari­dos e sabo­rear um pouco mais a comu­nhão à mesa na sim­pli­ci­dade dos seus lares.

Con­ta­gi­a­das por esse sonho, foram compartilhá-lo com o patrão. Mas o patrão, indig­nado com tama­nho absurdo, jul­gou ser este um caso de polí­cia e resol­veu trans­for­mar aquele sonho divino em um pesa­delo infernal.

No dia 8 de março de 1857, as por­tas da fábrica Cot­ton de Nova York foram tran­ca­das e o edi­fí­cio trans­for­mado em um grande cre­ma­tó­rio onde 129 mulhe­res foram sacrificadas.

Mas… a fumaça daquele holo­causto espalhou-se por todo lugar levando con­sigo o sonho daque­las mulhe­res, con­ta­gi­ando e sen­si­bi­li­zando pes­soas em todo o mundo que se encar­re­ga­ram de tor­nar rea­li­dade aquele ideal.

Már­ti­res cre­ma­das, fios lila­ses, ges­tan­tes de um mundo melhor, ins­pi­ra­ram Clara Zet­kin, a pro­por, durante o Con­gresso Inter­na­ci­o­nal de Mulhe­res, rea­li­zado na Noru­ega em 1910,  a ins­ti­tui­ção do Dia Inter­na­ci­o­nal da Mulher.

Desde então, a cada 8 de março, mulhe­res e homens rea­fir­mam sua tarefa como tece­lãs e tece­lões de uma nova História.

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O fio da his­tó­ria: Dia Inter­na­ci­o­nal da Mulher de Luiz Car­los Ramos é licen­ci­ado sob uma Licença Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso não-comercial-No Deri­va­tive Works 3.0 Bra­sil.


Jan 21 2010

Outra história de Natal

Ele­nise Ramos
(Natal 2009)

As his­tó­rias de Natal acon­te­ce­ram há muito tempo em diver­sos luga­res do mundo, pois eu digo a vocês: aqui em Cas­tro tam­bém tem uma his­tó­ria, só que essa é bem recente

 55 anos atrás havia um Papai Noel e uma Mamãe Noel… bem eles ainda não eram Papai e Mamãe Noel.

Vou expli­car: Eles se namo­ra­ram pri­meiro, noi­va­ram e final­mente se casa­ram num belo dia de chuva, com direito a bolo e tudo o mais.

Mas sem filhi­nhos como pode­riam se mamãe e papai Noel? Que eu saiba pra ser papai e mamãe tem que haver filhi­nhos, então, eles come­ça­ram a tra­ba­lhar nessa árdua tarefa.

 Che­gou a pri­meira, era uma anji­nha linda e muito amada, mas só veio dar um beijo na face de cada um disse-lhe que tudo daria certo e foi, morar com outro papai, o Papai do Céu.

 Então veio a segunda filhi­nha, toda ale­gre e sor­ri­dente, eles gos­ta­ram muito de seu sor­riso e cada vez que ela sor­ria, a casa ficava cheia de luz. E assim come­çou a Natal da Famí­lia Noel na Rua Maes­tro Bene­dito Pereira, 960.

Mas a bebe­zi­nha não tinha com quem brincar.

 Então eles tive­ram outra filhi­nha, toda cheia de vida, olhos gran­des e ávidos pela vida, curi­osa e sob os cui­da­dos da irmã mais velha pre­en­che­ram a casa, o jar­dim da vovó Noel e com mais ale­gria pre­en­chiam a casa de mais sor­ri­sos, por isso a casa a cada dia ficava ainda mais ilu­mi­nada, e quem pas­sava por perto dizia: nossa que casa iluminada!

 Papai e Mamãe Noel pen­sa­ram que pode­riam ter filhi­nhos meni­ni­nhos… e tive­ram, o pri­meiro muito inte­res­sado nas letras e figu­ras desde cedo, come­çou sua sabe­do­ria com os mes­tres Pati­nhas, Zé Cari­oca, Pato Donald, um tal de Fan­tasma, ah, e tinha o recruta Zero. Pes­soas que lhe pas­sa­vam vali­o­sos con­cei­tos de viver com sor­riso sem­pre largo e farto.

E com isso ale­gria ia aumentando.

 Che­gou então o segundo pia­zi­nho. Atleta exí­mio, dedi­cado, fez a ale­gria da casa com suas meda­lhas e vitó­rias em diver­sos cam­pe­o­na­tos. Todos batiam pal­mas e quando a gente bate pal­mas, sem­pre sorri, e assim casa espa­lhava cada vez mais luzes.

 Quando acha­ram que não cabia mais ale­gria na casa, che­gou a última filhi­nha, essa um pouco mais cho­rona mas sob o cui­dado de todos apren­deu a se sen­tir segura e amada e …lógico, apren­deu a arte do riso ensi­nada por todos.

 Papai e Mamãe Noel esta­vam ple­na­mente feli­zes até que um dia cada um foi tomando seu rumo ( os filhos pre­ci­sam tomar seus rumos pra se tor­na­rem outros Papais e Mamães Noel) e de tem­pos em tem­pos cada sor­riso foi-se indo, outros fica­vam, alguns vol­ta­vam, uns vinham só a pas­seio, e cada vez que a casa recebia-os de novo, era Natal.

 Che­ga­ram pes­soas novas, todas cri­an­ças que foram se tor­nando jovens e adul­tos e mesmo de longe, a cada sor­riso era Natal. Papai e Mamãe Noel final­mente se tor­na­ram Mamãe e Papai, Vovô e Vovó  e hoje são até Bisavô e Bisavó Noel.

O nome deles de ver­dade é Beto e Beta. Estão dis­far­ça­dos, para serem só nos­sos, pra nossa ale­gria nunca acabar. 

 No Natal em que Jesus nas­cia A cada sor­riso seu uma luz se acendia.

Por­tanto nessa famí­lia é natal todos os dias.


Nov 2 2009

O amor é forte como a morte

DB005693O texto de Cân­tico dos Cân­ti­cos – “O amor é forte como a morte” (Ct 8.6) – nos apre­senta as duas mai­o­res for­ças da natu­reza: o amor e a morte – Eros e Tha­na­tos (cf. a trad. da Sep­tu­a­ginta). Só há uma força capaz de ten­tar matar o amor: a morte – que nos separa das pes­soas que ama­mos. Entre­tanto, há uma única força capaz de sobre­vi­ver à morte: o amor – por­que o fato de nos sepa­rar­mos de quem ama­mos não nos impede de con­ti­nuar a amá-lo/a. O amor sobre­vive à morte por­que con­ti­nu­a­mos amando a pes­soa que mor­reu. E, no nosso amor, ela con­ti­nua a viver para sem­pre. Que Deus nos ajude a hon­rar­mos a sua memória.


Oct 29 2009

Cântico dos cânticos

Uma intro­du­ção

Luiz Car­los Ramos

42-16639775

“O amor é mais forte do que a morte”
(Ct 8.6)

 

Auto­ria e datação

O tro­ca­di­lho com os nomes Salo­mão (paci­fi­ca­dor – cf. 1.1) e Sula­mita (paci­fi­cada – cf. 6.13) favo­re­ceu a supo­si­ção de que os poe­mas reu­ni­dos no livro inti­tu­lado Cân­tico dos cân­ti­cos teriam sido escri­tos pelo rei hebreu do mesmo nome, e retra­ta­ria inclu­sive seu casa­mento com a filha de um certo Faraó (cf. 1Rs 3.1). 

Uma lei­tura atenta, no entanto, logo deixa claro que a voz pre­do­mi­nante no livro é a de uma mulher cam­po­nesa que troca con­fis­sões e decla­ra­ções de amor com seu amado, um pobre pas­tor de ove­lhas. É a mulher que abre e que encerra o livro. Ela tem a pri­meira e a última palavra.

Daí, parece lógica a dedu­ção de que é uma mulher a autora/compiladora do livro. De fato, não se trata de um livro ínte­gro, coeso. Pare­cem mais frag­men­tos de poe­mas reu­ni­dos. Tal­vez enten­da­mos melhor se com­pa­rar­mos a foto­gra­fias (“flashes”) ou cenas gra­va­das, mas des­con­tí­nuas, que retra­tam dife­ren­tes eta­pas e fases da rela­ção de um casal apaixonado.

Por essa razão tam­bém é difí­cil pre­ci­sar a data des­ses escri­tos, pois pare­cem con­ter ele­men­tos (gírias, jar­gões, expres­sões) carac­te­rís­ti­cos de dife­ren­tes épocas (da mesma maneira que se pode iden­ti­fi­car a moda, pró­pria de dife­ren­tes perío­dos, pelas fotos que tira­mos ao longo dos tem­pos). Há quem sugira perío­dos mais remo­tos, como o séc. V a.C., enquanto outros suge­rem data mais recente, por volta do séc. III a.C. Por tratar-se, pro­va­vel­mente, de com­pi­la­ção de uma tra­di­ção cul­tu­ral­mente enrai­zada entre o povo, é pro­vá­vel que esses poe­mas tenham sido cole­ta­dos ao longo desse largo período.

Pode-se afir­mar com alguma cer­teza, por­tanto, que o livro não foi escrito pelo rei Salo­mão; que o olhar é prin­ci­pal­mente femi­nino; que o livro trata revo­lu­ci­o­na­ri­a­mente do tema do amor, num período em que os casa­men­tos eram arran­ja­dos e no qual as mulhe­res não tinham auto­no­mia; que o livro apre­senta uma mulher que se faz sujeito da sua his­tó­ria de amor e senhora da sua sexualidade.

Inter­pre­ta­ções

Nenhum escrito bíblico teve inter­pre­ta­ção tão con­tro­versa. Há quem jul­gue que o Cân­tico entrou no cânon por engano, por um cochilo dos teó­lo­gos que esta­vam de plan­tão na oca­sião. Tudo por causa do ele­mento eró­tico e das refe­rên­cias explí­ci­tas à sexu­a­li­dade (con­quanto nunca por­no­grá­fi­cas) que carac­te­ri­zam o livro. E da equi­vo­cada idéia de que Deus não é men­ci­o­nado no livro, sem con­tar que a rela­ção sexual retra­tada não visa à procriação.

As jus­ti­fi­ca­ti­vas, ou não, para a manu­ten­ção dos Cân­ti­cos no cânon podem ser resu­mi­das em 5 prin­ci­pais linhas her­me­nêu­ti­cas[1]: 1) A inter­pre­ta­ção ale­gó­rica (séc. I. d.C.), que defende que a rela­ção retra­tada no livro não se refere pro­pri­a­mente àquela que se dá entre um homem e uma mulher, mas à que se dá entre Deus e o seu povo, ou entre Cristo e a Igreja, ou a que houve entre o Espí­rito Santo e Maria, ou entre o divino e a alma humana, ou aquela entre Salo­mão e a sabe­do­ria. 2) A inter­pre­ta­ção cul­tu­ral, que o con­si­dera uma tra­du­ção de uma litur­gia pagã do Ori­ente Médio rela­ci­o­nado a ritos de fecun­di­dade e às festa do Ano Novo. 3) A inter­pre­ta­ção dra­má­tica, que pres­su­põe não dois, mas três per­so­na­gens, o pas­tor e a cam­po­nesa, que se amam, e que resis­tem ao assé­dio do rei (Salo­mão), que a quer tomar pela força. Os intér­pre­tes aqui, con­quanto não neguem o cará­ter eró­tico, des­fo­cam o olhar para o tema da fide­li­dade dos aman­tes. 4) A inter­pre­ta­ção natu­ra­lista, que con­si­dera o livro uma cole­tâ­nea de poe­mas de amor e can­ções popu­la­res comuns nas cerimô­nias nup­ci­ais semi­tas. 5) A inter­pre­ta­ção com­bi­nada, que leva em con­si­de­ra­ção vários ele­men­tos das anteriores.

O fato incon­tes­tá­vel, no entanto, é que esse é um livro que fala de amor. Ora, se Deus é amor, o livro todo é uma grande refe­rên­cia ao Cri­a­dor. No meu enten­der, essa é razão mais do que sufi­ci­ente para que o livro figure no cânon.

Temas “escon­di­dos” no Cântico

“Ora, um e outro, o homem e sua mulher,
esta­vam nus [no jar­dim] e não se enver­go­nha­vam.”
(Gn 2.25)

Os temo­res resul­tan­tes de uma cul­tura de depre­ci­a­ção e “peca­mi­no­si­za­ção” do sexo vêm impe­dindo gera­ções, há mais de 2500 anos, de usu­fruir desse riquís­simo e canô­nico escrito bíblico. Não fora o nosso olhar pre­con­cei­tu­oso, pode­ría­mos abrir inú­me­ras por­tas para uma abor­da­gem dos temas rela­ti­vos à rela­ção entre um casal que se ama.

Den­tre esses temas, gos­ta­ria de rela­ci­o­nar alguns: Pre­con­ceito de gênero, raça e cor; rela­ções assi­mé­tri­cas etá­rias e econô­mi­cas; tabus sexu­ais (incesto e escra­vi­dão sexual, mas­tur­ba­ção ou sexo soli­tá­rio, sexo e vio­lên­cia, sexo em público, feti­chismo, voyeu­rismo e roman­tismo); e ainda ero­tismo ver­sus por­no­gra­fia; frus­tra­ção e satis­fa­ção sexual, entre outros.

A pro­ta­go­nista, menina cujos pei­tos ainda estão em for­ma­ção, é usada, tal­vez abu­sada, pelos irmãos mais velhos, que a obri­gam a servi-los cui­dando das vinhas deles em detri­mento da sua pró­pria (vinha é, no livro, um dos eufe­mis­mos para a sexu­a­li­dade). Ela está quei­mada do sol, por­que é obri­gada a tra­ba­lhar para os irmãos. Ela se apai­xona por um moço pobre, tal­vez mise­rá­vel (os pas­to­res esta­vam na base da pirâ­mide social, abaixo da linha da pobreza). O rei quer levá-la para o seu harém, mas ela se recusa ter­mi­nan­te­mente, e pre­fere ficar com o homem a quem ama. Ela des­creve sua busca ansi­osa pelo amor, relata como o bus­cava na soli­dão do seu quarto, e ainda conta como  fora asse­di­ada por “homens rudes da cidade”, até que final­mente encon­trou o grande amor da sua vida. Boa parte dos ver­sos são dedi­ca­dos à des­cri­ção con­tem­pla­tiva da pes­soa amada e às refe­rên­cias a fra­grân­cias, sabo­res, sons e tex­tu­ras do amor. É o ero­tismo do olhar, do olfato, do pala­dar, da audi­ção e do tato. Enquanto alguns ver­sos são con­fis­sões de pura inti­mi­dade, da pri­va­ci­dade da alcova, outros são exul­ta­ções públi­cas de um amor que não cabe em si, e trans­borda con­ta­gi­ando aque­les que fazem parte do seu cír­culo de ami­zade e lhe são próximos.

Para que serve esse Cântico

Há quem per­gunte: Para que serve esse livro? E a res­posta é: Para nada… e para tudo! Pra nada, se for lido sem pai­xão, sem desejo, sem amor. Pra tudo, se esti­ver­mos apai­xo­na­dos e embri­a­ga­dos de amor.

Esses poe­mas ser­vem para serem lidos com a pes­soa amada. Ser­vem para ins­pi­rar uma rela­ção a dois, apai­xo­nada e apai­xo­nante. Ser­vem como “curso de noi­vos” para aque­les que estão se pre­pa­rando para casar. Ser­vem de texto litúr­gico para casais que quei­ram rea­li­zar suas núp­cias ou cele­brar suas bodas. E ser­vem até para apro­fun­dar­mos nosso conhe­ci­mento de Deus, sim, por­que se “Deus é amor”, quanto mais apren­der­mos a amar, mais apren­de­re­mos de Deus.

 


[1] cf. Cân­tico dos cân­ti­cos: Intro­du­ção. In:  Bíblia Tra­du­ção Ecu­mê­nica. São Paulo: Loyola, 1994.

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Oct 15 2009

Ensinar é aprender

Luiz Car­los Ramos

Tive pro­fes­so­ras e pro­fes­so­res dos mais dife­ren­tes tipos: cal­cu­lis­tas e lite­ra­tos, atlé­ti­cos e raci­o­na­lis­tas, rudes e dóceis, extro­ver­ti­dos e reser­va­dos, dinâ­mi­cos e paca­tos, sisu­dos e cômi­cos, eru­di­tos e des­pre­ten­si­o­sos, exi­gen­tes e bene­vo­len­tes, ele­gan­tes e despojados… 

Todos me ensi­na­ram a aprender.

A vocês, mestres, expresso meu reco­nhe­ci­mento. Mas peço licença para dedi­car a honra maior àquela que me pos­si­bi­li­tou conhe­cer todos vocês: A pro­fes­sora que me ensi­nou o ABC.

Por­tanto, à minha pri­meira pro­fes­sora, pre­cur­sora de todos os demais mes­tres que tive, que tenho e que ainda have­rei de ter, tri­buto neste dia a minha espe­cial home­na­gem, com gra­ti­dão eterna.

A quem honra, honra!


Oct 12 2009

Tapete de nuvens

Luiz Car­los Ramos

A pri­meira vez que a Ana Paula, minha filha, via­jou de avião, ela ainda era bem pequena. Quando ultra­pas­sa­mos as nuvens, e voá­va­mos acima delas, olha­mos para baixo e vimos cen­te­nas de quilô­me­tros de nuvens que se esten­diam sob o avião.

Então comen­tei: “Filhota, você terá mui­tas novi­da­des pra con­tar para os seus cole­gui­nhas quando vol­tar, heim!” E ela, olhando encan­tada pela jane­li­nha, res­pon­deu: “É, eu vou con­tar que…” E eu, sim­plo­ri­a­mente, pen­sei que ela ia dizer “… que eu andei de avião…”. Mas, para minha sur­presa, ela com­ple­tou: “Eu vou con­tar que andei num tapete de nuvens.”

Então eu me lem­brei do que disse certa vez a poe­tiza Adé­lia Prado: “Às vezes Deus me cas­tiga: eu olho para uma pedra e só vejo pedra.”

Na minha insen­si­bi­li­dade poé­tica, eu estava vendo somente nuvens, mas fui salvo a tempo pela dádiva divina do olhar de uma cri­ança. Desde então, nunca mais con­tem­plei as nuvens da mesma forma. Afi­nal de con­tas, nuvens são tape­tes onde brin­cam cri­an­ças e poetas.

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