May 30 2010

Solenidade da Santíssima Trindade

Luiz Car­los Ramos

Holy Tri­nity: Andrej Rublev

No decurso de vários sécu­los, sur­gi­ram várias sole­ni­da­des cele­bra­das no cor­rer do tempo comum, ditas tam­bém “sole­ni­da­des mai­o­res do ciclo anual” ou “fes­tas do Senhor no tempo comum”, por causa de sua depen­dên­cia em rela­ção à data da Pás­coa. A sole­ni­dade da San­tís­sima Trin­dade é uma delas. Sua ado­ção no calen­dá­rio litúr­gico se dá em decor­rên­cia das con­tro­vér­sias cris­to­ló­gi­cas e tri­ni­tá­rias dos sécu­los IV e V, pro­vo­ca­das prin­ci­pal­mente pela here­sia de Ário. O Domingo da Trin­dade, como festa, só se pro­pa­gou a par­tir do ano 1200.

A festa é cele­brada no pri­meiro domingo depois do Pen­te­cos­tes, como uma espé­cie de olhar retros­pec­tivo de ação de gra­ças sobre todo o minis­té­rio que o Pai opera no Filho pelo Espí­rito Santo. Pode­mos enten­der, assim, que é a pri­meira pes­soa da Trin­dade, o Pai, quem atua sal­vi­fi­ca­mente no período do Antigo Tes­ta­mento; ao passo que nos rela­tos dos Evan­ge­lhos encon­tra­mos as prin­ci­pais ações sal­ví­fi­cas da segunda pes­soa da Trin­dade, o Filho; e é durante todo o pro­cesso de expan­são mis­si­o­ná­ria da Igreja, que vemos prin­ci­pal­mente os atos sal­ví­vi­cos da ter­ceira pes­soa da Trin­dade, o Espí­rito Santo. 

Assim, convencionou-se cele­brar seqüen­ci­al­mente os epi­só­dios da ascen­ção do Senhor, segunda pes­soa, que volta para o Pai, a pri­meira pes­soa, que é quem envia o Espí­rito Santo, a ter­ceira pes­soa que, ao des­cer sobre a Igreja, completa a obra da San­tís­sima Trin­dade. Dessa forma, três domin­gos cele­bram con­se­cu­ti­va­mente essas sole­ni­da­des sig­ni­fi­ca­ti­vas para a tra­di­ção cristã: a Ascen­ção, o Pen­te­cos­tes e a Trindade.

Quando se intro­du­ziu a festa da Trindade, já estava con­ven­ci­o­nado que o domingo de Pen­te­cos­tes encerra o ciclo da Pás­coa. Esta festa pas­sou então a ocu­par lugar den­tro do segundo ciclo do Tempo Comum, que a rigor começa na segunda-feira após Pen­te­cos­tes. A Trin­dade constitui-se, por­tanto, em uma “sole­ni­dade maior” den­tro do Tempo Comum. Trata-se de uma festa que não repre­senta, neces­sa­ri­a­mente, um evento his­tó­rico, mas relaciona-se a uma dou­trina teológica.

Para saber mais, ver:

ADAM, Adolf. O ano litúr­gico. São Paulo: Pau­li­nas, 1983, p. 164 – 167.

AUGÉ, M. et al. O ano litúr­gico. São Paulo: Pau­li­nas, 1991, p. 233 – 235.

WHITE, James F. Intro­du­ção do culto cris­tão. São Leo­poldo: Iepg/Sinodal, 1997, p. 49 – 51.


Mar 21 2010

A sociedade contemporânea e a Teologia da Graça

Luiz Car­los Ramos 

© Cre­a­tiv Stu­dio Heinemann/Westend61/Corbis

 Discu­tir o tema da graça, hoje, é entrar em rota de coli­são com os rumos da soci­e­dade con­tem­po­râ­nea, pois sua essên­cia, o mer­cado, é jus­ta­mente o oposto da graça. Se a pro­posta cristã se fun­da­menta na con­vic­ção de que a fé (sal­va­ção) “não vem de nós, mas é dom (=graça, gesto gra­tuito) de Deus” (Ef 2.8), o mer­cado se apóia na idéia de que tudo tem um preço e de que, por­tanto, tudo pode ser valorizado/precificado, isto é, considerado/tornado mercadoria. 

Con­si­de­rar a vida como mer­ca­do­ria é a for­mu­la­ção pelo avesso do valor vivido. Nesse con­texto, anuncia-se o evan­ge­lho como mer­ca­do­ria, o que repre­senta o avesso do seu real “valor”. Essa representação/imagem inver­tida do real, como em espe­lho, é pre­ci­sa­mente o pro­duto de uma soci­e­dade espe­ta­cu­lar (do latim spe­cu­lum = espe­lho). 

Ora, se o maior prin­cí­pio do evan­ge­lho é a graça, o da mer­ca­do­ria é o preço. Daí que, para o evangelho-mercadoria, já não vigora mais o prin­cí­pio de que se deve “bus­car pri­meiro o reino de Deus e a sua jus­tiça”, sem a pre­o­cu­pa­ção com as demais coi­sas, uma vez essas seriam acres­cen­ta­das natu­ral­mente como con­seqüên­cia, (cf. regis­tro evan­gé­lico da pre­ga­ção de Jesus no Ser­mão do Monte em Mt 6). 

Ao con­trá­rio, os que pro­fes­sam o evan­ge­lho segundo o mer­cado abrem mão da teo­cra­cia e da jus­tiça evan­gé­li­cas, pois sua busca essen­cial se des­loca do foco pro­posto por Jesus de Nazaré, de tal forma que o que importa é bus­car pri­meiro as demais coi­sas. Quanto ao reino, este será acres­cen­tado, se de fato o for, como brinde adicional. 

Essa men­ta­li­dade fica explí­cita no tipo de apelo que se faz para moti­var os fiéis-expectadores a assis­ti­rem a cer­tos pro­gra­mas reli­gi­o­sos espe­ta­cu­la­res: a cura para doen­ças do corpo; a solu­ção de con­fli­tos fami­li­a­res; a obten­ção de bens mate­ri­ais; a con­quista de pos­tos de tra­ba­lhos e luga­res de pro­e­mi­nên­cia; etc. Todas essas “gra­ças” podem ser adqui­ri­das a pre­ços nada módi­cos, con­si­de­rada a con­tra­par­tida exi­gida do fiel. Este se sub­mete resig­na­da­mente, pois já assimilou/introjetou a idéia de que tudo no mer­cado exige uma cota de sacri­fí­cios econô­mi­cos e simbólicos. 

Com esse pro­pó­sito são rea­li­za­dos mui­tos atos religiosos-com-efeito-civil nos quais são fir­ma­dos os contratos-de-compra-e-venda dos pro­du­tos da fé. Entre­tanto, não há entrega-garantida da mer­ca­do­ria adqui­rida, muito embora essa aqui­si­ção tenha sido feita com tanto sacri­fí­cio. A obten­ção da “graça” ambi­ci­o­nada pelo fiel — a recu­pe­ra­ção de certa enfer­mi­dade ou a solu­ção de deter­mi­na­dos pro­ble­mas — depende de um fator muito sub­je­tivo, cujo ônus recai intei­ra­mente sobre o fiel-consumidor, pois, segundo essa ide­o­lo­gia, o resul­tado depende do tama­nho da fé deste. Em outras pala­vras, a “garan­tia” não é dada pelo for­ne­ce­dor, mas dele­gada ao pró­prio consumidor. 

Se o fiel não obtém a cura espe­rada, além da enfer­mi­dade, terá que supor­tar o pejo de ser tido como uma pes­soa sem fé, ou, pior, de ser con­si­de­rado indigno da “graça” de Deus, que, segundo essa men­ta­li­dade, não é abso­lu­ta­mente de graça. É recor­rente, entre os pre­ga­do­res do evan­ge­lho segundo o mer­cado, a pre­ga­ção de que “Deus não atende às nos­sas ora­ções se tiver­mos alguma pen­dên­cia com ele, se não esti­ver­mos qui­tes com ele” (frase esta pro­fe­rida recor­ren­te­mente por Este­vão Her­nan­des em seus pro­gra­mas tele­vi­si­o­na­dos). Como se fosse pos­sí­vel alguém estar quite com Deus. 

A teo­lo­gia da graça evan­gé­lica — pre­gada por Jesus de Nazaré e seus segui­do­res, refor­çada pelos dou­to­res e pais da Igreja, res­ga­tada pelos refor­ma­do­res, pro­ble­ma­ti­zada e apre­sen­tada de forma desa­fi­a­dora por teó­lo­gos con­tem­po­râ­neos (tal como o fez Die­trich Bonho­ef­fer) —, repe­tindo, essa graça é hoje coop­tada e detur­pada pela ide­o­lo­gia glo­ba­li­za­dora do mer­cado. Tal ide­o­lo­gia se apro­pria dos ter­mos clás­si­cos da teo­lo­gia cristã, tais como o termo “graça”, de tal modo que tudo que lhe resta é o sig­ni­fi­cante com­ple­ta­mente esva­zi­ado do seu sig­ni­fi­cado ori­gi­nal. 

Fazer teo­lo­gia evan­gé­lica na soci­e­dade con­tem­po­râ­nea é fazer a opção pela pros­cri­ção. Isso por­que o mer­cado é pró­digo, isto é, gene­roso e esban­ja­dor, quando se trata de exclu­são, mas severo, sovina e “pão-duro”, quando se trata de inclu­são. O mer­cado é abso­lu­ta­mente into­le­rante e inqui­si­to­rial para com aque­les que não pro­fes­sam a fé no seu DEU$

A graça con­ti­nua a ser a maior uto­pia evangélica.


Mar 9 2010

As cores do tempo da graça

Luiz Car­los Ramos

 A pre­ga­ção do Evan­ge­lho é tanto mais efi­caz quanto melhor for a comu­ni­ca­ção da Igreja. Comu­ni­ca­ção é mais do que dis­curso, pois se dá no nível ver­bal e no nível não-verbal. A Igreja evan­ge­liza não somente pelo que ela fala, mas tam­bém (ou prin­ci­pal­mente) pelo que ela demons­tra. Dizem os estu­di­o­sos que mais de dois ter­ços da área cere­bral humana é des­ti­nada ao pro­ces­sa­mento de infor­ma­ções visu­ais. Assim, cada vez mais, fica evi­dente a impor­tân­cia da comu­ni­ca­ção visual. E a com­bi­na­ção das cores é um impor­tante ele­mento no estí­mulo à per­cep­ção visual humana.

Assim como as pará­bo­las foram uti­li­za­das por Jesus como recurso comu­ni­ca­tivo para esti­mu­lar a ima­gi­na­ção (imagem+ação) de seus dis­cí­pu­los, a Igreja emprega recur­sos visu­ais, prin­ci­pal­mente na ambi­en­ta­ção de seus espa­ços cúl­ti­cos, visando ao anún­cio da Tempo da Graça. E foi com a expe­ri­ên­cia acu­mu­lada ao longo da his­tó­ria da Igreja, que o emprego das cores nos luga­res de culto dei­xou de ser feito de maneira ale­a­tó­ria, para ser usada com cri­té­rios esté­ti­cos e teológicos.

Secu­lar­mente, o estudo das cores pas­sou a ser feito mais sis­te­ma­ti­ca­mente no período do Renas­ci­mento, por Leon Batista Alberti que rela­ci­o­nou as cores com os qua­tro ele­men­tos da natu­reza: ver­me­lho — fogo, azul — ar, verde — água, cinza — terra; e por Leo­nardo Da Vinci, que propôs a seguinte sim­bo­lo­gia cro­má­tica: branco — luz, ama­relo — terra, verde — água, azul — ar, ver­me­lho — fogo e preto — trevas.

Desde então, confirmou-se, cien­ti­fi­ca­mente, que as cores afe­tam o meta­bo­lismo humano basi­ca­mente da seguinte maneira: as cores quen­tes (ver­me­lho, ama­relo) ace­le­ram o bati­mento car­díaco e aumen­tam a pres­são arte­rial; ao passo que as cores frias (azul, verde) acal­mam e relaxam.

Geo­me­tri­ca­mente, as cores são assim repre­sen­ta­das: Qua­drado — ver­me­lho (que sugere ação cen­trí­fuga, i.e., do cen­tro para fora), cír­culo — azul (que sugere ação cen­trí­peta, i.e., de fora para o cen­tro) e tri­ân­gulo — verde (que sugere estabilidade).

Com estas infor­ma­ções, fica mais fácil enten­der por que a Igreja con­ven­ci­o­nou o uso do ver­me­lho para o período de Pen­te­cos­tes, pois é uma época de mis­são (de den­tro para fora); e o uso do verde para o Tempo Comum, suge­rindo a esta­bi­li­dade e a per­sis­tên­cia dos fiéis no cotidiano.

Veja­mos, bre­ve­mente, o esquema tra­di­ci­o­nal das cores litúrgicas:

  • Branco e a cor de ouro: sim­bo­li­zam a Divin­dade, luz, gló­ria, ale­gria e vitó­ria. São usa­das para cele­brar a obra reden­tora de Cristo (Natal, Epi­fa­nia, Batismo do Senhor, Trans­fi­gu­ra­ção do Senhor, Pás­coa, Ascen­são do Senhor, Trin­dade e Cristo, o Rei do Universo);
  • Ver­me­lho: sím­bolo do fogo e do san­gue dos már­ti­res, é a cor das cele­bra­ções do Espí­rito Santo e da Igreja: Pen­te­cos­tes, Dia da Reforma, ani­ver­sá­rio de igre­jas locais, orde­na­ção e inves­ti­dura de pastores;
  • Roxo ou lilás ou vio­leta: carac­te­ri­zam as épocas do ano cris­tão dedi­ca­das à refle­xão, arre­pen­di­mento e pre­pa­ra­ção, como o Advento e a Qua­resma.  (Note que o roxo é a mis­tura de uma cor quente – o ver­me­lho – e uma cor fria – o azul – , isso é repre­sen­ta­tivo da ten­são pró­pria dos perío­dos de expec­ta­tiva: o e o ainda não).
  • Azul claro: expressa espe­rança. Alguns teó­lo­gos (Barth, Tilich e von Almen) suge­rem o azul como sendo a cor ideal para o tem­plo, lugar para onde os fiéis con­ver­gem, por sim­bo­li­zar a ação cen­trí­peta da pró­pria comu­nhão. Suge­rem tam­bém que o cír­culo é a forma arqui­tetô­nica ideal para a dis­po­si­ção dos fiéis no tem­plo (com a mesa da comu­nhão ao centro).
  • Verde: é a cor da natu­reza, da vida e do cres­ci­mento e é usado ao longo do Tempo Comum (ou da Cri­a­ção) por ser uma cor que denota esta­bi­li­dade e constância.
  • Preto: denota a morte e o luto e é usado na Quarta-Feira de Cin­zas e na Sexta-Feira da Paixão.

Obvi­a­mente, esta é uma con­ven­ção basi­ca­mente oci­den­tal. Em outras cul­tu­ras, as cores podem assu­mir outros sig­ni­fi­ca­dos, ou até mes­mos sig­ni­fi­ca­dos opos­tos. De qual­quer forma, se con­se­guir­mos uti­li­zar o pode­roso poder de comu­ni­ca­ção visual das cores de forma inte­li­gente e teo­lo­gi­ca­mente coe­rente, esta­re­mos melho­rando nossa capa­ci­dade de pre­gar o Evan­ge­lho em uma soci­e­dade mar­cada pelo fas­cí­nio das imagens.

25 de Janeiro de 2000

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As cores do tempo da graça de Luiz Car­los Ramos é licen­ci­ado sob uma Licença Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso não-comercial-No Deri­va­tive Works 3.0 Bra­sil.


Feb 11 2010

O ciclo pascal

 Luiz Car­los Ramos

O Ciclo Pas­cal — que com­pre­ende a Qua­resma, a Semana Santa, o Tempo Pas­cal pro­pri­a­mente dito, e encerra-se com o Pen­te­cos­tes — formou-se a par­tir de um pro­cesso de refle­xão e sis­te­ma­ti­za­ção do cris­ti­a­nismo que vai do pri­meiro ao quarto século da era Cristã. A par­tir deste ciclo se cons­ti­tuiu todo o calen­dá­rio litúrgico.

Nas comu­ni­da­des pri­mi­ti­vas, era comum a reu­nião no pri­meiro dia de cada semana na qual celebrava-se a memó­ria de Jesus. A ori­gem do culto cris­tão remonta a essa “Pás­coa Sema­nal”, que ocor­ria no cha­mado “Dia do Senhor”.

Em boa parte por influên­cia do judaísmo cris­tão, desenvolveu-se uma cele­bra­ção anual da Pás­coa como um “grande dia do Senhor”, cuja festa se pro­lon­gava por cinqüenta dias, sendo o último, o dia de che­gada do Espí­rito, o Pen­te­cos­tes Cris­tão, isso já no século II.

No século IV, desenvolveu-se a tra­di­ção de revi­ver e refle­tir de um modo mais sis­te­ma­ti­zado, os momen­tos da pai­xão, isso deu ori­gem às cele­bra­ções da Semana Santa. Desde o século III as vés­pe­ras da Pás­coa já eram dias de refle­xão. Os cate­cú­me­nos que por dois anos vinham sendo pre­pa­ra­dos, agora eram acom­pa­nha­dos por toda a comu­ni­dade. Inspirando-se nos qua­renta dias de pre­paro de Jesus para seu minis­té­rio, nas­ceu o período da qua­resma. Assim, em torno da cele­bra­ção da morte e res­sur­rei­ção de Jesus, desenvolveu-se todo o Ciclo Pas­cal do Calen­dá­rio Litúr­gico Cris­tão, mar­cado pela peni­tên­cia e con­fis­são, mas tam­bém pela ale­gria e exul­ta­ção do cru­ci­fi­cado e ressuscitado.

A Qua­resma é o período no qual se enfa­tiza a impor­tân­cia da con­tri­ção, do pre­paro e da con­ver­são. Inicia-se no qua­dra­gé­simo dia antes da Pás­coa (não se con­tam os domin­gos). O iní­cio na Quarta-feira de Cin­zas retoma à tra­di­ção bíblica do arre­pen­di­mento com cin­zas e ves­tes de saco (Jn 3.5 – 6). É um momento opor­tuno para refle­tir sobre a con­fis­são e o valor do per­dão de Deus.

Sua espi­ri­tu­a­li­dade enfa­tiza momen­tos de pre­paro na his­tó­ria bíblica geral e da vida de Jesus:

  • Qua­renta dias de Jesus no deserto (Mt 4.2; Lc 4.1ss);
  • Qua­renta dias de Moi­sés no Sinai (Êx 34.28);
  • Qua­renta anos do povo no deserto (Êx 16.35);
  • Elias em dire­ção ao Horeb (1Rs 19.8).

A Semana Santa tem iní­cio no Domingo de Ramos, cele­bra­ção de Cristo como o Mes­sias, sal­va­dor dos pobres, o rei dos humil­des. Reflete-se, nessa semana, passo a passo, os últi­mos momen­tos da vida de Jesus.

Este é o momento da vigí­lia de pre­paro para a ressurreição.

Sua espi­ri­tu­a­li­dade chama-nos a aten­ção para os momen­tos finais de Jesus até o ápice de sua paixão:

  • A Santa Ceia (Mt 26.17 – 30);
  • O Lava-pés (Jo 13.1 – 17);
  • Jesus no Get­sê­mani (Mt 26.36 – 46; Mc 14.26 – 31);
  • O jul­ga­mento, sepul­ta­mento e a cru­ci­fi­ca­ção (Mt 27; Mc 15; Lc 23; Jo 19).

A Pás­coa¸ pro­pri­a­mente, é a festa da res­sur­rei­ção e da liber­ta­ção. Um novo Êxodo ocorre, e a huma­ni­dade passa do cati­veiro da morte para a vida.

Sua sole­ni­dade pode iniciar-se já na Quinta-Feira Santa (ins­ti­tui­ção da ceia), que dá iní­cio ao cha­mado Trí­duo Pas­cal. Con­tudo a cele­bra­ção da res­sur­rei­ção começa com uma vigí­lia na noite de sábado encon­trando sua ple­ni­tude no rom­per da aurora do Domingo da Pás­coa, quando Cristo é lem­brado como o sol da jus­tiça que traz a luz da nova vida, na ressurreição.

A espi­ri­tu­a­li­dade nor­te­a­dora da Pás­coa aponta para a res­sur­rei­ção nos mais vari­a­dos rela­tos das comu­ni­da­des do século I d.C.:

  • A res­sur­rei­ção (Mt 28.1 – 20; Mc 16.1 – 8; Lc 24.1 – 12; Jo 20.1 – 18; At 1.14);
  • Cân­ti­cos Pas­cais (Sl 113 ao 118 e Êx 12).

Entre os hebreus, era comum a cele­bra­ção da cha­mada “festa das sema­nas” ou Pen­te­cos­tes, isso por­que ela se dava sete sema­nas, ou cinqüenta dias, após a Pás­coa. Nela, o povo dava gra­ças ao Senhor pela colheita. Mais tarde, adqui­riu mais uma dimen­são cele­bra­tiva, a da pro­cla­ma­ção da lei (ins­tru­ção) no Sinai, cinqüenta dias após a liber­ta­ção do Egito.

Na era cristã, o Pen­te­cos­tes tornou-se o último dia do ciclo pas­cal, quando celebra-se a che­gada do Espí­rito Santo como aquele que atu­a­liza a pre­sença do res­sus­ci­tado entre nós, dando força para que as comu­ni­da­des sejam tes­te­mu­nhas de Jesus na história.

A espi­ri­tu­a­li­dade que nos ori­enta nesse período fala da pre­sença conso­ladora do Espí­rito que semeia nos cora­ções a espe­rança do Reino de Deus e nos impul­si­ona para a missão:

  • Festa das sema­nas (Êx 34.22; Lv 23.15);
  • Jesus pro­mete o Con­so­la­dor (Jo 16.7);
  • Jesus res­sus­ci­tado sopra seu Espí­rito (Jo 20.22);
  • A che­gada do Espí­rito Santo no dia de Pen­te­cos­tes (At 2).

Nov 24 2009

O Natal do Sol da Justiça

Luiz Car­los Ramos

 CB055246  

Mas para vós outros que temeis o meu nome
nas­cerá o sol da jus­tiça, tra­zendo sal­va­ção nas suas asas.
(Mala­quias 4.2.)

O Natal e a Pás­coa se cons­ti­tuem nas mais impor­tan­tes sole­ni­da­des da tra­di­ção cristã. O Natal, por­que faz refe­rên­cia à encar­na­ção do Sal­va­dor divino, na cri­ança humilde de Jesus, filho de Maria, na época em que Hero­des Anti­pas era o tetrarca da Gali­léia; e a Pás­coa, por­que reme­mora a pai­xão, morte e res­sur­rei­ção de Jesus Cristo, ocor­rida no período em que Pôn­cio Pila­tos gover­nava a Judéia.

No entanto, não se trata de mera retros­pec­tiva his­tó­rica, mas, antes, de atu­a­li­za­ção cele­bra­tiva de um acon­te­ci­mento sal­ví­fico que tem impli­ca­ções para o pre­sente e é deter­mi­nante em rela­ção ao futuro daque­les e daque­las que o cele­bram com fé.

A Pás­coa cristã é a festa mais antiga, e já era come­mo­rada no final do pri­meiro século da nossa era. O Natal é mais tar­dio, e só se fixou a par­tir do século IV, mas isso a par­tir da tra­di­ci­o­nal cele­bra­ção do dia de Epi­fa­nia (6 de janeiro), que já era come­mo­rada em mea­dos do pri­meiro século.

A Epi­fa­nia (pala­vra que sig­ni­fica “mani­fes­ta­ção”) era fes­te­jada pelos cris­tãos já no final do pri­meiro século e iní­cio do segundo (a ponto de ficar regis­trada nos Evan­ge­lhos, cf. Mt 2), como a evi­dên­cia de que o evan­ge­lho de Jesus Cristo não era uma exclu­si­vi­dade dos judeus-cristãos, mas uma mani­fes­ta­ção da graça de Deus para toda a huma­ni­dade. Por isso, recorda-se, nessa festa, a visita dos Magos, que vie­ram do Ori­ente para sau­dar o Deus cri­ança e dar-lhe pre­sen­tes; bem como o Batismo do Senhor, oca­sião em que Jesus se apre­senta publi­ca­mente como Filho de Deus; e ainda a rea­li­za­ção do seu pri­meiro mila­gre, na cidade de Caná da Gali­léia, pelo qual Jesus ini­cia publi­ca­mente seu ministério.

No con­texto romano, do iní­cio da nossa era, por influên­cia egíp­cia, havia uma grande festa popu­lar que, a pro­pó­sito do sols­tí­cio de inverno (hemis­fé­rio Norte), rea­li­zava uma série de ritu­ais dedi­ca­dos ao deus-sol. Tais ritu­ais eram rea­li­za­dos na expec­ta­tiva de que o mundo não fosse engo­lido pelas tre­vas ame­a­ça­do­ras do inverno (oca­sião em que o sol pare­cia ficar cada vez mais dis­tante, os dias mais cur­tos e as noi­tes mais lon­gas). Essa festa era cha­mada de Adven­tus Reden­to­ris e Natale Solis Invic­tus, ou a Che­gada do Reden­dor e Nas­ci­mento do Sol Invencível.

Os cris­tãos, então, “evan­ge­li­za­ram” essa festa, reinterpretando-a à luz dos escri­tos bíbli­cos. A jus­tiça divina se alteia sobre a humana, tal como des­crito capí­tulo 60 do pro­feta Isaías (a lei­tura des­ses 22 ver­sí­cu­los des­cor­tina para nós o ver­da­deiro hori­zonte natalino):

1   Dispõe-te, res­plan­dece, por­que vem a tua luz, e a gló­ria do SENHOR nasce sobre ti.   2   Por­que eis que as tre­vas cobrem a terra, e a escu­ri­dão, os povos; mas sobre ti apa­rece res­plen­dente o SENHOR, e a sua gló­ria se vê sobre ti.   3   As nações se enca­mi­nham para a tua luz, e os reis, para o res­plen­dor que te nas­ceu.   4   Levanta em redor os olhos e vê; todos estes se ajun­tam e vêm ter con­tigo; teus filhos che­gam de longe, e tuas filhas são tra­zi­das nos bra­ços.   5   Então, o verás e serás radi­ante de ale­gria; o teu cora­ção estre­me­cerá e se dila­tará de júbilo, por­que a abun­dân­cia do mar se tor­nará a ti, e as rique­zas das nações virão a ter con­tigo.   6   A mul­ti­dão de came­los te cobrirá, os dro­me­dá­rios de Midiã e de Efa; todos virão de Sabá; tra­rão ouro e incenso e publi­ca­rão os lou­vo­res do SENHOR.   7   Todas as ove­lhas de Que­dar se reu­ni­rão junto de ti; servir-te-ão os car­nei­ros de Nebai­ote; para o meu agrado subi­rão ao meu altar, e eu tor­na­rei mais glo­ri­osa a casa da minha gló­ria.   8   Quem são estes que vêm voando como nuvens e como pom­bas, ao seu pom­bal?   9   Cer­ta­mente, as ter­ras do mar me aguar­da­rão; virão pri­meiro os navios de Tár­sis para tra­ze­rem teus filhos de longe e, com eles, a sua prata e o seu ouro, para a san­ti­fi­ca­ção do nome do SENHOR, teu Deus, e do Santo de Israel, por­que ele te glo­ri­fi­cou.   10   Estran­gei­ros edi­fi­ca­rão os teus muros, e os seus reis te ser­vi­rão; por­que no meu furor te cas­ti­guei, mas na minha graça tive mise­ri­cór­dia de ti.   11   As tuas por­tas esta­rão aber­tas de con­tí­nuo; nem de dia nem de noite se fecha­rão, para que te sejam tra­zi­das rique­zas das nações, e, con­du­zi­dos com elas, os seus reis.   […]   17   Por bronze tra­rei ouro, por ferro tra­rei prata, por madeira, bronze e por pedras, ferro; farei da paz os teus ins­pe­to­res e da jus­tiça, os teus exa­to­res.   18   Nunca mais se ouvirá de vio­lên­cia na tua terra, de deso­la­ção ou ruí­nas, nos teus limi­tes; mas aos teus muros cha­ma­rás Sal­va­ção, e às tuas por­tas, Lou­vor.   19   Nunca mais te ser­virá o sol para luz do dia, nem com o seu res­plen­dor a lua te alu­mi­ará; mas o SENHOR será a tua luz per­pé­tua, e o teu Deus, a tua gló­ria.   20   Nunca mais se porá o teu sol, nem a tua lua min­guará, por­que o SENHOR será a tua luz per­pé­tua, e os dias do teu luto fin­da­rão.   21   Todos os do teu povo serão jus­tos, para sem­pre her­da­rão a terra; serão reno­vos por mim plan­ta­dos, obra das minhas mãos, para que eu seja glo­ri­fi­cado.   22   O menor virá a ser mil, e o mínimo, uma nação forte; eu, o SENHOR, a seu tempo farei isso prontamente.

Como o calen­dá­rio dos pri­mei­ros sécu­los eram muito rudi­men­ta­res, a data não era pre­cisa e podia variar entre 21 de dezem­bro e 6 de janeiro. Com o pas­sar do tempo, essa fes­ti­vi­dade foi adqui­rindo con­tor­nos mais cla­ros, e convencionou-se o dia 25 de dezem­bro como sendo o dia do nas­ci­mento de Jesus e o dia 6 como o ápice da festa, cul­mi­nando com alu­são à visita dos Magos e ao Batismo do Senhor.

Os que cri­ti­cam a come­mo­ra­ção do Natal, acusando-o de ser uma festa pagã, devem ser adver­ti­dos de que não há uma única festa reli­gi­osa sequer que seja abso­lu­ta­mente genuína e exclu­si­va­mente cristã.

E não deixa de ser curi­oso o fato de que parece haver menos resis­tên­cia a cer­tas come­mo­ra­ções, às quais não há refe­rên­cia bíblica explí­cita (do tipo: Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Cri­an­ças, Dia do Índio, Dia da Pátria) do que àque­las com ampla fun­da­men­ta­ção nas Escri­tu­ras (tais como: Natal, Pás­coa e Pentecostes).

O enten­di­mento das efe­mé­ri­des depende do olhar do intér­prete: para uns (aque­les que crêem que os pode­res “do mundo” são mais for­tes que o “rei­nado de Deus”), trata-se da paga­ni­za­ção do cris­ti­a­nismo; para outros (que crêem na força trans­for­ma­dora do Evan­ge­lho), trata-se da cris­ti­a­ni­za­ção do paga­nismo. A ques­tão está na fé de quem lê a realidade.

Natal “ver­sus” Páscoa

A rela­ção entre o Natal e a Pás­coa pode ser mais bem com­pre­en­dida se tra­çar­mos um para­lelo entre os ele­men­tos comuns e os con­tras­tan­tes que ligam as duas festas:

  • Jesus nasce numa gruta empres­tada em Belém e é sepul­tado num túmulo empres­tado por José de Arimatéia;
  • Comemora-se a noite (vés­pera) de Natal, que remete ao Sol da Jus­tiça, em pleno inverno e a manhã (madru­gada) da Pás­coa, que cele­bra a pri­meira lua-cheia da primavera
  • Jesus nasce no inverno que é sím­bolo de morte e morre na pri­ma­vera, que é sím­bolo da vida
  • Ao nas­cer, é colo­cado numa man­je­doura de madeira para mor­rer é pre­gado numa cruz igual­mente de madeira
  • Como bebê é envolto em fai­xas na morte em um len­çol (sudário)
  • Pas­to­res pobres tes­te­mu­nham sua che­gada mal­fei­to­res cru­ci­fi­ca­dos tes­te­mu­nham sua morte
  • Anjos can­to­res anun­ciam seu nas­ci­mento: “gló­ria a Deus nas altu­ras e paz na terra…” anjo anun­ci­a­dor anun­cia a Maria Mada­lena sua res­sur­rei­ção: “ele não está aqui, mas ressuscitou”;
  • A vir­gem, no nas­ci­mento a peca­dora (Maria Mada­lena), na ressurreição;
  • 25 de dezem­bro (Natal) é data fixa, no entanto, pode cair em qual­quer dia da semana enquanto a pri­meira lua-cheia da pri­ma­vera (Pás­coa), que é data móvel (podendo ocor­rer entre 21 de março e 23 de abril), é cele­brada sem­pre no domingo mais próximo;
  • O Natal tem influên­cia pagã (egíp­cia) a Pás­coa tem ori­gem Judaica (e que marca a liber­ta­ção do Egito);
  • O Natal é pre­ce­dido de qua­tro sema­nas de pre­pa­ra­ção, o cha­mado período do Advento a Pás­coa é ante­ce­dida por qua­renta dias de ora­ção, cha­ma­dos Quaresma;
  • A festa do Natal se estende até a Epi­fa­nia, que se refere à mani­fes­ta­ção de Deus a todas as nações que vêm ao seu encon­tro a festa da Pás­coa se estende até o Pen­te­cos­tes, oca­sião em que os dis­cí­pu­los (igreja) saem ao encon­tro das nações para anunciar-lhes as “mara­vi­lhas de Deus”, dirigindo-se a elas em suas dife­ren­tes lín­guas maternas.
  • Visita dos magos do Ori­ente, na Epi­fa­nia, e tes­te­mu­nhas de todo o “mundo conhe­cido”, no Pentecostes;
  • Por­tanto, o ciclo do Natal faz omo­vi­mento das tre­vas para a luz e no ciclo da Pás­coa par­ti­mos das cin­zas para o fogo (Pentecostes).

Trata-se, por­tanto de um tempo que foi trans­for­mado, não mera­mente pelas pala­vras, mas pela Pala­vra, no dia em que “o Verbo se fez carne e habi­tou entre nós, cheio de graça e de ver­dade, e vimos a sua gló­ria, gló­ria como do uni­gê­nito do Pai” (Jo 1.14).

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O Natal do Sol da Jus­tiça by Luiz Car­los Ramos is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Cri­a­ção de Obras Deri­va­das 2.5 Bra­sil License.


Aug 18 2009

“Lex orandi lex credendi”

A lei da ora­ção é a lei da fé

 Luiz Car­los Ramos

A rigor, se entende que a Teo­lo­gia molda a Litur­gia, mas nem sem­pre nos damos conta de que o inverso tam­bém é ver­da­deiro. Segundo Ronald Byards, a Litur­gia molda a Teo­lo­gia de duas manei­ras: Pri­mei­ra­mente, a litur­gia de uma comu­ni­dade dá corpo e expressa uma teo­lo­gia intrín­seca, mas tam­bém molda uma forma de crença. Às vezes isso se dá inten­ci­o­nal­mente, outras, não. Em segundo lugar, nenhuma teo­lo­gia, que não ofe­reça suporte ou con­tri­bua para  o culto (i.e., para a litur­gia) da comu­ni­dade, será, em longo prazo, aceita e assi­mi­lada pela igreja (cf. BYARDS, 2008).

Como sem­pre insiste o biblista Frei Car­los Mes­ters, a Bíblia nas­ceu do povo e tem que ser devol­vida ao povo. Isso implica que a Teo­lo­gia (Sis­te­má­tica, Bíblica e Pas­to­ral), que se cons­ti­tui a par­tir da Reve­la­ção, tem que estar a ser­viço do povo, caso con­trá­rio, a trans­for­ma­mos num sim­ples “livro antigo”. Ora, o que impede que os tex­tos sagra­dos se redu­zam a velhos tex­tos cadu­cos é o Espí­rito cele­bra­tivo, pelo qual a Bíblia nos ajuda a inter­pre­tar a Vida e a cons­truir comu­ni­dade. Bíblia-fé-e-comunidade (“comu­ni­dade” enten­dida aqui como par­ti­lha cele­bra­tiva, cf. Lc 24.30 – 35) são, no dizer de Mes­ters, como café-leite-e-açúcar: uma vez mis­tu­ra­dos já não podem ser sepa­ra­dos, for­mam uma unidade.

Ora, grande parte dos escri­tos bíbli­cos são tex­tos cele­bra­ti­vos: cân­ti­cos, sal­mos (lou­vor, lamento, ação de gra­ças), ora­ções, pre­ga­ções, tes­te­mu­nhos, apelos…

Na Igreja Pri­mi­tiva, foram neces­sá­rios 59 anos de tra­di­ção litúr­gica até que um Credo fosse for­mu­lado, e mais 300 anos para o esta­be­le­ci­mento do Cânon Bíblico.

Vale lem­brar o que Rubem Alves afirma no livro Dog­ma­tismo & tole­rân­cia a res­peito da fé cele­brada que pre­cede a fé sis­te­ma­ti­zada: a Reforma pro­tes­tante foi can­tada antes de ser enten­dida, isto é, o povo teve acesso aos ensi­nos da Reforma pri­mei­ra­mente por­que a can­tava cele­bra­ti­va­mente. A con­for­ma­ção de uma Teo­lo­gia Refor­mada mais sis­te­ma­ti­zada é enten­dida como ato segundo (cf. ALVES, 2004).

Depreende-se, pois, que a cele­bra­ção é fun­da­men­tal (é Teo­lo­gia Pri­meira). Assim sendo, pode-se afir­mar que se a Teo­lo­gia não ser­vir à doxo­lo­gia da igreja não terá sobre­vida fora dos cír­cu­los inte­lec­tu­ais e aca­dê­mi­cos. A fé cristã é antes de tudo cele­brada e depois, crida. Se algo não puder ser con­ce­le­brado, não poderá ser crido. Uma vez mais é o Frei Car­los Mes­ters quem sábia e sin­ge­la­mente diz: “Estudo só é tijolo, o cimento é a cele­bra­ção” (MESTERS, 2009).

O Leci­o­ná­rio inte­gra Teo­lo­gia e Liturgia

O leci­o­ná­rio tri­e­nal, em sua ver­são ecu­mê­nica, refor­mu­lada na década de 1970, tem sido ado­tado de maneira cres­cente pelos pas­to­res e pas­to­ras das prin­ci­pais igre­jas cris­tãs em todo o mundo. Como relata Byards, no mesmo artigo acima citado, pes­qui­sas fei­tas nos Esta­dos Uni­dos da Amé­rica demons­tram que 99% dos epis­co­pais angli­ca­nos, 98% dos lute­ra­nos, 87% dos pas­to­res da Igreja Unida de Cristo, 69% dos meto­dis­tas, 61% dos pres­bi­te­ri­a­nos, usam o leci­o­ná­rio sem­pre ou na mai­o­ria das vezes para a pre­pa­ra­ção de suas pré­di­cas e litur­gias sema­nais. A ado­ção do leci­o­ná­rio pelas prin­ci­pais igre­jas his­tó­ri­cas vem num cres­cente, desde a década de 80. De maneira bem mais tímida, o mesmo vem acon­te­cendo no Brasil.

A con­sequên­cia disso é que mui­tos temas, outrora sole­ne­mente omi­ti­dos — tais como a esca­to­lo­gia, a pri­ma­zia do rei­nado de Deus ou a opção pelos pobres —, por pare­ce­rem obs­cu­ros, anti­pá­ti­cos ou des­fa­vo­rá­veis, a alguns pre­ga­do­res e pre­ga­do­ras, vol­ta­ram à baila nos púl­pi­tos cris­tãos. E, com isso, a igreja ganha e passa a rece­ber ali­mento espi­ri­tual de maior qua­li­dade, pro­fun­di­dade e consistência.

“Lec­tio con­ti­nua” e “lec­tio selecta”

A rigor, o leci­o­ná­rio tri­e­nal ofe­rece qua­tro indi­ca­ções de lei­tura para o culto sema­nal, sendo duas toma­das da Bíblia Hebraica (incluindo um Salmo), e duas do Novo Tes­ta­mento (incluindo um texto do Evan­ge­lho). Res­pec­ti­va­mente, as lei­tu­ras, ou lições, são assim desig­na­das: “Pri­meira Lei­tura”, “Sal­mó­dia” (tam­bém con­ce­bida como “Canto Inter­lec­ci­o­nal”), “Lei­tura da Epís­tola” (ou “Segunda Lei­tura”) e “Lei­tura do Evangelho”.

O leci­o­ná­rio, por­tanto, é uma pro­posta de plano de lei­tura e pre­ga­ção que pre­tende abor­dar a Bíblia como um todo. Indica lei­tu­ras sele­ci­o­na­das (lec­tio selecta) para cada semana, orga­ni­za­das, tanto quanto pos­sí­vel, tema­ti­ca­mente, prin­ci­pal­mente nas oca­siões fes­ti­vas (Ciclo do Natal e Ciclo da Pás­coa). Em outras oca­siões, prin­ci­pal­mente ao longo do Tempo Comum, adota-se o cri­té­rio da lei­tura con­ti­nu­ada (lec­tio con­ti­nua), com o obje­tivo de pos­si­bi­li­tar à comu­ni­dade um conhe­ci­mento amplo de toda a Bíblia, no curso de três anos.

Ao longo da his­tó­ria da igreja, os pre­ga­do­res e pre­ga­do­ras que mais se des­ta­ca­ram ado­ta­vam algum plano de pre­ga­ção, para nor­tear seu labor como minis­tros da Pala­vra. Os judeus, na sina­goga, tinham desde há mui­tos sécu­los, o cos­tume de ler todo o livro dos Sal­mos em três anos. Sendo 150 o número dos sal­mos, o plano pre­via a lei­tura de um salmo por semana. Como há cerca de 50 sema­nas em um ano, três anos somam pro­vi­den­ci­al­mente 150, o mesmo número dos Salmos.

Sabe-se que os refor­ma­do­res do século XVI ado­ta­vam algum plano de pre­ga­ção, pre­fe­rindo a expo­si­ção de tex­tos bíbli­cos com­ple­tos (perí­co­pes e mesmo livros intei­ros). Empre­ga­vam, por­tanto, o método da lec­tio con­ti­nua; mas nas datas fes­ti­vas mai­o­res (Pás­coa, Pen­te­cos­tes e Natal) ado­ta­vam a lec­tio selecta — pois não faria sen­tido se, em pleno Domingo de Pás­coa, por exem­plo, o pre­ga­dor se pusesse a pre­gar sobre um assunto qual­quer, sem rela­ção com a res­sur­rei­ção, sendo esta a men­sa­gem cen­tral do cristianismo.

Mui­tos dos escri­tos que nos che­ga­ram de Cal­vino e Lutero, entre outros, prin­ci­pal­mente seus comen­tá­rios bíbli­cos, são essen­ci­al­mente resul­tado de ano­ta­ções de pré­di­cas sema­nais. Tanto é assim que desenvolveu-se uma prá­tica que per­dura até os dias de hoje em algu­mas igre­jas de tra­di­ção refor­mada, que é cha­mada de Reader’s Ser­vice (lit., “Culto da Lei­tura”), segundo a qual, os mem­bros de uma deter­mi­nada con­gre­ga­ção se reú­nem meia hora ou uma hora antes do culto prin­ci­pal para ouvir a lei­tura con­tí­nua de tex­tos bíbli­cos cri­te­ri­o­sa­mente escolhidos.

Até o século XVII, não havia, a rigor, a prá­tica da pre­ga­ção temá­tica des­con­tí­nua. Esta só viria a se tor­nar popu­lar com os avi­va­lis­tas do século XVIII e XIX. Ora, ser­mões temá­ti­cos pri­vi­le­giam idéias e temas e não tanto os livros bíbli­cos. Isso deu ensejo a uma prá­tica homi­lé­tica des­con­ti­nu­ada, frag­men­tada, e mais sujeita às idi­os­sin­cra­sias, humo­res, e con­di­ci­o­na­men­tos ide­o­ló­gi­cos pró­prios de cada pre­ga­dor ou pre­ga­dora. Temas que não fos­sem do inte­resse par­ti­cu­lar de certo pre­ga­dor seriam sis­te­ma­ti­ca­mente omi­ti­dos e sone­ga­dos à sua congregação.

Con­cluindo…

Pode-se afir­mar, a par­tir do exposto, que qual­quer plano de pre­ga­ção é melhor que nenhum. O ama­du­re­ci­mento na fé pres­su­põe fami­li­a­ri­dade e rela­ção intensa com os tex­tos sagra­dos. E esse apro­fun­da­mento difi­cil­mente se obtém com uma pre­ga­ção des­con­tí­nua, des­co­nexa e ale­a­tó­ria. É pre­ciso saber de onde vie­mos, para que pos­sa­mos ter noção de para onde vamos (e para que tenha­mos cer­teza de estar­mos indo para frente). O leci­o­ná­rio tri­e­nal nos dá esse roteiro. É inte­li­gente, dinâ­mico e fle­xí­vel. Ao mesmo tempo em que nos “obriga” a abor­dar­mos todos os gran­des temas bíbli­cos — até aque­les que por­ven­tura não nos agra­dem tanto —, tam­bém nos per­mite que, even­tu­al­mente, opte­mos por outros, mais apro­pri­a­dos a cer­tas oca­siões impos­tas pela pre­mên­cia do coti­di­ano — isso para o  caso de nossa cri­a­ti­vi­dade não dar conta de rela­ci­o­nar­mos os tex­tos indi­ca­dos pelo leci­o­ná­rio com tais situações.

O leci­o­ná­rio, por­tanto, é uma útil fer­ra­menta para o nosso tra­ba­lho como pre­ga­do­res e pre­ga­do­ras da Pala­vra (e não de idéias, sim­ples­mente). Um tra­ba­lho que inte­gra Fé e Vida, Pala­vra pre­gada e Pala­vra Crida, Teo­lo­gia e Litur­gia, Ora­ção e refle­xão. Afi­nal: “Lex cre­dendi lex orandi” — a lei da fé é a lei da oração!

Refe­rên­cias

ALVES, R. Dog­ma­tismo e Tole­rân­cia. São Paulo: Loyola, 2004. 

BYARDS, R. P. An Advent Gift: The Escha­to­lo­gi­cal Pro­mise. Inter­pre­ta­tion: a jour­nal of Bible and The­o­logy. v. 6. n. 4. Rich­mond: UTS-PSCE, 2008. p. 372 – 395.

MESTERS, F. C. Lei­tura popu­lar da Bíblia. Rumos da Teo­lo­gia Bíblica nos cami­nhos da Amé­rica Latina e Bra­sil. Cen­tro Uni­ver­si­tá­rio São Camilo (CETESP)2009.

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