Mar 21 2010

A sociedade contemporânea e a Teologia da Graça

Luiz Car­los Ramos 

© Cre­a­tiv Stu­dio Heinemann/Westend61/Corbis

 Discu­tir o tema da graça, hoje, é entrar em rota de coli­são com os rumos da soci­e­dade con­tem­po­râ­nea, pois sua essên­cia, o mer­cado, é jus­ta­mente o oposto da graça. Se a pro­posta cristã se fun­da­menta na con­vic­ção de que a fé (sal­va­ção) “não vem de nós, mas é dom (=graça, gesto gra­tuito) de Deus” (Ef 2.8), o mer­cado se apóia na idéia de que tudo tem um preço e de que, por­tanto, tudo pode ser valorizado/precificado, isto é, considerado/tornado mercadoria. 

Con­si­de­rar a vida como mer­ca­do­ria é a for­mu­la­ção pelo avesso do valor vivido. Nesse con­texto, anuncia-se o evan­ge­lho como mer­ca­do­ria, o que repre­senta o avesso do seu real “valor”. Essa representação/imagem inver­tida do real, como em espe­lho, é pre­ci­sa­mente o pro­duto de uma soci­e­dade espe­ta­cu­lar (do latim spe­cu­lum = espe­lho). 

Ora, se o maior prin­cí­pio do evan­ge­lho é a graça, o da mer­ca­do­ria é o preço. Daí que, para o evangelho-mercadoria, já não vigora mais o prin­cí­pio de que se deve “bus­car pri­meiro o reino de Deus e a sua jus­tiça”, sem a pre­o­cu­pa­ção com as demais coi­sas, uma vez essas seriam acres­cen­ta­das natu­ral­mente como con­seqüên­cia, (cf. regis­tro evan­gé­lico da pre­ga­ção de Jesus no Ser­mão do Monte em Mt 6). 

Ao con­trá­rio, os que pro­fes­sam o evan­ge­lho segundo o mer­cado abrem mão da teo­cra­cia e da jus­tiça evan­gé­li­cas, pois sua busca essen­cial se des­loca do foco pro­posto por Jesus de Nazaré, de tal forma que o que importa é bus­car pri­meiro as demais coi­sas. Quanto ao reino, este será acres­cen­tado, se de fato o for, como brinde adicional. 

Essa men­ta­li­dade fica explí­cita no tipo de apelo que se faz para moti­var os fiéis-expectadores a assis­ti­rem a cer­tos pro­gra­mas reli­gi­o­sos espe­ta­cu­la­res: a cura para doen­ças do corpo; a solu­ção de con­fli­tos fami­li­a­res; a obten­ção de bens mate­ri­ais; a con­quista de pos­tos de tra­ba­lhos e luga­res de pro­e­mi­nên­cia; etc. Todas essas “gra­ças” podem ser adqui­ri­das a pre­ços nada módi­cos, con­si­de­rada a con­tra­par­tida exi­gida do fiel. Este se sub­mete resig­na­da­mente, pois já assimilou/introjetou a idéia de que tudo no mer­cado exige uma cota de sacri­fí­cios econô­mi­cos e simbólicos. 

Com esse pro­pó­sito são rea­li­za­dos mui­tos atos religiosos-com-efeito-civil nos quais são fir­ma­dos os contratos-de-compra-e-venda dos pro­du­tos da fé. Entre­tanto, não há entrega-garantida da mer­ca­do­ria adqui­rida, muito embora essa aqui­si­ção tenha sido feita com tanto sacri­fí­cio. A obten­ção da “graça” ambi­ci­o­nada pelo fiel — a recu­pe­ra­ção de certa enfer­mi­dade ou a solu­ção de deter­mi­na­dos pro­ble­mas — depende de um fator muito sub­je­tivo, cujo ônus recai intei­ra­mente sobre o fiel-consumidor, pois, segundo essa ide­o­lo­gia, o resul­tado depende do tama­nho da fé deste. Em outras pala­vras, a “garan­tia” não é dada pelo for­ne­ce­dor, mas dele­gada ao pró­prio consumidor. 

Se o fiel não obtém a cura espe­rada, além da enfer­mi­dade, terá que supor­tar o pejo de ser tido como uma pes­soa sem fé, ou, pior, de ser con­si­de­rado indigno da “graça” de Deus, que, segundo essa men­ta­li­dade, não é abso­lu­ta­mente de graça. É recor­rente, entre os pre­ga­do­res do evan­ge­lho segundo o mer­cado, a pre­ga­ção de que “Deus não atende às nos­sas ora­ções se tiver­mos alguma pen­dên­cia com ele, se não esti­ver­mos qui­tes com ele” (frase esta pro­fe­rida recor­ren­te­mente por Este­vão Her­nan­des em seus pro­gra­mas tele­vi­si­o­na­dos). Como se fosse pos­sí­vel alguém estar quite com Deus. 

A teo­lo­gia da graça evan­gé­lica — pre­gada por Jesus de Nazaré e seus segui­do­res, refor­çada pelos dou­to­res e pais da Igreja, res­ga­tada pelos refor­ma­do­res, pro­ble­ma­ti­zada e apre­sen­tada de forma desa­fi­a­dora por teó­lo­gos con­tem­po­râ­neos (tal como o fez Die­trich Bonho­ef­fer) —, repe­tindo, essa graça é hoje coop­tada e detur­pada pela ide­o­lo­gia glo­ba­li­za­dora do mer­cado. Tal ide­o­lo­gia se apro­pria dos ter­mos clás­si­cos da teo­lo­gia cristã, tais como o termo “graça”, de tal modo que tudo que lhe resta é o sig­ni­fi­cante com­ple­ta­mente esva­zi­ado do seu sig­ni­fi­cado ori­gi­nal. 

Fazer teo­lo­gia evan­gé­lica na soci­e­dade con­tem­po­râ­nea é fazer a opção pela pros­cri­ção. Isso por­que o mer­cado é pró­digo, isto é, gene­roso e esban­ja­dor, quando se trata de exclu­são, mas severo, sovina e “pão-duro”, quando se trata de inclu­são. O mer­cado é abso­lu­ta­mente into­le­rante e inqui­si­to­rial para com aque­les que não pro­fes­sam a fé no seu DEU$

A graça con­ti­nua a ser a maior uto­pia evangélica.


Mar 10 2010

A sociedade do espetáculo e o discurso religioso

Luiz Car­los Ramos 

 “Den­tro em breve, nas ruas só haverá artis­tas,
e vai ser muito difí­cil encon­trar um homem.”
(Arthur Cravan)

Um dos pri­mei­ros pen­sa­do­res a pro­ce­der a uma aná­lise crí­tica da moderna soci­e­dade de con­sumo sob a pers­pec­tiva do “espe­tá­culo” foi Guy Debord. Esse pen­sa­dor (filó­sofo, que tam­bém foi dire­tor de cinema)[1], escre­vendo em 1967, ante­cipa de maneira muito lúcida o que estava para se tor­nar a soci­e­dade moderna (ou pós-moderna)[2], às por­tas do século XXI. Em 1978 e 1988, res­pec­ti­va­mente, Debord escre­veu dois outros tra­ba­lhos nos quais comenta sua obra de 1967.[3] Nes­ses tra­ba­lhos pos­te­ri­o­res, ao cons­ta­tar que suas teses ainda esta­vam vigen­tes e que não tinham sido des­men­ti­das, afirma que isso se deve ao fato de ele ter com­pre­en­dido os fato­res cons­ti­tu­ti­vos do espe­tá­culo — com­pre­en­são essa que se con­firma, na sua opi­nião, pelo recru­des­ci­mento, nos anos que se segui­ram a 1967, da “tira­nia” das ima­gens; da sub­mis­são ali­e­nante ao “impé­rio” da mídia; e do poder dos pro­fis­si­o­nais do espetáculo.

Debord cunhou a expres­são soci­e­dade do espe­tá­culo, para desig­nar e carac­te­ri­zar o tipo de cul­tura da mídia que estava sendo imple­men­tada desde mea­dos do séc. XX; e que, desde os anos 60, já se mos­trava ao autor como ten­dendo a tornar-se hegemônica.

O livro A soci­e­dade do espe­tá­culo, de Debord, se cons­ti­tui de duas cen­te­nas de teses que tra­tam, prin­ci­pal­mente da ali­e­na­ção espe­ta­cu­lar, da mer­ca­do­ria como espe­tá­culo, do triunfo da apa­rên­cia, do tempo e do espaço espe­ta­cu­la­res, e da cul­tura e da ide­o­lo­gia da soci­e­dade do espe­tá­culo. A pers­pec­tiva de Debord é crí­tica em rela­ção a essa soci­e­dade. Natu­ral­mente, é com­pre­en­sí­vel que outros teó­ri­cos tenham rea­gido a essa crí­tica e, até mesmo, a trans­for­mado em lou­vor ou elo­gio do espe­tá­culo.  Assim, não fal­tam incen­ti­vos à soci­e­dade espe­ta­cu­lar e parece que esta enfrenta muito pouca resis­tên­cia. A carên­cia de abor­da­gens crí­ti­cas jus­ti­fica a opção feita aqui pela pers­pec­tiva de Debord.

1 O espe­lho da vida

A pri­meira tese do livro de Debord afirma que a vida das soci­e­da­des moder­nas “se apre­senta como uma imensa acu­mu­la­ção de espe­tá­cu­los”; isto é, “tudo o que era vivido dire­ta­mente tornou-se uma repre­sen­ta­ção”[4]. A grande rea­li­dade é a rea­li­dade da repre­sen­ta­ção, do simu­la­cro. O espe­tá­culo é o real.

A segunda tese, decor­rente da pri­meira, apre­senta a ima­gem, o ele­mento prin­ci­pal dessa repre­sen­ta­ção, como a “inver­são con­creta da vida”[5]. Embora Debord não expli­cite a raiz eti­mo­ló­gica do termo espe­tá­culo, seria per­ti­nente considerá-la aqui: espe­tá­culo deriva do latim spectáre, que se tra­duz por “olhar, obser­var aten­ta­mente, con­tem­plar”, e tem a mesma raiz de specùlum,i, “espe­lho”, deri­vado do verbo specère, “olhar, obser­var”[6]. Essa noção eti­mo­ló­gica reforça a com­pre­en­são do que afirma Debord sobre a “inver­são”[7] da vida, isto é, do espe­tá­culo como “movi­mento autô­nomo do não-vivo”[8]. Daí que todo espe­tá­culo, por apresentar-se como reflexo do real, como espe­lho, é sem­pre uma ima­gem inver­tida do real. Isto é, se do lado de cá da super­fí­cie espe­ta­cu­lar está a vida, do outro lado está a não-vida, ou uma ilu­são da vida. Por mais pare­ci­das que sejam, a ima­gem e a rea­li­dade não são a mesma coisa. São, antes, o inverso ou reverso uma da outra.

Ao con­ver­gir, ou con­cen­trar, “todo olhar e toda cons­ci­ên­cia” (tese 3), uma vez que a rela­ção social espe­ta­cu­lar é medi­ada por ima­gens (tese 4), o espe­tá­culo se torna uma visão de mundo obje­ti­vada[9] (tese 5), e se cons­ti­tui no “modelo atual da vida domi­nante na soci­e­dade”[10] (tese 6). Como modelo, essa visão de mundo[11] molda as várias ins­tân­cias da soci­e­dade: a eco­no­mia, a polí­tica, a cul­tura, e, natu­ral­mente, a reli­gião. Debord não trata espe­ci­fi­ca­mente da reli­gião, mas dá as cate­go­rias para que os vários seg­men­tos sejam ana­li­sa­dos à luz do espe­tá­culo. O espe­tá­culo, assim, se apre­senta como ins­tru­mento de uni­fi­ca­ção, plas­mando uma cos­mo­vi­são comum.

Na prá­tica, entre­tanto, embora pareça uni­fi­car, o espe­tá­culo ofi­ci­a­liza a “sepa­ra­ção gene­ra­li­zada”[12], pois retrata uma “prá­xis social glo­bal que se cin­diu em rea­li­dade e em ima­gem”[13] (tese 7). Não se trata, porém, de opo­si­ção entre rea­li­dade e espe­tá­culo, mas de des­do­bra­mento essen­cial, no qual a ali­e­na­ção é recí­proca (tese 8): “a rea­li­dade surge no espe­tá­culo, e o espe­tá­culo é real”[14]. E, ainda, “ao mesmo tempo, a rea­li­dade vivida é mate­ri­al­mente inva­dida pela con­tem­pla­ção do espe­tá­culo e retoma em si a ordem espe­ta­cu­lar à qual adere de forma posi­tiva”[15].

[…]

Uma pri­meira impli­ca­ção do espe­tá­culo para a reli­gião, por­tanto, é que, nesse con­texto, ela tam­bém acaba por efe­tuar “sepa­ra­ção gene­ra­li­zada”, isto é a ali­e­na­ção inclu­sive entre a reli­gião e a sua repre­sen­ta­ção, mas faz isso por meio de um dis­curso que se pre­tende ins­tru­mento de uni­fi­ca­ção. A reli­gião espe­ta­cu­lar é a ima­gem inver­tida (espelhada/espetaularizada) da reli­gião real, sua repre­sen­ta­ção, e ter­mina por constituir-se, assim, num movi­mento autô­nomo da não-religião (a reli­gião real dá lugar à sua repre­sen­ta­ção virtual).

2 “O que é bom aparece”

A crí­tica mais con­tun­dente de Debord é apre­sen­tada na tese 10, na qual o autor afirma que a ver­dade do espe­tá­culo é a nega­ção da vida que se tor­nou visí­vel[16]. A vida, pin­tada com as cores do espe­tá­culo, parece mais viva do que nunca. Porém, ao ten­tar tor­nar a vida mais viva, pela medi­a­ção de recur­sos tec­no­ló­gi­cos cada vez mais sofis­ti­ca­dos, acaba por negar a vida real, uma vez que torna esta mais “sem graça” que aquela.[17] Uma vez que a rea­li­dade espe­ta­cu­lar se cons­ti­tuiu no modelo cós­mico da rea­li­dade[18], o espe­tá­culo maquia, fal­si­fica a vida por­que não a con­si­dera satis­fa­tó­ria como ela é. Em seus Comen­tá­rios sobre a Soci­e­dade do espe­tá­culo, de 1988, Debord afirma que “a fal­si­fi­ca­ção forma o gosto e sus­tenta a fal­si­fi­ca­ção, ao fazer com conhe­ci­mento de causa desa­pa­re­cer a pos­si­bi­li­dade de refe­rên­cia ao autên­tico. Chega-se a refa­zer o ver­da­deiro, quando pos­sí­vel, para fazer com que ele se pareça com a fal­si­fi­ca­ção”[19]. E ainda “aquilo de que o espe­tá­culo deixa de falar durante três dias é como se não exis­tisse”[20]. Em sín­tese, a cons­ci­ên­cia onto­ló­gica é dada pelo espetáculo.

Por­tanto, a lógica do espe­tá­culo afirma que “o que apa­rece é bom, o que é bom apa­rece”[21] — ou que pelo menos é melhor do que o que não apa­rece. O requi­sito neces­sá­rio para o reco­nhe­ci­mento, para o sucesso, não é o talento ou a com­pe­tên­cia. Para que alguém se torne cele­bri­dade “da noite para o dia”, tudo o que pre­cisa é de uma chance para apa­re­cer. Não é de admi­rar que a pala­vra show (deri­vado do verbo inglês to show, “mos­trar”) tornou-se, inclu­sive na lín­gua por­tu­guesa, sinô­nimo de espe­tá­culo. Daqui se pode infe­rir que a reli­gião, que até pouco tempo vinha per­dendo seu espaço e influên­cia na soci­e­dade real, ao empenhar-se por ocu­par espaço na comu­ni­dade vir­tual, volta a con­quis­tar pres­tí­gio e a influ­en­ciar as comu­ni­da­des reais — ainda que isso impli­que na fal­si­fi­ca­ção delas mes­mas, para que se pare­çam cada vez mais com o mundo da mídia. Pode-se per­gun­tar então se o resul­tado é, de fato, a ocu­pa­ção da mídia pela reli­gião, ou se é a ocu­pa­ção da reli­gião pela mídia.

3 O poder pseudo-sagrado

Parece não haver dúvi­das de que um aspecto deter­mi­nante da cultura/ideologia espe­ta­cu­lar é sua inte­gra­ção no sis­tema do capi­ta­lismo glo­ba­li­zado[22]. Ora, se o espe­tá­culo é o pro­duto da eco­no­mia, o poder é, por­tanto, a raiz do espe­tá­culo (tese 23). Trata-se de um poder pseudo-sagrado (tese 25) por­que se cons­ti­tui num poder sepa­rado, ali­e­nado, que é seu pró­prio pro­duto e deter­mi­nou suas pró­prias regras — o espe­tá­culo é a forma que esco­lhe o seu con­teúdo (tese 24).

E esse poder sepa­rado pro­move igual­mente a sacra­li­za­ção[23], isto é, a sepa­ra­ção, a ali­e­na­ção do mundo proletarizando-o (tese 26). Tal pro­le­ta­ri­za­ção é o resul­tado da con­ver­são de cada espec­ta­dor em um cida­dão da última classe do povo, pela “vitó­ria do sis­tema econô­mico da sepa­ra­ção”[24]. O espe­tá­culo está a ser­viço da pro­du­ção cir­cu­lar do iso­la­mento (tese 28) por meio da abs­tra­ção que é o modo de ser con­creto do espe­tá­culo (tese 29). “O espe­tá­culo reúne o sepa­rado, mas o reúne como sepa­rado.”[25] Por­tanto, quanto mais o espec­ta­dor con­tem­pla, menos ele vive: essa é a grande ali­e­na­ção do espec­ta­dor (tese 30). Ao ali­e­nar o espec­ta­dor em favor do objeto con­tem­plado, o espe­tá­culo pro­move a sepa­ra­ção da vida: “quanto mais sua vida se torna seu pro­duto, tanto mais ele se separa da vida” (tese 33).

O espe­tá­culo fabrica con­cre­ta­mente a ali­e­na­ção (tese 32). E para isso pro­move cons­tan­te­mente a abun­dân­cia da des­pos­ses­são (tese 31) e cria suces­si­vas pseu­do­ne­ces­si­da­des. Mais à frente, Debord afirma, que o espe­tá­culo pro­move o enri­que­ci­mento da pri­va­ção (tese 44), por­que a sobre­vi­vên­cia con­su­mí­vel con­tém em si a privação.

A reli­gião espe­ta­cu­lar seria, então, aquela que a ali­ena o fiel do pro­duto da sua pie­dade, de sua vida de fé, tornando-o espec­ta­dor da expe­ri­ên­cia reli­gi­osa, medi­ante a trans­fe­rên­cia da res­pon­sa­bi­li­dade real para a sua repre­sen­ta­ção inver­tida. Essa reli­gião deve, para sobre­vi­ver no con­texto espe­ta­cu­lar, pro­mo­ver uma abun­dante indi­gên­cia teo­ló­gica e criar suces­si­vas pseu­do­ne­ces­si­da­des[26] espi­ri­tu­ais que serão supri­das, ou que pelo menos pare­ce­rão ser supri­das, pela medi­a­ção das ima­gens, ence­na­ções e repre­sen­ta­ções. Afi­nal, no dizer de Fisk, “a magia faz parte da essên­cia do meio [tele­vi­sivo]”[27].

4 O impé­rio da mercadoria

Em outro capí­tulo da Soci­e­dade do espe­tá­culo, Debord dis­cute ainda o tema da mer­ca­do­ria como espe­tá­culo. Na soci­e­dade do espe­tá­culo, a mer­ca­do­ria é a for­mu­la­ção pelo avesso do valor vivido (tese 35). Pode-se tra­çar um para­lelo com a idéia do evan­ge­lho como mer­ca­do­ria que repre­senta o avesso do seu real valor. Se o prin­cí­pio evan­gé­lico maior é a graça, o da mer­ca­do­ria é o preço. Daí que já não vigora mais o prin­cí­pio de que se deve bus­car pri­meiro o reino sem se pre­o­cu­par com as demais coi­sas, pois essas seriam acres­cen­ta­das natu­ral­mente, con­forme regis­tro evan­gé­lico da pre­ga­ção de Jesus no Ser­mão do Monte (cf. Mt 6); mas, antes, deve-se abrir mão da jus­tiça, pois as ques­tões fun­da­men­tais se des­lo­cam[28]: o que importa é bus­car pri­meiro as demais coi­sas, quanto ao reino, este será acres­cen­tado como brinde. Essa men­ta­li­dade fica explí­cita no tipo de apelo que se faz para moti­var os fiéis-espectadores a assis­tir a cer­tos pro­gra­mas reli­gi­o­sos espe­ta­cu­la­res: a cura para doen­ças do corpo; a solu­ção de con­fli­tos fami­li­a­res; a obten­ção de bens mate­ri­ais; a con­quista de pos­tos de tra­ba­lhos e luga­res de pro­e­mi­nên­cia; etc.

O mundo sen­sí­vel é subs­ti­tuído por uma sele­ção de ima­gens e é domi­nada pelo feti­chismo[29] da mer­ca­do­ria (tese 36). No caso da expe­ri­ên­cia reli­gi­osa, pode-se dedu­zir da cons­ta­ta­ção de Debord, a rela­ção com Deus passa a ser regu­lada pelo mer­cado.[30] Teo­lo­gi­ca­mente falando, trata-se de um tipo par­ti­cu­lar de ido­la­tria.[31] Na prá­tica, trata-se de uma troca de bens sim­bó­li­cos por bens reais.[32] Isto no sen­tido de que os fiéis tro­cam dinheiro real por pro­mes­sas de bens reais: cura, emprego, casa­mento… Os bens sim­bó­li­cos são ape­nas os ter­mos da inter­me­di­a­ção con­tra­tual entre as par­tes: uma ora­ção de súplica por parte do fiel-espectador; uma bên­ção com impo­si­ção de mãos da parte do sacer­dote espe­ta­cu­lar, ou coi­sas do gênero.

O mundo mos­trado pelo espe­tá­culo é o do impé­rio da mer­ca­do­ria (tese 37). Ora, a mercadoria-espetáculo exclui o qua­li­ta­tivo e pro­move o quan­ti­ta­tivo (tese 38) e a eco­no­mia tornou-se um pro­cesso de desen­vol­vi­mento quan­ti­ta­tivo (tese 40). Por essa razão, não se trata de algo res­trito e loca­li­zado, mas de algo glo­bal e glo­ba­li­zante. O espe­tá­culo é a ocu­pa­ção total da vida social pela mer­ca­do­ria (tese 42). Todos devem ser tra­ta­dos como e con­ver­ti­dos em con­su­mi­do­res, inclu­sive os fiéis e reli­gi­o­sos.[33] O espe­tá­culo pre­tende uma huma­ni­za­ção pelo con­sumo. O espe­tá­culo uni­fi­cou a terra como mer­cado mun­dial (tese 39).[34] E é a domi­na­ção da mer­ca­do­ria sobre a eco­no­mia que cons­ti­tuiu a eco­no­mia polí­tica (tese 41).

A pro­du­ção abun­dante de mer­ca­do­rias implica em um número igual­mente abun­dante de con­su­mi­do­res — a eco­no­mia abun­dante é, por­tanto, a raiz do espe­tá­culo (tese 58). Tudo pode virar mer­ca­do­ria, inclu­sive o lazer (tese 43). Assim o espe­tá­culo se cons­ti­tui na mani­fes­ta­ção geral da ilusão-mercadoria[35]: o con­su­mi­dor real torna-se con­su­mi­dor de ilu­são (tese 47). O mundo ima­gi­ná­rio passa a ser impres­cin­dí­vel, tanto para os mer­ca­do­res, quanto para os con­su­mi­do­res. Trata-se de uma pseu­do­ne­ces­si­dade cons­truída e ali­men­tada per­ma­nen­te­mente. E o espe­tá­culo ofe­rece uma pseu­do­jus­ti­fi­ca­tiva para essa falsa vida (tese 48). Daí que, para Debord, “o espe­tá­culo não exalta os homens e suas armas, mas as mer­ca­do­rias e suas pai­xões”[36] (tese 66).

Por isso, como obser­vou Hugo Assmann,

A eco­no­mia e a teo­lo­gia são cam­pos de incrí­veis exer­cí­cios retó­ri­cos, enten­di­dos estes como sole­nes e vapo­ro­sas vari­a­ções sobre o mesmo […]. Lon­gos ritos neces­sá­rios para que mitos […] sejam assi­mi­la­dos como expli­ca­ções do mundo e como ali­men­tos de esqui­sito sabor. E isto requer tempo, repe­ti­ções, e infi­ni­tas vari­a­ções. Pois, ao que parece, sucede algo seme­lhante com os ritu­ais de assi­mi­la­ção da ciên­cia econô­mica […].[37]

Ass­mann, então se per­gunta: “Como fun­ci­ona a inges­tão e o meta­bo­lismo dos ali­men­tos míti­cos — quanto à eco­no­mia, à teo­lo­gia e tan­tas outras coi­sas — até que se trans­for­mem em cre­dos incon­tes­tes e rotineiros?”

Na opi­nião de Debord, a soci­e­dade por­ta­dora do espe­tá­culo domina as regiões sub­de­sen­vol­vi­das pela hege­mo­nia econô­mica e como soci­e­dade do espe­tá­culo (tese 57). Tal domi­na­ção passa pela recon­cei­tu­a­ção mone­tá­ria, por­que o espe­tá­culo é a outra face do dinheiro: é o dinheiro que ape­nas se olha (tese 49). E mais, ainda, é o dinheiro que se torna sujeito. A ver­são reli­gi­osa dessa tese teria sua mais explí­cita expres­são na cha­mada teo­lo­gia da pros­pe­ri­dade, que, por meio de tes­te­mu­nhos enfá­ti­cos de fiéis-consumidores ple­na­mente satis­fei­tos com o pro­duto de sua fé, “mos­tra” o sucesso de alguns enquanto a mai­o­ria per­ma­nece ape­nas espec­ta­dora. Tais tes­te­mu­nhos se cons­ti­tuem em figu­ras mode­la­res que se apre­sen­tam como prova de que o pro­duto anun­ci­ado dá resultado.

Por­que toda rea­li­dade tornou-se apa­rên­cia (tese 50), a soci­e­dade do espe­tá­culo, para manter-se, pre­cisa fabri­car inin­ter­rup­ta­mente pseu­do­ne­ces­si­da­des (tese 51). Ora, a soci­e­dade depende da eco­no­mia que depende da soci­e­dade (tese 52). Assim, na soci­e­dade do espe­tá­culo, a mer­ca­do­ria con­tem­pla a si mesma (tese 53), pois pre­cisa cons­tan­te­mente se auto-alimentar.

Acon­tece que o pres­tí­gio do objeto reve­lado torna-se vul­gar ao ser adqui­rido (tese 69), por­que o encanto des­ses obje­tos está prin­ci­pal­mente enquanto se mos­tra como ele­mento espe­ta­cu­lar, mas, uma vez des­lo­cado de sob os holo­fo­tes espe­ta­cu­la­res, tais obje­tos são ofus­ca­dos pela rea­li­dade sem graça. Esse desen­canto deve ser con­pen­sado ime­di­a­ta­mente com um novo encan­ta­mento. Assim, cada nova men­tira da publi­ci­dade é uma con­fis­são da men­tira ante­rior (tese 70). Daí que o per­pé­tuo do espe­tá­culo é a mudança (tese 71). A mer­ca­do­ria pre­cisa dar lugar à mercadoria.

A ver­são reli­gi­osa desse cír­culo vici­oso se faz notar nas “novi­da­des espi­ri­tu­ais” que sur­gem e desa­pa­re­cem com a mesma rapi­dez, ofe­re­cendo sem­pre alguma novi­dade “espi­ri­tu­al­mente impres­cin­dí­vel” nas para­das de sucesso da fé. Tais novi­da­des se suce­dem ver­ti­gi­no­sa­mente e, por maior que seja o impacto que cau­sem, logo são subs­ti­tuí­das por outras novi­da­des igual­mente impac­tan­tes e olvi­dá­veis. Como con­seqüên­cia, a soci­e­dade é domi­nada pela bana­li­za­ção (tese 59). E a maior de todas as bana­li­za­ções é a do pró­prio ser humano. Ao dar-se como espe­tá­culo, ocorre a coi­si­fi­ca­ção do humano e, por con­se­guinte, a sua bana­li­za­ção – uma vez que já não é mais fim, e sim meio[38]. O homem vivo bana­li­zado é a vedete do espe­tá­culo (tese 60). Vale res­sal­tar o uso do termo vedete por Debord. Vedete é aquela pes­soa que é colo­cada em evi­dên­cia, isto é, para ser vista. Entre­tanto, para o autor, a vedete é o oposto do indi­ví­duo (tese 61). O ser humano, ao dar-se em espe­tá­culo ao mundo, banaliza-se. Cam­pos comenta o “vede­tismo pas­to­ral” no con­texto neo­pen­te­cos­tal, mas fazendo uma dis­tin­ção entre os pastores-estrelas da igreja ele­trô­nica norte-americana e os pas­to­res da Igreja Uni­ver­sal do Reino de Deus que, por meca­nis­mos ado­ta­dos pela estru­tura ecle­siás­tica, impe­dem a “per­so­ni­fi­ca­ção do carisma”, reser­vando esse estre­lato para o seu líder maior — com isso, a igreja pre­tende “impe­dir estra­gos divi­si­o­nis­tas”[39]. Isso acon­tece tam­bém com outras deno­mi­na­ções. De qual­quer forma, mesmo que res­trin­gindo o estre­lato ao prin­ci­pal expo­ente da deno­mi­na­ção, o fas­cí­nio pela estrela está pre­sente, ainda, no vede­tismo exclu­sivo de um astro maior.

A abun­dân­cia espe­ta­cu­lar leva à falsa esco­lha, e à dis­puta, entre espe­tá­cu­los con­cor­ren­tes (tese 62). Compare-se com a abun­dân­cia de ofer­tas de espe­tá­cu­los reli­gi­o­sos con­cor­ren­tes, e, por isso mesmo, banais.

Na esfera reli­gi­osa, toda trans­for­ma­ção e novi­dade apresentam-se como expres­são do mer­cado. Magali Cunha, estu­di­osa da cul­tura gos­pel — que é a cul­tura carac­te­rís­tica de grande parte da reli­gião da mídia — afirma que “é o mer­cado que está dando forma ao novo modo de ser evan­gé­lico por­que tudo o mais está con­ser­vado”[40]. A mul­ti­pli­ci­dade, e con­cor­rên­cia, a dis­puta, inclu­sive do mer­cado reli­gi­oso, são ape­nas apa­ren­te­mente expres­sões de dis­cor­dân­cias, por­que essen­ci­al­mente curvam-se diante do mesmo deus-mercado. De fato, as opo­si­ções espe­ta­cu­la­res escon­dem a uni­dade da misé­ria (tese 63). Isto é, o entu­si­asmo espe­ta­cu­lar é a efu­são reli­gi­osa diante da sobe­rana mer­ca­do­ria (tese 67).

No que tange à reli­gião em geral, dá-se um pro­cesso de legi­ti­ma­ção mútua entre mer­cado e reli­gião. À medida que a reli­gião se insere na eco­no­mia de mer­cado, aquela fica legi­ti­mada por esta; e, o inverso tam­bém acon­tece, pois na medida em que o mer­cado se incor­pora ao espí­rito reli­gi­oso, aquele fica legi­ti­mado pela reli­gião. Há uma expec­ta­tiva de retorno, de com­pen­sa­ção de ambas as par­tes envol­vi­das. Como afir­mam Patri­ota e Turton,

Quando atra­vés dos ser­mões se desen­ca­deia um pro­cesso de con­cep­ção e legi­ti­ma­ção do dis­curso tele­vi­sivo, obser­va­mos a cons­tru­ção de um falar que obje­tiva esta­be­le­cer com o sagrado uma troca na forma mer­ca­do­ria e cuja rela­ção com o mesmo se firma atra­vés da pos­si­bi­li­dade de um retorno ime­di­ato. [41]

De certa forma, pode-se afir­mar que a ide­o­lo­gia da religião-mercadoria é sus­ten­tada e pro­mo­vida por uma homi­lé­tica (um dis­curso) arti­cu­lada segundo os prin­cí­pios e valo­res da soci­e­dade espe­ta­cu­lar que, por sua vez, é cul­men et fons da eco­no­mia de mer­cado glo­ba­li­zada.[42] Essa homi­lé­tica tende a tra­tar sua men­sa­gem como produto-mercadoria, e seus inter­lo­cu­to­res como con­su­mi­do­res do seu dis­curso. O tele­pre­ga­dor, por sua vez, recebe o tra­ta­mento de vedete, dei­xando de ser um sujeito da comu­ni­ca­ção, para tornar-se um feti­che a ser­viço do pro­cesso de assi­mi­la­ção dos cre­dos incon­tes­tes e roti­nei­ros das ciên­cia econômicas.

5 O eterno presente

Segundo Debord, com a vitó­ria da bur­gue­sia, tudo o que era abso­luto torna-se his­tó­rico (tese 73), isto é, está con­fi­nado ao pas­sado e já não tem inge­rên­cia no pre­sente. Nesse con­texto, o pen­sa­mento da his­tó­ria só pode ser salvo ao se tor­nar pen­sa­mento prá­tico (tese 78). Ou seja, que de alguma forma, resulte em algum tipo de lucro. Debord demons­tra que as bases soci­o­po­lí­ti­cas do espe­tá­culo moderno se assen­tam no bona­par­tismo, que pre­ten­dia a fusão do capi­tal e do Estado, pela qual a bur­gue­sia desiste de toda vida his­tó­rica que não seja sua redu­ção à his­tó­ria econô­mica (tese 87). A his­tó­ria torna-se, assim, ele­mento a ser­viço dos pro­pó­si­tos do pre­sente, e somente quando o favo­rece é evocada.

Por essa razão, a soci­e­dade espe­ta­cu­la­ri­zada entende que a his­tó­ria pre­cisa ser per­ma­nen­te­mente revista, rees­crita, e mais freqüen­te­mente ainda, esque­cida, a exem­plo do que acon­te­cia nos regi­mes tota­li­tá­rios do Leste Euro­peu. A classe ideológico-totalitária no poder[43] é o poder de um mundo inver­tido: quanto mais forte ela é, mais afirma que não existe. A orga­ni­za­ção social da men­tira abso­luta decorre dessa con­tra­di­ção fun­da­men­tal (tese 106). Quando o conhe­ci­mento par­ce­lar torna-se men­tira tota­li­tá­ria, a pró­pria his­tó­ria não pode exis­tir. A soci­e­dade buro­crá­tica tota­li­tá­ria vive em um pre­sente per­pé­tuo (tese 108).[44] Entre­tanto, essa não é somente prer­ro­ga­tiva das soci­e­da­des tota­li­tá­rias, mas tam­bém das cha­ma­das soci­e­da­des demo­crá­ti­cas — outro nome do tota­li­ta­rismo capitalista.

Ora, o tempo da mer­ca­do­ria é um tempo des­va­lo­ri­zado (tese 147). Trata-se de um tempo con­su­mí­vel, pseu­do­cí­clico (tese 148). O tempo pseu­do­cí­clico é um tempo que foi trans­for­mado pela indús­tria (tese 151). O tempo pseu­do­cí­clico con­su­mí­vel é o tempo espe­ta­cu­lar tanto como tempo do con­sumo das ima­gens como ima­gem do con­sumo do tempo (tese 153).

Esse tempo é mar­cado pelo giro ace­le­rado de múl­ti­plas fes­ti­vi­da­des (copas, olim­pía­das, elei­ções, con­gres­sos…). A rea­li­dade do tempo foi subs­ti­tuída pela publi­ci­dade do tempo (tese 154). Um evento sucede outro evento que anun­cia o evento seguinte e assim suces­si­va­mente. O espe­tá­culo pro­move a subs­ti­tui­ção pre­ci­pi­tada de pseudo-acontecimentos (tese 157).  Isto se dá medi­ante a expro­pri­a­ção vio­lenta do tempo dos tra­ba­lha­do­res (tese 159). As modas apa­ren­tes se anu­lam e se recom­põem na super­fí­cie fútil do tempo pseu­do­cí­clico (tese 162). A fun­ção do espe­tá­culo é fazer esque­cer a his­tó­ria na cul­tura, por isso aplica a estra­té­gia da pseu­do­no­vi­dade (tese 192).[45]

Vive-se a ilu­são de um pre­sente eterno. Daí que, na soci­e­dade espe­ta­cu­lar, a ausên­cia social da morte é idên­tica à ausên­cia da vida (tese 161). “Imo­bi­li­zada no cen­tro fal­si­fi­cado do movi­mento de seu mundo, a cons­ci­ên­cia espec­ta­dora já não conhece em sua pró­pria vida uma pas­sa­gem para sua rea­li­za­ção e para sua morte.”[46] É proi­bido enve­lhe­cer. Só há lugar para con­su­mi­do­res, assim, só são lem­bra­das as pes­soas ido­sas com poder de com­pra — Jung Mo Sung cons­tata, inclu­sive, que a desig­na­ção moderna “ter­ceira idade”, para desig­nar a velhice é, uma fla­grante ten­ta­tiva de dizer que os que se enqua­dram nessa cate­go­ria não são como os demais ido­sos, mas, sim, um pro­mis­sor nicho de mer­cado.[47] Por­tanto, todo indi­ví­duo deve man­ter um “capital-juventude” se qui­ser ser incluído nessa sociedade.

6 O espaço banalizado

A con­cep­ção do tempo sem­pre está ligada à noção de espaço. Ao escre­ver sobre a his­tó­ria do espaço, Mar­ga­reth Wertheim sus­tenta que “nos­sos esque­mas espa­ci­ais são não ape­nas cul­tu­ral­mente con­tin­gen­tes, como [também] historicamente con­tin­gen­tes” e, evo­cando Durkheim, relem­bra que “as con­cep­ções de espaço das dife­ren­tes soci­e­da­des sem­pre refle­tem a orga­ni­za­ção social de suas comu­ni­da­des”[48]. Ora, na pre­sente soci­e­dade os luga­res reais[49] são maqui­a­dos para que se enqua­drem no espaço espe­ta­cu­lar. Logo, o resul­tado disso é que a moder­ni­za­ção reti­rou a rea­li­dade do espaço — para Debord, o turismo, por exem­plo, é o lazer de ir ver o que se tor­nou banal (tese 168).

Há, pois, uma cul­tura do mas­ca­ra­mento de tal mag­ni­tude que o capi­ta­lismo uni­fi­cou o espaço bana­li­zado (tese 165) virtualizando-o. A dis­tân­cia geo­grá­fica dá lugar à sepa­ra­ção espe­ta­cu­lar (tese 167), isto é, o iso­la­mento ou a pro­xi­mi­dade já não são uma ques­tão ligada à topo­gra­fia ou aos meios de trans­por­tes, mas depen­dem do acesso às tec­no­lo­gias e aos canais da comu­ni­ca­ção a dis­tân­cia. Em lugar da pro­xi­mi­dade real, configura-se, então, uma pro­xi­mi­dade vir­tual, por um lado, e, provavelmente com maior freqüên­cia ainda, um dis­tan­ci­a­mento ral.

Na prática, a pro­xi­mi­dade vir­tual engen­dra um real iso­la­mento, prin­ci­pal­mente nas gran­des cida­des. A urba­ni­dade se con­ver­teu em cená­rio capi­ta­lista (teses 169 – 172) que resul­tou no movi­mento geral do iso­la­mento. Nunca houve tan­tas pes­soas jun­tas, pró­xi­mas geo­gra­fi­ca­mente, e ao mesmo tempo tão dis­tan­tes afe­ti­va­mente e tão pri­va­das de uma pro­xi­mi­dade real que vá além da repre­sen­ta­ção e da apa­rên­cia.[50]

Mui­tos espa­ços de con­vi­vên­cia real foram supri­mi­dos nesse pro­cesso. Debord refere-se, por exem­plo, à “supres­são da rua” como espaço real de encon­tro e das rela­ções soci­ais. Mar­ga­reth Wertheim, como outros estu­di­o­sos to tema, men­ci­ona o papel dos cafés que, desde muito antes da publi­ca­ção dos pri­mei­ros jor­nais, no século XVI, haviam se tor­nado locais por exce­lên­cia para a “dis­se­mi­na­ção pública de notí­cias” e de entrega de cor­res­pon­dên­cias. Um papel bem pare­cido ao da Inter­net hoje, que che­gou a ser sau­dada por mui­tos como sendo a “reen­car­na­ções da ágora clás­sica”. Até certo ponto, a Inter­net se esta­be­lece como um expe­ri­mento social utó­pico que, final­mente, pos­si­bi­lita as sonha­das rei­vin­di­ca­ções revo­lu­ci­o­ná­rias: “liber­dade de imprensa, liber­dade de asso­ci­a­ção e reu­nião, liber­dade de expres­são”. Entre­tanto, como ocor­rera com os cafés, deu-se “o res­ta­be­le­ci­mento da auto­ri­dade”, isto é, o esta­be­le­ci­mento de rela­ções assi­mé­tri­cas de poder tam­bém no uni­verso vir­tual, bem como “a ins­ti­tui­ção da exclu­si­vi­dade”, que res­tringe cer­tos aces­sos a uns pou­cos VIPS (very impor­tant peo­ple tam­bém se impõem no cibe­res­paço). Pois este (o espaço vir­tual) se cons­ti­tui ainda num espaço res­trito àque­les cujas con­di­ções econô­mi­cas pri­vi­le­gi­a­das pos­si­bi­li­tam o acesso à tec­no­lo­gia, e aos equi­pa­men­tos neces­sá­rios, aos sítios res­tri­tos, aces­sí­veis ape­nas aos que podem pagar.[51] Dá-se o que Thomp­son chama de “refeu­da­li­za­ção da esfera pública”[52].

Pode-se ver um para­lelo no aspecto reli­gi­oso, pelo menos no que diz res­peito à supres­são da paró­quia como ins­tân­cia de vivên­cia da fé em comu­ni­dade. Surge em seu lugar uma comu­ni­dade pseudo-sagrada, espa­ci­al­mente sepa­rada pela ali­e­na­ção vir­tual. O acesso a essa nova comu­ni­dade só se dá medi­ante o uso de equi­pa­men­tos tec­no­lo­gi­ca­mente avan­ça­dos, prin­ci­pal­mente dos apa­re­lhos de TV e rádio e dos com­pu­ta­do­res. Alguns dos fiéis VIPS podem ter acesso a mate­rial res­trito tornando-se cli­en­tes pre­fe­ren­ci­ais de sítios ele­trô­ni­cos. O mesmo acon­tece em rala­ção à pro­gra­ma­ção reli­gi­osa exclu­siva medi­ante assi­na­tura de ser­viço de TV por cabo. A pró­pria comu­ni­dade ecle­sial é maqui­ada para assemelhar-se à vir­tual: luzes e refle­to­res, cená­rios e figu­ri­nos, equi­pa­men­tos ele­trô­ni­cos tais como telões, pro­je­to­res, modu­la­do­res acús­ti­cos sofis­ti­ca­dos, tornam-se cada vez mais freqüen­tes e comuns nas comu­ni­da­des reais, “ins­pi­ra­das” pelas potes­ta­des vir­tu­ais. Final­mente, note-se a dis­se­mi­na­ção do “turismo reli­gi­oso” que pro­move excur­sões a luga­res sagra­dos (devi­da­mente maqui­a­dos para pare­cer assim), moni­to­ra­das por espe­ci­a­lis­tas da fé — prá­tica encon­trada entre cató­li­cos e pro­tes­tan­tes, tanto his­tó­ri­cos como pen­te­cos­tais ou neo­pen­te­cos­tais. A Igreja Uni­ver­sal do Reino de Deus ofe­rece para os que não têm recur­sos reais para o turismo “real”, a opor­tu­ni­dade de fazer um tour vir­tual, pelo qual, jun­ta­mente com uma mul­ti­dão de espec­ta­do­res, pode-se assis­tir às ima­gens do lugar visi­tado por uns pou­cos VIPS e ainda ouvir o relato-testemunho dos que efe­ti­va­mente esti­ve­ram lá.[53]

Final­mente, não se pode igno­rar a trans­for­ma­ção espa­cial dos luga­res de culto leva­dos a efeito sob a influên­cia da ide­o­lo­gia do espe­tá­culo: a remo­de­la­ção dos tra­di­ci­o­nais tem­plos é para se pare­ce­rem mais com casas de show do que com san­tuá­rios. Não raro, para se esta­be­le­ce­rem, gru­pos reli­gi­o­sos pre­fe­rem, em lugar de cons­truir tem­plos, adqui­rir velhas casas de espe­tá­culo, como tea­tros e salas de cinema. Como outros auto­res já haviam obser­vado, a reforma arqui­tetô­nica pro­mo­vida pela reli­gião espe­ta­cu­lar trans­for­mou em palco o espaço outrora reser­vado para o velho púl­pito, que, em fun­ção da ênfase raci­o­na­lista dos refor­ma­do­res, por sua vez, ocu­para o lugar do altar.[54]

7 A dita­dura da ilusão

A soci­e­dade do espe­tá­culo é a ide­o­lo­gia mate­ri­a­li­zada, segundo Debord, e, por com­pa­ra­ção, conclui-se que a reli­gião espe­ta­cu­lar é a teo­lo­gia mate­ri­a­li­zada a ser­viço dessa ide­o­lo­gia. Por­que “a ide­o­lo­gia é a base do pen­sa­mento de uma soci­e­dade de clas­ses, no curso con­fli­tante da his­tó­ria”[55] (tese 212). Os fatos ide­o­ló­gi­cos são a cons­ci­ên­cia defor­mada das rea­li­da­des bem como sobre elas exer­cem sua ação defor­mante[56]. Ao mate­ri­a­li­zar a ide­o­lo­gia, o espe­tá­culo converte-se na ide­o­lo­gia por exce­lên­cia (tese 215).

Com a vitó­ria da abs­tra­ção uni­ver­sal e da dita­dura da ilu­são, a his­tó­ria das ide­o­lo­gias aca­bou (tese 213). A ide­o­lo­gia total está rea­li­zada no espe­tá­culo da não his­tó­ria (tese 214), pois se pro­cessa do outro lado do espe­lho, do outro lado da tela, no palco da repre­sen­ta­ção e não na con­tin­gên­cia do cotidiano.

Por isso mesmo, essa ide­o­lo­gia se mos­tra esqui­zo­frê­nica: pela desin­ser­ção da prá­xis (tese 217). Pois a cons­ci­ên­cia espec­ta­dora só conhece inter­lo­cu­to­res fic­tí­cios (tese 218). Já não há mais a pos­si­bi­li­dade de inte­ra­ção com o real, pois até este, se ainda hou­ver, tende a ser defor­mado pela ideologia-espetáculo.

Essa desin­ser­ção da prá­xis se reflete numa expe­ri­ên­cia reli­gi­osa con­tem­pla­tiva, na qual o fiel-espectador inte­rage, a dis­tân­cia, com inter­lo­cu­to­res igual­mente fic­tí­cios. O resul­tado é a subli­ma­ção de uma fé que se rea­liza pela pro­je­ção cré­dula em per­so­na­gens e cená­rios que são simu­la­cros da pró­pria expe­ri­ên­cia religiosa.

8 O espe­ta­cu­lar integrado

Em 1988, Debord escreve seus Comen­tá­rios sobre a soci­e­dade do espe­tá­culo nos quais retoma, seu texto de 1997, cujo con­teúdo revo­lu­ci­o­ná­rio pro­vo­cou, naquela oca­sião, rea­ções e acu­sa­ções de que Debord teria inven­tado e exa­ge­rado ao ava­liar a pro­fun­di­dade do sig­ni­fi­cado do espe­tá­culo e de sua ação real na soci­e­dade. O que ocor­reu é que, em lugar de con­tra­di­zer suas teses, esse lapso de vinte anos ser­viu para con­fir­mar e ainda para demons­trar que o espe­tá­culo tornou-se ainda mais pode­roso do que antes.

Nas pala­vras de Debord, “a mudança de maior impor­tân­cia, em tudo o que acon­te­ceu há vinte anos, reside na pró­pria con­ti­nui­dade do espe­tá­culo” e essa impor­tân­cia decorre “do fato de a domi­na­ção espe­ta­cu­lar ter podido edu­car uma gera­ção sub­missa a [sic.] suas leis”[57].

Curi­o­sa­mente, o poder do espe­tá­culo é des­pó­tico e tende a indignar-se “quando vê constituir-se, sob seu reino, uma política-espetáculo, uma justiça-espetáculo, uma medicina-espetáculo, [uma religião-espetáculo] ou outros tan­tos sur­pre­en­den­tes ‘exces­sos midiá­ti­cos’”[58]. Não raro, vê-se uma bizarra “pseudo-autocrítica” espe­ta­cu­lar quando ins­tân­cias do pró­prio uni­verso espe­ta­cu­lar repre­sen­tam sua indig­na­ção diante da tea­tra­li­za­ção de polí­ti­cos, magis­tra­dos, cien­tis­tas, reli­gi­o­sos, etc. — todos estes, filhos bas­tar­dos dos mes­mos pais, ou vas­sa­los do mesmo suse­rano. É por isso que Debord define: “O espe­tá­culo nada mais seria que o exa­gero da mídia”.[59]

Há três for­mas de poder espe­ta­cu­lar, para Debord, sob os quais a moder­ni­dade se curva: a forma con­cen­trada, a difusa e a do espe­ta­cu­lar inte­grado. A pri­meira forma des­taca a ide­o­lo­gia con­cen­trada em torno de uma per­so­na­li­dade dita­to­rial, seja nazista ou sta­li­nista. A segunda repre­senta a ame­ri­ca­ni­za­ção do mundo, por ins­ti­gar os assa­la­ri­a­dos a esco­lhe­rem livre­mente entre grande vari­e­dade de mer­ca­do­rias novas. A ter­ceira forma, a do espe­ta­cu­lar inte­grado, constitui-se pela com­bi­na­ção das duas ante­ri­o­res, e na base de uma vitó­ria da que se mos­trou mais forte, mais difusa, cuja ten­dên­cia é impor-se mun­di­al­mente.[60] Isso porque

O sen­tido final do espe­ta­cu­lar inte­grado é o fato de ele se ter inte­grado na pró­pria rea­li­dade à medida que falava dela e de tê-la recons­truído ao falar sobre ela. […] Quando o espe­ta­cu­lar era con­cen­trado, a maior parte da soci­e­dade peri­fé­rica lhe esca­pava; quando era difuso, uma pequena parte; hoje, nada lhe escapa. O espe­tá­culo confundiu-se com toda a rea­li­dade, ao irradiá-la.[61]

Cinco aspec­tos carac­te­ri­zam a forma de poder do espe­ta­cu­lar inte­grado, do qual difi­cil­mente se escapa: pri­meiro, o movi­mento de ino­va­ção tec­no­ló­gica; segundo, a fusão econômico-estatal; ter­ceiro, o segredo gene­ra­li­zado que se man­tém por trás do espe­tá­culo e que gera a depen­dên­cia dos “espe­ci­a­lis­tas”; quarto, a men­tira sem con­tes­ta­ção que con­su­mou o desa­pa­re­ci­mento da opi­nião pública (a ver­dade dei­xou de exis­tir ou ficou redu­zida a uma hipó­tese que nunca será demons­trada); e quinto, a cons­tru­ção de um pre­sente que quer esque­cer o pas­sado e dá a impres­são de já não acre­di­tar no futuro, resul­tante da cir­cu­la­ção inces­sante da infor­ma­ção que a cada ins­tante retorna aos mes­mos temas.[62]

A domi­na­ção espe­ta­cu­lar pre­tende o desa­pa­re­ci­mento do conhe­ci­mento his­tó­rico geral: “o espe­tá­culo orga­niza com habi­li­dade a igno­rân­cia do que acon­tece e, logo a seguir, o esque­ci­mento do que, ape­sar de tudo, con­se­guiu ser conhe­cido. O mais impor­tante é o mais oculto”, pois “quem vende a novi­dade tem todo o inte­resse em fazer desa­pa­re­cer o meio de aferi-la”[63]. O resul­tado é, mais uma vez, a mar­gi­na­li­za­ção da his­tó­ria.

Paulo Freire reflete sobre esse pro­cesso, para­le­la­mente, no campo da edu­ca­ção. A isso Freire chama de “edu­ca­ção ban­cá­ria”, cujo obje­tivo é domes­ti­car para a igno­rân­cia.[64]

Por essa razão, a domi­na­ção espe­ta­cu­lar pre­cisa de “espe­ci­a­lis­tas” para preservar-se. “Todos os espe­ci­a­lis­tas são midiático-estatais” e “o espe­ci­a­lista que mais bem serve é, evi­den­te­mente, aquele que mente. Ora, quem tem neces­si­dade do espe­ci­a­lista, por moti­vos diver­sos, são o fal­si­fi­ca­dor e o igno­rante”[65]. As fal­si­fi­ca­ções são neces­sá­rias para tor­nar as infor­ma­ções maleá­veis e cor­ri­gí­veis “pois uma evi­dên­cia his­tó­rica que não inte­ressa ao espe­tá­culo não é uma evi­dên­cia”[66]. Para a soci­e­dade espe­ta­cu­lar, é per­mi­tido mudar todo o pas­sado, a auto­ri­dade espe­ta­cu­lar tam­bém pode negar qual­quer coisa, uma vez, três vezes, pois sabe que não está sujeita a réplica. Nova­mente, aquilo de que o espe­tá­culo deixa de vei­cu­lar é como se não exis­tisse. O resul­tado é que “nunca se pôde men­tir com tão per­feita ausên­cia de con­seqüên­cias” pois “o que nunca é punido torna-se per­mi­tido”[67].

As mani­fes­ta­ções con­trá­rias ou crí­ti­cas a essa soci­e­dade são raras, pois “em toda parte onde reina o espe­tá­culo, as únicas for­ças orga­ni­za­das são as que que­rem o espe­tá­culo”[68]. A rea­li­dade agora é o espetáculo.

9 A ima­gem é tudo

Ora, se os argu­men­tos se tor­na­ram inú­teis, isso não quer dizer que não haja per­su­a­são efe­tiva. Não, entre­tanto pela via lógica, mas pela via imagético-psicológica. Pois, “busca-se a dis­so­lu­ção da lógica, de acordo com os inte­res­ses fun­da­men­tais do novo sis­tema de domi­na­ção”[69].

A per­su­a­são espe­ta­cu­lar ali­e­nante se dá, prin­ci­pal­mente, pelo uso que faz da ima­gem (do latim, imago, conexo com o grego eikón, de onde deriva “ícone”). A inte­ra­ção, a apro­pri­a­ção e o con­tato não se dão com o mundo, mas com seus ícones — por defi­ni­ção de dici­o­ná­rio, ícone tem o sen­tido pri­mi­tivo de “repre­sen­ta­ção de per­so­na­gem ou cena sagrada”[70]. O mundo real é dema­si­ado pro­fano, tem­po­ral, secu­lar. Mas sua ima­gem torna-se sagrada ou, pelo menos, peseudo-sagrada. A ten­dên­cia é a da ado­ra­ção do ícone e não da cena que retrata. E isso tam­bém é ali­e­na­ção. Ora, como obser­vou Cara­vias, “um homem ali­e­nado é um ado­ra­dor de ídolos, já que se empo­brece trans­fe­rindo seus pode­res de vida a coi­sas que estão fora dele”[71].

Surge, então, uma impor­tante ques­tão: quem fabrica essa ico­no­gra­fia? Rara­mente as ima­gens são pro­du­zi­das por seus pró­prios admi­ra­do­res. Em geral, “a ima­gem é cons­truída e esco­lhida por outra pes­soa que se tor­nou a prin­ci­pal liga­ção do indi­ví­duo com o mundo”[72]. A ima­gem rece­bida pelo espec­ta­dor lhe chega pronta: esco­lhida, edi­tada e for­ma­tada sem a sua par­ti­ci­pa­ção. É curi­oso que, mesmo assim, a ima­gem se tor­nou a sus­ten­ta­ção de tudo.

Por não ter como refe­ren­cial o plano da lógica, ela com­porta as con­tra­di­ções do uni­verso espe­ta­cu­lar — “pois den­tro de uma ima­gem é pos­sí­vel jus­ta­por sem con­tra­di­ção qual­quer coisa”[73]. A ima­gem solu­ci­ona o pro­blema das con­tra­di­ções e faci­lita a dis­so­lu­ção das ten­sões lógi­cas. “O dis­curso espe­ta­cu­lar faz calar”, por­tanto, “tudo o que não lhe con­vém”[74]. Uma vez que “a lógica só se forma soci­al­mente pelo diá­logo”[75], o dis­curso espe­ta­cu­lar é “iló­gico”, ou pelo menos não-lógico, e “como já nin­guém pode contradizê-lo, o espe­tá­culo tem o direito de con­tra­di­zer a si mesmo”, inclu­sive “de reti­fi­car seu pas­sado”[76].

Fazendo calar, o espe­tá­culo liquida com o diá­logo.[77] Debord refere-se ao fato de que a pró­pria con­ver­sa­ção “já está quase extinta”. Além da falên­cia do diá­logo, faz uma alu­são irô­nica ao aban­dono da lei­tura pela soci­e­dade espe­ta­cu­lar. A lei­tura seria “a única capaz de dar acesso à vasta expe­ri­ên­cia humana anti­es­pe­ta­cu­lar”[78]. E sen­ten­cia: “em breve tam­bém esta­rão mor­tos mui­tos dos que sabiam falar”, isso por­que “o dis­curso apre­sen­tado no espe­tá­culo não deixa espaço para res­posta”[79].

Trata-se de um empo­bre­ci­mento e de uma sub­ju­ga­ção ide­o­ló­gica do mundo, pois “o aumento na quan­ti­dade das ima­gens levou à dimi­nui­ção de sua qua­li­dade[80]; e “o indi­ví­duo que foi mar­cado pelo pen­sa­mento espe­ta­cu­lar empo­bre­cido […] coloca-se de ante­mão a ser­viço da ordem esta­be­le­cida, embora sua inten­ção sub­je­tiva possa ser o oposto disso”[81]. O espe­tá­culo passa a ser a única lin­gua­gem conhe­cida. O indi­ví­duo “pode que­rer repu­diar essa retó­rica, mas vai usar a sin­taxe dessa lin­gua­gem”[82]. Em uma pala­vra, o supe­rá­vit do simu­la­cro (bens sim­bó­li­cos) implica no défi­cit do real.

Além do empo­bre­ci­mento e da sujei­ção, dá-se “a supres­são da per­so­na­li­dade” pois esta “acom­pa­nha […] as con­di­ções da exis­tên­cia sub­me­tida às nor­mas espe­ta­cu­la­res”[83]. Tais con­di­ções estão rela­ci­o­na­das ao afas­ta­mento da pos­si­bi­li­dade de expe­ri­ên­cias autên­ti­cas. Além disso, essa exis­tên­cia exige “uma série de ade­sões cons­tan­te­mente decep­ci­o­nan­tes a pro­du­tos ilu­só­rios”[84]. Para sub­sis­tir a essa rea­li­dade, as únicas manei­ras seriam, segundo Debord, recor­rer às dro­gas, para conformar-se a ela, ou à lou­cura, para evitá-la.

Infere-se, daí, que uma reli­gião espe­ta­cu­lar está mar­cada igual­mente pelo empo­bre­ci­mento lógico e dia­ló­gico, pela sujei­ção ide­o­ló­gica e pela anu­la­ção psi­co­ló­gica. A reli­gião tornou-se refém do espe­tá­culo ao incorporar-se a ele, ou ao ser incor­po­rado por ele. O que resta dela é sua mera repre­sen­ta­ção. A uma tal reli­gião — a dos sinais/ícones depre­ci­a­dos da vida que sem­pre se con­tra­diz — só se pode ade­rir medi­ante a seda­ção (não con­fun­dir com sedu­ção) ou o enlou­que­ci­mento: uma reli­gião “ópio do povo” — aquela tão cri­ti­cada por Karl Marx.[85]

10 A “máfia” do espetáculo

Recorrer-se-á, aqui, à idéia de cari­ca­tura que, medi­ante a obser­va­ção e inves­ti­ga­ção indi­ciá­ria, será útil na per­cep­ção dos tra­ços mais acen­tu­a­dos, mas tan­tas vezes des­per­ce­bi­dos, da soci­e­dade moderna.[86] Não se trata de retratá-la tal como é, mas de acen­tuar os ele­men­tos que mais defi­nem o seu espí­rito. Con­quanto um tanto radi­cal, a carac­te­ri­za­ção de Debord ajuda a iden­ti­fi­car as prin­ci­pais carac­te­rís­ti­cas dessa soci­e­dade — jus­ta­mente aque­las que a dis­tin­gue das soci­e­da­des de outros tempos.

Debord ofe­rece um “retrato da soci­e­dade do espe­tá­culo”[87], cujos prin­ci­pais tra­ços são muito pró­xi­mos aos da Máfia ita­li­ana, quais sejam: a falá­cia, que reúne as carac­te­rís­ti­cas do impos­tor, do sedu­tor, do insi­di­oso e do cap­ci­oso; a desin­for­ma­ção, enten­dida como “o mau uso da ver­dade”[88], a ser­viço do poder para man­ter o que está esta­be­le­cido e impos­si­bi­li­tar qual­quer tipo de veri­fi­ca­ção; a fal­si­fi­ca­ção, pela qual “o arti­fi­cial tende a subs­ti­tuir o autên­tico”[89]; o segredo, isto é, a incer­teza orga­ni­zada em toda a parte que pro­move a depen­dên­cia de espe­ci­a­lis­tas que, por sua vez, estão a ser­viço do sis­tema; a mer­ca­do­ria que pode ser com­prada e ven­dida, a que tudo e todos foram redu­zi­dos; o saber-poder, pelo qual o saber deve tornar-se poder; a cons­ti­tui­ção de redes de influên­cia, promoção-controle, de vigilância-desinformação, no ver­da­deiro espí­rito da máfia sici­li­ana que cos­tuma dizer: “Quando se tem dinheiro e ami­gos, pode-se rir da jus­tiça”[90]; a lou­cura assu­mida que per­mite falar das lou­cu­ras de maneira igual­mente louca sem que isso cause hor­ror ou sur­presa; e, final­mente, a sabo­ta­gem, pela qual “cada ser­viço de segu­rança de uma indús­tria par­ti­cu­lar com­bate a sabo­ta­gem em seu recinto e, se puder, orga­niza essa sabo­ta­gem na casa do con­cor­rente”[91].

Falá­cia, desin­for­ma­ção, fal­si­fi­ca­ção, segredo, mer­ca­do­ria, saber-poder, redes de influên­cia, promoção-controle, vigilância-desinformação, lou­cura e sabo­ta­gem, são, por­tanto, os aspec­tos que real­çam o per­fil da soci­e­dade con­tem­po­râ­nea. Não parece, de fato, uma silhu­eta que natu­ral­mente se coa­du­na­ria com a ética e o cará­ter da fé reli­gi­osa em geral, caso a lógica ainda tivesse alguma inge­rên­cia nesse pro­cesso. Não obs­tante, como parte do sis­tema, não resta alter­na­tiva, nem mesmo à reli­gião, a não ser jogar o jogo do espe­tá­culo den­tro das regras que lhe são pró­prias. A even­tual infra­ção a essas regras resulta na expul­são sumá­ria do cer­tame espetacular.

* * *


[1]     DEBORD, Guy. La Société du Spec­ta­cle. Paris: Éditi­ons Buchet-Chastel. 1967. (Tra­du­zido para o por­tu­guês pela Con­tra­ponto em 1997: DEBORD, Guy. A soci­e­dade do espe­tá­culo. Trad. Estela dos San­tos Abreu. Rio de Janeiro: Con­tra­ponto, 1997. 237 p.

[2]     Para uma dis­cus­são sobre a moder­ni­dade e a pós-modernidade em rela­ção aos meios de comu­ni­ca­ção, ver THOMPSON, John B. A mídia e a moder­ni­dade: uma teo­ria social da mídia. 2 ed. Petró­po­lis: Vozes, 1999. 261 p.

[3]     Trata-se do Pre­fá­cio à 4ª. Edi­ção ita­li­ana de A soci­e­dade do espe­tá­culo, lan­çada pelas Edi­to­ras Val­lec­chi, de Flo­rença e Champ Libre, de Paris; e o livro DEBORD, Guy. Com­men­tai­res sur la société du spec­ta­cle. Paris: Éditi­ons Férard Lebouici. 1988. Estes dois tex­tos foram incluí­dos na edi­ção bra­si­leira pre­pa­rada pela Edi­tora Con­tra­ponto e publi­cado em 1997.

[4]     DEBORD, 1997, p. 13.

[5]     Id., ibid., p. 13.

[6]     Cf. HOUAIS, Anto­nio (ed.). Dici­o­ná­rio ele­trô­nico Hou­ais da lín­gua por­tu­guesa ver­são 1.0.5a. Rio de Janeiro: Pers­pec­tiva, 2001.

[7]     Sobre “inver­ses”, prin­ci­pal­mente no con­texto da eco­no­mia, ver HINKELAMMERT, Franz. Las armas ide­o­ló­gi­cas de lamu­erte. Sala­manca: Edi­ci­o­nes Sígueme, 1978. p. 299 – 310.

[8]     DEBORD, 1997, p. 13.

[9]     Sobre o tema da visão de mundo obje­ti­vada, ver BERGER, Peter L. O dos­sel sagrado: ele­men­tos par auma teo­ria soci­o­ló­gica da reli­gião. Org. Luiz Roberto Bene­detti; trad. José Car­los Bar­cel­los. São Paulo: Pau­lus, 1985. 195 p. Col. Soci­o­lo­gia e Religião.

[10]    DEBORD, 1997, 14.

[11]    Sobre a comu­ni­ca­ção de massa como local da ide­o­lo­gia, ver THOMPSON, 1999. p. 341ss.

[12]    DEBORD, 1997, p. 14.

[13]    Id., ibid., p. 15.

[14]    Id., ibid., p. 15.

[15]    Id., ibid., p. 15.

[16]    Cf. DEBORD, 1997, p. 16.

[17]    Cp. essa idéia de Debord com a “teo­ria da rea­li­dade fabri­cada” de Boors­tin. BOORSTIN, Daniel J. The image. Mid­dle­sex: Pen­guin Books, 1962. 314p.

[18]    Cf. BERGER, 1985, 195 p.  

[19]    DEBORD, 1997, p. 206.

[20]    Id., ibid., p. 182.

[21]    Id., ibid., p. 17.

[22]    Sobre esse tema, ver CUNHA, Magali do Nas­ci­mento. “Vinho novo em odres velhos”: um olhar comu­ni­ca­ci­o­nal sobre a explo­são gos­pel no cená­rio reli­gi­oso evan­gé­lico o Bra­sil. São Paulo 2004. Tese (Dou­to­rado em Ciên­cias da Comu­ni­ca­ção). Escola de Comu­ni­ca­ção e Artes, Uni­ver­si­dade de São Paulo, São Paulo, 2004.

[23]    Vale notar que o con­ceito de sagrado na tra­di­ção judaico-cristã remete ao sen­tido ori­gi­nal do termo que indica “sepa­rado para um pro­pó­sito”. Sobre o con­ceito de sagrado, em geral, ver ELIADE, Mir­cea. Ima­gens e sím­bo­los: ensaios sobre o sim­bo­lismo mágico-religioso. São Paulo: Mar­tins Fon­tes, 1991. 178 p.

[24]    DEBORD, 1997, p. 22.

[25]    Id., ibid., p. 23.

[26]    Sobre pseu­do­ne­ces­si­da­des, ver ainda MO SUNG, Jung. Desejo, mer­cado e reli­gião. Petró­po­lis: Vozes, 1998. p. 54. Ver, tam­bém, MO SUNG, Jung. Deus numa eco­no­mia sem cora­cao: Pobreza e neo­li­be­ra­lismo:
um desa­fio a… São Paulo: Ed. Pau­li­nas, 1992. Temas de atualidade.

[27]    FERRÉS, Joan. Tele­vi­são subli­mi­nar: soci­a­li­zando atra­vés de comu­ni­ca­ções des­per­ce­bi­das. Trad. Ernani Rosa e Bea­triz A. Neves. Porto Ale­gre: Art­med, 1998. p. 88.

[28]    Cf. GORGULHO, Gil­berto; ANDERSON, Ana Flora. A Jus­tiça dos pobres: Mateus. São Paulo: Ed. Pau­li­nas, c. 1981. Cir­cu­los biblicos.

[29]    Sobre feti­chismo e eco­no­mia, ver HINKELAMMERT, Franz. Las armas ide­o­ló­gi­cas de lamu­erte. Sala­manca: Edi­ci­o­nes Sígueme, 1978. 344 p.

[30]    Pode-se, aqui, reto­mar o con­ceito de troca de bens sim­bó­li­cos, estu­dado por Pierre Bor­dieu. Cf. BOURDIEU, 1999. 361 p. Ciên­cias Soci­ais, Cole­ção Estudos.

[31]    Sobre ido­la­tria e ido­la­trias, ver CARAVIAS, Jose L. O Deus da vida e os ídolos da morte. São Paulo: Ed. Pau­li­nas, 1992. p. 72 (Cate­quese bíblica).

[32]    Os bens reais, tam­bém são bens sim­bó­li­cos, pois repre­sen­tam (e osten­tam) um estilo de vida.

[33]    Sobre isso, ver CANCLINI, Nes­tor Gar­cía. Con­su­mi­do­res e Cida­dãos: con­fli­tos mul­ti­cul­tu­rais da glo­ba­li­za­ção. 4 ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999. 266 p.

[34]    Sobre o tema da glo­ba­li­za­ção, ver GLOBALIZAR a espe­rança. Orga­ni­za­ção de Ame­rín­dia. São Paulo: Ed. Pau­li­nas, 1998. 295 p.

[35]    Cp. com SUNG, Jung Mo. Desejo, mer­cado e reli­gião. Petró­po­lis: Vozes, 1998. p. 21 – 22.

[36]    DEBORD, 1997, p. 44.

[37]    ASSMANN, Hugo; HINKELAMMERT, Franz Josef. A ido­la­tria do mer­cado: ensaio sobre ecô­no­mia e teo­lo­gia. São Paulo: Vozes, 1989. p. 126 – 127 (Teo­lo­gia e libertação).

[38]    Sobre a coi­si­fi­ca­ção do ser humano, ver KANT, Emma­nuel. Crí­tica da razão prá­tica. São Paulo: Mar­tin Cla­ret, 2004. 182 p. Obra-prima de cada autor. ISBN 85 – 7232-558 – 1. Ver, tam­bém, DUSSEL, Enri­que. Ética comu­ni­tá­ria. Petro­po­lis: Vozes, 1987. Teo­lo­gia e liber­ta­ção: a liber­ta­ção na his­tó­ria. E, ainda, BUBER, Mar­tin. Eu e tu. Trad. New­ton Aqui­les von Zuben. 2 ed. São Paulo: Cor­tez & Moraes, 1979. 170 p.

[39]    Cf. CAMPOS, Leo­nildo Sil­veira. Tea­tro, tem­plo e mer­cado: orga­ni­za­ção e mar­ke­ting de um empre­en­di­mento neo­pen­te­cos­tal. Petró­po­lis: Vozes, São Paulo: Sim­pó­sio Edi­tora, São Ber­nardo do Campo: Umesp, 1997. 502 p. 98 – 101.

[40]    CUNHA, Magali do Nas­ci­mento. “Vinho novo em odres velhos”: Um olhar comu­ni­ca­ci­o­nal sobre a explo­são gos­pel no cená­rio reli­gi­oso evan­gé­lico no Bra­sil. São Paulo, 2004. Tese (Dou­to­rado em Ciên­cias da Comu­ni­ca­ção). Escola de Comu­ni­ca­ção e Artes, Uni­ver­si­dade de São Paulo, 2004. f. 303.

[41]    PATRIOTA, Regina M. P. e TURTON, Ales­sam­dra N. (2004). Memó­ria dis­cur­siva: sen­ti­dos e sig­ni­fi­ca­ções nos dis­cur­sos reli­gi­o­sos da TV. Ciên­cias & Cog­ni­ção; Vol 01: 13 – 21. Dis­po­ní­vel em www.cienciasecognicao.org. Con­sulta em em 13.6.2005.

[42]    Sobre isso, ver tam­bém, BARRERA RIVERA, Dario Paulo. Desen­can­ta­mento e reen­can­ta­mento: soci­o­lo­gia da pre­ga­ção pro­tes­tante na Amé­rica Latina. Estu­dos da Reli­gião, ano XVI, n 23, p. 56 – 82, jul-dez, 2002. São Ber­nardo do Campo: Umesp.

[43]    Sobre as rela­ções de poder na mídia bra­si­leira, ver MELO, José Mar­ques. Para uma lei­tura crí­tica da comu­ni­ca­ção. São Paulo: Pau­li­nas, 1985. 203 p.

[44]    Debord reto­mará o tema do desa­pa­re­ci­mento do conhe­ci­mento his­tó­rico em suas notas de 1988.

[45]    Ver tam­bém as con­si­de­ra­ções de CASTELS sobre o con­ceito de tempo na soci­e­dade da infor­ma­ção, prin­ci­pal­mente as p. 486 – 488 sobre o tempo vir­tual: CASTELLS, Manuel. A soci­e­dade em rede. Trad. Roneide Venân­cio Majer. São Paulo: Paz e Terra, 1999. 617 p. ISBN 85 – 219-0329 – 4. A era da infor­ma­ção: eco­no­mia, soci­e­dade e cul­tura; v. 1.

[46]    DEBORD, 1997, p. 108.

[47]    Sobre a exclu­são das pes­soas ido­sas na soci­e­dade con­tem­po­râ­nea, ver SUNG, Jung Mo. Semen­tes de espe­rança: a fé em um mundo em crise. Petró­po­lis: Vozes, 2005. 118 p.

[48]    WERTHEIM, Mar­ga­ret. Uma his­tó­ria do espaço: de Dante à Inter­net. Trad. Maria Luiza S. de A. Bor­ges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. p. 224.

[49]    Uma inte­res­sante abor­da­gem da dimen­são espa­cial em soci­e­da­des reais pode ser encon­trada nos estu­dos do antro­pó­logo BRANDÃO, Car­los Rodri­gues. Vida par­ti­lhada. São Paulo: Geic/Cabral Edi­tora, 1995. p. 61 – 90.

[50]    Sobre o espaço vir­tual e ciber­né­tico, ver p. 268 – 269 e 381 de CASTELLS, 1999, prin­ci­pal­mente as p. 486 – 488 sobre o tempo virtual.

[51]    Cf. WERTHEIM, 2001, p. 212 – 213.

[52]    THOMPSON, John B. A mídia e a moder­ni­dade: uma teo­ria social da mídia. 2 ed. Petró­po­lis: Vozes, 1999. 261 p. 71.

[53] Cf. Página da IURD na Inter­net: http://www.igrejauniversal.org.br/.

[54]    Sobre isso, ver CAMPOS, 1997. 

[55]    DEBORD, 1997, p. 137.

[56]    Cp. ALVES, Rubem. Fé cristã e ide­o­lo­gia. Pira­ci­caba: Unimep/Metodista Pira­ci­caba, 1981.

[57]    DEBORD, 1997, p. 171 – 172.

[58]    Id., ibid., p. 171.

[59]    I DEBORD, 1997, p. 171.

[60]    Cf. Id., ibid., p. 172.

[61]    Id., ibid., p. 173.

[62]    DEBORD, 1997, p. 175 – 176.

[63]    DEBORD, 1997, p. 177 e 178.

[64]    Cf. FREIRE, Paulo. Peda­go­gia do opri­mido. 26 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. 184 p. O Mundo hoje, 21. Cp. tam­bém: FREIRE, Paulo. A impor­tân­cia do ato de ler: em três arti­gos que se com­ple­tam. 39 ed. São Paulo: Cor­tez, 2000. 87 p. Cole­ção ques­tões da nossa época, 13.2.

[65]    DEBORD, 1997, p. 179.

[66]    Id., ibid., p. 180.

[67]    Id., ibid., p. 183 – 184.

[68]    Id., ibid., p. 183.

[69]    DEBORD, 1997, p. 187.

[70]    HOUAIS, 2001.

[71]    CARAVIAS, José L. O Deus da vida e os ídolos da Morte. São Paulo: Pau­li­nas, 1992. p. 72. Cate­quese Bíblica.

[72]    DEBORD, 1997, p. 188.

[73]    Id., ibid., p. 188.

[74]    Id., ibid., p. 188.

[75]    Id., ibid., p. 189.

[76] ‘ DEBORD, 1997, p. 188.

[77]    Quem orga­niza a lin­gua­gem domes­ti­ca­dora do mundo? Sobre isso ver: FREIRE, Paulo. A peda­go­gia dos opri­mi­dos. p. 76 – 77. Ver tam­bém: GRAMSCI, Anto­nio. Os inte­lec­tu­ais e a orga­ni­za­ção da cul­tura. Trad. Car­los Nel­son Cou­ti­nho. 4 ed. Rio de Janeiro: Civi­li­za­ção Bra­si­leira, 1982. 244 p. (Cole­ção pers­pec­ti­vas do homem. Série filo­so­fia, 48).

[78]    DEBORD, 1997, p. 189.

[79]    Id., ibid., p. 189.

[80]    Cf. GABLER, Neal.  Vida, o filme: como o entre­te­ni­mento con­quis­tou a rea­li­dade. São Paulo: Com­pa­nhia das Letras, 2000. 293 p. 22.

[81]    DEBORD, 1997, p. 191.

[82]    Id., ibid., p. 191.

[83]    Id., ibid., p. 191.

[84]    Id., ibid., p. 191.

[85]    Cf. MARX, Karl, ENGELS, Fri­e­drich. A ide­o­lo­gia alemã. São Paulo: Mar­tins Fon­tes, 2001. 119 p. (Classicos).

[86]    Sobre inves­ti­ga­ção indi­ciá­ria, ver: GINZBURG, Carlo. Mitos, emble­mas, sinais: mor­fo­lo­gia e his­tó­ria. p. 143 – 206.

[87]    Cf. DEBORD, 1997, p. 200 – 237.

[88]    Id., ibid., p. 202.

[89]    Id., ibid., p. 207.

[90]    DEBORD, 1997, p. 222.

[91]    Id., ibid., p. 231.

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A soci­e­dade do espe­tá­culo e o dis­curso reli­gi­oso de Luiz Car­los Ramos é licen­ci­ado sob uma Licença Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso não-comercial-No Deri­va­tive Works 3.0 Bra­sil.


Jan 25 2010

A Prática Homilética de John Wesley

(e pos­sí­veis apro­xi­ma­ções latino-americanas)[1]

Luiz Car­los Ramos[2] 

John Wes­ley pre­gando no túmulo do seu pai

Intro­du­ção

Neste artigo pro­cu­ra­re­mos ana­li­sar a prá­tica homi­lé­tica de John Wes­ley a par­tir dos cri­té­rios que ele pró­prio usava para ava­liar os pre­ga­do­res que esta­vam sob sua super­vi­são no iní­cio do movi­mento metodista. 

A fama do pre­ga­dor John Wesley

Conta-se que Wes­ley, depois de ter pre­gado em Peasholm Greem no domingo, foi até a sede da paró­quia. O pároco, notando pelas ves­tes de Wes­ley, que se tra­tava de um clé­rigo, mesmo sem conhecê-lo, ofereceu-lhe o púl­pito. Depois do culto, o padre per­gun­tou ao ecônomo/zelador quem era aquele pre­ga­dor. “Senhor”, disse o ecô­nomo, “esse é o vaga­bundo Wes­ley, a res­peito de quem o senhor nos adver­tira.” “Ah, é… de fato!” disse o per­tur­bado rei­tor, “fomos tra­pa­ce­a­dos; mas deixa pra lá, pelo menos tive­mos um bom ser­mão”.[3] 

Em geral, Wes­ley tem a fama de ter sido um grande pre­ga­dor, mas é difí­cil che­gar a essa con­clu­são obje­ti­va­mente somente com base nos rela­tos de seus con­tem­po­râ­neos. Não fal­tam empol­ga­dos elo­gios que fazem de John Wes­ley uma nova ver­são do Após­tolo João, nem crí­ti­cos seve­ros que dizem que Wes­ley fazia um papel ridí­culo, com sua pequena esta­tura e voz esga­ni­çada… É natu­ral que não pos­sa­mos espe­rar crí­ti­cas dos admi­ra­do­res nem elo­gios dos opo­si­to­res, e é com­pre­en­sí­vel que tenha havido não pou­cos exa­ge­ros tanto da parte de uns como de outros. 

Cri­té­rios para análise

É neces­sá­rio, por­tanto, que se esta­be­le­çam alguns cri­té­rios mais isen­tos para que se possa for­mar uma idéia mais apro­pri­ada a res­peito do pre­ga­dor Rev. John Wes­ley. Uma ini­ci­a­tiva nesse sen­tido foi feita pelo his­to­ri­a­dor Richard. P. Heit­zen­ra­ter, em seu ensaio “Prin­cí­pios e Prá­ti­cas da Pre­ga­ção de John Wes­ley”, publi­cado em 1977, nas Lec­tu­res on Severl Occa­si­ons, número 1, do Cen­tro de Estu­dos Meto­dis­tas da Bibli­o­teca Bridwell. Nesse ensaio, Heit­zen­ra­ter se propôs a ana­li­sar a prá­tica de Wes­ley submetendo-a aos cri­té­rios que o pró­prio Wes­ley havia esta­be­le­cido para ava­liar os pre­ga­do­res meto­dis­tas que esta­vam sob sua lide­rança. A con­clu­são de Heit­zen­ra­ter foi a de que nem sem­pre Wes­ley cor­res­pon­deu às suas pró­prias expec­ta­ti­vas, e nem sem­pre cum­priu à risca suas pró­prias reco­men­da­ções e determinações. 

Pro­posta de abordagem

No pre­sente artigo, pro­cu­ra­re­mos fazer algo seme­lhante: com­pa­ra­re­mos a prá­tica de Wes­ley à luz dos seus prin­cí­pios homi­lé­ti­cos. Para isso, levan­ta­re­mos as mes­mas ques­tões pro­pos­tas por Heit­zen­ra­ter: No enten­di­mento e na prá­tica de Wes­ley, quem deve pre­gar, onde e para quem, quando por quanto tempo e com que freqüên­cia, bem como o que e como pregar? 

Acres­cen­ta­re­mos, entre­tanto, algu­mas con­si­de­ra­ções a res­peito das pos­sí­veis apro­xi­ma­ções da prá­tica homi­lé­tica de Wes­ley com os desa­fios pró­prios da Amé­rica Latina dos nos­sos dias. 

Prin­cí­pios de Wesley

Come­ce­mos relem­brando quais foram as prin­ci­pais regras esta­be­le­ci­das por Wes­ley quanto à tarefa homi­lé­tica de seus pastores/pregadores. 

Regras para a pre­ga­ção (Minu­tes, 1747, 48): 

1. Faça tudo pra come­çar e ter­mi­nar na hora determinada. 

2. […]. 

3. Esforce-se para ser sério, pon­de­rado e solene em todo o pro­ce­di­mento diante da congregação. 

4. Esco­lha os tex­tos mais sim­ples possíveis. 

5. Tome cui­dado para não se dei­xar des­viar do seu texto, mas mantenha-se sem­pre den­tro dele, e rea­lize o que planejou. 

6. Sem­pre esco­lha um assunto apro­pri­ado para a sua audiência. 

7. Tenha cui­dado para não usar muita ale­go­ria ou espi­ri­tu­a­li­zar demais. 

8. Evite ges­tos ou modo de falar rebus­ca­dos ou inadequados. 

9. Falem uns cons os outros se obser­va­rem alguma coisa desse tipo. 

Exame dos Pre­ga­do­res (Minu­tes, 1746, 30 – 31): 

1. Eles sabem em quem têm crido? Eles têm o amor de Deus em seus cora­ções? Eles dese­jam e bus­cam somente a Deus? Eles são san­tos em todo o seu comportamento? 

2. Eles têm dons (e tam­bém a graça) para o tra­ba­lho? Eles têm (em um grau tole­rá­vel) uma com­pre­en­são clara e pro­funda? Eles têm o jul­ga­mento cor­reto das coi­sas de Deus? Eles têm a con­cep­ção justa da sal­va­ção pela fé? Deus lhes deu o dom da elo­cu­ção? Eles falam justa, fácil e claramente? 

3. Eles têm fru­tos? Quando falam, geral­mente têm sido só para con­ver­ter ou influ­en­ciar seus ouvin­tes? Ou eles têm obtido a remis­são dos peca­dos medi­ante suas pre­ga­ções? E tam­bém uma sen­sa­ção clara e dura­doura do amor de Deus? 

Tendo estas três mar­cas, ocor­rido ine­ga­vel­mente em qual­quer um deles, reco­nhe­ce­mos que ele foi cha­mado por Deus para pre­gar. Nós as acei­ta­mos como evi­dên­cias, razo­a­vel­mente sufi­ci­en­tes, de que ele é movido pelo Espí­rito Santo. 

Con­se­lho aos pre­ga­do­res, 1o. de agosto de 1786 (Minu­tes, 193 – 34) 

1. Sem­pre con­clua o culto em cerca de uma hora. 

2. Nunca grite. 

3. Nunca se apóie ou bata na Bíblia. 

4. Onde quer que você pre­gue, reúna a Soci­e­dade.
[…] 

7. Nunca pre­gue um ser­mão fúne­bre a não ser por uma
pes­soa emi­nen­te­mente santa; nem, ainda, sem con­sul­tar o Assis­tente. Não pre­gue por dinheiro. Cui­dado com pane­gí­ri­cos, par­ti­cu­lar­mente em Londres. 

[…]. 

À luz des­sas regras, pro­cu­ra­re­mos abor­dar a pró­pria prá­tica de Wesley. 

1. Quem deve pregar?

Veja­mos quem, no enten­di­mento de Wes­ley, esta­ria apto para pregar. 

Os pre­ga­do­res

Segundo consta, Char­les Wes­ley era muito mais exi­gente e severo na sele­ção de pre­ga­do­res do que seu irmão John. Conta-se que certa vez, abor­re­cido com o fato de alguém, “sem o auxí­lio de Deus”, ter feito de um alfai­ate pre­ga­dor, ele teria dito que estava pronto, “com o auxí­lio de Deus”, a fazer do pre­ga­dor nova­mente um alfai­ate. John, entre­tanto, estava pre­o­cu­pado em ter pre­ga­do­res em número sufi­ci­ente para aten­der às deman­das das soci­e­da­des meto­dis­tas e, por­tanto, era mais tole­rante. Ele che­gou a reco­men­dar a Char­les que “não repro­vasse os jovens sem muita neces­si­dade” e dizia: “entre os dois [a graça ou os dons], eu pre­firo mais a graça do que os dons”. 

Não obs­tante, John esta­ria longe de admi­tir qual­quer pes­soa, pois sabe-se que teria orde­nado a “expul­são de todos os que anda­vam desor­de­na­da­mente, efe­mi­na­dos, intro­me­ti­dos e levi­a­nos”, mas adver­tira Char­les de que “eles pre­ci­sa­vam de pelo menos qua­renta pre­ga­do­res ou ‘deve­riam dei­xar algu­mas das soci­e­da­des’”.[4] 

Os pre­ga­do­res, por­tanto, eram exa­mi­na­dos cri­te­ri­o­sa­mente antes de serem admi­ti­dos como tais. Eles tam­bém deve­riam per­ma­ne­cer coe­ren­tes em seu com­por­ta­mento e con­vic­ções teo­ló­gi­cas, de acordo com os prin­cí­pios esta­be­le­ci­dos pelos irmãos Wes­ley. Por­tanto, além do exame ini­cial, eram exa­mi­na­dos freqüen­te­mente, para ave­ri­gua­ção de sua cons­tân­cia e fide­li­dade. John e Char­les se reu­ni­ram em con­fe­rên­cia com os pre­ga­do­res em várias oca­siões (somente em 1751, foram três encon­tros) para examiná-los a res­peito da “graça, dons e fru­tos de cada um deles”. 

Os pre­ga­do­res leigos

O sur­gi­mento de pre­ga­do­res lei­gos no meto­dismo se deu mais pela neces­si­dade do que por pla­ne­ja­mento. Na con­fe­de­ra­ção das soci­e­da­des em desen­vol­vi­mento, os Wes­ley depen­diam dos líde­res locais den­tre os gru­pos para man­ter as soci­e­da­des fun­ci­o­nando na sua ausên­cia. Devido à con­tro­vér­sia entre o movi­mento das soci­e­da­des e a tra­di­ção reli­gi­osa na Ingla­terra – divi­dida entre os seg­men­tos cal­vi­nis­tas, morá­vios e wes­leya­nos –, os Wes­ley esta­vam per­dendo os clé­ri­gos ali­a­dos. Enquanto isso, iam ganhando assis­tên­cia leiga.[5] A carên­cia de obrei­ros clé­ri­gos levou à admis­são dos pre­ga­do­res leigos. 

Wes­ley ficava irri­tado com o fato dos bis­pos angli­ca­nos se recu­sa­rem a orde­nar os pre­ga­do­res da sua cone­xão, por­que os con­si­de­rava melho­res pre­pa­ra­dos do que os minis­tros clé­ri­gos. Não obs­tante, Wes­ley adver­tiu os meto­dis­tas quanto a não cha­ma­rem os pre­ga­do­res lei­gos de minis­tros

As mulhe­res

Segundo Heit­zen­ra­ter, “nenhum dos pre­ga­do­res iti­ne­ran­tes ou locais era mulher, entre­tanto, algu­mas mulhe­res esta­vam pre­gando e às vezes fora das reu­niões de suas soci­e­da­des locais”.[6] Embora [Wes­ley] tenha dito não achar “errado que as mulhe­res falas­sem em público desde que falem pelo Espí­rito de Deus”, acon­se­lha a Sra. Grace Wal­ton, em 1761, a res­trin­gir suas falas a “peque­nas exor­ta­ções”, pro­cu­rando “man­ter isso o mais longe pos­sí­vel do que é cha­mado de pre­ga­ção. Por­tanto, nunca tome um texto; nunca fale em um dis­curso con­tí­nuo sem alguma parada, cerca de qua­tro ou cinco minu­tos”. E, em 1761, Wes­ley teria dito espe­ci­fi­ca­mente a Sarah Crosby que “os meto­dis­tas não per­mi­tem que as mulhe­res pre­guem”. Entre­tanto, Wes­ley estava dis­posto a fazer con­ces­sões às regras comuns da dis­ci­plina. Con­tes­tado por Mary Bosan­quet, na pri­ma­vera de 1771, Wes­ley acei­tou os argu­men­tos que defen­diam o meto­dismo como um “cha­mado extra­or­di­ná­rio”, reco­nhe­cendo que não ape­nas a pre­ga­ção leiga, mas tam­bém que algu­mas mulhe­res “têm um cha­mado extra­or­di­ná­rio para isso [falar em público], e ai daquela que não o obe­dece” (Docu­ments, 4:171). Em 1787, Sarah Mal­let rece­beu de Joseph
Har­per, Assis­tente de Norwish, auto­ri­za­ção para pre­gar naquela área. Wes­ley a acon­se­lhava e enco­ra­java freqüen­te­mente em sua tarefa. 

Nota­mos, por­tanto, que Wes­ley estava dis­posto a supe­rar suas pró­prias regras, na medida em que iam cres­cendo sua com­pre­en­são e expe­ri­ên­cia no ser­viço do Evangelho. 

2. Onde pre­gar e para quem?

Wes­ley reco­men­dava que o pre­ga­dor somente deve­ria apre­sen­tar um ser­mão se hou­vesse pelo menos 20 pes­soas pre­sen­tes ao culto, ou à reu­nião – isso, dizia ele, para não bara­tear o Evangelho. 

Os des­ti­na­tá­rios

Nas Large Minu­tes, lemos: “Você não deve fazer nada a não ser sal­var almas. Por­tanto, gaste e seja gasto nesse tra­ba­lho; e vá sem­pre não ape­nas àque­les que que­rem, mas àque­les que mais neces­si­tam de você.” 

Esse pare­cer a res­peito dos des­ti­na­tá­rios, segundo o qual os pre­fe­ren­ci­ais não são os que que­rem, mas os que pre­ci­sam, fez com que o meto­dismo alcan­çasse uma mul­ti­dão de pes­soas, até então des­pre­za­das, pela Igreja da Ingla­terra: os pobres, os pri­si­o­nei­ros, os ope­rá­rios, os tra­ba­lha­do­res das minas, as cri­an­ças, as viú­vas, os desem­pre­ga­dos, os enfer­mos, os famin­tos, os endi­vi­da­dos, os sem-teto, os men­di­gos, enfim, o povo que vagava pelas ruas, e pelas cata­cum­bas de um mundo gros­seiro, sujo e violento. 

Wes­ley assim se expres­sou na carta escrita nos anos 1770 a seu irmão Charles: 

Sua tarefa, bem como a minha, é sal­var almas. Quando assu­mi­mos a ordem sacer­do­tal, nos com­pro­me­te­mos a fazer disso nossa única ocu­pa­ção. Penso em cada dia per­dido que não foi empre­gado (prin­ci­pal­mente) nesse mis­ter. Sum totus in illo [a isto me com­pro­meto com­ple­ta­mente]”.[7] 

Entre­tanto, pela resis­tên­cia da parte da igreja ofi­cial em rela­ção a seu movi­mento, Wes­ley não somente não foi comis­si­o­nado para uma paró­quia, como mui­tas vezes impe­dido de exer­cer seu minis­té­rio den­tro das fron­tei­ras da pró­pria Igreja Angli­cana. Desde muito cedo, John Wes­ley tomou cons­ci­ên­cia de que sua mis­são não pode­ria ser com­pleta se esti­vesse limi­tada pelas con­ven­ções típi­cas do sis­tema cle­ri­cal inglês. 

Isto for­çou Wes­ley a bus­car novos cam­pos “paro­qui­ais”, o que o levou à grande des­co­berta da pre­ga­ção ao ar livre. Em 1739, quando foi cri­ti­cado por pre­gar fora dos tem­plos nos limi­tes de uma das paró­quias de Bris­tol, dirigiu-se ao bispo Joseph Butler dizendo que ele não tinha um comis­si­o­na­mento espe­cí­fico para uma paró­quia em par­ti­cu­lar, mas: “uma dis­pen­sa­ção do evan­ge­lho me foi con­fi­ada [1Cor 9.17], e ‘ai de mim se eu não pre­gar o evan­ge­lho’ [1Co 9.16], onde quer que esteja no mundo habi­tado”.[8] 

Esta é a base do seu prin­cí­pio, “eu con­si­dero todo o mundo como minha paró­quia”. E, nas pala­vras de Heit­zen­ra­ter, Wes­ley não se con­si­de­rava limi­tado pelas fron­tei­ras e méto­dos da paró­quia convencional. 

Os locais de pregação

Assim, pre­gar além das fron­tei­ras paro­qui­ais e ecle­siás­ti­cas, se tor­na­ria uma carac­te­rís­tica pri­má­ria do rea­vi­va­mento meto­dista. Ele mesmo expli­cou que não tinha inten­ção de pre­gar ao ar livre até que os púl­pi­tos se foram fechando para ele. As gran­des mas­sas de gente tam­bém não goza­vam de bom con­ceito para os irmãos Wes­ley. Char­les se refe­ria às pes­soas da mul­ti­dão como “bes­tas sel­va­gens”. Em sua Short His­tory of the Peo­ple Cal­led Metho­dists, Wes­ley assim expôs tal processo: 

Sendo assim excluído das igre­jas e incon­for­mado com o silên­cio, restou-me somente pre­gar a céu aberto; o que fiz a prin­cí­pio não por esco­lha, mas por neces­si­dade; desde então, não obs­tante, eu tenho encon­trado razões abun­dan­tes para glo­ri­fi­car a sábia pro­vi­dên­cia de Deus pela cri­a­ção de um meio para que miría­des [sic] de pes­soas que nunca entra­ram em nenhuma igreja, nem sequer gos­ta­riam de fazê-lo, pudes­sem ouvir aquela pala­vra na qual encon­tra­riam o poder de Deus para a salvação. 

O incen­ti­va­dor de Wes­ley para a pre­ga­ção a céu aberto foi George Whi­te­fi­eld. A prin­cí­pio, Wes­ley achou aquele um “estra­nho modo de pre­gar”.[9] John e Char­les che­ga­vam a con­si­de­rar um sacri­lé­gio alguém converter-se fora do con­texto de um culto rali­zado den­tro de uma igreja. 

Embora con­ti­nu­asse a pre­gar em algu­mas igre­jas paro­qui­ais, assim como na capela da pri­são de New­gate e no asilo de Lawford’s Gate, Wes­ley pas­sou a empenhar-se no exer­cí­cio da pre­ga­ção ao ar livre. “Qual­quer lugar aberto era ade­quado, desde que o povo pudesse se reu­nir e o pre­ga­dor pudesse ser ouvido.”[10] Sua inten­ção era ir aonde o povo esti­vesse. Assim, logo des­co­briu os cemi­té­rios, ao lado de igre­jas que ser­viam de con­cha acús­tica; as pra­ças do mer­cado que fun­ci­o­na­vam como anfi­te­a­tros rode­a­dos de pré­dios; e mesmo algu­mas árvo­res cuja forma ser­via para ampli­fi­car o som; tam­bém as esca­va­ções de minas, muito apro­pri­a­das para aco­mo­dar gran­des audi­tó­rios. Como expli­cara a John Smith, ele fez mais em três dias pre­gando junto à tumba do seu pai em Epworth do que pre­gando por três anos em seu púlpito. 

Os deta­lhes tecnológicos

Wes­ley tornou-se fas­ci­nado pela téc­nica (e pela “tec­no­lo­gia”) da pre­ga­ção ao ar livre. Ele sem­pre se colo­cava acima da mul­ti­dão, fosse subindo em uma cadeira ou em um túmulo. Ele geral­mente usava um púl­pito por­tá­til feito de madeira. Ele pro­cu­rava luga­res nos quais pudesse falar para um grande número de pes­soas e ser ouvido. 

Com essa prá­tica, Wes­ley con­se­guia pre­gar para um número admi­rá­vel de pes­soas (segundo seu regis­tro, no pri­meiro mês de sua expe­ri­ên­cia de pre­gar no campo, ele havia atin­gido 47.500 pes­soas – nos meses seguin­tes, esse número cres­ceu ainda mais). Entre­tanto, se com­pa­rar­mos o número de pes­soas que real­mente eram arro­la­das nas soci­e­da­des, pode­mos con­cluir que tal expe­ri­ên­cia homi­lé­tica cam­pal não pro­du­zia tan­tos resul­ta­dos assim. De acordo com Heit­zen­ra­ter, “na mai­o­ria das vezes em que as pes­soas rece­be­ram a remis­são dos peca­dos ou foram con­for­ta­das, isso acon­te­ceu nas peque­nas reu­niões de gru­pos, não nos gran­des cul­tos ao ar livre”.[11] 

Assim, em 1763, depois de ter se desi­lu­dido com a pos­si­bi­li­dade de poder se dedi­car exclu­si­va­mente à pre­ga­ção ao ar livre sem a pre­o­cu­pa­ção de for­mar soci­e­da­des, con­cluiu que “pre­gar como um após­tolo, sem reu­nir aque­les que foram des­per­ta­dos e treiná-los nos cami­nhos de Deus, é como entre­gar cri­an­ças nas mãos de assas­si­nos”. A pre­ga­ção sem for­ma­ção de soci­e­da­des, sem dis­ci­plina nem ordem ou cone­xão resul­tou em que “nove em dez daque­les que haviam sido des­per­ta­dos este­jam agora mais ador­me­ci­dos do que nunca” (Jour­nal and Dia­ries IV – Works, 21:424 – 25 de agosto, 1763). 

3. Quando e com que freqüên­cia pregar?

As pre­ga­ções diá­rias, sema­nais e itinerantes

A pre­ga­ção meto­dista mais notá­vel, por sua sin­gu­la­ri­dade, era aquela que acon­te­cia dia­ri­a­mente às 5 horas da manhã, antes do povo ir para o tra­ba­lho. Wes­ley dizia que a pre­ga­ção da manhã fazia bem para o corpo e para a alma. Nisso Wes­ley foi rigo­ro­sa­mente pontual. 

Quanto ao tempo da pre­ga­ção, Wes­ley não foi tão fiel aos seus pre­cei­tos assim. A regra esta­be­le­cida nas Minu­tes era: “certifique-se de come­çar e ter­mi­nar pre­ci­sa­mente no tempo esti­pu­lado”, isto é, no inter­valo de uma hora. Entre­tanto, em mui­tas oca­siões, Wes­ley que­brou suas pró­prias regras. Há vários rela­tos seus dando-nos conta de que algu­mas vezes ele ultra­pas­sou o tempo em uma, duas ou mesmo três horas. Isto não nos deixa dúvi­das de que, no cora­ção de Wes­ley, as regras esta­vam em segundo plano em rela­ção à “ação do Espí­rito”, pelo menos neste caso.[12] 

Tam­bém quanto à freqüên­cia com que se deve pre­gar, Wes­ley não se enqua­dra em seus pró­prios prin­cí­pios. A regra deter­mi­nava que os pre­ga­do­res não deve­riam pre­gar mais do que duas vezes por dia durante a semana e três vezes nos domin­gos. Ele che­gou a cri­ti­car dura­mente aque­les que pre­ga­vam três vezes, por­que esta­riam com­pro­me­tendo o bem estar físico e men­tal, tanto do pre­ga­dor quanto dos ouvin­tes. “Prega tanto quanto pude­res, mas não mais do que pude­res”, escre­veu ele a Tel­ford em 1775. Não obs­tante, por seus diá­rios, sabe­mos que não foram raras as vezes em que ele mesmo pre­gou qua­tro ou cinco vezes num único dia. Segundo Char­les W. Clay, na intro­du­ção aos Tre­chos do Diá­rio de João Wes­ley, Wes­ley teria pre­gado mais de 42.000 ser­mões, tendo via­jado mais de 400.000 quilô­me­tros a pé, a cavalo, de car­ru­a­gem e de navio.[13] Feliz­mente, para Wes­ley, ele gozava de boa saúde e de um físico resis­tente, apto a enfren­tar as intem­pé­ries pró­prias das suas árduas jornadas. 

4. O que pregar?

Temas recor­ren­tes

Em vários luga­res Wes­ley define a mis­são do meto­dismo como sendo pri­o­ri­ta­ri­a­mente “espa­lhar san­ti­dade”. Ele sin­te­tiza as prin­ci­pais dou­tri­nas do movi­mento numa trí­plice rela­ção que con­si­dera con­ter todo o res­tante: arre­pen­di­mento, fé, e san­ti­dade – o pri­meiro, arre­pen­di­mento, é como o pór­tico da reli­gião; a segunda, a fé, é como a porta; e a ter­ceira, a san­ti­dade, é a pró­pria reli­gião. A isto, John Wes­ley chama de “as gran­des dou­tri­nas bíbli­cas”.[14] 

Os cha­ma­dos ser­mões evan­ge­lis­ti­cos (gos­pel ser­mons), muito popu­la­res no seu tempo, não eram bem vis­tos nem bem-vindos entre os meto­dis­tas. Wes­ley con­si­de­rava esse tipo de pre­ga­ção como sendo “uma rap­só­dia des­co­nec­tada de pala­vras sem significado”. 

Em seus “Pen­sa­men­tos sobre os minis­tros do evan­ge­lho”, Wes­ley define quem são os ver­da­dei­ros pre­ga­do­res do evan­ge­lho: Não basta falar dos decre­tos eter­nos – uma crí­tica aos cal­vi­nis­tas – para que alguém tenha o direito ao título de minis­tro do evan­ge­lho; tam­bém não basta falar apai­xo­na­da­mente sobre a jus­tiça e o san­gue de Cristo, se não pro­clama o dever do crente ao mesmo tempo que os sofri­men­tos de Cristo; não é minis­tro ver­da­deiro qual­quer que trate acerca das pro­mes­sas de Deus sem referir-se ao ter­ror da lei, à ira de Deus con­tra a impi­e­dade e a injus­tiça dos homens – “estes são tra­fi­can­tes de pro­mes­sas não são minis­tros do evan­ge­lho”; tam­pouco é minis­tro qual­quer que pre­gue a jus­ti­fi­ca­ção pela fé, se não for além e insis­tir tam­bém na san­ti­fi­ca­ção, sobre­tudo na pro­du­ção dos fru­tos da fé, na san­ti­dade uni­ver­sal – se não decla­rar todo o con­se­lho de Deus, não é um minis­tro do evan­ge­lho; então, 

quem é um minis­tro do evan­ge­lho em sen­tido com­pleto e bíblico da pala­vra? Aquele, e uni­ca­mente aquele, de qual­quer deno­mi­na­ção, que anun­cia todo o con­se­lho de Deus, que prega todo o evan­ge­lho, incluindo a jus­ti­fi­ca­ção e a san­ti­fi­ca­ção, como meios para se che­gar à gló­ria. Aquele que não separa o que Deus uniu, senão que anun­cia tanto a Cristo que mor­reu por nós, como a Cristo que vive em nós. Aquele que cons­tan­te­mente aplica estas ver­da­des ao cora­ção dos ouvin­tes, estando dis­posto a dar-se e a ser con­su­mido por eles, tendo a mente de Cristo e seguindo seus pas­sos sem desviar-se. Aquele, e só aquele, pode ser cha­mado ver­da­dei­ra­mente um minis­tro do evan­ge­lho.[15] 

Tex­tos preferidos

Embora afir­masse que o ver­da­deiro minis­tro deve­ria pre­gar todo o con­teúdo do evan­ge­lho, Wes­ley tinha os seus tex­tos pre­fe­ri­dos, aos quais recor­ria rei­te­ra­das vezes (por exem­plo: 2Co 8.9; Is 55.7; Ef 2.8; Hb 12.28). O texto de Efé­sios 2.8 foi uti­li­zado 34 vezes nas pre­ga­ções entre o ano 1749 – 54 (cinco anos). 

A lin­gua­gem dos seus ser­mões era pro­fun­da­mente influ­en­ci­ada pelo texto bíblico. De fato, 

o uni­verso que serve de fonte básica para seu voca­bu­lá­rio, ima­gi­ná­rio, e mesmo de fonte de ilus­tra­ção, é o mundo bíblico: ele repre­senta a matriz da sua cui­da­dosa abor­da­gem dos mate­ri­ais oriun­dos de outras fon­tes.[16] 

Wes­ley reco­men­dava aos pre­ga­do­res que esco­lhes­sem tex­tos fáceis para pre­gar e que per­ma­ne­ces­sem no texto esco­lhido. Esta seria outra regra que Wes­ley nem sem­pre teria seguido. No ser­mão “Quase Cris­tão” (“The Almost Chris­tian”), ele se des­via do texto, se não o torce com­ple­ta­mente.[17] 

Ser­mões repetidos

Havia uma idéia cor­rente, na época, de que os velhos ser­mões deviam ser quei­ma­dos a cada sete anos. Wes­ley con­si­de­rava essa uma pés­sima idéia. Ele dizia que seria impos­sí­vel fazer melhor agora cer­tos ser­mões escri­tos há vinte ou trinta anos. Sabe-se que Wes­ley pre­gou sobre Mar­cos 1.15 (“O reino de Deus está pró­ximo, arrependei-vos e crede no evan­ge­lho”) pelo menos 190 vezes. De fato, antes de serem escri­tos em ver­são defi­ni­tiva e publi­ca­dos, seus ser­mões eram pre­ga­dos inú­me­ras vezes, cor­ri­gi­dos, revi­sa­dos, ampli­a­dos até que esti­ves­sem em um for­mato ade­quado para ser impresso. Ao que parece, como Whi­te­fi­eld[18], Wes­ley tinha cons­ci­ên­cia de que a lin­gua­gem oral era dife­rente da escrita e que, para se obter o mesmo efeito, elas pre­ci­sa­vam ser arran­ja­das diferentemente. 

5. Como pregar?

A pre­o­cu­pa­ção com a for­ma­ção do pre­ga­dor (quem está apto?)

Em “Um Dis­curso aos Clé­ri­gos”, Wes­ley trata da ques­tão “Que classe de homens [pre­ga­do­res] deve­mos ser?”. Como pro­ve­do­res da Igreja de Deus, com rela­ção aos dons, os minis­tros devem ter, (1) pri­mei­ra­mente, um bom enten­di­mento, uma clara apre­en­são, um juízo sólido e uma capa­ci­dade de raci­o­ci­nar com certa pre­ci­são; (2) em segundo lugar, tenha viva­ci­dade e faci­li­dade de pen­sa­mento; e (3), em ter­ceiro lugar, ter uma boa memó­ria. Com rela­ção aos conhe­ci­men­tos adqui­ri­dos, ter um bom cabe­dal de conhe­ci­men­tos: (1) pri­meiro de seu pró­prio ofí­cio, da grande res­pon­sa­bi­li­dade que rece­beu e da impor­tante tarefa para a qual foi cha­mado – isto é, cons­ci­ên­cia a res­peito do que con­siste sua tarefa; (2) conhe­ci­mento das Escri­tu­ras, o sig­ni­fi­cado lite­ral de cada pala­vra, ver­sí­culo e capí­tulo e ser capaz de dedu­zir os coro­lá­rios apro­pri­a­dos, espe­cu­la­ti­vos e prá­ti­cos de cada texto para resol­ver as difi­cul­da­des que sur­jam e para res­pon­der às obje­ções que pos­sam exis­tir, e fazer apli­ca­ção ade­quada aos ouvin­tes; (3) em ter­ceiro lugar, ter conhe­ci­mento das lín­guas ori­gi­nais para poder com­pre­en­der as pas­sa­gens mais con­tro­ver­ti­das; (4) em quarto lugar, ter conhe­ci­mento da his­tó­ria pro­fana: os cos­tu­mes anti­gos, a cro­no­lo­gia e a geo­gra­fia; (5) em quinto lugar, ter algum conhe­ci­mento das ciên­cias prin­ci­pal­mente a lógica, a arte do bom sen­tido, e com­pre­en­der as coi­sas cor­re­ta­mente, jul­gar com a ver­dade a raci­o­ci­nar de forma con­vin­cente, bem como ter uma ligeira fami­li­a­ri­dade com a meta­fí­sica, a filo­so­fia natu­ral, a geo­me­tria; (6) em sexto lugar, ter conhe­ci­mento dos Pais da Igreja, dos mais autên­ti­cos comen­ta­ris­tas das Escri­tu­ras, espe­ci­al­mente dos que escre­ve­ram antes do Con­cí­lio de Nicéia, mas tam­bém os que segui­ram: São Cri­sós­tomo, Basí­lio, Jerô­nimo, Agos­ti­nho e, sobre tudo, o homem de cora­ção que­bran­tado, Efrem o Sírio; (7) em sétimo lugar, o conhe­ci­mento do mundo, um conhe­ci­mento dos huma­nos: suas máxi­mas, tem­pe­ra­men­tos e cos­tu­mes, tal e qual se apre­sen­tam na vida real; (8) em oitavo lugar, a pru­dên­cia, que con­si­dera todas as cir­cuns­tân­cias de alguma coisa (quem, que, onde, com que meios, por quê, como, quando); (9) em nono lugar, o clé­rigo deve ter bons modos, com­por­ta­mento e con­duta ade­quada: a cor­te­sia de um cava­lheiro unida à de uma pes­soa bem edu­cada, uma voz clara, forte e musi­cal, eloqüên­cia tanto na pro­nún­cia quanto nas ati­tu­des. Aque­les que se entre­gam com entu­si­asmo a seu tra­ba­lho em rela­ção a estes dons, mui­tos dos quais não se podem alcan­çar sem um con­si­de­rá­vel esforço, con­tam com a pro­messa da ajuda daquele que é a fonte de todo o conhecimento. 

A pre­o­cu­pa­ção com a forma da pregação

Seu estilo é abso­lu­ta­mente lógico. O arranjo do seu mate­rial dis­cur­sivo obe­dece a um plano homi­lé­tico rigo­roso, com pro­po­si­ções cla­ras e argu­men­ta­ção con­seqüente, coe­rente, exaus­tiva… (Ape­nas a título de exem­plo, reco­men­da­mos a obser­va­ção do Ser­mão 4 ). 

A pre­o­cu­pa­ção com a elo­cu­ção da pregação

Sobre a qua­li­dade da voz e o uso dos ges­tos na pre­ga­ção, a pes­quisa de Heit­zen­ra­ter nos ofe­rece impor­tan­tes ele­men­tos de para aná­lise. Wes­ley pro­cu­rava falar jus­ta­mente, com­pre­en­si­vel­mente e cla­ra­mente. “Eu pre­paro ver­da­des sim­ples para o povo simples”. 

Cla­reza é par­ti­cu­lar­mente neces­sá­ria […] por­que esta­mos ins­truindo pes­soas de pouco enten­di­mento […]. Deve­ría­mos usar cons­tan­te­mente as mais comuns, as meno­res e as pala­vras mais fáceis que nossa lin­gua­gem possa ofe­re­cer (desde que sejam puras e apro­pri­a­das).[19] 

Heit­zen­ra­ter comenta ainda que Wes­ley se opu­nha à ora­tó­ria rebus­cada e flo­re­ada tão comum nos púl­pi­tos ingle­ses; bem como às espe­cu­la­ções filo­só­fi­cas e às pala­vras e ter­mos téc­ni­cos difí­ceis, não obs­tante uti­li­zasse freqüen­te­mente cita­ções em latim, para não falar do hebraico e do grego abun­dan­tes em seus sermões. 

Quanto à voz, Wes­ley teria reco­mendo a John King, no ano de 1775: “nunca fale acima do volume natu­ral da sua voz”. Wes­ley, por­tanto, con­de­nava a pre­ga­ção gri­tada: “fale com todo seu cora­ção, mas com voz moderada”. 

John Hamp­son, o pri­meiro bió­grafo de Wes­ley, escre­veu: “a maneira de Wes­ley era gra­ci­osa e aces­sí­vel – sua voz não era alta, mas clara e natu­ral; seu estilo sim­ples, pers­pi­caz, e admi­ra­vel­mente adap­tado à capa­ci­dade dos seus ouvin­tes”. De qual­quer forma, em ter­mos de voz e de locução, 

Wes­ley não era um pre­ga­dor da mesma cate­go­ria de um Whi­te­fi­eld, que podia impres­si­o­nar as mai­o­res mul­ti­dões e, segundo o ator Gar­rick, podia enchar­car seus ouvin­tes de lágri­mas ape­nas com sua pro­nún­cia da pala­vra “Meso­po­tâ­mia”.[20] 

Quanto aos ges­tos, reco­men­dava: “Evite palha­ça­das. Seja Cor­tez com todos”; “cui­dado com qual­quer exa­gero ou afe­ta­ção, mesmo nos ges­tos e na pro­nún­cia”. Sobre pro­nún­cia e ges­tos, Wes­ley che­gou a escre­ver um pan­fleto, no qual reco­men­dava que não se devia abrir os bra­ços mais do que a dis­tân­cia de um pé do outro. Não é de se admi­rar, por­tanto, que um obser­va­dor da pre­ga­ção de Wes­ley em Lin­colnshire tivesse regis­trado: “Há tão pouco esforço no pre­ga­dor que, a não ser por algum oca­si­o­nal levan­ta­mento da sua mão direita, ele pare­cia ser uma está­tua falante”.[21] 

Os pre­ga­do­res deve­riam, ainda, ser não ape­nas “mode­los de lim­peza” mas tam­bém “mode­los de dili­gên­cia”: Wes­ley reco­menda que cor­tem o cabelo, tirem os pio­lhos, curem as sar­nas […] Outras reco­men­da­ções se seguem…[22] 

Seja como for, para Char­les, Wes­ley teria con­se­guido “jun­tar o que esti­vera por tanto tempo sepa­rado: conhe­ci­mento e pie­dade”. Reit­zen­ra­ter relata que o pro­fes­sor J. H Liden, depois de ter ouvido Wes­ley pre­gar excla­mou: “Ele tem a apa­rên­cia do pior dos sacer­do­tes sue­cos, mas ensina como um bispo […]. Ele é a per­so­ni­fi­ca­ção da pie­dade, e parece para mim como uma repre­sen­ta­ção viva do amo­roso Após­tolo João”.[23] 

Con­clu­são

Que con­tri­bui­ções a prá­tica homi­lé­tica de Wes­ley pode dar para a pre­ga­ção do evan­ge­lho no con­texto da Amé­rica Latina atual? Tal­vez pos­sa­mos arris­car apro­xi­ma­ções entre os desa­fios enfren­ta­dos há três sécu­los e os que enfren­ta­mos hoje diante das con­tra­di­ções pró­prias da tarefa homilética: 

A for­ma­ção (cul­tura geral) do pregador/a e o número cres­cente de voca­ções para o minis­té­rio pas­to­ral 

Na Amé­rica Latina obser­va­mos o cres­ci­mento do número de voca­ções para o minis­té­rio pas­to­ral. Já não pade­ce­mos da falta de obrei­ros, como em outras épocas. Que impli­ca­ções têm isso para o pro­cesso de admis­são à ordem? Justifica-se, ainda, a orde­na­ção de pre­ga­do­res com for­ma­ção leiga? Qual seria seu papel, diante de um qua­dro cada vez maior de pas­to­res aca­de­mi­ca­mente capacitados? 

A com­ple­xi­dade da comu­ni­ca­ção com des­ti­na­tá­rios tão diver­si­fi­ca­dos e o papel das mulhe­res que, sendo mai­o­ria, são dis­cri­mi­na­das e sub­me­ti­das como mino­ria  

Na Amé­rica Latina, a mem­bre­sia das igre­jas meto­dis­tas é com­posta majo­ri­ta­ri­a­mente por mulhe­res. O reco­nhe­ci­mento do seu minis­té­rio, cle­ri­cal ou laico, bem como sua acei­ta­ção, faz parte do ama­du­re­ci­mento de um pro­cesso que teve iní­cio há 300 anos, com os pri­mei­ros meto­dis­tas.[24] 

A agenda reli­gi­osa, social e polí­tica, imposta por uma cul­tura glo­ba­li­zada 

Quem seriam, hoje, na Amé­rica Latina, os que mais pre­ci­sam da aten­ção e da pre­ga­ção meto­dista? Aque­les e aque­las, víti­mas da vio­lên­cia e do trá­fico, da misé­ria e da fome, da dis­cri­mi­na­ção e do pre­con­ceito, do desem­prego e da angús­tia, da enfer­mi­dade e da dor…? 

As pos­si­bi­li­da­des e con­tra­di­ções das novas tec­no­lo­gias bem como o pro­cesso de mer­can­ti­li­za­ção da fé e do comér­cio de bens sim­bó­li­cos frente à essên­cia meto­dista do viver a graça. 

A expe­ri­ên­cia acús­tica do nosso tempo passa pelo avanço tec­no­ló­gico dos Meios de Comu­ni­ca­ção de Massa. Como pode­mos atu­a­li­zar a prá­tica de Wes­ley e levar a graça aos povos da Amé­rica Latina domi­na­dos pelos Meios a ser­viço do lucro e do mercado? 

A polui­ção temá­tica, o lixo teo­ló­gico, a super­fi­ci­a­li­dade e a falta de qua­li­dade das infor­ma­ções e das pré­di­cas pro­nun­ci­a­das dos púl­pi­tos ecle­si­ais e vir­tu­ais, trans­mi­ti­das por toda essa aldeia global. 

A neces­si­dade da sis­te­ma­ti­za­ção da pro­du­ção homi­lé­tica que demons­tre com­pro­misso com as futu­ras gera­ções 

Embora a pre­ga­ção tenha um papel pro­e­mi­nente no con­texto ecle­sial latino-americano, pouco se tem escrito e pro­du­zido a res­peito. Fal­tam aná­li­ses cri­te­ri­o­sas, fal­tam pes­qui­sa­do­res que se empe­nhem na com­pre­en­são, e inter­pre­ta­ção do fenô­meno homi­lé­tico contemporâneo. 

Estas ques­tões, entre outras, con­ti­nuam a nos desa­fiar. Pelo menos pode­mos pen­sar que temos pela frente outros tre­zen­tos anos para encon­trar as res­pos­tas (ou refor­mu­lar as perguntas). 

Refe­rên­cias bibliográficas

Chil­cot, Paul Wes­ley. John Wes­ley and the Women Pre­a­chers of early Metho­dism. Lon­dres: The Ame­ri­can The­o­lo­gi­cal Library Asso­ci­a­tion and the Saca­re­crow Press, Inc. 1991. 

Heit­zen­ra­ter, Richard P. John Wesley’s prin­ci­ples and prac­tice of pre­a­ching. Lec­tu­res on Seve­ral Occa­si­ons, n. 1, Dal­las: Cen­ter for Metho­dist Stu­dies at Bridwell Library, Per­kins School  of The­o­logy, 1997. p. 25 – 51. 

______. Wes­ley e o Povo Cha­mado Meto­dista. São Ber­nardo do Campo: Edi­teo; Rio de Janeiro: Ben­nett, 1996. 

Obras de Wes­ley, Tomo IX, Espi­ri­tu­a­li­dade e him­nos; Notas al Nuevo Tes­ta­mento: pri­mera parte. Fran­klin: Pro­vi­dence House Publishers, 1998. 

Pat­ti­son, T. Harwood. The His­tory of Crhis­tian Pre­a­ching. Phi­la­delphia: Ame­ri­can Bap­tist Publi­ca­tion Soci­ety, 1903. 

Wes­ley, john. Tre­chos do diá­rio de João Wes­ley. Col. Paul Eugene Buyers.  São Paulo: Junta Geral de Edu­ca­ção Cristã da Igreja Meto­dista do Bra­sil, 1965. 


[1] Estudo apre­sen­tado em setem­bro 2003 durante a Semana da Atu­a­li­za­ção Teo­ló­gica da Facul­dade de Teo­lo­gia da Uni­ver­si­dade Meto­dista de São Paulo, Umesp. 

[2] Dou­tor em Ciên­cias da Reli­gião, poro­fes­sor de Homi­lé­tica no Curso de Teo­lo­gia da Uni­ver­si­dade Metod­sita de São Paulo. 

[3] Cf. Luke Tyer­man, The Life and Times of the Rev. John Wes­ley, 2 vols. (Lon­don: Hod­der and Stough­ton, 1870 – 71), 2:71. Apud Heit­zen­ra­ter, Richard  P. John Wesley’s prin­ci­ples and prac­tice of pre­a­ching. Lec­tu­res on Seve­ral Occa­si­ons, n. 1, Dal­las: Cen­ter for Metho­dist Stu­dies at Bridwell Library, Per­kins School  of The­o­logy, 1997. p. 25 – 51. 

[4] Heit­zen­ra­ter. Richard P. Wes­ley e o Povo Cha­mado Meto­dista. São Ber­nardo do Campo: Edi­teo; Rio de Janeiro: Ben­nett, 1996. p. 182ss. 

[5] Ibi­dem, p. 113ss. 

[6] Ibi­dem, p. 235. 

[7] Cf. Heit­zen­ra­ter, Richard  P. John Wesley’s prin­ci­ples and prac­tice of pre­a­ching. Lec­tu­res on Seve­ral Occa­si­ons, n. 1, Dal­las: Cen­ter for Metho­dist Stu­dies at Bridwell Library, Per­kins School  of The­o­logy, 1997. p. 29. 

[8] Ibidem. 

[9] Heit­zen­ra­ter, Richard P. Wes­ley e o povo cha­mado meto­dista. p. 99. 

[10] Idem, p. 99. 

[11] Ibi­dem, p. 100. 

[12] Cf. Heit­zen­ra­ter, Richar, P. Prin­ci­ples…, p. 37 

[13] Cf. Apre­sen­ta­ção de Tre­chos do diá­rio de João Wes­ley. São Paulo: Junta Geral de Edu­ca­ção Cristã da Igreja Meto­dista do Bra­sil, 1965. p. 9 – 10. 

[14] Ibi­dem, p. 41 – 42, 

[15] Cf. Obras de Wes­ley, Tomo IX, Espi­ri­tu­a­li­dade e him­nos; Notas al Nuevo Tes­ta­mento: pri­mera parte. Fran­klin: Pro­vi­dence House Publishers, 1998., p. 191 – 193 (trad. nossa). 

[16] Cf. Heit­zen­ra­ter, Richard P. Prin­ci­ples…, p. 47. 

[17] Idem, p. 48. 

[18] Sobre a pre­ga­ção de Whi­te­fi­eld (1714 – 1770), ver PATTISON, T. Harwooe. The His­tory of Crhis­tian Pre­a­ching. Phi­la­delphia: Ame­ri­can Bap­tist Publi­ca­tion Soci­ety, 1903. p. 264 – 270. 

[19] Tel­ford, Let­ters, apud Heit­zen­ra­ter, Richard P. John Wesley’s prin­ci­ples…, p. 38 (trad. nossa). 

[20] Heit­zen­ra­ter, Richard P. John Wesley’s prin­ci­ples, p. 40. 

[21]  Ibidem. 

[22] Cf. Heit­zen­ra­ter, Richard P. Wes­ley e o povo cha­mado meto­dista. p. 237. 

[23] Heit­zen­ra­ter, Richard P. John Wesley’s prin­ci­ples…, p. 41 (trad. nossa). 

[24] A esse res­peito, suge­ri­mos a lei­tura de Chil­cot, Paul Wes­ley. John Wes­ley and the Women Pre­a­chers of early Metho­dism. Lon­dres: The Ame­ri­can The­o­lo­gi­cal Library Asso­ci­a­tion and the Saca­re­crow Press, Inc. 1991.


Oct 27 2009

Culto e entretenimento…

 … na Soci­e­dade do Espetáculo

Luiz Car­los Ramos

  

Vide­mus nunc per spe­cu­lum…
(1Co 13.12)

 

Para Freud, a sani­dade do indi­ví­duo está no con­fronto dosado entre o prin­cí­pio do pra­zer e o prin­cí­pio da rea­li­dade, entre­tanto, no mundo domi­nado pela ide­o­lo­gia do entre­te­ni­mento, promove-se um com­por­ta­mento pato­ló­gico decor­rente do hipe­res­tí­mulo do ele­mento “pra­zer”, em con­traste com a subli­ma­ção do refe­ren­cial da rea­li­dade. Por essa razão, con­quanto sejam vários os ele­men­tos con­ju­ga­dos que com­põem o atual qua­dro que con­forma a soci­e­dade do espe­tá­culo (tais como o sexo, a vio­lên­cia e o jogo), nesta abor­da­gem, nos limi­ta­re­mos àquele que lhe é mais notó­rio e cari­cato: o entretenimento.

Sim, o ele­mento que marca a per­su­a­são espe­ci­a­li­zada do dis­curso espe­ta­cu­lar é o Jogo, isto é, a diver­são, o lúdico, o brin­quedo, o pas­sa­tempo, o entre­te­ni­mento — e é mais fácil experimentá-lo do que explicá-lo. Ten­te­mos, assim mesmo, com­pre­en­der melhor o que é isso de que esta­mos falando (e, tão fre­quen­te­mente, usufruindo).

Em por­tu­guês, a pala­vra jogo tem ori­gem latina em jocus, gra­cejo, graça, pilhé­ria, mofa, escár­nio, zom­ba­ria. A rela­ção com o humor, o riso, o cômico fica evi­dente. Quanto à pala­vra diver­são, do latim diversìo,ónis, remete a “digres­são, diver­são”, do verbo divertère, afastar-se, apartar-se, ser dife­rente, diver­gir. Tal termo sugere um des­vio do cor­rente por meio do dis­tan­ci­a­mento, o que o liga ao con­ceito de ali­e­na­ção. A pala­vra lúdico, car­rega a idéia de sua eti­mo­lo­gia ludi­brium, que denota joguete, zom­ba­ria, insulto, ultraje, engodo e ludìus, que é o pan­to­mimo, o come­di­ante. Ao termo lúdico tam­bém se liga a brin­quedo, defi­nido como algo “que se faz por gosto, sem outro obje­tivo que o pró­prio pra­zer de fazê-lo”. A pala­vra brin­quedo inclui, ainda, o ele­mento de com­po­si­ção ante­po­si­tivo brinc-, ou vrinc- (vin­clu), que sig­ni­fica ligar, pren­der, amar­rar, atar, jun­tar, enfim, sugere a idéia de liame, laço, ata­dura, vín­culo. Sugere a idéia de algo a que alguém se liga por mero pra­zer. A expres­são pas­sa­tempo, por sua vez, sugere a ati­vi­dade que se faz por puro diver­ti­mento, para “matar o tempo”, como se diz popu­lar­mente, e tam­bém sugere uma digres­são, um des­vio, não somente do con­texto de espaço, suge­rido pela pala­vra diver­são, mas da pró­pria noção de tempo. Todos esses ter­mos estão con­cen­tra­dos de maneira muito par­ti­cu­lar na noção de entre­te­ni­mento que carac­te­riza a soci­e­dade espe­ta­cu­lar e, par­ti­cu­lar­mente, o uni­verso medi­ado (cf. HOUAIS, 2001).

Um estudo rele­vante sobre o entre­te­ni­mento na soci­e­dade moderna foi feito por Neal Gabler que, tomando a soci­e­dade esta­du­ni­dense como refe­rên­cia, pro­cura enten­der por que o entre­te­ni­mento se tor­nou o seu valor número “um”. Para esse autor,

de fato, Karl Marx e Joseph Schum­pe­ter pare­cem ter errado ambos. Não se trata de nenhum “ismo”, mas tal­vez o entre­te­ni­mento seja a força mais pode­rosa, insi­di­osa e ine­lu­tá­vel de nosso tempo — uma força tão esma­ga­dora que aca­bou pro­du­zindo uma metás­tase e virando a pró­pria vida (GABLER, 2000, p. 17).

Gabler pro­cura demons­trar o nexo exis­tente entre entre­te­ni­mento e sen­sa­ção. O ele­mento sen­só­rio do entre­te­ni­mento é tão cen­tral que está envo­lu­crado na pró­pria pala­vra. Como notou o autor, eti­mo­lo­gi­ca­mente, entre­te­ni­mento vem do latim inter (entre) e tenere (ter). Con­quanto se entenda entre­te­ni­mento como sendo “aquilo que diverte com dis­tra­ção ou recre­a­ção” ou “um espe­tá­culo público ou mos­tra des­ti­nada a inte­res­sar ou diver­tir”, na cons­ti­tui­ção mesma da pala­vra está pre­sente a idéia de “ter entre”. Isto é, os fil­mes (cinema), os musi­cais (shows), os roman­ces e as his­tó­rias em qua­dri­nhos (livros), as tele­no­ve­las (TV), os jogos ele­trô­ni­cos, para citar alguns, atraem os indi­ví­duos, “mantendo-os cati­vos” levando-os cada vez mais para den­tro de si mes­mos, de suas emo­ções e sen­ti­dos (nova­mente a idéia de espe­lho da rea­li­dade inte­rior do indivíduo).

Gabler sugere que com o entre­te­ni­mento se dê o oposto da arte. A idéia que se tinha era a de que a arte pro­pi­ci­ava o ecks­ta­sis — cuja idéia é a de “dei­xar sair, colo­car para fora”; enquanto que “o entre­te­ni­mento em geral for­nece jus­ta­mente o oposto: inter tenere, puxando-nos para den­tro de nós mes­mos para nos negar a pers­pec­tiva” (GABLER, 2000, p. 25). Se a arte era diri­gida a uma pes­soa, o entre­te­ni­mento se volta ao maior número pos­sí­vel de pes­soas, isto é, lida com uma pla­téia nume­rosa que é con­si­de­rada como massa, “um con­junto de esta­tís­ti­cas” (GABLER, 2000, p. 26). Se a arte é con­ce­bida como inven­ção, o entre­te­ni­mento é tido como conven­ção, por­que “busca cons­tan­te­mente uma com­bi­na­ção de ele­men­tos que já des­per­ta­ram certa rea­ção no pas­sado, na supo­si­ção de que a mesma com­bi­na­ção pro­vo­cará mais ou menos a mesma ração de novo” (GABLER, 2000, p. 26).

As emo­ções e as sen­sa­ções são os fins do entre­te­ni­mento e isso ele obtém por­que se apre­senta “diver­tido, fácil, sen­sa­ci­o­nal, irra­ci­o­nal” (GABLER, 2000, p. 27). Manuel Cas­tells comenta o fato de que a expec­ta­ti­vas de demanda por entre­te­ni­mento “pare­cem ser exa­ge­ra­das e muito influ­en­ci­a­das pela ide­o­lo­gia da ‘soci­e­dade do lazer’” (CASTELLS, 1999, p. 390). Trata-se de um mundo onde os sen­ti­dos triun­fa­ram sobre a mente, a emo­ção sobre a razão, o caos sobre a ordem, o id sobre o supe­rego. A esté­tica do entre­te­ni­mento torna-se cada vez “maior, mais céle­bre, mais baru­lhenta, como se o desejo de uma sobre­carga sen­só­ria fosse, assim como o sexo, um impulso bio­ló­gico em estado bruto, difí­cil de resis­tir” (GABLER, 2000, p. 25).

Culto espe­ta­cu­lar

His­to­ri­ca­mente, a reli­gião ins­ti­tu­ci­o­na­li­zada opôs-se vee­men­te­mente ao entre­te­ni­mento, a exem­plo da pre­ga­ção de João Cri­sós­tomo (354 – 407)  (cf. RAMOS, 2005, p. 48 – 50). E constata-se a freqüente repres­são e cen­sura reli­gi­osa que mar­cou a sepa­ra­ção entre o mundo secu­lar e a reli­gião tra­di­ci­o­nal, ao longo de toda a Idade Média, e que se dis­se­mi­nou prin­ci­pal­mente entre os pro­tes­tan­tes puri­ta­nos. Estes se nota­bi­li­za­ram pelas obje­ções às expres­sões popu­la­res “licen­ci­o­sas”, tais como dra­ma­ti­za­ções, can­ções, dan­ças, jogos e fes­tas sazo­nais.[1] Entre­tanto, em mea­dos do séc. XIX, teve iní­cio uma rup­tura com essa pos­tura his­tó­rica em rela­ção ao entre­te­ni­mento. Isso coin­ci­diu com o sur­gi­mento de um grande número de novas deno­mi­na­ções reli­gi­o­sas, que pas­sa­ram a dis­pu­tar os fiéis como os esta­be­le­ci­men­tos comer­ci­ais con­cor­ren­tes dis­pu­tam cli­en­tes. Segundo Gabler, a pro­li­fe­ra­ção de inú­me­ras deno­mi­na­ções reli­gi­o­sas dife­ren­tes, que rapi­da­mente se expan­diam e espa­lha­vam, nos Esta­dos Uni­dos do séc. XIX, “entre as quais se podia esco­lher livre­mente”, resul­tou em uma prá­tica reli­gi­osa que se tor­nou “tão alta­mente diver­tida que aca­bava por minar bas­tante as expres­sões obri­ga­tó­rias de des­dém diri­gi­das ao entre­te­ni­mento”. Referindo-se ao pro­tes­tan­tismo evan­gé­lico, Gabler afirma tratar-se de “uma reli­gião demo­crá­tica — alta­mente pes­soal e não hie­rár­quica, ver­ná­cula, expres­siva e entu­siás­tica” que “evi­tando a dou­trina e o come­di­mento” pre­fe­riu a emo­ção à teo­lo­gia. Isso por­que essa estra­té­gia fun­ci­o­nava melhor para atrair o público do que as tra­di­ci­o­nais pos­tu­ras puri­ta­nas. (cf. GABLER, 2000, p. 30).

A pro­fun­di­dade da fé passa a ser medida não pela plau­si­bi­li­dade teo­ló­gica dos seus pos­tu­la­dos, mas pela inten­si­dade da emo­ção sen­tida pelo indi­ví­duo que se aban­dona no fer­vor reli­gi­oso, expe­ri­men­tado no con­texto dos cul­tos. Em tais cul­tos, os fiéis são toma­dos por “ata­ques de cata­lep­sia, con­vul­sões, visões, aces­sos incon­tro­lá­veis de riso, súbi­tas explo­sões de can­to­ria e até mesmo de lati­dos [urros, gemi­dos, gru­nhi­dos, e todo tipo de afe­ta­ção]” (GABLER, 2000, p. 31). Essa prá­tica marca o maior movi­mento reli­gi­oso da atu­a­li­dade, não somente nos Esta­dos Uni­dos, mas em todo o con­ti­nente ame­ri­cano e em mui­tas outras regiões do pla­neta. Na cons­ta­ta­ção de Gabler, “ao rejei­tar uma reli­gião raci­o­nal em favor de uma reli­gião emo­ci­o­nal e imo­de­rada” os evan­gé­li­cos ter­mi­na­ram por disseminar-se “nas mes­mas filei­ras do entretenimento”.

Assim, a tea­tra­li­dade[2] começa a “insinuar-se nos ser­vi­ços reli­gi­o­sos” (GABLER, 2000, p. 32): ser­mões outrora mar­ca­dos pelo severo rigor teo­ló­gico dão lugar a ane­do­tas, his­to­re­tas, epi­só­dios engra­ça­dos e apar­tes colo­qui­ais; ritu­ais cir­cuns­pec­tos são subs­ti­tuí­dos por mani­fes­ta­ções extá­ti­cas, con­du­tas extra­va­gan­tes e exul­ta­ções jovi­ais — em grande sin­to­nia com a ascen­são da cul­tura popu­lar. Até o final do século XIX, a cul­tura popu­lar já se trans­for­mara na cul­tura domi­nante nos Esta­dos Uni­dos e, por essa razão, Gabler afirma que, “dali em diante” esta­ria decla­rada e pro­mul­gada a “a Repú­blica do Entre­te­ni­mento” (GABLER, 2000, p. 37), e esta, desde então, vem se expan­dindo por toda parte.

Em nos­sos dias, mais do que tudo, pode-se veri­fi­car o resul­tado disso tudo para o culto público, tanto das igre­jas de con­fis­são cristã como o das dife­ren­tes expres­sões e cul­tu­ras religiosas.

Pode­mos arris­car a seguinte cate­go­ri­za­ção: 1ª. gera­ção: cele­bran­tes midiá­ti­cos intui­ti­vos; 2ª. gera­ção: cele­bran­tes midiá­ti­cos tec­ni­cis­tas; e 3ª. gera­ção: cele­bran­tes midiá­ti­cos especialistas.

Esta­mos viven­ci­ando, ainda, o final da pri­meira gera­ção, a dos cele­bran­tes midiá­ti­cos intui­ti­vos. Sem for­ma­ção na área tec­no­ló­gica ou da comu­ni­ca­ção medi­ada, mas com espí­rito empre­en­de­dor e grande ini­ci­a­tiva, são os pio­nei­ros da tele-religião e con­quis­ta­ram lugar defi­ni­tivo na mídia.

Aos pou­cos, essa pri­meira gera­ção vai dando lugar aos seus suces­so­res, já melhor pre­pa­ra­dos tec­ni­ca­mente para o desem­pe­nho do seu papel de tele-celebrantes. Mas trata-se ainda de uma pre­sença muito tímida. Estes sabem que a mídia exige a subs­ti­tui­ção do dis­curso oral-verbal pela expres­são imagético-visual. Sabem que o meio exige uma dinâ­mica mais veloz e ágil, esforçam-se para des­co­brir cami­nhos. Mas saber “o quê” não é o mesmo que saber “o como”. De modo que o que temos ainda é a repro­du­ção das cerimô­nias reais nos meios de comunicação.

Tere­mos que aguar­dar a pró­xima gera­ção, a dos espe­ci­a­lis­tas, que com o know-how acu­mu­lado à custa dos erros e acer­tos das gera­ções ante­ri­o­res, pode­rão ama­du­re­cer a inter-relação entre a fé na mídia e a mídia na fé.

No momento pre­sente, lamen­ta­vel­mente, ainda temos mui­tos tele-celebrantes incom­pe­ten­tes (tanto téc­nica como teo­lo­gi­ca­mente falando). Alguém já disse que não há nada pior do que um incom­pe­tente com ini­ci­a­tiva e empre­en­de­do­rismo. Os estra­gos que cau­sam podem ser irreversíveis.

É pre­ciso, por­tanto, mais do que ini­ci­a­tiva e espí­rito empre­en­de­dor. É neces­sá­ria uma com­pe­tên­cia tec­no­te­o­ló­gica.

É notó­rio o des­pre­paro teo­ló­gico dos reli­gi­o­sos que estão em des­ta­que na mídia. Na área de Bíblia, percebe-se o quão super­fi­cial é o conhe­ci­mento demons­trado. O pro­ce­di­mento exe­gé­tico é tão raro que os pou­cos casos que even­tu­al­mente apa­re­çam são a exce­ção que con­firma a regra.

Em temos de teo­lo­gia, cris­to­lo­gia e pneu­ma­to­lo­gia dos tele-religiosos, a única coisa que é sis­te­má­tica é o des­prezo pelos teó­lo­gos e por suas ela­bo­ra­ções teo­ló­gi­cas. São rarís­si­mas as alu­sões aos gran­des teó­lo­gos, sejam os da atu­a­li­dade, sejam os da his­tó­ria da Igreja. Quando algum deles é men­ci­o­nado, é para depreciá-lo, e desautorizá-lo com pilhé­rias e gra­ce­jos humi­lhan­tes. No entanto, a teo­lo­gia midiá­tica está muito mais pró­xima da medi­e­val do que da refor­mada, pelo esva­zi­a­mento do con­ceito da Graça, e pela ênfase numa sote­ri­o­lo­gia meri­tó­ria, base­ada na teo­lo­gia da retribuição.

Pas­to­ral­mente, não há a pre­o­cu­pa­ção com a cri­a­ção de “comu­ni­dade”, e a soli­da­ri­e­dade não é vir­tude que mereça lugar de des­ta­que. A edu­ca­ção cristã tam­bém está em baixa, o estudo é deses­ti­mu­lado com base na falá­cia de que a razão milita con­tra a fé. A con­cep­ção do culto deixa clara a igno­rân­cia his­tó­rica da cami­nhada litúr­gica, homi­lé­tica e hino­ló­gica do cris­ti­a­nismo (a ina­ni­ção litúr­gica é como­vente!). A mis­si­o­lo­gia pre­sente na mídia pouco tem a ver com a implan­ta­ção dos valo­res do Reino de Deus, anun­ci­ado por Jesus de Nazaré, mas está pre­o­cu­pada muito mais com as van­ta­gens e benes­ses que se pode aufe­rir da reli­gião. A poi­mê­nica midiá­tica é gene­ra­lista e gene­ra­li­za­dora. Inca­paz de um aten­di­mento pes­soal e huma­ni­zado pau­tado pelo bom-senso, limita-se a ofe­re­cer ori­en­ta­ções ali­nha­das aos este­reó­ti­pos e às gene­ra­li­za­ções do senso-comum – que amiúde é pre­con­cei­tu­oso, dis­cri­mi­na­tó­rio, redu­ci­o­nista, sim­plista, e, a rigor, reflete a ide­o­lo­gia dominante.

Diante de tanta incom­pe­tên­cia, qual é o segredo então do “tre­mendo” sucesso dos astros e estre­las da fé?

Este espaço não nos per­mite apro­fun­dar a ques­tão como gos­ta­ría­mos, no entanto, quero aqui fazer algu­mas indi­ca­ções que podem nos ajudar:

Pra come­çar, deve­mos tomar em conta a estra­té­gia da mídia, que, para alcan­çar seus obje­ti­vos, recorre a ele­men­tos coer­se­du­to­res tais como o nar­ci­sismo, o meca­nismo de trans­fe­rên­cia, o fas­cí­nio das estre­las e os estereótipos.

Des­tes, gos­ta­ria de des­ta­car o fas­cí­nio das estre­las. “A estrela é arque­tí­pica” e fas­cina por­que se torna “a expres­são subli­mada das pró­prias cren­ças, das pró­prias neces­si­da­des” (FERRÉS, 1998, p. 113). A vene­ra­ção dos fãs pelas estre­las ou cele­bri­da­des nem sem­pre depende do talento des­tas e é comum que se dê mais impor­tân­cia às suas qua­li­da­des físi­cas do que à com­pe­tên­cia pro­fis­si­o­nal. No dizer de Neal Gabler, não é neces­sá­rio “haver talento algum para obtê-la [a fama]”, pois tudo de que pre­cisa é “a san­ti­fi­ca­ção da câmara de tele­vi­são” (GABLER, 2000, p. 179). Para Fer­rés, “a pes­soa que seduz, de certo modo, se apo­dera da alma do sedu­zido”, num ato de vam­pi­rismo espe­ta­cu­lar, pois o sedu­zido se entrega incon­di­ci­o­nal­mente recon­fi­gu­rando sua pró­pria per­so­na­li­dade segundo os mol­des da estrela, por asso­ci­a­ção ou trans­fe­rên­cia de tudo o que ela encarna — a moda ditada pelas cele­bri­da­des seria um claro indí­cio desse pro­cesso (FERRÉS, 1998, p. 120 – 121). No campo reli­gi­oso, essa ten­dên­cia mimé­tica, ou vam­pí­rica, tam­bém é notó­ria na repro­du­ção de tre­jei­tos, expres­sões, pos­tu­ras e con­vic­ções ide­o­ló­gi­cas tanto por parte da lide­rança clé­riga quando laica, dita­dos pela moda reli­gi­osa espe­ta­cu­lar. São as estre­las que deter­mi­nam o padrão de beleza física, de pos­tura moral, de esta­tura espi­ri­tual… A repro­du­ção desse com­por­ta­mento espe­ta­cu­lar se nota, inclu­sive, na vene­ra­ção pia a expo­en­tes (astros) reli­gi­o­sos por parte de fiéis (fãs) devo­tos. Acon­tece que, em grande parte, isso se dá de maneira des­per­ce­bida e desa­per­ce­bida. Não se trata de um pro­cesso cons­ci­ente por­que, como exem­pli­fi­cou Fer­rés, quando uma estrela parece ven­der lágri­mas, está ven­dendo sabão, e quando parece estar ven­dendo pro­du­tos, está ven­dendo valo­res (cf. 1998, p. 126 – 127).

Desa­fios pas­to­rais para o culto na idade mídia

 

Vide­mus nunc per spe­cu­lum in enig­mate
tunc autem facie ad faciem nunc cog­nosco ex parte
tunc autem cog­nos­cam sicut et cog­ni­tus sum
(1Co 13.12)

Retomo aqui os desa­fios que eu já havia apon­tado, anos antes, em rela­ção à homi­lé­tica, aplicando-os ao culto como um todo, e à reli­gião em geral, frente à soci­e­dade do espetáculo.

A reli­gião tra­di­ci­o­nal man­tém seu foco no sig­ni­fi­cado, ao passo que a espe­ta­cu­lar focaliza-se, sim, sobre o sig­ni­fi­cante ou sobre a forma da men­sa­gem enun­ci­ada. Entre­tanto, nem a con­ven­ci­o­nal, nem a espe­ta­cu­lar ajus­tam seu foco para cen­tra­li­zar os inter­su­jei­tos comu­ni­can­tes, isto é, nos seres huma­nos que estão inte­ra­gindo nesse pro­cesso comunicacional.

Tal­vez seja pos­sí­vel encon­trar alter­na­ti­vas para a tele-religião, mas essas só serão legí­ti­mas se con­se­guir­mos resis­tir à força desu­ma­ni­za­dora, robo­ti­za­dora, coisi­fi­cadora dos meios tec­no­ló­gi­cos, prin­ci­pal­mente os de comu­ni­ca­ção de massa. Está sobre a mesa a ques­tão da huma­ni­za­ção da mídia. Seria pos­sí­vel um pro­cesso de rever­são huma­ni­za­dora da ten­dên­cia coi­si­fi­ca­dora atual?

Será pos­sí­vel uma espi­ri­tu­a­li­dade medi­ada huma­ni­zada? Se de alguma forma isso for pos­sí­vel, só se dará medi­ante a inte­ra­ção de todas as pes­soas envol­vi­das como sujei­tos ati­vos que podem opi­nar e inter­fe­rir dire­ta­mente no curso do pro­cesso comu­ni­ca­tivo (tal inte­ra­ção deve ser pos­sí­vel entre as pes­soas e os meios, e entre as pró­prias pessoas) — não se trata mais de emis­so­res e recep­to­res de men­sa­gens, mas de inter­su­jei­tos comunicantes.

Será neces­sá­rio, ainda, por parte das igre­jas e dos fiéis, o enfren­ta­mento crí­tico e lúcido das “mega­mu­dan­ças”[3] que ocor­rem no campo teó­rico e tec­no­ló­gico con­tem­po­râ­neo, o que implica na aber­tura para aceitá-las e, até mesmo, para promovê-las, quando per­ce­bi­das como fer­ra­men­tas legí­ti­mas que podem estar a ser­viço de uma ação ética, razoá­vel e democrática.

Essa espi­ri­tu­a­li­dade deverá tam­bém se pre­o­cu­par com a sen­si­bi­li­za­ção ética de todo o corpo humano: suas dores e pra­ze­res, suas dúvi­das e inte­res­ses; tra­tar com res­peito e con­si­de­ra­ção a emo­ção e o sen­ti­mento humanos.

Nas rela­ções com a soci­e­dade tec­no­ló­gica, se deverá bus­car a supe­ra­ção das redes de máqui­nas (de com­pu­ta­do­res, de TVs, de emis­so­ras de rádio…) por uma rede de gente: pois não faz sen­tido haver máqui­nas conec­ta­das se não hou­ver inte­ra­ção entre as pes­soas que as uti­li­zam. Deve-se bus­car, por­tanto, a cons­ti­tui­ção, ainda que vir­tual, de uma comu­ni­dade real. Isso implica na domi­na­ção das máqui­nas pelas pes­soas e não das pes­soas pelas máqui­nas (a maneira de dom[in]ar as máqui­nas é apren­der a usá-las). Tam­bém os homi­le­tas, litur­gos e hinó­lo­gos, deve­rão engajar-se na “alfa­BI­Ti­za­ção”[4] tecnológica.

As comu­ni­da­des cele­bran­tes deve­rão ainda abrir-se às amplas pos­si­bi­li­da­des e esti­los inte­lec­tu­ais; engajar-se no desen­vol­vi­mento de uma inte­li­gên­cia cole­tiva (os resul­ta­dos da inte­li­gên­cia humana devem ser soci­a­li­za­dos para bene­fi­ciar a todos, bem como os pro­ble­mas podem ser resol­vi­dos cole­ti­va­mente, inclu­sive no âmbito da fé); e convencer-se de que sua mis­são, e sua tarefa espe­ci­fi­ca­mente comu­ni­ca­tiva, não se dão no iso­la­mento, antes, só é viá­vel se rea­li­zada cole­ti­va­mente na inter-relação, na multi-relação e mesmo na trans-relação entre sabe­res, com­pe­tên­cias e expe­ri­ên­cias tanto cog­ni­ti­vas como vitais.

Enfim, não será dese­já­vel uma única litur­gia, ou uma única homi­lé­tica, nem mesmo uma única hino­lo­gia, mas várias, inte­ra­gindo e inte­grando sabe­res e sabo­res, prosa e poe­sia, har­mo­nias e rit­mos, pala­vras e ima­gens… Ou então, como alter­na­tiva, se pode aspi­rar pela con­cep­ção de uma única liturgia-homilética-hinologia, mas com mui­tas faces: sen­sí­vel e poli­sen­so­rial, afe­tiva e comu­nal, dia­ló­gica e demo­crá­tica, multi e co-inteligente, inter-multi-transdisciplinar, huma­ni­zada e humanizante.

Não se deve esque­cer, por fim, que o acon­te­ci­mento cele­bra­tivo se dá sem­pre como pro­cesso de cons­tru­ção e recons­tru­ção memo­rial. Por­tanto, não seria demais repe­tir: o culto é, em parte, expec­ta­tiva e, em parte, memó­ria: é acon­te­ci­mento, é ins­tante, é alo­cu­ção, é atu­a­ção, é sta­tus pre­di­candi, é sedu­ção em anda­mento, é silên­cio em eloqüên­cia e som em per­su­a­são; enfim, o culto é(!). Nisso está o seu fas­cí­nio, seu encanto. Por um pouco é palavra/gesto esperado-desejado; num átimo, torna-se palavra-gesto encarnado-experimentado, para logo a seguir sub­mer­gir e res­sur­gir como memó­ria sagrada, pela magia da mis­te­ri­osa dança dos ges­tos sagra­dos e das pala­vras bem-ditas.

Refe­rên­cia

CAMPOS, L. S. Tea­tro, tem­plo e mer­cado: orga­ni­za­ção e mar­ke­ting de um empre­en­di­mento neo­pen­te­cos­tal. Petró­po­lis: Vozes, 1997.

CASTELLS, M. A soci­e­dade em rede. Tra­du­ção de MAJER, R. V. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

CUNHA, M. D. N. “Vinho novo em odres velhos”: Um olhar comu­ni­ca­ci­o­nal sobre a explo­são gos­pel no cená­rio reli­gi­oso evan­gé­lico no Bra­sil. (2004).  347 f. Tese (Dou­to­rado em Ciên­cias da Comunicação) — Escola de Comu­ni­ca­ção e Artes, Uni­ver­si­dade de São Paulo, São Paulo, 2004.

DERTOUZOS, M. O que será: como o novo mundo da infor­ma­ção trans­for­mará nos­sas vidas. São Paulo: Com­pa­nhia das Letras, 1997.

FERRÉS, J. Tele­vi­são subli­mi­nar: soci­a­li­zando atra­vés de comu­ni­ca­ções des­per­ce­bi­das. Tra­du­ção de NEVES, E. R. B. A. Porto Ale­gre: Art­med, 1998.

GABLER, N. Vida, o filme: como o entre­te­ni­mento con­quis­tou a rea­li­dade. São Paulo: Com­pa­nhia das Letras, 2000.

HOUAIS, A. Dici­o­ná­rio ele­trô­nico Hou­ais da lín­gua por­tu­guesa. Rio de Janeiro: Pers­pec­tiva, 2001.

NEGROPONTE, N. A vida digi­tal. São Paulo: Com­pa­nhia das Letras, 1995.

RAMOS, L. C. A Pre­ga­ção na Idade Mídia: os desa­fios da soci­e­dade do espe­tá­culo para a prá­tica homi­lé­tica con­tem­po­râ­nea. (2005).  280 f. Tese (Dou­to­rado em Ciên­cias da Reli­gião – Prá­xis e Soci­e­dade), Uni­ver­si­dade Meto­dista de São Paulo, São Ber­nardo do Campo, 2005.

RAP, H. R. Ciber­né­tica e teo­lo­gia: o homem, Deus e o número. Petró­po­lis: Vozes, 1970.


[1]     Sobre o puri­ta­nismo e a cul­tura popu­lar, ver (CUNHA, 2004, f. 68 – 72).

[2]     Para uma abor­da­gem sobre a rela­ção entre tea­tro e reli­gião, ver (CAMPOS, 1997, p. 61 – 114).

[3]     Sobre as gran­des trans­for­ma­ções pelas quais o mundo está pas­sando, ver (DERTOUZOS, 1997). Compare-se com escri­tos de três déca­das atrás: (RAP, 1970). Ver tam­bém (NEGROPONTE, 1995).

[4]     O neo­lo­gismo “alfa­BITo” asso­cia ao con­ceito “alfa­beto” o BIT, uni­dade de infor­ma­ção padrão no mundo da infor­má­tica. Os inter­nau­tas cos­tu­mam zom­bar dos inex­pe­ri­en­tes nas ques­tões digi­tais referindo-se a eles como “anal­fa­BITs de pai e placa-mãe”.

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Culto e Entre­te­ni­mento na Soci­e­dade do Espe­tá­culo by Luiz Car­los Ramos is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Cri­a­ção de Obras Deri­va­das 2.5 Bra­sil License.


Aug 18 2009

“Lex orandi lex credendi”

A lei da ora­ção é a lei da fé

 Luiz Car­los Ramos

A rigor, se entende que a Teo­lo­gia molda a Litur­gia, mas nem sem­pre nos damos conta de que o inverso tam­bém é ver­da­deiro. Segundo Ronald Byards, a Litur­gia molda a Teo­lo­gia de duas manei­ras: Pri­mei­ra­mente, a litur­gia de uma comu­ni­dade dá corpo e expressa uma teo­lo­gia intrín­seca, mas tam­bém molda uma forma de crença. Às vezes isso se dá inten­ci­o­nal­mente, outras, não. Em segundo lugar, nenhuma teo­lo­gia, que não ofe­reça suporte ou con­tri­bua para  o culto (i.e., para a litur­gia) da comu­ni­dade, será, em longo prazo, aceita e assi­mi­lada pela igreja (cf. BYARDS, 2008).

Como sem­pre insiste o biblista Frei Car­los Mes­ters, a Bíblia nas­ceu do povo e tem que ser devol­vida ao povo. Isso implica que a Teo­lo­gia (Sis­te­má­tica, Bíblica e Pas­to­ral), que se cons­ti­tui a par­tir da Reve­la­ção, tem que estar a ser­viço do povo, caso con­trá­rio, a trans­for­ma­mos num sim­ples “livro antigo”. Ora, o que impede que os tex­tos sagra­dos se redu­zam a velhos tex­tos cadu­cos é o Espí­rito cele­bra­tivo, pelo qual a Bíblia nos ajuda a inter­pre­tar a Vida e a cons­truir comu­ni­dade. Bíblia-fé-e-comunidade (“comu­ni­dade” enten­dida aqui como par­ti­lha cele­bra­tiva, cf. Lc 24.30 – 35) são, no dizer de Mes­ters, como café-leite-e-açúcar: uma vez mis­tu­ra­dos já não podem ser sepa­ra­dos, for­mam uma unidade.

Ora, grande parte dos escri­tos bíbli­cos são tex­tos cele­bra­ti­vos: cân­ti­cos, sal­mos (lou­vor, lamento, ação de gra­ças), ora­ções, pre­ga­ções, tes­te­mu­nhos, apelos…

Na Igreja Pri­mi­tiva, foram neces­sá­rios 59 anos de tra­di­ção litúr­gica até que um Credo fosse for­mu­lado, e mais 300 anos para o esta­be­le­ci­mento do Cânon Bíblico.

Vale lem­brar o que Rubem Alves afirma no livro Dog­ma­tismo & tole­rân­cia a res­peito da fé cele­brada que pre­cede a fé sis­te­ma­ti­zada: a Reforma pro­tes­tante foi can­tada antes de ser enten­dida, isto é, o povo teve acesso aos ensi­nos da Reforma pri­mei­ra­mente por­que a can­tava cele­bra­ti­va­mente. A con­for­ma­ção de uma Teo­lo­gia Refor­mada mais sis­te­ma­ti­zada é enten­dida como ato segundo (cf. ALVES, 2004).

Depreende-se, pois, que a cele­bra­ção é fun­da­men­tal (é Teo­lo­gia Pri­meira). Assim sendo, pode-se afir­mar que se a Teo­lo­gia não ser­vir à doxo­lo­gia da igreja não terá sobre­vida fora dos cír­cu­los inte­lec­tu­ais e aca­dê­mi­cos. A fé cristã é antes de tudo cele­brada e depois, crida. Se algo não puder ser con­ce­le­brado, não poderá ser crido. Uma vez mais é o Frei Car­los Mes­ters quem sábia e sin­ge­la­mente diz: “Estudo só é tijolo, o cimento é a cele­bra­ção” (MESTERS, 2009).

O Leci­o­ná­rio inte­gra Teo­lo­gia e Liturgia

O leci­o­ná­rio tri­e­nal, em sua ver­são ecu­mê­nica, refor­mu­lada na década de 1970, tem sido ado­tado de maneira cres­cente pelos pas­to­res e pas­to­ras das prin­ci­pais igre­jas cris­tãs em todo o mundo. Como relata Byards, no mesmo artigo acima citado, pes­qui­sas fei­tas nos Esta­dos Uni­dos da Amé­rica demons­tram que 99% dos epis­co­pais angli­ca­nos, 98% dos lute­ra­nos, 87% dos pas­to­res da Igreja Unida de Cristo, 69% dos meto­dis­tas, 61% dos pres­bi­te­ri­a­nos, usam o leci­o­ná­rio sem­pre ou na mai­o­ria das vezes para a pre­pa­ra­ção de suas pré­di­cas e litur­gias sema­nais. A ado­ção do leci­o­ná­rio pelas prin­ci­pais igre­jas his­tó­ri­cas vem num cres­cente, desde a década de 80. De maneira bem mais tímida, o mesmo vem acon­te­cendo no Brasil.

A con­sequên­cia disso é que mui­tos temas, outrora sole­ne­mente omi­ti­dos — tais como a esca­to­lo­gia, a pri­ma­zia do rei­nado de Deus ou a opção pelos pobres —, por pare­ce­rem obs­cu­ros, anti­pá­ti­cos ou des­fa­vo­rá­veis, a alguns pre­ga­do­res e pre­ga­do­ras, vol­ta­ram à baila nos púl­pi­tos cris­tãos. E, com isso, a igreja ganha e passa a rece­ber ali­mento espi­ri­tual de maior qua­li­dade, pro­fun­di­dade e consistência.

“Lec­tio con­ti­nua” e “lec­tio selecta”

A rigor, o leci­o­ná­rio tri­e­nal ofe­rece qua­tro indi­ca­ções de lei­tura para o culto sema­nal, sendo duas toma­das da Bíblia Hebraica (incluindo um Salmo), e duas do Novo Tes­ta­mento (incluindo um texto do Evan­ge­lho). Res­pec­ti­va­mente, as lei­tu­ras, ou lições, são assim desig­na­das: “Pri­meira Lei­tura”, “Sal­mó­dia” (tam­bém con­ce­bida como “Canto Inter­lec­ci­o­nal”), “Lei­tura da Epís­tola” (ou “Segunda Lei­tura”) e “Lei­tura do Evangelho”.

O leci­o­ná­rio, por­tanto, é uma pro­posta de plano de lei­tura e pre­ga­ção que pre­tende abor­dar a Bíblia como um todo. Indica lei­tu­ras sele­ci­o­na­das (lec­tio selecta) para cada semana, orga­ni­za­das, tanto quanto pos­sí­vel, tema­ti­ca­mente, prin­ci­pal­mente nas oca­siões fes­ti­vas (Ciclo do Natal e Ciclo da Pás­coa). Em outras oca­siões, prin­ci­pal­mente ao longo do Tempo Comum, adota-se o cri­té­rio da lei­tura con­ti­nu­ada (lec­tio con­ti­nua), com o obje­tivo de pos­si­bi­li­tar à comu­ni­dade um conhe­ci­mento amplo de toda a Bíblia, no curso de três anos.

Ao longo da his­tó­ria da igreja, os pre­ga­do­res e pre­ga­do­ras que mais se des­ta­ca­ram ado­ta­vam algum plano de pre­ga­ção, para nor­tear seu labor como minis­tros da Pala­vra. Os judeus, na sina­goga, tinham desde há mui­tos sécu­los, o cos­tume de ler todo o livro dos Sal­mos em três anos. Sendo 150 o número dos sal­mos, o plano pre­via a lei­tura de um salmo por semana. Como há cerca de 50 sema­nas em um ano, três anos somam pro­vi­den­ci­al­mente 150, o mesmo número dos Salmos.

Sabe-se que os refor­ma­do­res do século XVI ado­ta­vam algum plano de pre­ga­ção, pre­fe­rindo a expo­si­ção de tex­tos bíbli­cos com­ple­tos (perí­co­pes e mesmo livros intei­ros). Empre­ga­vam, por­tanto, o método da lec­tio con­ti­nua; mas nas datas fes­ti­vas mai­o­res (Pás­coa, Pen­te­cos­tes e Natal) ado­ta­vam a lec­tio selecta — pois não faria sen­tido se, em pleno Domingo de Pás­coa, por exem­plo, o pre­ga­dor se pusesse a pre­gar sobre um assunto qual­quer, sem rela­ção com a res­sur­rei­ção, sendo esta a men­sa­gem cen­tral do cristianismo.

Mui­tos dos escri­tos que nos che­ga­ram de Cal­vino e Lutero, entre outros, prin­ci­pal­mente seus comen­tá­rios bíbli­cos, são essen­ci­al­mente resul­tado de ano­ta­ções de pré­di­cas sema­nais. Tanto é assim que desenvolveu-se uma prá­tica que per­dura até os dias de hoje em algu­mas igre­jas de tra­di­ção refor­mada, que é cha­mada de Reader’s Ser­vice (lit., “Culto da Lei­tura”), segundo a qual, os mem­bros de uma deter­mi­nada con­gre­ga­ção se reú­nem meia hora ou uma hora antes do culto prin­ci­pal para ouvir a lei­tura con­tí­nua de tex­tos bíbli­cos cri­te­ri­o­sa­mente escolhidos.

Até o século XVII, não havia, a rigor, a prá­tica da pre­ga­ção temá­tica des­con­tí­nua. Esta só viria a se tor­nar popu­lar com os avi­va­lis­tas do século XVIII e XIX. Ora, ser­mões temá­ti­cos pri­vi­le­giam idéias e temas e não tanto os livros bíbli­cos. Isso deu ensejo a uma prá­tica homi­lé­tica des­con­ti­nu­ada, frag­men­tada, e mais sujeita às idi­os­sin­cra­sias, humo­res, e con­di­ci­o­na­men­tos ide­o­ló­gi­cos pró­prios de cada pre­ga­dor ou pre­ga­dora. Temas que não fos­sem do inte­resse par­ti­cu­lar de certo pre­ga­dor seriam sis­te­ma­ti­ca­mente omi­ti­dos e sone­ga­dos à sua congregação.

Con­cluindo…

Pode-se afir­mar, a par­tir do exposto, que qual­quer plano de pre­ga­ção é melhor que nenhum. O ama­du­re­ci­mento na fé pres­su­põe fami­li­a­ri­dade e rela­ção intensa com os tex­tos sagra­dos. E esse apro­fun­da­mento difi­cil­mente se obtém com uma pre­ga­ção des­con­tí­nua, des­co­nexa e ale­a­tó­ria. É pre­ciso saber de onde vie­mos, para que pos­sa­mos ter noção de para onde vamos (e para que tenha­mos cer­teza de estar­mos indo para frente). O leci­o­ná­rio tri­e­nal nos dá esse roteiro. É inte­li­gente, dinâ­mico e fle­xí­vel. Ao mesmo tempo em que nos “obriga” a abor­dar­mos todos os gran­des temas bíbli­cos — até aque­les que por­ven­tura não nos agra­dem tanto —, tam­bém nos per­mite que, even­tu­al­mente, opte­mos por outros, mais apro­pri­a­dos a cer­tas oca­siões impos­tas pela pre­mên­cia do coti­di­ano — isso para o  caso de nossa cri­a­ti­vi­dade não dar conta de rela­ci­o­nar­mos os tex­tos indi­ca­dos pelo leci­o­ná­rio com tais situações.

O leci­o­ná­rio, por­tanto, é uma útil fer­ra­menta para o nosso tra­ba­lho como pre­ga­do­res e pre­ga­do­ras da Pala­vra (e não de idéias, sim­ples­mente). Um tra­ba­lho que inte­gra Fé e Vida, Pala­vra pre­gada e Pala­vra Crida, Teo­lo­gia e Litur­gia, Ora­ção e refle­xão. Afi­nal: “Lex cre­dendi lex orandi” — a lei da fé é a lei da oração!

Refe­rên­cias

ALVES, R. Dog­ma­tismo e Tole­rân­cia. São Paulo: Loyola, 2004. 

BYARDS, R. P. An Advent Gift: The Escha­to­lo­gi­cal Pro­mise. Inter­pre­ta­tion: a jour­nal of Bible and The­o­logy. v. 6. n. 4. Rich­mond: UTS-PSCE, 2008. p. 372 – 395.

MESTERS, F. C. Lei­tura popu­lar da Bíblia. Rumos da Teo­lo­gia Bíblica nos cami­nhos da Amé­rica Latina e Bra­sil. Cen­tro Uni­ver­si­tá­rio São Camilo (CETESP)2009.

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“Lex cre­dendi lex orandi””: A lei da fé é a lei da ora­ção by Luiz Car­los Ramos is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Cri­a­ção de Obras Deri­va­das 2.5 Bra­sil License.


Jun 16 2009

A pregação na Idade Mídia

Os desa­fios da soci­e­dade do espe­tá­culo para a homi­lé­tica contemporânea

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Tese dou­to­ral de Luiz Car­los Ramos

(cli­que na ima­gem ao lado para ter acesso ao texto inte­gral em for­mato PDF)

RAMOS, Luiz Car­los. A Pre­ga­ção na Idade Mídia: os desa­fios da soci­e­dade do espe­tá­culo para a prá­tica homi­lé­tica con­tem­po­râ­nea. São Ber­nardo do Campo, 2005. 280 f. Tese (Dou­to­rado em Ciên­cias da Reli­gião – Prá­xis e Sociedade) — Universidade Meto­dista de São Paulo, São Ber­nardo do Campo, 2005.

Sinopse

Esta pes­quisa propõe-se a demons­trar como o fenô­meno comu­ni­ca­ci­o­nal espe­ta­cu­lar moderno afeta a prá­xis homi­lé­tica con­tem­po­râ­nea. Cons­tata que as prá­ti­cas reli­gi­o­sas se mos­tram cada vez mais espe­ta­cu­la­res, na medida em que, influ­en­ci­a­das pela mídia, são refor­mu­la­das con­forme as regras pró­prias do espe­tá­culo (show busi­ness) e da indús­tria do entre­te­ni­mento. Na idade mídia, a expe­ri­ên­cia da pre­ga­ção nas igre­jas encon­tra nos meios de comu­ni­ca­ção o seu modus ope­randi (prin­cí­pios), seu modus faci­endi (méto­dos) e seu modus vivendi (pro­pó­si­tos). Enquanto isso, os meios de comu­ni­ca­ção de massa se con­ver­tem em típi­cas agên­cias reli­gi­o­sas, enti­da­des espi­ri­tu­ais (vir­tu­ais) e tem­plos ele­trô­ni­cos, cujas prá­ti­cas cúl­ti­cas e mis­si­o­ná­rias pro­pa­gam boas-novas que devem ser cri­das e ima­gens que devem ser ado­ra­das. Esta aná­lise do fenô­meno é feita com base: nos refe­ren­ci­ais ofe­re­ci­dos pelos his­to­ri­a­do­res da homi­lé­tica; na relei­tura feita por Chaïm Perel­man dos prin­cí­pios aris­to­té­li­cos rela­ti­vos à comu­ni­ca­ção per­su­a­siva — a cha­mada Nova Retó­rica —; e pela abor­da­gem crí­tica de Guy Debord sobre a soci­e­dade do espe­tá­culo. Este estudo é rea­li­zado em três eta­pas: pri­mei­ra­mente, busca-se uma con­cei­tu­a­ção da homi­lé­tica tomando-se por base uma retros­pec­tiva his­tó­rica; em segundo lugar, formula-se uma teo­ria dos prin­cí­pios, méto­dos e pro­pó­si­tos homi­lé­ti­cos clás­si­cos (uma teo­lo­gia da pro­cla­ma­ção); e, por último, a par­tir desse refe­ren­cial his­tó­rico e teó­rico, procede-se a uma aná­lise com­pa­ra­tiva da prá­tica homi­lé­tica espe­ta­cu­la­ri­zada em rela­ção à homi­lé­tica clás­sica. O resul­tado será um con­junto de refe­ren­ci­ais gerais que pos­si­bi­li­tem uma melhor com­pre­en­são do fenô­meno homi­lé­tico con­tem­po­râ­neo, bem como que sir­vam de fun­da­mento para futu­ras aná­li­ses, de cará­ter mais espe­cí­fico, tanto da homi­lé­tica con­ven­ci­o­nal quanto da telehomilética.

Palavras-chave: homilética – prédica – pregação – retórica – persuasão – sedução – comunicação – mídia – espetáculo – entretenimento.

RAMOS, Luiz Car­los. A Pre­ga­ção na Idade Mídia: os desa­fios da soci­e­dade do espe­tá­culo para a prá­tica homi­lé­tica con­tem­po­râ­nea. São Ber­nardo do Campo, 2005. 280 f. Tesis (Doc­to­rado en Ciên­cias de la Reli­gión – Prá­xis y Sociedad) — Universidad Meto­dista de São Paulo, São Ber­nardo do Campo, 2005.

Resu­men

Esta pes­quisa trata de demos­trar como el fenó­meno comu­ni­ca­ci­o­nal espec­ta­cu­lar moderno afecta la pra­xis homi­lé­tica con­tem­po­rá­nea. Cons­tata que las prác­ti­cas reli­gi­o­sas se vuel­ven cada vez más espec­ta­cu­la­res, por cuanto influ­en­ci­a­das por los medios, y son refor­mu­la­das con­forme las reglas pro­pias del espec­tá­culo y de la indus­tria del entre­te­ni­mi­ento. En la edad de los medios, la expe­ri­en­cia de la pre­la­ción en las igle­sias encu­en­tra en los medios su modus ope­randi (prin­ci­pios), su modus faci­endi (méto­dos) y su modus vivendi (pro­pó­si­tos). En con­tra­par­tida, los medios de comu­ni­ca­ción masi­vos se con­vi­er­ten en típi­cas agen­cias reli­gi­o­sas, enti­da­des espi­ri­tu­a­les (vir­tu­a­les) y en tem­plos elec­tró­ni­cos, cuyas prác­ti­cas cúl­ti­cas y misi­o­ne­ras pro­pa­gan bue­nas nue­vas que deben ser creí­das y imá­ge­nes que deben ser ado­ra­das. Este aná­li­sis del fenó­meno se hace basado en los refe­ren­ci­a­les ofre­ci­dos por los his­to­ri­a­do­res de la homi­lé­tica; la relec­tura hecha por Chaïn Perel­nan de los prin­ci­pios aris­to­té­li­cos sobre la comu­ni­ca­ción per­su­a­siva — la Nueva Retó­rica —; y por el abor­daje crí­tica de Guy Debord sobre la soci­e­dad del espec­tá­culo. Este estu­dio es rea­li­zado en tres eta­pas: pri­me­ra­mente, se busca una con­cep­tu­a­ción de la homi­lé­tica tomando en cuenta una retros­pec­tiva his­tó­rica; en segundo lugar, formula-se una teo­ría de los prin­ci­pios, méto­dos y pro­pó­si­tos homi­lé­ti­cos clá­si­cos (una teo­lo­gía de la pro­cla­ma­ción); y, por último, con base en este refe­ren­cial his­tó­rico y teó­rico, procede-se a un aná­li­sis com­pa­ra­tivo de la prác­tica homi­lé­tica espe­ta­cu­la­ri­zada en rela­ción con la homi­lé­tica clá­sica. El resul­tado será un con­junto de refe­ren­ci­a­les gene­ra­les que posi­bi­li­ten una mejor com­pren­sión del fenó­meno homi­lé­tico con­tem­po­rá­neo, bien como que sir­van de fun­da­mento para futu­ros aná­li­sis, de carác­ter más espe­cí­fico, tanto de la homi­lé­tica con­ven­ci­o­nal cuanto de la telehomilética.

Palabras-clave: homi­lé­tica – pré­dica – pre­di­ca­ción – retó­rica – per­su­a­sión – seduc­ción – comu­ni­ca­ción – medios masivos – espectáculo – entretenimiento.

RAMOS, Luiz Car­los. A Pre­ga­ção na Idade Mídia: os desa­fios da soci­e­dade do espe­tá­culo para a prá­tica homi­lé­tica con­tem­po­râ­nea. São Ber­nardo do Campo, 2005. 280 f. The­sis (Doc­tor Degree in Sci­en­ces of Reli­gion – Pra­xis and Society) — São Paulo Metho­dist Uni­ver­sity, São Ber­nardo do Campo, 2005.  

Abs­tract

This rese­arch intends to demons­trate how the modern spec­ta­cu­lar com­mu­ni­ca­tion phe­no­me­non affects the con­tem­po­rary homi­le­tic pra­xis. It cer­ti­fies that the reli­gi­ous prac­ti­ces have been more and more spec­ta­cu­lar, to the extent that, influ­en­ced by the media; they are refor­mu­la­ted accor­ding to the rules of the spec­ta­cle (show busi­ness) and of the indus­try of the enter­tain­ment. In the media age, the expe­ri­ence of pre­a­ching in the chur­ches finds in the com­mu­ni­ca­tion medium its modus ope­randi (prin­ci­ples), its modus faci­endi (methods) and its modus vivendi (pur­po­ses). Meanwhile, the bro­ad­cas­tings turn into typi­cal reli­gi­ous agen­cies, spi­ri­tual enti­ties (vir­tual) and elec­tro­nic tem­ples, whose litur­gi­cal and mis­si­o­nary prac­ti­ces spread good-news that should be beli­e­ved and ima­ges that should be ado­red. This analy­sis of the phe­no­me­non has the fol­lowing ele­ments as star­ting point: the refe­ren­ces offe­red by the homi­le­tic his­to­ri­ans; the re-approach done by Chaïm Perel­man to the Aris­to­te­lian prin­ci­ples regar­ding the per­su­a­sive com­mu­ni­ca­tion — the so cal­led New Rhe­to­ric —; and by Guy Debord’s cri­ti­cal appro­ach to the soci­ety of the spec­ta­cle. This appro­ach is accom­plished in three sta­ges: first, the con­cep­tu­a­li­za­tion of homi­le­tic is explo­red from a his­to­ri­cal retros­pec­tive; second, a the­ory of the clas­sic homi­le­tic prin­ci­ples, methods and pur­po­ses is for­mu­la­ted (a the­o­logy of the pro­cla­ma­tion); and third, from the his­to­ri­cal and the­o­re­ti­cal refe­ren­ces, the rese­arch pro­ce­eds to a com­pa­ra­tive analy­sis of the spec­ta­cle homi­le­tic prac­tice in rela­tion to the clas­sic homi­le­tic. The result will be a col­lec­tion of gene­ral refe­ren­ces that make pos­si­ble a bet­ter unders­tan­ding of the con­tem­po­rary homi­le­tic phe­no­me­non, as well as foun­da­tion for future analy­sis, of more spe­ci­fic cha­rac­ter, for the con­ven­ti­o­nal homi­le­tic as well as for the telehomiletic.   

Key words: homi­le­tic – ser­mon – pre­a­ching – rhe­to­ric – per­su­a­sion – seduc­tion – com­mu­ni­ca­tion – media –spectacle – entertainment.