Jun 9 2010

Namorados

Um tre­cho do “Cân­tico dos cânticos”

Ver­são de Luiz Car­los Ramos

Este é o mais belo poema jamais escrito por uma mulher que amou o seu homem apaixonadamente.

[…]

Ami­gas e Amigos:

Você é uma mulher bela
entre as mais belas mulheres.

Ele:

Meu amor,
Seu andar é gra­ci­oso e sedu­tor.
São lin­das as mechas
dos seus cabe­los.
Em meio aos belos cola­res
bri­lha belís­simo o seu colo.
Quero hoje pre­sen­tear você
com jóias de ouro
incrus­ta­das de prata!

Ela:

Espere, meu prín­cipe,
enquanto meu per­fume
esparge sua fra­grân­cia.
Você, meu amor,
é o per­fume da minha pele.
Você, meu amor, é para mim
um buquê de flo­res exuberantes.

[…]

Ele:

Como você é linda, meu amor;
Bela como uma cidade len­dá­ria,
for­mosa como a cidade da paz,
majes­tosa como estrela cin­ti­lante.
Eu lhe peço, não me olhes assim
pois seus olhos me seduzem!

Seus cabe­los negros
aca­ri­ci­ando os ombros;
seu sor­riso ale­gre e per­feito;
suas faces cora­das,
ver­me­lhas como maçãs…

Sei que há deze­nas de rai­nhas
e inú­me­ras mulhe­res,
mas você, minha pom­bi­nha amada,
é única;
você é a mulher da minha vida!
Tão que­rida pelos da sua casa;
a vizi­nhança vem para felicitá-la:
rai­nhas e prin­ce­sas
não se can­sam de elogiá-la.

Ami­gos e amigas:

Mas quem é essa for­mo­sura?
Tão admi­rá­vel como a aurora:
bela como a lua,
e esplen­do­rosa como o sol;
majes­tosa como as estrelas?

Ela:

Desci ao jar­dim das noguei­ras
para ver o vale flo­rido,
os reben­tos da vide,
e as maci­ei­ras em flor.
E, antes que me desse conta,
minha pai­xão me trans­for­mara
numa car­ru­a­gem de fogo!

[…]

IMAGEM: Young Lovers
© Hans Neleman/Corbis; COLEÇÃO: zefa (RF);
Pre­mium Royalty-Free (RF): 42 – 18030174


Apr 29 2010

Trabalho

Luiz Car­los Ramos

Tripa­lium já foi tor­tura
Tra­ba­lho já foi suplí­cio
Aos pou­cos vai se trans­for­mando em far­tura
Como deve­ria ter sido desde o início.

* * *

O mundo muda pelo tra­ba­lho
de quem tem
mãos hábeis e olhar pro­fundo,
pés ágeis e mente lúcida,
cora­ção que ama o que faz
e que, por isso, faz o que ama.

* * *

Traba­lho:
tran­subs­tan­ci­a­ção de suor em pão.

* * *

IMAGEM  (Far­mer Hol­ding Ear of Wheat): © Ron Chapple/Corbis;
COLEÇÃO Cor­bis Yel­low; Value Royalty-Free (RF), 42 – 18912519


Apr 25 2010

“Imagine”

(Como pou­cos conseguiriam)


(“Ima­gine”, de John Len­non, na ver­são do elenco de Glee, com par­ti­ci­pa­ção de um grupo de estu­dan­tes surdos)

Ima­gine

John Len­non (trad. Luiz C. Ramos)

Ima­gine there’s no hea­ven,         [Ima­gina que não haja paraíso,]
it’s easy if you try,                           [é fácil se ten­ta­res,]
no hell below us,                              [nem inferno lá em abaixo,]
above us only sky,                          [acima de nós, só  o céu,]
ima­gine all the peo­ple                   [ima­gina todas as pes­soas]
living for today…                            [vivendo o presente…]

Ima­gine there’s no coun­tries,    [Ima­gina que não haja fron­tei­ras,]
it isn’t hard to do,                            [não é difí­cil fazê-lo,]
nothing to kill or die for,              [nada pelo que matar ou mor­rer,]
no reli­gion too,                                 [tam­pouco reli­gião,]
ima­gine all the peo­ple                   [ima­gina  todas as pes­soas]
living life in peace…                        [vivendo em paz…]

Ima­gine no pos­ses­si­ons,               [Ima­gina nada de pos­ses,]
I won­der if you can,                        [pergunto-me se és capaz,]
no need for greed or hun­ger,      [sem carên­cia ou fome por causa da ambi­ção,]
a brotherhood of men,                   [uma fra­ter­ni­dade humana,]
ima­gine all the peo­ple                    [ima­gina todos os povos]
sha­ring all the world…                    [com­par­tindo o mundo.]

You may say I’m a dre­a­mer,         [Tu dirás que sou um sonha­dor,]
but I’m not the only one,                [mas não sou o único,]
I hope some day you’ll join us,    [espero que algum dia te jun­tes a nós,]
and the world will live as one       [então o mundo será um.]


Sep 4 2009

A alma da minha casa

 

Luiz Car­los Ramos
Com pala­vras tor­ci­das e rou­ba­das a Manuel de Bar­ros
(Para D. Odete Ramos)
 

Imagem578Atrás da minha casa de menino o rio fazia cur­vas, e ainda faz.
Da varanda dos fun­dos a gente ouvia o coa­xar do rio.
Ainda hoje as flo­res cap­tu­ram beija-flores e os liber­tam de beijos.

Quando a rua da minha casa ainda não tinha cal­çada,
a gente divi­sava um ombro de bar­ranco
e o esca­lava pra esti­car os horizontes.

Na cozi­nha, o fogão à lenha esta­lava o calor do inverno.
A cha­leira fazia um  chi­ado cinza pra fer­ver a água.

A gente se ani­nhava ao redor da vitrola
pra escu­tar estó­rias ama­re­las, ver­des e azuis.
Escu­tava e tor­nava a escu­tar.
Repe­tia e repe­tia e repe­tia até ficar diferente.

À noite a gente ador­me­cia um canto de ninar materno.

A minha casa de menino tem uma alma
que alguns cha­mam “Odete”.
Pra mim, o som que ela fazia era “Mãe”,
e ainda faz.

 

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A alma da minha casa by Luiz Car­los Ramos is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Cri­a­ção de Obras Deri­va­das 2.5 Bra­sil License.


Aug 9 2009

Pai

Luiz Car­los Ramos

Imagem577

Eu era pequeno e você, grande,

Eu era fraco e você, forte,

Eu sabia tão pouco e você, tão sábio.

E agora,

À medida que o tempo passa,

Per­cebo melhor

Como você é mesmo grande,

Como você é mesmo forte,

Como você é mesmo sábio.

Para­béns pelo seu dia!

Amo você,

pai!

 

 

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Pai, eu era pequeno e você, grande by Luiz Car­los Ramos is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Cri­a­ção de Obras Deri­va­das 2.5 Bra­sil License.
 


Aug 6 2009

Castro, no inverno

Luiz Car­los Ramos

O gelo que­bra sob os pés
São bru­mas de sau­dade
Fog na terra dos frogs

Fotos: Bueno/Divulgação

Jul 20 2009

Dia do Amigo

Amigo

Texto: Luiz Car­los Ramos
Música: Liséte Espíndola

Se o dia é mau
E a noite é cruel
O tempo não passa
Lágri­mas rolam
Sapato aperta
Os calos doem

Ainda assim
Amigo, conte comigo!

Se a dor é forte
A idéia é fraca
As per­nas, bam­bas
Cabeça dói
Sau­dade é grande
Tudo tão longe

Ainda assim
Amigo, conte comigo!

Se o dia nasce
Os lábios sor­riem
As horas voam
Que a vida é tão boa
A voz é doce
O corpo dança

Tam­bém assim
Amigo, conte comigo!

Se a gente se encon­tra
O brinde é certo
Dis­tân­cias se encur­tam
Abraço forte…
Abraço forte…

E se você se for
P’ra não voltar

Ainda assim
Amigo, conte comigo!

 
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Amigo by Luiz Car­los Ramos & Liséte Espín­dola is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Cri­a­ção de Obras Deri­va­das 2.5 Bra­sil License.


Jun 11 2009

O Cântico dos cânticos

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o-cantico-dos-canticos-capaO CÂNTICO DOS CÂNTICOS:
o livro sagrado dos amantes

Autora anô­nima do séc. V a.C.

Ver­são para o por­tu­guês: Luiz Car­los Ramos

(cli­que ao lado para abrir o texto integral)

 

Adver­tên­cias

1.     Este livro não é reco­men­dado para pes­soas não apai­xo­na­das ou cujo desejo esteja ador­me­cido, a menos que quei­ram despertá-lo;

2.     Cui­dado! Este livro foi escrito por uma mulher, não obs­tante sécu­los de patri­ar­ca­lismo tenham ten­tado roubar-lhe o mérito. Para se com­pro­var que não se trata de um texto de Salo­mão, basta ler os pri­mei­ros e os últi­mos parágrafos;

3.     Con­quanto não seja uma tra­du­ção lite­ral (pois trata-se, antes, de uma trans­cri­a­ção poé­tica), esta ver­são con­ti­nua fiel ao espí­rito e à inten­ção do ori­gi­nal hebraico;

4.     O mora­lismo reli­gi­oso ten­tou dis­tor­cer ines­cru­pu­lo­sa­mente estes Cân­ti­cos. As liber­da­des toma­das nesta ver­são nem de longe se com­pa­ram àque­les abusos;

5.     Caso alguém, sedu­zido por esses ver­sos, resolva utilizá-los em suas núp­cias, ou incluí-los na cerimô­nia de suas bodas, por favor, faça isso por sua pró­pria conta e risco, lembrando-se sem­pre de que a sen­si­bi­li­dade poé­tica e o res­peito pelo desejo divino-humano não são vir­tu­des muito cul­ti­va­das em nossa sociedade;

6.     Uma última adver­tên­cia, para que nin­guém se aven­ture desa­vi­sado: a lei­tora e o lei­tor, que des­fru­ta­rem os ver­sos deste poema de amor, esta­rão vul­ne­rá­veis aos ris­cos do pra­zer, por­que assim foi com a autora, um dia, e com o tra­du­tor, três mil anos depois.

Luiz Car­los Ramos
De pas­sa­gem pelo Rio de La Plata
em maio de 2008