Aug 24 2010

Luz do mundo, luz do céu

Luiz Car­los Ramos
para Liséte, estrela radi­ante de pri­meira gran­deza
(Ano Este­lar : 2004)

 

Vós sois a luz do mundo. Não se pode escon­der a cidade edi­fi­cada sobre um monte; nem se acende uma can­deia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no vela­dor, e alu­mia a todos os que se encon­tram na casa. Assim bri­lhe tam­bém a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vos­sas boas obras e glo­ri­fi­quem a vosso Pai que está nos céus. (Mateus 5.14 – 16)

Intro­du­ção

F

omos fei­tos para bri­lhar, diz Jesus no mais famoso ser­mão jamais pre­gado —aquele que teve como púl­pito uma mon­ta­nha. Note-se a hie­rar­quia do texto: somos luz que ilu­mina o mundo, a casa e os homens; e con­clui com a glo­ri­fi­ca­ção do Pai que está nos céus. Isto indica que quando as nos­sas boas obras são notó­rias em todas as esfe­ras da vida —da mais pes­soal e domés­tica até a mais uni­ver­sal e ecu­mê­nica — , em última ins­tân­cia, Deus é quem é glo­ri­fi­cado (vale lem­brar que a pala­vra gló­ria, em hebraico, sig­ni­fica “bri­lho”, “iluminação”).

Mas Jesus, iro­ni­ca­mente, tam­bém diz que há quem não resista à ten­ta­ção de acen­der uma vela para colocá-la debaixo de um pote de fari­nha. Natu­ral­mente isso não é uma coisa muito inte­li­gente a se fazer. Entre­tanto, vocês devem con­vir comigo que o dom da lógica não é, real­mente, patrimô­nio da grande maioria.

Cômico ou trá­gico, temos de admi­tir que nem tudo que foi feito pra bri­lhar, bri­lha. E, ainda que pareça incrí­vel, há muita coisa que não deve­ria bri­lhar e bri­lha. 

O Nas­ci­mento das Estrelas

Tome­mos como exem­plo os cor­pos celes­tes. Há os de bri­lho pró­prio —as estre­las — , e há os que ape­nas refle­tem a luz —os pla­ne­tas, os saté­li­tes, os come­tas, etc.

Ambos bri­lham, mas aque­las, a par­tir de den­tro, estes a par­tir de fora. Saté­li­tes e pla­ne­tas refle­tem a luz, ao passo que as estre­las são luz. Jesus disse que nós tam­bém somos luz, e não meros refletores.

Entre­tanto, há quem não tenha luz pró­pria… que pega carona na luz dos outros. São como os cor­pos celes­tes refle­to­res, que depen­dem da luz externa. Só con­se­guem exer­ci­tar sua espi­ri­tu­a­li­dade, por exem­plo, se esti­mu­la­dos a par­tir de fora. Para esses, o culto só é uma bên­ção quando há pre­ga­do­res eloqüen­tes, música envol­vente, tes­te­mu­nhos emo­ci­o­nan­tes… Se por alguma razão pre­ci­sa­rem ficar a sós, a espi­ri­tu­a­li­dade se vai. Desa­pa­re­cem os arre­pios, as lágri­mas se secam, a gló­ria se apaga. Por­que a luz não está den­tro deles, e ado­ram um deus que está do lado de fora.

Uma pes­soa cristã deve bri­lhar a par­tir de den­tro, por­que Jesus, que é a grande luz, está den­tro de nós —mais ou menos como uma lan­terna, cujas bate­rias estão na sua bar­riga. A ener­gia da lan­terna vem de suas entra­nhas. A luz mora no seu inte­rior e trans­borda por seus vitrais.

Pra resu­mir essa idéia: fomos fei­tos pra bri­lhar, mas se não esta­mos bri­lhando é por­que alguma coisa está errada por den­tro, e é pre­ciso consertá-la.

Os Eclip­ses das Estrelas

Mas há uma outra situ­a­ção que pode fazer com que a nossa luz fique impe­dida de bri­lhar. Mesmo o Sol, sendo uma estrela cheia de luz, de tem­pos em tem­pos fica ofus­cado por cor­pos muito meno­res. Todos já ouvi­mos falar de eclip­ses, e até mesmo mui­tos já pude­mos obser­var esse curi­oso fenô­meno astronô­mico. Há oca­siões em que, por exem­plo, a Lua, con­quanto muito menor do que a pró­pria Terra, é sufi­ci­ente para tapar a luz do Sol.

Entre os seres huma­nos os eclip­ses são ainda mais freqüen­tes do que entre os cor­pos celes­tes. Há mui­tas cir­cuns­tân­cias nas quais a nossa luz fica obs­truída. Isso pode ser cau­sado por pes­soas que se colo­cam diante de nós para nos pre­ju­di­car; ou pode ser cau­sado pelas con­tin­gên­cias da vida que por vezes nos aba­tem, tais como enfer­mi­da­des, cri­ses finan­cei­ras, con­fli­tos fami­li­a­res, etc.

Mas há uma lição que deve­mos apren­der com os Eclip­ses: todos eles são tem­po­rá­rios. Não há eclipse que dure para sem­pre   — por­que a vida é movi­mento! Mais cedo ou mais tarde, a roda viva do Uni­verso muda a posi­ção dos cor­pos (celes­tes ou ter­res­tres) e a luz repre­sada volta a via­jar rumo ao infi­nito.

É só uma ques­tão de paci­ên­cia astronô­mica. Por­que jamais houve e jamais haverá alge­mas capa­zes de apri­si­o­nar a luz.

A Morte das Estrelas

Tra­gi­ca­mente, há ainda mais uma oca­sião em que a luz pode dei­xar de bri­lhar: quando chega o ine­vi­tá­vel cre­pús­culo side­ral —pois até mesmo as estre­las mor­rem.

Só que até nisso as estre­las nos ensi­nam. Dizem os astrô­no­mos que mui­tas das estre­las que vemos no céu, já dei­xa­ram de exis­tir há milha­res ou milhões de anos. Entre­tanto, sua luz ainda está lá. Não é fan­tás­tico?! As estre­las bri­lham com inten­si­dade tal, que mesmo depois de sua morte, ven­cem o tempo e alcan­çam o infi­nito.

Isso quer dizer que se tam­bém bri­lhar­mos com a inten­si­dade de quem tem Deus den­tro de si, mesmo depois de nossa morte, nossa luz con­ti­nu­ará a ilu­mi­nar as gera­ções futu­ras. Da mesma forma que hoje somos ilu­mi­na­dos pela luz daque­les e daque­las que vive­ram antes de nós, que nos dei­xa­ram seu legado de fé, espe­rança e amor. A igreja é uma herança, um pre­sente, uma luz que nos chega do pas­sado. Luz que ainda con­tem­pla­mos, mesmo que tenha sido gerada por estre­las que já cru­za­ram as fron­tei­ras do cre­pús­culo.

Para­fra­se­ando Fer­nando Pes­soa, bri­lhar é pre­ciso, viver não é pre­ciso. Ser luz é a melhor maneira de ven­cer o tempo e alcan­çar o infi­nito.

Pero­ra­ção

Que­ri­das irmãs e que­ri­dos irmãos, este é um tempo de festa, prin­ci­pal­mente por­que esta­mos come­mo­rando o auge lumi­noso dessa estrela cha­mada Igreja [Nome da Igreja]. E nós — para alu­dir ao grande cien­tista Karl Sagan, que era encan­tado com os mis­té­rios do Uni­verso — somos pó dessa grande estrela.

Nos­sas obras, se forem boas, ilu­mi­na­rão os indi­ví­duos, as nos­sas casas, a nossa igreja e o mundo todo, mesmo muito depois de nossa par­tida. E assim, segundo a pre­ga­ção de Jesus regis­trada pela comu­ni­dade de Mateus, o pró­prio Deus será glo­ri­fi­cado. E há de ser que a luz do mundo será tam­bém a luz do céu.

Se bri­lhar­mos a luz de Deus, Deus bri­lhará a nossa luz.

 

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Quando minha filha, Ana Paula, tinha seis ani­nhos, depois de uma longa con­versa pelo tele­fone, nos des­pe­di­mos assim:

— Um milhão de bei­jos pra você, minha filha.

— Não, pai, sabe as estre­las do céu, cada estrela é um beijo meu pra você.

Emocionei-me, e continuei:

— Um Uni­verso de bei­jos pra você tam­bém, minha filha.

— Não, pai, um espaço side­ral de bei­jos pra você.

Que lição incrí­vel: As cri­an­ças não têm difi­cul­dade de saber como bri­lhar com a luz das estre­las. Para elas é fácil saber que um sim­ples beijo pode ser uma linda estrela.

É isso, um beijo é uma estrela, uma con­fis­são cheia de ter­nura a dizer sem palavras: — Amo você!

A melhor maneira de ser luz e bri­lhar é amar, amar muito e amar sempre!

Se você tem Deus aí den­tro, isto é, se você ama —por­que Deus é amor — , depo­site na face do seu irmão e da sua irmã uma estrela esta­lada ou, se pre­fe­rir, um cari­nhoso beijo de luz, um beijo estre­lado.


Jun 6 2010

Um livro, uma capa e um amigo

Eis tudo que preciso

Luiz Car­los Ramos

 

2 Timó­teo 4.9ss: 9 Pro­cura vir ter comigo depressa. 10  Por­que Demas, tendo amado o pre­sente século, me aban­do­nou e se foi para Tes­salô­nica; Cres­cente foi para a Galá­cia, Tito, para a Dal­má­cia. 11 Somente Lucas está comigo. Toma con­tigo Mar­cos e traze-o, pois me é útil para o minis­té­rio. 12 Quanto a Tíquico, mandei-o até Éfeso. 13 Quando vie­res, traze a capa que dei­xei em Trôade, em casa de Carpo, bem como os livros, espe­ci­al­mente os per­ga­mi­nhos. 14 Ale­xan­dre, o lato­eiro, causou-me mui­tos males; o Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras. 15 Tu, guarda-te tam­bém dele, por­que resis­tiu for­te­mente às nos­sas palavras.

16 Na minha pri­meira defesa, nin­guém foi a meu favor; antes, todos me aban­do­na­ram. Que isto não lhes seja posto em conta! 17 Mas o Senhor me assis­tiu e me reves­tiu de for­ças, para que, por meu inter­mé­dio, a pre­ga­ção fosse ple­na­mente cum­prida, e todos os gen­tios a ouvis­sem; e fui liber­tado da boca do leão. 18 O Senhor me livrará tam­bém de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celes­tial. A ele, gló­ria pelos sécu­los dos sécu­los. Amém! 19 Saúda Prisca, e Áqüila, e a casa de One­sí­foro. 20  Erasto ficou em Corinto. Quanto a Tró­fimo, deixei-o doente em Mileto. 21 Apressa-te a vir antes do inverno. Êubulo te envia sau­da­ções; o mesmo fazem Pru­dente, Lino, Cláu­dia e os irmãos todos. 22 O Senhor seja com o teu espí­rito. A graça seja convosco.”

Intro­du­ção

Che­gou o fim do semes­tre, che­gou o frio inverno. Em breve, nos dis­per­sa­re­mos. Alguns sen­ti­rão frio. Outros se sen­ti­rão sós. Mui­tos sen­ti­rão sau­da­des. O texto que nos ins­pira neste dia nos fala de um sen­ti­mento pare­cido que, segundo uma antiga tra­di­ção, o grande após­tolo dos gen­tios esta­ria experimentando.

Segundo essa tra­di­ção, o fim da jor­nada do após­tolo Paulo estava che­gando, jun­ta­mente com um duro inverno. “O pri­si­o­neiro sente a soli­dão pelo aban­dono ou des­vio de alguns cola­bo­ra­do­res e a hos­ti­li­dade de um conhe­cido” (nota da Bíblia do Pere­grino). “Esta página con­tris­tada e serena, quem sabe a última que o após­tolo haja ditado, lem­bra o tema do justo aban­do­nado, tema este que a morte de Jesus na cruz ilus­trara tão cabal­mente. Mas assim como para Jesus, esta soli­dão está povo­ada pela pre­sença de Deus” (nota da Bíblia Tra­du­ção Ecu­mê­nica), bem como pela lem­brança de fatos mar­can­tes e pela sau­dade de ami­gos especiais.

Paulo se pre­pa­rava para enfren­tar um rigo­roso inverno, um inverno mete­o­ro­ló­gico, um inverno exis­ten­cial, um inverno afe­tivo. Para isso, teria escrito a Timó­teo, um amigo que­rido, pedindo que este lhe trou­xesse, o mais rápido pos­sí­vel, o que ele pre­ci­sa­ria para enfren­tar esse temí­vel inverno.

Uma das enco­men­das de Paulo foi…

… a capa

“Quando vie­res, traze a capa
que dei­xei em Trôade, em casa de Carpo.”
(v. 13)

Esse Paulo tinha um estilo de vida aus­tero. Não tinha luxos, não gozava de gran­des con­for­tos, nem pra­ti­cava mui­tas extra­va­gân­cias. Tanto é assim que ele teria dei­xado, ou esque­cido, um dos seus par­cos bens em Trôade. Ora, somente alguém desa­pe­gado dos bens mate­ri­ais dei­xa­ria para trás uma capa, um paletó, um sobretudo.

Entre­tanto, Paulo sabia que, por mais espi­ri­tual que fosse, pre­ci­sava cui­dar do corpo. E, embora já em sua reta final, a mis­são não pode­ria ser inter­rom­pida pre­ma­tu­ra­mente por uma pneu­mo­nia irresponsável.

Paulo pre­ci­sava da sua capa, como nós pre­ci­sa­mos do nosso aga­sa­lho. O inverno está aí, o semes­tre che­gou ao fim, mas a mis­são pre­cisa con­ti­nuar. Para isso, pre­ci­sa­mos nos man­ter aque­ci­dos, sau­dá­veis e dispostos.

Mas só a capa não bas­tava, por isso a outra enco­menda de Paulo incluia…

… os livros e os pergaminhos

“Quando vie­res, traze a capa […],
 bem como os livros, espe­ci­al­mente os per­ga­mi­nhos.”
  (v. 13)

Paulo foi um grande mis­si­o­ná­rio por­que foi um homem estu­di­oso, culto, eru­dito, amigo dos livros até nos últi­mos momen­tos de sua vida. Lei­tor com­pul­sivo, conhe­cia os clás­si­cos gre­gos, tanto filó­so­fos quanto poe­tas. Sabe­mos tam­bém que foi autor de pena gene­rosa e abun­dante — o que teria sido da teo­lo­gia cristã, não tives­sem Paulo e seus dis­cí­pu­los nos dei­xado seu legado por escrito? —. Para enfren­tar o rigo­roso inverno exis­ten­cial, Paulo abas­tece sua dis­pensa com livros, com pala­vras… não quais­quer pala­vras, mas pala­vras boas, pala­vras inte­li­gen­tes, pala­vras bem-ditas.

Já que as nos­sas férias tam­bém se apro­xi­mam, o que leva­re­mos na baga­gem para enfren­tar o nosso pró­prio inverno exis­ten­cial? Quem dera, como Paulo, nesse tempo de rea­va­li­a­ções, tenha­mos a chance de ler­mos bons livros, e nos ali­men­tar­mos far­ta­mente das pala­vras sagra­das que Deus e os homens, Deus e as mulhe­res, plan­tam nos livros; pala­vras que se ofe­re­cem a nós como pães aro­má­ti­cos, sabo­ro­sos e edificantes.

Mas, além da capa e dos livros, a enco­menda mais impor­tante de Paulo foi…

… o amigo João Marcos

“Toma con­tigo a Mar­cos e traze-o,
pois me é útil para o minis­té­rio.”
  (v. 11)

Paulo expe­ri­men­tara mui­tos tipos de rela­ci­o­na­men­tos: havia ami­gos que par­tiam, tais como Demas, que aban­do­rara a fé e abra­çara o mundo (v. 10), havia os que sim­ples­mente se muda­vam, como Cres­cente e Tito, que esta­vam morando agora em Galá­cia e Dal­má­cia, respectivamente.

Havia, ainda, os ami­gos que se tor­na­vam ini­mi­gos, como Ale­xan­dre, o lato­eiro (v. 14). Des­ses, Paulo diz que “o Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras” (v. 14); e que deles deve­mos nos guar­dar (cf. v. 15).

Mas tam­bém havia aque­les como Lucas, que nunca o aban­do­nara; amigo leal, fiel, cons­tante, sem­pre pre­sente, nas horas boas e nas horas amar­gas; aquele que per­ma­ne­cia quando todos já se tinham ido: “Somente Lucas está comigo” (v. 11).

Mas uma das ami­za­des mais mar­can­tes para Paulo, foi aquela com João Mar­cos. Quando em via­gem para Anti­o­quia da Psí­dia, João Mar­cos aban­do­nara Paulo e seus com­pa­nhei­ros, vol­tando para Jeru­sa­lém (cf. At 13.13). Paulo se lem­bra­ria desse aban­dono, quando Bar­nabé quis tor­nar a incluir João Mar­cos em outra via­gem mis­si­o­ná­ria: “Mas Paulo não era de opi­nião que se reto­masse como com­pa­nheiro um homem que os aban­do­nara na Pan­fí­lia e, por­tanto não par­ti­ci­para do tra­ba­lho deles. Essa dis­cor­dân­cia se agra­vou a tal ponto que eles par­ti­ram cada qual para seu lado. Bar­nabé tomou con­sigo Mar­cos e embar­cou para Chi­pre, enquanto Paulo asso­ci­ava Silas a si e par­tia…” (At 15.38 – 40).

O tempo se encar­re­ga­ria de mos­trar a Paulo que ele estava enga­nado. Nem sem­pre um colega que nos decep­ci­ona uma vez, está inca­pa­ci­tado para se asso­ciar a nós em outras jor­na­das. Bar­nabé que, do alto de sua expe­ri­ên­cia, podia dis­cer­nir isso, pos­si­bi­li­tou a Paulo essa impor­tante ami­zade e deu-lhe o com­pa­nheiro que o assis­ti­ria nas suas últi­mas horas.

Pero­ra­ção

Agora que o tempo de par­tir se apro­xima, e o inverno aperta, pre­ci­sa­mos estar pre­pa­ra­dos para enfrentá-los: a par­tida e o inverno. E, por mais que os aga­sa­lhos e os livros nos aju­dem, nada pode subs­ti­tuir um amigo.

Nes­tes tem­pos de for­ma­ção aca­dê­mica, deve­mos aten­tar para os cui­da­dos do corpo e os cui­da­dos da mente, man­tendo a capa e os livros sem­pre à mão, mas, prin­ci­pal­mente, não pode­mos esque­cer dos cui­da­dos do cora­ção, e é para isto que ser­vem os ami­gos, é para isto que ser­vem as ami­gas. Como diz o sábio em seu antigo pro­vér­bio: “Em todo tempo ama o amigo, e na angús­tia se faz o irmão” (Pv 17.17).

Que neste inverno não nos fal­tem aga­sa­lhos, nem livros e muito menos ami­gos e amigas.

Boas férias.

Facul­dade de Teo­lo­gia da Igreja Meto­dista
2004

IMAGEM: Cup on book on desk
© Bloomimage/Corbis; COLEÇÃO: Bloom
Padrão Royalty-Free (RF)
42 – 24011357


May 17 2010

Com a palavra, o vento e o fogo!

Refle­xões a par­tir de Atos 2.1 – 11

Luiz Car­los Ramos

 

Lá fora a festa estava ani­mada. Celebrava-se o Pen­te­cos­tes, festa antiga da tra­di­ção judaica em gra­ti­dão por­que a terra dera o seu fruto. Havia gente de todo lugar. Enquanto isso, a Igreja, reu­nida mas ame­dron­tada, estava fechada, den­tro de uma casa, como se sabe pela nar­ra­tiva de João: “Che­gada pois a tarde daquele dia, e cer­ra­das as por­tas onde os dis­cí­pu­los, com medo dos judeus, se tinham jun­tado, che­gou Jesus, e pôs-se no meio, disse-lhes: Paz seja con­vosco […] e tendo dito isto soprou sobre eles e disse-lhes: Rece­bei o Espí­rito Santo” (20.19 – 22). No relato de Lucas, no livro dos Atos dos Após­to­los – que alguém certa vez suge­riu que deve­ria se cha­mar Atos do Espí­rito Santo –, o vento sopra den­tro da casa onde se encon­tra­vam os dis­cí­pu­los e as dis­cí­pu­las de Jesus (v.2) e é assim que acon­tece o Pen­te­cos­tes Cris­tão. Não é sur­pre­en­dente que tal expe­ri­ên­cia pneu­má­tica tenha se dado num lugar fechado?

O Pen­te­cos­tes cris­tão é sina­li­zado, nesta perí­cope, por três ele­men­tos enfá­ti­cos que carac­te­ri­zam a ação do Espí­rito Santo na comu­ni­dade dos discípulos/as: o Vento, o Fogo e a Pala­vra; e a dinâ­mica do texto sugere um movi­mento que con­duz do cená­culo para a rua. Esses ele­men­tos e essa dinâ­mica nos levam a pen­sar nas impli­ca­ções da dou­trina do Espí­rito Santo para a vida das igrejas.

Come­ce­mos por con­si­de­rar o pri­meiro ele­mento: o vento, pois…

… O Espí­rito é vento impe­tu­oso
capaz de are­jar a mais fechada das comunidades

Cons­ta­ta­mos, ini­ci­al­mente, que o Pen­te­cos­tes cris­tão acon­tece de den­tro para fora e de forma ine­vi­tá­vel. Não pode ser fabri­cado, ou mani­pu­lado, nem pro­vo­cado, nem impe­dido pela ação humana. É mani­fes­ta­ção da graça divina que desce e visita a comu­ni­dade de fé. E, sendo de Deus, não pode ser limi­tado no seu alcance e, por isso, é expe­ri­ên­cia comu­ni­tá­ria para toda a casa (v.2), i. e., para todos que se encon­tram na casa.

O vento (pneuma = espí­rito) é incon­tro­lá­vel — “O vento sopra onde quer…’’ (Jo 3.8). Os dis­cí­pu­los e dis­cí­pu­las não ima­gi­na­vam quão radi­cal podia ser tal afir­ma­ção de Jesus, até que a expe­ri­men­ta­ram no dia de Pen­te­cos­tes. “Onde quer”, para Jesus,  sig­ni­fica que o vento pode soprar até mesmo den­tro de uma casa fechada.

Isto indica que até o grupo mais ensi­mes­mado e obtuso pode ser visi­tado por esse Vento Impe­tu­oso. A comu­ni­dade cristã é, assim, are­jada pelo Espí­rito Santo.

Con­si­de­re­mos, agora, o segundo ele­mento: o fogo, afi­nal…

… O Espí­rito é laba­reda de fogo
capaz de aque­cer a pes­soa mais gélida

O Pen­te­cos­tes cris­tão, além de ser expe­ri­ên­cia para toda a Igreja, é expe­ri­ên­cia para cada dis­cí­pulo e cada dis­cí­pula. Segundo o livro de Atos, lín­guas de fogo foram dis­tri­buí­das “uma sobre cada um(a)” (v.3). A ação do Espí­rito é, por­tanto, laba­reda de fogo que aquece o cora­ção daquele e daquela que inte­gra a comu­ni­dade de fé. Não é mas­si­fi­ca­dora, mas tam­bém não é mar­gi­na­li­za­dora. É para todos, mas tam­bém é pes­soal e res­peita a indi­vi­du­a­li­dade de cada pes­soa. Mesmo a mais insen­sí­vel das per­so­na­li­da­des é trans­for­mada pela pre­sença do Espí­rito Santo.

Sendo para todos e todas e para cada um e cada uma, não faz acep­ção de pes­soas. Por não depen­der das vir­tu­des do indi­ví­duo que o recebe – por ser graça de Deus – o Espí­rito sopra onde quer, inde­pen­dente dos méri­tos huma­nos. Por­tanto, espi­ri­tu­a­li­dade não é requi­sito para se rece­ber o Espí­rito Santo, mas, antes, con­seqüên­cia da pre­sença desse Espí­rito na nossa vida.

Tal pre­sença sen­si­bi­liza e move o dis­cí­pulo e a dis­cí­pula para a mis­são. O Espí­rito Santo nos arranca do cená­culo e nos leva para a rua, para a praça e… para a expe­ri­ên­cia do ter­ceiro ele­mento: a Pala­vra, por­que…

… O Espí­rito é pala­vra divina na boca dos fiéis
capaz de fazer-se com­pre­en­dida nos ouvi­dos das nações

O Pen­te­cos­tes cris­tão é expe­ri­ên­cia para toda a Igreja, para cada dis­cí­pulo ou dis­cí­pula e tam­bém o é para todas as nações. A comu­ni­dade cristã, até então fechada em si mesma, uma vez are­jada e aque­cida pelo Espí­rito Santo, torna-se aberta, comu­ni­ca­tiva e sim­pá­tica (cf. 2.47).

Tími­dos dis­cí­pu­los se tor­nam ousa­dos pre­ga­do­res que ganham a rua e fazem do mundo sua paró­quia. E, ao con­trá­rio do que muita gente pensa, ao invés de falar em lín­gua estra­nha, eles come­çam a pre­gar em um idi­oma muito fami­liar para seus ouvintes.

E aquela gente, de todas as par­tes do mundo, se admira por­que, pela pri­meira vez, ouvem falar das mara­vi­lhas de Deus em sua pró­pria lín­gua (cf. vv. 7 e 8: lín­gua materna = lín­gua da mãe). Mais uma vez, o Pen­te­cos­tes é expe­ri­ên­cia para todos e para cada um. Para todas as nações e para cada uma na sua par­ti­cu­la­ri­dade — pois o emprego da lín­gua natal é a demons­tra­ção da inti­mi­dade e res­peito pela indi­vi­du­a­li­dade com que Deus trata as pes­soas, as igre­jas e as nações.

Con­clu­são

Pro­vo­ca­dos pela ação do Espí­rito que invade o espaço fechado pelo medo e abre as por­tas da Igreja para o mundo carente de ouvir as mara­vi­lhas de Deus na sua pró­pria lín­gua, somos leva­dos a orar:

  • Para que o pre­con­ceito, o orgu­lho e o medo não levem nos­sas comu­ni­da­des a se fechar e iso­lar da vida do povo;
  • Para que o Pen­te­cos­tes cris­tão renove o ar, mui­tas vezes vici­ado, de nos­sas comu­ni­da­des e sopre sobre elas o vento da liber­dade e da libertação;
  • Para que nos­sas comu­ni­da­des, pas­to­res, pas­to­ras e bis­pos e epis­co­pi­sas não caiam na ten­ta­ção de que­rer mani­pu­lar, con­tro­lar ou limi­tar as mani­fes­ta­ções do Espí­rito, que sopra onde e como quer.

Uma vez que o mila­gre do ouvir das nações se dá quando acon­tece o mila­gre do falar das igre­jas, ore­mos para que nos­sas igre­jas se abram e esta­be­le­çam uma comu­ni­ca­ção efi­ci­ente com os de fora da comunidade.

Ore­mos, por­tanto, pelas nações, seden­tas das admi­rá­veis mara­vi­lhas de Deus, anun­ci­ada pela boca da Igreja, numa lin­gua­gem fami­liar, íntima, comu­ni­ca­tiva que res­peite as par­ti­cu­la­ri­da­des de cada interlocutor.

Final­mente, irmãs e irmãos, seja­mos,  a comu­ni­dade do Espí­rito: que sopre sobre nós o Seu vento impe­tu­oso e des­cor­tine diante de nós o hori­zonte do Reino de Deus; que desça sobre cada um e cada uma de nós o Seu fogo e nos faça arder os cora­ções; que seja­mos, nesta semana, a comu­ni­dade da Pala­vra, para que o res­peito pela par­ti­cu­la­ri­dade e pela indi­vi­du­a­li­dade nos per­mita o diá­logo, a com­pre­en­são e o anún­cio das mara­vi­lhas de Deus, desde as nos­sas igre­jas locais, pas­sando por toda a Igreja Meto­dista, até os con­fins da terra. Assim Deus nos ajude.

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Men­sa­gem pre­gada pela pri­meira vez durante a Semana de Atu­a­li­za­ção Teo­ló­gica em outu­bro de 2000
IMAGEM: Quil­ted ban­ner of fla­mes and dove, for Pentecost


May 10 2010

Cartas, algemas e promissórias

Refle­xões sobre a liber­dade e a liber­ta­ção a par­tir da carta de Paulo a Filemom

Luiz Car­los Ramos

No dia 13 de maio de 1888, diz-se que foi abo­lida a escra­va­tura, pelo menos a ofi­cial, lega­li­zada pelo Estado e aben­ço­ada pela Igreja. Essa data é ana­li­sada da seguinte maneira pelo his­to­ri­a­dor  Alfredo Bosi:

“o treze de maio não é uma data ape­nas entre outras, número neu­tro, nota­ção cro­no­ló­gica. É o momento cru­cial de um pro­cesso que avança em duas dire­ções. Para fora: [por­que] o homem negro é expulso de um Bra­sil moderno, cos­mé­tico, euro­pei­zado. Para den­tro: [por­que] o mesmo homem negro [é] tan­gido para os porões do capi­ta­lismo naci­o­nal, sór­dido, bru­tesco. O senhor liberta-se do escravo [grifo meu] e traz ao seu domí­nio o assa­la­ri­ado, migrante ou não. (…) Não se decre­tava ofi­ci­al­mente o exí­lio do ex-cativo, mas pas­sa­ria a vivê-lo como estigma na cor da sua pele. Entre as con­seqüên­cias dos sécu­los de escra­vi­dão no Bra­sil desenvolveu-se um qua­dro de exclu­são dos negros. No Bra­sil um branco recebe men­sal­mente, em média, o dobro do negro.”

Jus­ta­mente pelo fato de que essa liber­ta­ção foi antes a do senhor do que a do escravo, é que os negros bra­si­lei­ros se recu­sam a come­mo­rar esta data. Como sabe­mos, e anu­al­mente con­ce­le­bra­mos, a data fes­te­jada pelos negros é a do Dia da Cons­ci­ên­cia Negra, aos 20 de novem­bro, relem­brando o mar­tí­rio de Zumbi dos Pal­ma­res, assas­si­nado no ano de 1695. Mas esta é uma outra história.

A his­tó­ria de liber­ta­ção, que ins­pira nossa refle­xão, está regis­trada no texto bíblico que aca­ba­mos de ler (Epís­tola de Paulo a File­mon) e que tam­bém trata da escra­vi­dão. Não da escra­vi­dão dos negros, como a do Bra­sil, mas daquela que, de certa forma, todos esta­mos pas­sí­veis de expe­ri­men­tar (então, como agora, alguém se tor­nava escravo por causa da guerra, por causa de dívida, ou por causa da sorte/azar de ter nas­cido escravo).

O texto é, na ver­dade, uma carta que se ins­creve no con­texto escra­va­gista do pri­meiro século da era cristã – é a única carta pes­soal de Paulo que foi pre­ser­vada até nos­sos dias. Epís­to­las como essa não eram inco­muns. A dife­rença é que tais car­tas geral­mente pediam para que se per­do­asse o escravo e que este fosse res­tau­rado à sua “mui digna” con­di­ção ser­vi­çal. Por isso, quanto ao obje­tivo, a carta a File­mom é abso­lu­ta­mente iné­dita, inu­si­tada (pois não pede que o escravo seja res­ti­tuído à sua con­di­ção de escravo).

(A pala­vra empre­gada pelo autor para desig­nar “escravo” é dou­los,  que sig­ni­fica aquele que está amarrado/ligado/algemado/acorrentado a seu senhor – note-se que no verso 13, Paulo usa, em con­tra­par­tida, o verbo dia­ko­neo, para se refe­rir a um outro tipo de ser­viço, o do Evangelho.)

A fuga de escra­vos não che­gava a ser rara. Refugiavam-se, com freqüên­cia em cida­des gran­des, como Roma, na espe­rança de pode­rem per­ma­ne­cer des­per­ce­bi­dos no meio da mul­ti­dão, e, os deu­ses aju­dando, ou pelo menos não atra­pa­lhando, podiam ten­tar ganhar a vida “hones­ta­mente”. Nem sem­pre isso era pos­sí­vel e, às vezes, para matar a fome, antes que fos­sem mor­tos por ela, aca­ba­vam pra­ti­cando peque­nos furtos.

Por esses peque­nos deli­tos, com freqüên­cia, tais escra­vos eram pre­sos e, quando iden­ti­fi­ca­dos como escra­vos fugi­ti­vos, eram devol­vi­dos a seus senho­res. Escra­vos fugi­ti­vos, quando recap­tu­ra­dos eram seve­ra­mente puni­dos (daí a ori­gem do gesto litúr­gico da ora­ção: sub­ju­gado, mani­e­tado, o escravo rece­bia de joe­lhos a sen­tença e o castigo).

É nesse con­texto que se ins­creve a como­vente Epís­tola a File­mom. Como toda carta que se preze, esta tam­bém tem um reme­tente, um por­ta­dor e um des­ti­na­tá­rio. Per­so­na­gens que, quando melhor conhe­ci­dos, muito podem nos ensi­nar. Veja­mos o que des­co­bri­mos a res­peito deles, come­çando pelo…

 … Des­ti­na­tá­rio: Filemom

Des­co­bri­mos que File­mom era que­rido e amado por Paulo e con­si­de­rado seu cola­bo­ra­dor (aga­peto, synergo – v. 1). Que vivia pro­va­vel­mente com a irmã Áfia e o esposo dela, Arquipo, em Colos­sos (v. 2) – outra ver­são inter­preta que File­mom é que era casado com Áfia e que Arquipo era filho do casal. A carta diz que File­mom era amá­vel e amo­roso e que pos­suía notá­vel fé (aga­pen kai ten pis­tin – v. 5).

Somos infor­ma­dos ainda de que sua casa se cons­ti­tuía num oásis, uma sinagoga/igreja (ekkle­sia – v. 2), para os cris­tãos de Colos­sos. E que por seu inter­mé­dio o cora­ção dos san­tos era freqüen­te­mente rea­ni­mado, con­for­tado e ale­grado (v. 7).

Pode­mos per­ce­ber que File­mom pos­suía algu­mas pro­pri­e­da­des: uma casa, que virara igreja (v. 2); pelo menos um escravo, que fugira (vv. 10,11,15); e alguns bens (den­tre eles os que teriam sido rou­ba­dos pelo escravo fugitivo).

E, por último, fica­mos sabendo que recebe de Paulo um pedido, no mínimo estra­nho, inu­si­tado: trans­for­mar um escravo em um irmão.

Veja­mos, agora, o que pode­mos des­co­brir a res­peito do…

 … Por­ta­dor: Onésimo

Que era de Colos­sos des­co­bri­mos lendo a Epís­tola aos Colos­sen­sens (“vosso conterrâneo” – cf. Cl 4.9). E a carta a File­mom deixa claro que Oné­simo é o tal escravo fugi­tivo (v. 10), isto é, uma das pro­pri­e­da­des per­di­das de File­mom. Insi­nua que antes de fugir não tinha boa fama, antes, era con­si­de­rado um inú­til (achreston/euchreston – v. 11).

Pode­mos dedu­zir que era um escravo um tanto rebelde e ousado, pois tinha o pés­simo cos­tume de sonhar com a liber­dade e de não se dei­xar cha­mar de “inútil” – essas coi­sas impró­prias que alguns escra­vos insis­tem em come­ter –, por isso resolve fugir (v. 15), toma “empres­ta­dos” a File­mom alguns obje­tos de valor e, tal­vez, mais algu­mas moe­das e parte para a cidade grande (cf. v 19).

Tam­bém dedu­zi­mos que Oné­simo era um tanto aza­rado, pois, ao que tudo indica,  aca­bou sendo preso em Roma (v. 10) – talvez por rein­ci­dir na prá­tica de ali­viar os cida­dãos do incô­modo peso de suas moedas.

Entre­tanto, Oné­simo não dei­xava de ser sor­tudo, pois foi parar jus­ta­mente numa pri­são onde pôde ter con­tato com o após­tolo Paulo (v. 10). Sabe­mos que, por inter­mé­dio de Paulo, Oné­simo conhece o Evan­ge­lho (v 10) e a pos­si­bi­li­dade de uma liber­dade infi­ni­ta­mente superior, a qual jamais sonhara poder existir.

Ao que tudo indica, há de tornar-se, mais tarde, impor­tante líder reli­gi­oso. Há quem diga que teria se tor­nado Bispo de Éfeso (citado por Santo Iná­cio de Anti­o­quia, † 107).

Sabe­mos, porém, que, além da Boa Nova de liber­ta­ção do Evan­ge­lho, recebe de Paulo, para seu azar (de novo!), a temí­vel incum­bên­cia de ser­vir de car­teiro, levando uma men­sa­gem jus­ta­mente para o senhor de quem fugira levando algu­mas lem­bran­ci­nhas e a grande e infe­liz lem­brança de que File­mom o con­si­de­rava um inú­til (v. 17).

Agora é pre­ciso que nos dete­nha­mos, por alguns ins­tan­tes, revendo as infor­ma­ções que temos a res­peito daquele que faz esse pedi­dos tão estra­nhos, tanto para File­mom quanto para Oné­simo, o…

 … Reme­tente: Paulo

Sabe­mos que, nessa oca­sião, Paulo estava preso em Roma, por con­tin­gên­cia (des­mios=pri­si­o­neiro), mas que era embai­xa­dor por voca­ção (presby­tes – v. 9) e que, mesmo preso, era um inve­te­rado e com­pul­sivo reme­tente de epístolas.

Por seu minis­té­rio – e por suas car­tas – mui­tos haviam sido gera­dos na fé, inclu­sive File­mom, o escra­va­gista, e Oné­simo, nosso azarado/sortudo escravo (v. 19 e 9, respectivamente).

Seus tex­tos mos­tram que Paulo é alguém que esta­be­lece forte vín­culo afe­tivo com as pes­soas que evan­ge­liza (vv. 1,2,23,24). Não se con­tenta em dar o recado: insiste em comun­gar de corpo e alma.

Temos de reco­nhe­cer que, ao evan­ge­li­zar, Paulo tinha o mérito de não fazer acep­ção de pes­soas: con­si­dera cada um “irmão carís­simo” quer fosse senhor; quer fosse escravo (v. 16); quer fosse homem, quer fosse mulher; quer fosse da casa grande de File­mon, quer fosse da Sen­zala de Onésimo.

E mais, Paulo reco­nhece o poten­cial das pes­soas. Lei­a­mos: “Ele [Oné­simo], antes te foi inú­til; atu­al­mente, porém, é útil, a ti e a mim” (v. 11) e “eu que­ria conservá-lo comigo mesmo para, em teu lugar, me ser­vir nas alge­mas que car­rego por causa do evan­ge­lho” (v. 13). (Note-se o tro­ca­di­lho com o sig­ni­fi­cado do nome “Oné­simo” = “util”).

Como homem do seu tempo, Paulo res­peita as pra­xes e con­ven­ções soci­ais: “nada, porém, quis fazer sem o teu con­sen­ti­mento” (v. 14). Não chega a ser expli­ci­ta­mente abo­li­ci­o­nista… Mas acha que sem­pre é pos­sí­vel melho­rar as pra­xes e con­ven­ções: neste caso, acha que File­mom deve con­si­de­rar Oné­simo não como mero escravo, mas “antes, muito acima de escravo, como irmão carís­simo” (16) – o que, con­ve­nha­mos, não era pouca coisa para sua época.

Essa espe­rança de que o mundo pode ser melhor, de que as rela­ções podem ser mais fra­ter­nas, de que as dis­tân­cias soci­ais e econô­mi­cas podem ser encur­ta­das, fez com que Paulo tivesse sido abso­lu­ta­mente soli­dá­rio para com Oné­simo. Por isso, não pôde per­ma­ne­cer indi­fe­rente, e passa a inter­ce­der junto a File­mom em favor do “filho gerado entre alge­mas”, certo de que File­mom poderá fazer muito mais do que o soli­ci­tado (v. 21): O per­dão da dívida? A alfor­ria? A auto­ri­za­ção para que Oné­simo vol­tasse para tra­ba­lhar com Paulo?

Final­mente, sabe­mos que Paulo não dá tare­fas difí­ceis somente para os outros. A tarefa que atri­bui a si pró­prio é ainda mais árdua: assina uma pro­mis­só­ria em bene­fí­cio de um escravo inú­til, fujão e ladrão (v. 19). Paulo empe­nha sua honra e seus bens na luta pela queda das bar­rei­ras soci­ais, cul­tu­rais e econô­mi­cas. Bar­rei­ras essas que insis­tem em fazer de homens, como File­mom, escra­vos de um sis­tema que escra­viza e segrega; ou que redu­zem homens, como Oné­simo, a fugi­ti­vos do medo e ladrões da ilu­são. Sim, Paulo empe­nha sua honra, seus bens e a pró­pria liber­dade para que as pes­soas dei­xem de se tra­tar como senho­res e escra­vos, e pas­sem a se tra­tar como “irmãos carís­si­mos” (adelphon aga­pe­ton).

Con­cluo com algumas…

 … Con­si­de­ra­ções pastorais

De File­mom, apren­de­mos que o fato de exis­ti­rem cris­tãos exem­pla­res, amo­ro­sos, coo­pe­ra­do­res do Evan­ge­lho e pos­sui­do­res de notá­vel fé, não é garan­tia de uma comu­ni­dade que não escra­vize ou segre­gue; apren­de­mos que a san­ti­fi­ca­ção é um pro­cesso con­tí­nuo, que exige con­ver­são cons­tante, rumo à liber­ta­ção plena. É pre­ciso mais do que abrir as por­tas de casa para a Igreja, é pre­ciso abrir­mos as por­tas da Igreja para a Senzala.

De Oné­simo apren­de­mos que resis­tir às cadeias, nos rebe­lar­mos con­tra a opres­são e, even­tu­al­mente, fugir­mos da escra­vi­dão, não nos garante a con­quista da liber­dade – há uma liber­dade supe­rior que é pre­ciso ser con­quis­tada para que dei­xe­mos de ser fugi­ti­vos e inú­teis: por­que ser livres para é muito mais do que estar­mos livres de. Estou certo de que Oné­simo se sen­tiu infi­ni­ta­mente mais livre quando expe­ri­men­tou a liber­dade para enfren­tar seu pas­sado do que quanto, fugindo, pen­sava estar se livrando do seu passado.

E de Paulo apren­de­mos que as cadeias não podem ser des­culpa para o con­for­mismo e não são jus­ti­fi­ca­tiva que nos impe­çam de tomar­mos ini­ci­a­tiva na cons­tru­ção da soci­e­dade fraternal.

Então, irmãos e irmãs, esta­re­mos dis­pos­tos a empe­nhar a nossa honra, os nos­sos bens e a nossa pró­pria liber­dade para que, entre nós, não haja mais senho­res e escra­vos; e para que haja, antes, uma e única famí­lia humana for­mada de irmãs e irmãos carís­si­mos e livres, livres, livres…?

Assim Deus nos ajude!

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(Pre­gado pela pri­meira vez na Facul­dade de Teo­lo­gia
da Uni­ver­si­dade Meto­dista de São Paulo, em Maio
de 2003)

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May 4 2010

Umbigo de criança

(A pro­pó­sito do dia Dia das Mães)

Luiz Car­los Ramos
(Para D. Déa, mãe desta e de mui­tas outras idéias
E para D. Odete Ramos, mãe como a desta história)

João 6.1 – 13:1 Depois disto par­tiu Jesus para o outro lado do mar da Gali­léia, tam­bém cha­mado de Tibe­ría­des. 2 E seguia-o uma grande mul­ti­dão, por­que via os sinais que ope­rava sobre os enfer­mos. 3 Subiu, pois, Jesus ao monte e sentou-se ali com seus dis­cí­pu­los. 4 Ora, a pás­coa, a festa dos judeus, estava pró­xima. 5 Então Jesus, levan­tando os olhos, e vendo que uma grande mul­ti­dão vinha ter com ele, disse a Filipe: Onde com­pra­re­mos pão, para estes come­rem? 6 Mas dizia isto para o expe­ri­men­tar; pois ele bem sabia o que ia fazer. 7 Respondeu-lhe Filipe: Duzen­tos dená­rios de pão não lhes bas­tam, para que cada um receba um pouco. 8 Ao que lhe disse um dos seus dis­cí­pu­los, André, irmão de Simão Pedro: 9 Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois pei­xi­nhos; mas que é isto para tan­tos? 10 Disse Jesus: Fazei reclinar-se o povo. Ora, naquele lugar havia muita relva. Reclinaram-se aí, pois, os homens em número de quase cinco mil. 11 Jesus, então, tomou os pães e, havendo dado gra­ças, repartiu-os pelos que esta­vam recli­na­dos; e de igual modo os pei­xes, quanto eles que­riam. 12 E quando esta­vam saci­a­dos, disse aos seus dis­cí­pu­los: Reco­lhei os peda­ços que sobe­ja­ram, para que nada se perca. 13 Recolheram-nos, pois, e enche­ram doze ces­tos de peda­ços dos cinco pães de cevada, que sobe­ja­ram aos que haviam comido.”

Os mais crí­ti­cos devem estar perguntando: — O que esse texto tem a ver com mãe? Onde está a mãe na his­tó­ria? Pois eu vou dizer onde ela está: no umbigo do menino que ofe­re­ceu os cinco pães e os dois pei­xes para ali­men­tar a mul­ti­dão. Aprendi com meu amigo José Lima Jr. que o umbigo é uma marca materna que nos acom­pa­nha a vida toda.

Sim, o umbigo é a prova de que todos nós temos, ou tive­mos, mãe. Se aquele menino tinha umbigo, então ele tinha mãe. Obser­vando bem, pode­mos per­ce­ber que a mãe o menino da his­tó­ria da “mul­ti­pli­ca­ção dos pães” dei­xou nele outras mar­cas além da cica­triz umbilical.

Antes de pros­se­guir­mos, gos­ta­ria de fazer um comen­tá­rio exe­gé­tico muito impor­tante. A pala­vra “rapaz” (v. 9), no ori­gi­nal grego é pai­da­rion, que sig­ni­fica “pequena cri­ança”, e pode se refe­rir a um menino ou a uma menina. Se qui­ser­mos, então, pode­mos ler essa his­tó­ria con­si­de­rando que uma de suas prin­ci­pais per­so­na­gens era,  então, uma menina.

Menina ou menino, a cri­ança car­rega em si as mar­cas da influên­cia materna. Pro­cu­re­mos iden­ti­fi­car algu­mas des­sas marcas.

Pri­meira marca: for­ma­ção intelectual

A pri­meira marca materna que quero des­ta­car é aquela dei­xada na for­ma­ção inte­lec­tual daquela criança

Numa época em que pou­cos se pre­o­cu­pa­vam em des­per­tar o inte­resse das cri­an­ças pelos estu­dos e pela busca do conhe­ci­mento, um menino, que pode­ria estar brin­cando na praia, deixa suas ati­vi­da­des lúdi­cas e se encon­tra aos pés de um reno­mado mes­tre, que con­fe­ren­ci­ava nas coli­nas próximas.

Sabendo como são as cri­an­ças, não é difí­cil ima­gi­nar que este menino (ou menina) tinha uma mãe inte­res­sada no seu desen­vol­vi­mento inte­lec­tual. E que foi por sua influên­cia que aquela cri­ança se dispôs a ouvir o famoso rabino que leci­o­nava na redondeza.

Vale notar que, no tempo de Jesus, reli­gião e edu­ca­ção eram basi­ca­mente uma coisa só. Preocupar-se com a edu­ca­ção era o mesmo que se pre­o­cu­par com o desen­vol­vi­mento espi­ri­tual. Dedu­zi­mos daí que o incen­tivo rece­bido da mãe dei­xou mar­cas inte­lec­tu­ais e espi­ri­tu­ais per­ma­nen­tes naquela criança.

Segunda marca: vigor físico

Pode­mos per­ce­ber niti­da­mente uma outra marca materna evi­den­ci­ada pelo vigor físico daquela criança

Eis aí um menino sadio (ou uma menina sadia), cuja auto­no­mia e vigor lhe per­mi­tem cami­nhar pelas coli­nas e acom­pa­nhar com dis­po­si­ção o peri­pa­té­tico pro­fes­sor, durante lon­gas horas-aula.

Tam­bém não nos deve pas­sar des­per­ce­bido o fato evi­dente de que, ao enviar o filho (ou a filha) para a escola iti­ne­rante do ilus­tre pro­fes­sor, aquela mãe não o des­pede de mãos vazias. Antes, o guar­nece com uma subs­tan­ci­osa merenda: cinco pães e dois pei­xes – um pouco exa­ge­rado, é ver­dade (coi­sas de mãe!). Isso demons­tra o cui­dado de uma mãe que se pre­o­cupa, sim, com o desen­vol­vi­mento inte­lec­tual e espi­ri­tual do filho (ou da filha) sem se des­cui­dar da sua saúde e do seu bem-estar físico.

Mais uma noti­nha exe­gé­tica impor­tante: a pala­vra “pei­xi­nho”, que apa­rece nos ver­sí­cu­los 9 e 11, – opsa­rion, em grego – sig­ni­fica um prato pre­pa­rado com peixe, cozido e tem­pe­rado com sal e con­di­men­tos. Isso quer dizer que o menino não tinha con­sigo pei­xes fres­cos (que não resis­ti­riam muito tempo à tem­pe­ra­tura ambi­ente), mas comida sabo­rosa, cui­da­do­sa­mente pre­pa­rada (uma moqueca? um pirão? um ape­ti­toso bacalhau?).

Um menino sau­dá­vel, uma menina sau­dá­vel: eis aí outra marca defi­ni­tiva do cui­dado materno.

Ter­ceira marca: nobreza de caráter

Uma ter­ceira marca materna trans­pa­rece por meio da esta­tura do cará­ter daquela criança

Além da for­ma­ção inte­lec­tual e do desen­vol­vi­mento físico, pode­mos per­ce­ber que aquela mãe tam­bém mar­cou defi­ni­ti­va­mente o cará­ter dessa cri­ança por­que, jus­ta­mente quando a mul­ti­dão estava faminta, e Jesus propôs que as pes­soas repar­tis­sem o ali­mento, todos escon­de­ram o que tinham. Só o menino (ou a menina) fez dife­rente: ele foi o único que ofe­re­ceu o seu lan­che para Jesus e para a  multidão.

Com quem teria ele apren­dido a repar­tir? Como esse menino teria apren­dido a pra­ti­car a mise­ri­cór­dia? Com quem teria apren­dido a ser soli­dá­rio? Pro­va­vel­mente apren­dera isso na sua pró­pria casa, com sua mãe.

Pero­ra­ção

Que mara­vi­lhoso encon­tro este entre Jesus e a cri­ança. A Bíblia não fala expli­ci­ta­mente da mãe, mas a lei­tura atenta nos revela: ela está lá! E pode­mos ver suas mar­cas não somente no umbigo do menino, mas na sua esta­tura inte­lec­tual, na sua inte­gri­dade física e, prin­ci­pal­mente, na força do seu caráter.

Para ser­mos jus­tos nes­tas refle­xões, deve­mos con­si­de­rar a hipó­tese de que tal­vez o menino não tivesse mãe. E se ele tal­vez fosse órfão? É uma pos­si­bi­li­dade. Pode ser, então, que ele tenha apren­dido tudo isso com o pai, tal­vez com uma tia, ou com a irmã mais velha, ou ainda com a mãe ado­tiva. Seja como for, ou com quem quer que tenha sido, foi alguém que dei­xou nele mar­cas maternas.

Todos aque­les e todas aque­las que nos mar­cam exer­cem sobre nós uma espé­cie de mater­ni­dade. Ao olhar para o meu umbigo, eu vejo a minha mãe. Ao obser­var a minha esta­tura física, a minha matu­ri­dade inte­lec­tual, e a esta­tura do meu cará­ter, eu vejo aque­les e aque­las que mater­nal­mente influ­en­ci­a­ram e mar­ca­ram a minha vida. Temos, por­tanto, mãe e temos mães.

Então, feliz Dia da Mãe, feliz Dia das Mães.

(Pre­gado pela pri­meira vez na Igreja Meto­dista em Rudge Ramos, 2004)

 

IMAGEM “Preg­nant Mother and Son”: © Cor­bis, COLEÇÃO Cor­bis Yel­low,
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Apr 27 2010

Outono

Luiz Car­los Ramos
(Para a Revda. Mar­ga­rida, no dia do sepul­ta­mento da sua mãe)

“No meio da sua praça, de uma e outra mar­gem do rio, está a árvore da vida, que pro­duz doze fru­tos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são para a cura dos povos.” (Ap 22.2)


N
o outono as folhas caem, mesmo as mais belas. Mas nenhuma cai em vão se, em seu tempo de ver­dor, aju­dou a árvore da vida a pro­du­zir fru­tos, e semen­tes. E este é o caso da D. Ora­cé­lia, que não só gerou fru­tos reple­tos de semen­tes (aque­las cai­xi­nhas mági­cas que guar­dam o segredo da vida), como tam­bém, flo­res (entre elas uma exu­be­rante margarida).

Há quem pense que o outono traz o inverno. Mas é só obser­var­mos com aten­ção, e logo per­ce­be­re­mos que, na ver­dade, ambos estão ape­nas abrindo pas­sa­gem para a primavera.

* * *
IMAGEM: © Frank Krahmer/Corbis, Pre­mium Royalty-Free (RF), 42 – 17622855,
Maple Lea­ves, COLEÇÃO zefa (RF).


Apr 13 2010

Por que cremos na páscoa…

Lídia Maria de Lima

Parece que ainda é sexta feira. Ainda não faz nem uma semana que reme­mo­ra­mos o ciclo pas­cal e com ale­gria cele­bra­mos a res­sur­rei­ção de Cristo atra­vés das litur­gias e da santa ceia. Entre­tanto, ao ver as notí­cias da semana um sen­ti­mento de amar­gura invade a nossa alma. Ima­gino que este deve­ria ser o mesmo sen­ti­mento que pai­rava no ar naquela sexta feira de crucificação.

Os olha­res ainda são de deses­pero, há choro, dor, medo e morte. As notí­cias que che­gam do Rio de janeiro, após alguns dias de chuva, nos assom­bram. Não há como se man­ter indi­fe­rente diante de tanto sofri­mento. Famí­lias intei­ras foram soter­ra­das pela falta de polí­ti­cas públi­cas que con­tem­plem a peri­fe­ria. Situ­a­ção que se repete há anos, não só no Rio de janeiro, mas em mui­tas cida­des bra­si­lei­ras. Morar em área de risco não é uma opção, mas a única alter­na­tiva encon­trada por mui­tas famí­lias do nosso país.

Em uma das maté­rias apre­sen­ta­das na TV, vi um mora­dor ten­tando con­so­lar os que cho­ra­vam por inter­mé­dio das pala­vras do sal­mista: “Elevo meus olhos para os mon­tes de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra.” (Sl 121.1,2). A fé é o que man­tém acessa a chama da espe­rança do cora­ção deste povo.

Quando esta “sexta feira” aca­bar, a dor e as mar­cas cer­ta­mente fica­rão na vida e na his­tó­ria de muita gente. E o apoio da comu­ni­dade cristã será extre­ma­mente necessário.

Somos desafiados/as a tes­te­mu­nhar os sinais da graça e da uni­dade do corpo atra­vés de ações con­cre­tas que pos­sam sina­li­zar a esta soci­e­dade que, mesmo que o futuro nos pareça assus­ta­dor ainda é pos­sí­vel crer na pás­coa, na pas­sa­gem e na transformação.

Ore­mos pelas famí­lias que sofrem, mas aguar­dam a res­sur­rei­ção dos sonhos.
Que todos os dias sejam de paz e páscoa.

Soro­ral­mente,

Lídia Maria de Lima


Apr 6 2010

Ó, tu que salvas o corpo da morte

Luiz Car­los Ramos
(Ins­pi­rado no texto de Roma­nos 12.1 – 2)

Ó, tu que sal­vas o corpo da morte
e a alma das tre­vas:
recebe o lou­vor que ofe­reço
do fundo deste corpo sacri­fi­cado, mas vivo.

Per­mite que esta carne cor­rup­tí­vel te seja santa;
que meu canto tímido te seja agradável.

E habi­ta­rei os teus alta­res para sem­pre;
pois sou todo teu, de corpo e alma. Amém.


Apr 5 2010

Crer com os dedos

Luiz Car­los Ramos
(Dedico esta pré­dica a todos aque­les e aque­las
que exer­cem seu minis­té­rio com pai­xão e inteligência)

(Cli­que aqui para ouvir esta pré­dica X)

 João 20.19 – 31 (ARA)

19 Ao cair da tarde daquele dia, o pri­meiro da semana, tran­ca­das as por­tas da casa onde esta­vam os dis­cí­pu­los com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja con­vosco!  20 E, dizendo isto, lhes mos­trou as mãos e o lado. Alegraram-se, por­tanto, os dis­cí­pu­los ao verem o Senhor.  21 Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja con­vosco! Assim como o Pai me enviou, eu tam­bém vos envio.  22 E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Rece­bei o Espí­rito Santo.  23 Se de alguns per­do­ar­des os peca­dos, são-lhes per­do­a­dos; se lhos reti­ver­des, são reti­dos.  24 Ora, Tomé, um dos doze, cha­mado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus.  25 Disseram-lhe, então, os outros dis­cí­pu­los: Vimos o Senhor. Mas ele res­pon­deu: Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos cra­vos, e ali não puser o dedo, e não puser a mão no seu lado, de modo algum acreditarei.

26 Pas­sa­dos oito dias, esta­vam outra vez ali reu­ni­dos os seus dis­cí­pu­los, e Tomé, com eles. Estando as por­tas tran­ca­das, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja con­vosco!  27 E logo disse a Tomé: Põe aqui o dedo e vê as minhas mãos; chega tam­bém a mão e põe-na no meu lado; não sejas incré­dulo, mas crente.  28 Respondeu-lhe Tomé: Senhor meu e Deus meu!  29 Disse-lhe Jesus: Por­que me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.  

30 Na ver­dade, fez Jesus diante dos dis­cí­pu­los mui­tos outros sinais que não estão escri­tos neste livro.  31 Estes, porém, foram regis­tra­dos para que crei­ais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.

Intro­du­ção

José Sara­mago, no seu livro, “O evan­ge­lho segundo Jesus Cristo”, respaldado por pes­qui­sas e con­sul­tas aos tex­tos apó­cri­fos atri­buí­dos a Tomé, insere em sua fic­ção lite­rá­ria, uma lenda a res­peito de Jesus e Tomé:

Certa feita, Jesus e os dis­cí­pu­los esta­riam na praia e o assunto a res­peito do qual con­ver­sa­vam era a voca­ção mes­si­â­nica de Jesus. Tomé ten­tava dissuadi-lo dessa mis­são impos­sí­vel. Então, Jesus come­çou a exul­pir pás­sa­ros com a areia da praia. Depois, jogou uma rede de pesca sobre os pás­sa­ros de areia e, voltando-se para Tomé, disse-lhe: “Tomé, liberte os pas­sa­ri­nhos.” Tomé, ten­tou, meio sem jeito, pou­par Jesus tam­bém desse cons­tran­gi­mento. Mas Jesus insis­tiu: “Tomé, liberte os pas­sa­ri­nhos.” Como Tomé não tivesse alter­na­tiva, num gesto rápido, tirou a rede. No mesmo ins­tante, os pas­sa­ri­nhos saí­ram voando. Então, escreve Sara­mago, Tomé caiu aos pés de Jesus, e con­fes­sou: “Senhor meu e Deus meu!” Ao que Jesus lhe res­pon­deu: “Por causa do mila­gre você crê? Pois eu lhe digo que maior mila­gre seria você não pre­ci­sar de mila­gres para crer!” (Recons­tru­ção não literal)

Hoje, meus irmãos e minhas irmãs, cele­bra­mos o segundo domingo da Pás­coa. No último culto relem­bra­mos o relato dra­má­tico da res­sur­rei­ção do Senhor, pro­ta­go­ni­zado por Maria Mada­lena. Pude­mos per­ce­ber os con­fli­tos que trans­pa­re­cem na nar­ra­tiva, dando-nos conta de que, desde os iní­cios, o cris­ti­a­nismo teve que apren­der a lidar com dife­ren­ças e pre­fe­rên­cias: uns aten­diam à lide­rança de Pedro, outros, à do pequeno João, mas outros se espe­lha­vam em Maria Madalena.

Pela lei­tura da perí­cope de hoje, vamos ampliar essa rede de intri­gas e dis­pu­tas. É que agora entra em cena Tomé, um dos doze, tam­bém cha­mado Dídimo, tal­vez por que tivesse um irmão gêmeo, ou tal­vez por­que fosse diver­tido brin­car com o nome dele, que tinha a mesma sono­ri­dade do termo hebraico que sig­ni­fica “gêmeo”.

Ao longo da his­tó­ria, Tomé sem­pre foi con­si­de­rado uma per­so­na­li­dade con­tro­ver­tida. Depre­ci­ado por uns, como sendo cético e incré­dulo e, pelas mes­mas razões, res­pei­tado e hon­rado por outros.

A nar­ra­tiva se estru­tura em duas par­tes muito evi­den­tes: O pri­meiro encon­tro do res­sus­ci­tado com o grupo de dis­cí­pu­los, mas sem Tomé (vv. 19 – 25); e o segundo encon­tro, oito dias depois, desta vez estando Tomé com os demais (26 – 29).

Essa estru­tura sugere a ten­são entre os que crêem para com­pre­en­der, de um lado, e os que que­rem com­pre­en­der para crer, de outro — foi Santo Agos­ti­nho (354 – 430), quem pri­meiro pôs a ques­tão nes­ses ter­mos: Intel­lige ut cre­das, crede ut intel­li­gas “Entende e cre­rás, crê e entenderás”  (Sermão 43). Ques­tão essa tra­tada rei­te­ra­da­mente pelos prin­ci­pais teó­lo­gos em dife­ren­tes épocas da his­tó­ria da Igreja.

Ana­li­se­mos com aten­ção essas duas clas­ses de pes­soas. Come­ce­mos com os segui­do­res de João…

Os que crêem para compreender

Vale a pena vol­tar­mos uns pou­cos ver­sí­cu­los. Lembram-se que, na madru­gada daquele domingo, todos cor­re­ram para o sepul­cro onde deve­ria estar o corpo de Jesus? Vocês se lem­bram tam­bém de um deta­lhe, pequeno, mas de modo algum insig­ni­fi­cante a res­peito do menino João que, jus­ta­mente por ser o mais jovem, che­gou pri­meiro, mas que não entrara ime­di­a­ta­mente no sepul­cro? Vamos conferir:

4 Ambos cor­riam jun­tos, mas o outro dis­cí­pulo cor­reu mais depressa do que Pedro e che­gou pri­meiro ao sepul­cro;  5 e, abaixando-se, viu os len­çóis de linho; toda­via, não entrou.  6 Então, Simão Pedro, seguindo-o, che­gou e entrou no sepul­cro. Ele tam­bém viu os len­çóis,  7 e o lenço que esti­vera sobre a cabeça de Jesus, e que não estava com os len­çóis, mas dei­xado num lugar à parte.  8 Então, entrou tam­bém o outro dis­cí­pulo, que che­gara pri­meiro ao sepul­cro, e viu, e creu (Jo 20.4 – 8).

João é o pri­meiro a crer. Con­quanto o texto afirme que ele “viu e creu”, parece muito mais des­cre­ver o que ele não viu, pois o túmulo estava vazio, lá havia somente a mor­ta­lha e o sudá­rio. Pode­ría­mos, por­tando, rees­cre­ver o verso oito assim:

Então, entrou tam­bém o outro dis­cí­pulo, que che­gara pri­meiro ao sepul­cro, e [não] viu [Jesus], e creu.

Reto­mando a perí­cope de hoje: À noi­ti­nha do mesmo domingo, os dis­cí­pu­los esta­vam reu­ni­dos no cená­culo, com as por­tas bem tran­ca­das, por­que esta­vam com medo de uma imi­nente per­se­gui­ção aos segui­do­res do peri­goso insur­gente que, supos­ta­mente, tinha sido sub­ju­gado e exe­cu­tado na última sexta-feira. Então… o ines­pe­rado, o impen­sá­vel, acon­tece: “Veio Jesus, pôs-se no meio” (v. 19).

Em pé, na pos­tura que desde então se tor­nou sim­bó­lica do res­sus­ci­tado, bra­ços esten­di­dos, mãos espal­ma­das, Jesus lhes ofe­rece a paz, e sem que nin­guém lhe peça, mostra-lhes as mar­cas em suas mãos e a ferida no peito (v. 20).

É sur­pre­en­dente  que, de acordo com a  nar­ra­tiva, o que teria cha­mado a aten­ção dos dis­cí­pu­los, não foram as cica­tri­zes. Pois o texto diz: “Alegraram-se [ἐχάρησαν], por­tanto, os dis­cí­pu­los ao verem o Senhor” (no mesmo v. 20). 

Os dis­cí­pu­los, e cer­ta­mente João entre eles, tive­ram mais pra­zer em ver o seu amigo e Senhor vivo do que em con­tem­plar as feias cha­gas da cruz.

Ao longo da his­tó­ria, mui­tos exer­ci­ta­ram dessa mesma forma a sua fé. Atribui-se a Ter­tu­li­ano (155 – 222) a máxima: “Credo quia absur­dum”, que pode ser tra­du­zida por “Creio, mesmo que absurdo”, ou ainda melhor: “Creio, jus­ta­mente por­que é absurdo”. Na ver­dade, a fé é neces­sá­ria jus­ta­mente quando não há evi­dên­cias. Havendo pro­vas, não é pre­ciso crer, basta constatar.

Quem se con­tenta com pro­vas, ou sinais, é como aquele que olha para o dedo que aponta as estre­las, e deixa de ver as estre­las, que são muito mais boni­tas que o dedo.

Uma reli­gião que não neces­site, que não cobre, e que não dependa de evi­den­cias, de sinais, ou de mila­gres, é cons­ti­tuída de fiéis mais feli­zes (μακάριοι, cf. v. 29). Essa fé é dura­doura, ao passo que aquela que depende de sinais estará sem­pre em busca de mais, cada vez mais, sinais. Supe­ra­vit de mila­gres, não implica neces­sa­ri­a­mente em abun­dân­cia de fé. É o evan­ge­lista João mesmo quem o diz: “E, embora tivesse feito tan­tos sinais na sua pre­sença, não cre­ram nele” (Jo 12.37). Além do que, pro­dí­gios podem ser fei­tos por qual­quer um, inclu­sive por ini­mi­gos de Cristo, isto está dito por São Mateus: “por­que sur­gi­rão fal­sos cris­tos e fal­sos pro­fe­tas ope­rando gran­des sinais e pro­dí­gios para enga­nar, se pos­sí­vel, os pró­prios elei­tos” (Mt 24.24).

Os dis­cí­pu­los alegraram-se — lite­ral­mente: “fica­ram feli­zes” (ἐχάρησαν) — não por­que viram pro­vas e obti­ve­ram evi­dên­cias, mas por­que revi­ram seu amigo e reen­con­tra­ram o seu Senhor.

Mas não nos pre­ci­pi­te­mos, e não seja­mos injus­tos ou dema­si­a­da­mente seve­ros com Tomé. Pro­cu­re­mos conhe­cer melhor, agora, os que lhe seguem o exemplo…

Os que que­rem com­pre­en­der para crer

Veja­mos: oito dias depois, isto é, no segundo domingo depois da Pás­coa (como o que come­mo­ra­mos hoje), no mesmo cená­culo, se dá um novo encon­tro… Desta vez Tomé está com os outros. Jesus repete sua visita e, ao que parece, só pra satis­fa­zer o capri­cho de Tomé, que antes havia, com bra­va­tas, afirmado:

Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos cra­vos, e ali não puser o dedo, e não puser a mão no seu lado, de modo algum acre­di­ta­rei. (v. 25)

Jesus toma a ini­ci­a­tiva e se dirige a Tomé. Dá-lhe a espe­rada oca­sião para ver com os dedos: “Põe aqui o dedo e vê” (v. 27). E então lhe pede para que não seja incré­dulo, mas que seja crente. Note que não lhe pede que seja cré­dulo, pois ser crente é muito mais do que ser cré­dulo. Jesus res­peita a dúvida de Tomé, que é a de quem quer com­pre­en­der para crer.

O con­tra­ponto disso é que a cre­du­li­dade tam­bém pode ser uma forma de des­crença, uma vez que coloca no mesmo nível dos gran­des sinais divi­nos outros fenô­me­nos meno­res, inge­nu­a­mente enten­di­dos (ou, não tão inge­nu­a­mente assim, desentendidos).

O poeta inglês Alfred Tenny­son certa vez escreveu:

“Há mais fé em uma dúvida honesta,
Creiam-me, do que em metade dos cre­dos” (Apud. Bar­clay, 1974, p. 302)

E o Rev. Wil­liam Bar­clay afirmava:

“Há mais fé ver­da­deira em quem insiste em certificar-se, do que naquele que repete tola­mente coi­sas sobre as quais jamais pen­sou e nas quais sequer crê.”

E Tomé tinha essa virtude:

“Negava-se com­ple­ta­mente a dizer que cria quando isso não era ver­dade. Jamais diria que enten­dia o que cria quando não enten­dia, [ou] quando não cria. […] Jamais apa­zi­gua­ria as dúvi­das simu­lando que elas não exis­tem. Jamais repe­ti­ria um credo, como se fosse um papa­gaio, sem enten­der o que dizia. Tinha que estar certo, e de que tinha razão.” (1974, p. 301 – 302)

Hoje, os que bus­cam mila­gres não pre­ci­sam se esfor­çar muito pra os encon­trar. Em cada esquina, deze­nas de tau­ma­tur­gos e pres­ti­di­gi­ta­do­res tra­ves­ti­dos de pas­to­res, bis­pos, após­to­los, patri­ar­cas, papas e sabe-se lá o que mais hão de inven­tar, em cada esquina, repito, estão a per­for­mar fenô­me­nos mal-explicados, numa bana­li­za­ção sem pre­ce­den­tes das coi­sas de Deus.

Mas a dúvida da qual esta­mos falando é de outra natu­reza. Conta-se que Albert Eins­tein, o mais famoso gênio do nosso tempo, no dia da sua morte, estando hos­pi­ta­li­zado com sérias defi­ci­ên­cias car­día­cas, pediu à enfer­meira que lhe trou­xesse seu bloco de ano­ta­ções e uma cal­cu­la­dora. Pas­sou seus últi­mos momen­tos bus­cando res­pos­tas, fazendo cál­cu­los, inves­ti­gando, repe­tindo aque­las per­gun­tas que só as cri­an­ças cos­tu­mam fazer (essa é uma cons­ta­ta­ção do pró­prio Eins­tein): o que é a luz? como é o espaço? como enten­der o tempo? qual é, a estru­tura  do uni­verso? como, afi­nal, fun­ci­ona a mente de Deus? Seu esforço já resul­tara, anos antes, na mais linda teo­ria cien­tí­fica de todos os tem­pos, cuja prin­ci­pal fór­mula tornou-se mais do que famosa: “E=mc2″ (E = ener­gia; m = massa; c = velo­ci­dade da luz no vácuo). Mas ele que­ria mais. Albert Eins­tein mor­reu aos 76 anos, no dia 16 de abril de 1955, como uma cri­ança eter­na­mente exta­si­ada diante da beleza da ordem que se esconde por trás da natu­reza. Por­que, dizia ele, “toda ciên­cia exige que a fé esteja em har­mo­nia com o mundo”.

Tomé, no fundo, era uma cri­ança, como Eins­tein. Ambos exer­ci­ta­vam o mesmo tipo de dúvida que, ao final, con­du­zia à cer­teza mais lím­pida. E é da boca de Tomé que sai a mais bela fór­mula ou afir­ma­ção de fé de todo o Novo Tes­ta­mento: “Senhor meu e Deus Meu!” É a pri­meira grande sín­tese teo­ló­gica das duas natu­re­zas de Cristo: a humana (Senhor meu), e a divina (e Deus meu).

Esse mara­vi­lhoso relato evan­gé­lico seria muito impor­tante para os cris­tãos de segunda gera­ção, posto que estes não her­da­ram somente uma fé hipo­té­tica, mas uma fé que havia sido tes­tada e havia sobre­vi­vido ao ceti­cismo de gente inte­li­gente como Tomé. E isso foi par­ti­cu­lar­mente rele­vante, em mea­dos do segundo século, para o diá­logo cons­tru­tivo dos cris­tãos com os gnós­ti­cos, que insis­tiam em negar a mate­ri­a­li­dade da fé.

Tam­bém é fun­da­men­tal para nós, hoje, pois osci­la­mos entre o ceti­cismo esté­ril e a cre­du­li­dade ingê­nua, que nos cer­cam e nos angus­tiam. E o exem­plo de Tomé nos ajuda a exer­ci­tar­mos uma fé inte­li­gente, como é inte­li­gente o Cri­a­dor do Uni­verso; a for­mu­lar­mos um credo con­digno da inte­li­gên­cia do nosso Senhor Jesus Cristo; e a pra­ti­car­mos uma fé igual­mente con­sis­tente com a inte­li­gên­cia do Espí­rito soprado por Cristo sobre seus dis­cí­pu­los, naquele ato recri­a­dor que inau­gu­rou um novo gêne­sis na his­tó­ria da sal­va­ção do universo.

Con­clu­são

Reza a lenda que Tomé foi o após­tolo que levou o Evan­ge­lho para a Índia. Dizem que, como Jesus, era car­pin­teiro de pro­fis­são. Teria sido levado para a Índia por um rei para cons­truir um palá­cio. Rece­beu uma grande soma em dinheiro para rea­li­zar a obra. Mas diz-se que Tomé dis­tri­buiu todo o dinheiro entre os pobres. De tem­pos em tem­pos o rei man­dava chamá-lo para saber como ia o anda­mento da cons­tru­ção. “Vai bem”, dizia ele. Até que o rei des­con­fiou e foi tirar a cisma. Quando des­co­briu o que tinha acon­te­cido com seu dinheiro, a prin­cí­pio ficou furi­oso, e per­gun­tou: “Onde está o meu palá­cio”. Tomé teria res­pon­dido: “Agora o senhor não pode vê-lo, mas o verá um dia na gló­ria”. O rei aca­bou abra­çando o Evangelho.

Daí em diante, Tomé se dedi­ca­ria a pas­to­rear aquele reba­nho em ter­ras lon­gín­quas. Até o dia em que, enquanto via­java pelo inte­rior da Índia pre­gando o evan­ge­lho, seria tras­pas­sado por uma lança, tal como a que um dia, na cruz, tras­pas­sara o peito do seu Senhor e Deus. Mos­trou, finalmente, quão sin­cero tinha sido quando dis­sera, um dia: “Vamos nós tam­bém para mor­rer­mos com ele” (Jo 11.16).

Quem de nós poderá dizer que alguém assim como Tomé tem uma fé débil ou frágil?

Nós, hoje, pode­mos nos con­si­de­rar bem-aventurados e feli­zes por­que não vimos, con­tudo, cre­mos, mas, pela graça de Deus, temos pra nós o tes­te­mu­nho de alguém que teve a cora­gem e a dig­ni­dade de apre­sen­tar suas dúvi­das hones­tas diante do Senhor da Vida, para que, com ele, pudés­se­mos tam­bém nós, com con­fi­ança, sem a neces­si­dade de mila­gres, afir­mar diante do res­sus­ci­tado: “Senhor meu, e Deus Meu!”

Gra­ças a esse Sal­va­dor, divino-e-humano, que nos visita em nos­sas dúvi­das, nós pode­mos hoje com­pre­en­der para crer e crer para compreender.

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Pre­gado pela pri­meira vez na Facul­dade de Teo­lo­gia,
no culto do dia 7 de abril de 2010, a pro­pó­sito do Segundo Domingo de Pás­coa.
Refe­rên­cia bibli­o­grá­fica: BARCLAY, W. O Novo Tes­ta­mento Comen­tado por Wil­liam Bar­clay: Juan II, v. 6 (caps. Viii AL xxi). Bue­nos Aires: Edi­to­rial La Aurora.

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Crer com os dedos de Luiz Car­los Ramos é licen­ci­ado sob uma Licença Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso não-comercial-No Deri­va­tive Works 3.0 Bra­sil.


Mar 29 2010

Genis, Marias e Ângelas

Sur­pre­sas e meta­mor­fo­ses pas­cais (Jo 20.1 – 18)

Luiz Car­los Ramos
(Aos alu­nos e alu­nas do 3º. Ano Noturno
do Curso de Teologia — 2006) 

“No pri­meiro dia da semana, Maria Mada­lena foi ao sepul­cro de madru­gada, sendo ainda escuro, e viu que a pedra estava revol­vida. Então, cor­reu e foi ter com Simão Pedro e com o outro dis­cí­pulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Tira­ram do sepul­cro o Senhor, e não sabe­mos onde o puse­ram. Saiu, pois, Pedro e o outro dis­cí­pulo e foram ao sepul­cro. Ambos cor­riam jun­tos, mas o outro dis­cí­pulo cor­reu mais depressa do que Pedro e che­gou pri­meiro ao sepul­cro; e, abaixando-se, viu os len­çóis de linho; toda­via, não entrou. Então, Simão Pedro, seguindo-o, che­gou e entrou no sepul­cro. Ele tam­bém viu os len­çóis, e o lenço que esti­vera sobre a cabeça de Jesus, e que não estava com os len­çóis, mas dei­xado num lugar à parte. Então, entrou tam­bém o outro dis­cí­pulo, que che­gara pri­meiro ao sepul­cro, e viu, e creu. Pois ainda não tinham com­pre­en­dido a Escri­tura, que era neces­sá­rio res­sus­ci­tar ele den­tre os mor­tos. E vol­ta­ram os dis­cí­pu­los outra vez para casa.

“Maria, entre­tanto, per­ma­ne­cia junto à entrada do túmulo, cho­rando. Enquanto cho­rava, abaixou-se, e olhou para den­tro do túmulo, e viu dois anjos ves­ti­dos de branco, sen­ta­dos onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabe­ceira e outro aos pés. Então, eles lhe per­gun­ta­ram: Mulher, por que cho­ras? Ela lhes res­pon­deu: Por­que leva­ram o meu Senhor, e não sei onde o puse­ram. Tendo dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não reco­nhe­ceu que era Jesus. Perguntou-lhe Jesus: Mulher [gr. Gyne], por que cho­ras? A quem pro­cu­ras? Ela, supondo ser ele o jar­di­neiro, res­pon­deu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o leva­rei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, lhe disse, em hebraico: Raboni (que quer dizer Mes­tre)! Recomendou-lhe Jesus: Não me dete­nhas; por­que ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus. Então, saiu Maria Mada­lena anun­ci­ando [gr. aggel­lousa] aos dis­cí­pu­los: Vi o Senhor! E con­tava que ele lhe dis­sera estas coi­sas.” (Jo 20.1 – 18)

Intro­du­ção

Como se sabe, o Evan­ge­lho de João foi um dos últi­mos escri­tos do Novo Tes­ta­mento a serem redi­gi­dos, num período já bem tar­dio. Tal­vez por isso há nele vários ele­men­tos que o tor­nam bas­tante dis­tinto dos demais (dos cha­ma­dos “sinó­ti­cos”): o tom afe­tivo, o estilo assin­crô­nico, sua lin­gua­gem poé­tica e, par­ti­cu­lar­mente, sua abor­da­gem sin­gu­lar de cer­tos epi­só­dios, nos quais as cri­an­ças e as mulhe­res ganham des­ta­que especial.

A nar­ra­tiva joa­nina da res­sur­rei­ção de Jesus é bas­tante pecu­liar nesse aspecto. Há, noto­ri­a­mente, um con­flito entre dife­ren­tes tra­di­ções que evi­den­ciam ten­sões entre os segui­do­res de Pedro (que é o pri­meiro a entrar no sepul­cro), João (como o joven­zi­nho que foi o pri­meiro a crer), e Maria (como a que fica do lado de fora cho­rando). Nessa cos­tura pre­cá­ria, são as cri­an­ças as pri­mei­ras a crer (cf. v. 8), e as mulhe­res, as pri­mei­ras a tes­te­mu­nhar o mila­gre da res­sur­rei­ção (cf. vv. 17 – 18), enquanto o pri­meiro “papa” volta pra seu barco e sua pescaria.

Nesta refle­xão, entre­tanto, a par­tir espe­ci­fi­ca­mente dos ver­sí­cu­los 11 – 18, gos­ta­ria de cha­mar a aten­ção para algu­mas sur­pre­sas e meta­mor­fo­ses pas­cais viven­ci­a­das por uma mulher em par­ti­cu­lar, colo­cada em evi­dên­cia pela nar­ra­tiva, que pode ser para­dig­má­tica de todas as mulhe­res e de toda a huma­ni­dade: trata-se de Maria Madalena.

Geni…

A tra­di­ção se encar­re­gou de difun­dir a suposta má fama dessa mulher cha­mada Maria de Mag­dala: peca­dora, ende­mo­ni­nhada (por sete espí­ri­tos), pros­ti­tuta (ainda que as bases exe­gé­ti­cas dessa tra­di­ção sejam bas­tante frá­geis). Se tomar­mos como refe­rên­cia a nar­ra­tiva lucana da unção dos pés de Jesus por uma certa peca­dora, freqüen­te­mente con­fun­dida com Maria Mada­lena, pode­mos des­co­brir como os fari­seus  e as pes­soas em geral cos­tu­ma­vam se refe­rir a mulhe­res como ela: “mulher-pecadora”. Neste caso, “mulher” e “peca­dora” são pra­ti­ca­mente sinônimos.

Em grego, mulher é gyne, de onde deri­vam as pala­vras por­tu­gue­sas “gene”, “gené­tica”, “gênero”, “gêne­sis” e o nome pró­prio “Geni”. Chico Buar­que tem uma com­po­si­ção onto­ló­gica na qual narra a triste saga de uma per­so­na­gem igual­mente difa­mada, em quem todos ado­ra­vam ati­var pedras e excrementos.

Mas vol­te­mos ao sepul­cro. Lá está a nossa Maria, cho­rando, medi­tando incon­for­mada sobre aquele túmulo vio­lado, aque­les len­çóis joga­dos no chão, mis­te­ri­o­sos, aquele sudá­rio enig­má­tico enro­lado num canto, e dois homens sus­pei­tos velando à cabe­ceira e aos pés de uma lápide vazia.

É nessa hora que ela escuta alguém chamando-a: “— Geni! [Gyne]” Ela se volta, e mal con­se­gue dis­tin­guir um vulto, no lusco-fusco da aurora, os olhos ainda emba­ça­dos pelas lágri­mas e as pupi­las dila­ta­das pelas tre­vas do sepul­cro. Seria o jar­di­neiro? Esta­ria ele com o corpo do mes­tre? Então, os ouvi­dos reve­lam o que os olhos não podem mos­trar: a voz torna a chamá-la, mas desta vez pelo nome…

… Maria

Não se sabe ao certo a ori­gem do nome “Maria”. Uma das teo­rias supõe ser esse nome de ori­gem egíp­cia e uma deri­va­ção de “Mirian”. Dos vários sen­ti­dos pro­pos­tos, um me cha­mou a aten­ção: “obs­ti­nada”.

Parece que esse sig­ni­fi­cado se encaixa per­fei­ta­mente à nossa per­so­na­gem. É a pri­meira a ir ao sepul­cro, sendo ainda escuro. Anun­cia o roubo do corpo do Mes­tre aos com­pa­nhei­ros, mas volta para junto do túmulo. Enquanto os outros dis­cí­pu­los “vol­tam para os seus”, para suas casas, para seus afa­ze­res, Maria con­ti­nua velando à entrada do túmulo.

A recom­pensa da sua obs­ti­na­ção é o pri­vi­lé­gio de ter sido a pri­meira a se encon­trar com o Cristo ressurreto.

Quando Geni ouve aquela voz cha­mando: “— Maria!”, acon­tece uma meta­mor­fose mara­vi­lhosa: ela reco­nhece o Mes­tre Vivo, e exclama: “— Rabino, meu Mes­tre!” E, lite­ral­mente, o abraça.

Então, o Rabino lhe diz que ela pre­cisa deixá-lo ir: “— Não me segu­res, por­que ainda não subi para o meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos, e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus.”

É nessa hora que a Geni, que havia se reco­nhe­cido como Maria na voz do Mes­tre, converte-se, por essa mesma pala­vra, em…


… Ângela

Diz o texto que “então saiu Maria Mada­lena anun­ci­ando aos dis­cí­pu­los: Vi o Senhor!” O termo grego rela­tivo a “anún­cio”, usado aqui na forma de um verbo no par­ti­cí­pio, deriva de agge­los, de onde temos a pala­vra “anjo” e o nome pró­prio “Ângela”, ou “Angélica”.

A mulher difa­mada, em quem se cos­tu­mava ati­rar impro­pé­rios, no encon­tro com o Mes­tre res­sur­reto redes­co­bre sua iden­ti­dade e até amplia seu hori­zonte exis­ten­cial. Como na música de Chico Buar­que, é a difa­mada Geni, que se torna a por­ta­dora da sal­va­ção da cidade. Maria torna-se após­tola. Sim, a pri­meira. Tes­te­mu­nha angé­lica da vitó­ria da vida sobre a morte. Anun­ci­a­dora da boa nova: “A morte mor­reu! A morte morreu!”

Con­clu­são

Esta nar­ra­tiva de João é uma espé­cie de Gêne­sis às aves­sas. Lá, as pes­soas viviam, qual bor­bo­le­tas, num belo jar­dim, e como anjos, des­fru­ta­vam da com­pa­nhia divina na vira­ção do dia. Mas, um dia, num encon­tro dia­bó­lico com a ser­pente, essas pes­soas mer­gu­lha­ram num casulo mor­tal, que as tor­nou vul­ne­rá­veis e sujei­tas, como pobres lagar­tas, às dores e pesa­res de uma vida de pecado, sem a beleza nem a leveza das bor­bo­le­tas, por­que per­de­ram suas asas da liberdade.

Por sua vez, o Evan­ge­lho de João nos fala de uma nova gênese, ocor­rida, desta vez, no tétrico e fúne­bre jar­dim onde Jesus havia sido sepul­tado. Jesus faz o cami­nho inverso, rom­pendo o casulo da morte e res­sur­gindo com o nas­cer do sol.

E ele  foi só o pri­meiro. Por­que o nosso Mes­tre vive, e vive eter­na­mente, nós pode­mos ter espe­rança, e tam­bém pode­mos expe­ri­men­tar, como a Geni da nossa his­tó­ria, a meta­mor­fose de Maria capaz de nos trans­for­mar a todos em “anjos” e “ânge­las” anun­ci­a­do­res da beleza e da leveza da ressurreição.

Sim, hoje, a morte mor­reu e Jesus está vivo!

E por­que Ele vive, eu tam­bém vive­rei, nós tam­bém viveremos!

Ale­luia!