Sep 5 2010

Somos o Brasil!

Luiz Car­los Ramos
(A pro­pó­sito da semana da pátria)

H:      Somos todos brasileiros!

M:     Somos todas brasileiras!

D1:     Durante milha­res e milha­res de anos, vive­mos aqui como gente ame­rín­dia, inde­pen­den­tes, até que che­ga­ram os euro­peus. Éramos mui­tos: cinco, seis, tal­vez sete milhões: Che­fes e sábios, mães e pais que ama­vam suas cri­an­ças e hon­ra­vam seus anciãos. E nos mata­ram a quase todos com a espada, a peste e o desprezo.

H:      Somos todos brasileiros!

M:     Somos todas brasileiras!

D2:     Tam­bém vivía­mos, inde­pen­den­tes, na África: Che­fes e sábios, mães e pais que ama­vam suas cri­an­ças e hon­ra­vam seus ante­pas­sa­dos. Mas os que tra­fi­ca­vam seres huma­nos nos redu­zi­ram a escra­vos. Éramos mui­tos: cinco, seis, tal­vez sete milhões. E nos mata­ram a quase todos com o chi­cote, o banzo e o desprezo.

H:      Somos todos brasileiros!

M:     Somos todas brasileiras!

D1:     E vio­len­ta­ram nos­sas mulhe­res ame­rín­dias e tive­mos filhos mamelucos.

D2:     E vio­len­ta­ram nos­sas mulhe­res afro-americanas e tive­mos filhos mulatos.

D3:     Mame­lu­cos e mula­tos se ama­ram e nas­ce­mos nós.

D1,2,3: Ame­rín­dios, euro­peus e afro-americanos; mame­lu­cos, mula­tos e cafu­zos, vivem e sobre­vi­vem, inter­de­pen­den­tes, nas cores da nossa pele, no ritmo da nossa música, na ale­gria das nos­sas fes­tas; vivem e sobre­bi­vem, inter­de­pen­den­tes, na força dos nos­sos bra­ços, no bri­lho das nos­sas men­tes e no abra­sa­mento do nosso coração.

H:      Somos todos brasileiros!

M:     Somos todas brasileiras!

T:      Somos o Brasil!


Jun 23 2010

A fé e a arte na construção do kosmos

Luiz Car­los Ramos

“Ars longa, vita bre­vis”
(Hipócrates)

Nós somos o resul­tado da equa­ção natura+cultura.

De mui­tos pro­du­tos in natura depende a nossa vida, tais como a água e o ar. Estes, quanto menos sofre­rem a inter­fe­rên­cia humana, quanto menos adul­te­ra­dos, quanto menos con­ta­mi­na­dos e quanto mais puros forem pre­ser­va­dos, melhor ser­vi­rão à humanidade.

Mas tam­bém nós, huma­nos, não sobre­vi­ve­mos sem o segundo ele­mento da equa­ção: a cul­tura. Mui­tos pro­du­tos manu­fa­tu­ra­dos garan­tem a nossa sobre­vi­vên­cia: o pão, as ves­tes, a habi­ta­ção, os livros… Todos esses são ela­bo­ra­ções cul­tu­rais de notó­ria utilidade.

Mas, além de pro­du­tos úteis, a cul­tura tam­bém pro­duz a arte. Como já ensi­nava Santo Agos­ti­nho, há obje­tos fei­tos para serem usa­dos e outros para serem usu­fruí­dos. E, segundo o mesmo santo, estes últi­mos são supe­ri­o­res aos primeiros.

Para os chi­ne­ses, a pala­vra “arte” se escreve com­pondo dois carac­te­res: um que sig­ni­fica “conhe­ci­mento” e outro que sig­ni­fica “beleza”. Arte, por­tanto, é a com­bi­na­ção pre­cisa entre conhe­ci­mento (ou sabe­do­ria) e beleza. Umberto Eco, como esteta, diz algo pare­cido: Arte é quando a forma comenta o con­teúdo e o con­teúdo comenta a forma.

Em outras pala­vras, a arte é sem­pre inten­ci­o­nal. Um pôr-do-sol pode ser belo, uma mon­ta­nha pode ser bela, uma árvore pode ser bela, mas não são arte, por­que nelas não foi apli­cado o conhe­ci­mento e a sabe­do­ria huma­nas – pode­mos, no máximo, considerá-las, obras de arte do Criador.

Para que algo seja con­si­de­rado legi­ti­ma­mente como obra de arte, é pre­ciso que seja inten­ci­o­nal­mente belo.

Em geral, todas as reli­giões enten­dem que o kos­mos é a orde­na­ção do caos pelas mãos hábeis e pelas pala­vras cri­a­ti­vas do Cri­a­dor. Essa orde­na­ção não pres­cinde da beleza.

Na nar­ra­tiva bíblica da cri­a­ção, no livro de Gêne­sis, lê-se que: no sétimo dia, viu Deus que tudo era bom/belo. E, ainda: “Do solo fez o SENHOR Deus bro­tar toda sorte de árvo­res agra­dá­veis à vista e boas para ali­mento”. Note-se a inten­ção divina de que esse jar­dim deve­ria “agra­dar à vista” e pro­ver sus­tento com coi­sas “boas para ali­mento”. Deus com­bina, nesse jar­dim, ques­tões plás­ti­cas e prá­ti­cas, esté­ti­cas e téc­ni­cas, poé­ti­cas e éticas. Deus não se con­tenta com uma beleza que não sus­tente a vida, nem quer uma vida que não nos ale­gre e torne as pes­soas mais felizes.

Arti­cu­lar arte — fé — e — cida­da­nia nos leva pen­sar que os seres huma­nos, sendo a ima­gem do Cri­a­dor, devem imitá-lo no pro­cesso de orde­na­ção do caos, cola­bo­rando na cons­tru­ção do kosmos.

Que esse kos­mos deve man­ter intac­tas cer­tas áreas de pre­ser­va­ção, por­que delas depende a nossa pró­pria vida.

Que esse kos­mos não deve ser sim­ples­mente útil, mas igual­mente belo. E para isso deve­mos empe­nhar o nosso conhe­ci­mento e apli­car a nossa sabedoria.

Sabe­mos que esta­mos diante de uma “obra de arte” quando essa mesma obra nos faz trans­cen­der. Quando ela nos arre­bata e nos leva para além da sua dimen­são uti­li­tá­ria. As fer­ra­men­tas nos tor­nam máqui­nas pro­du­ti­vas mais efi­ci­en­tes. A arte nos torna mais huma­nos, e por isso mesmo no levam para mais perto de Deus.

Tor­nar o mundo mais inte­li­gente e mais belo é tarefa do artista, essa tam­bém é a tarefa de toda pes­soa cristã, por­que essa sem­pre foi a inten­ção do Criador.

A vida é breve, mas a arte é eterna!


Apr 29 2010

Trabalho

Luiz Car­los Ramos

Tripa­lium já foi tor­tura
Tra­ba­lho já foi suplí­cio
Aos pou­cos vai se trans­for­mando em far­tura
Como deve­ria ter sido desde o início.

* * *

O mundo muda pelo tra­ba­lho
de quem tem
mãos hábeis e olhar pro­fundo,
pés ágeis e mente lúcida,
cora­ção que ama o que faz
e que, por isso, faz o que ama.

* * *

Traba­lho:
tran­subs­tan­ci­a­ção de suor em pão.

* * *

IMAGEM  (Far­mer Hol­ding Ear of Wheat): © Ron Chapple/Corbis;
COLEÇÃO Cor­bis Yel­low; Value Royalty-Free (RF), 42 – 18912519


Mar 8 2010

O fio da história

Dia Inter­na­ci­o­nal da Mulher

Luiz Car­los Ramos
Ede­mir Antu­nes Filho

   

Lá esta­vam elas, ao som dos tea­res, tecendo com fio lilás
os teci­dos que deve­riam ves­tir e aque­cer outros cor­pos — rou­pas que elas mes­mas jamais vestiriam.

Já pró­xi­mas ao limite de suas for­ças, exaus­tas pelas 16 horas de lida diá­ria, as ope­rá­rias ainda encon­tra­vam ânimo para socor­rer com­pa­nhei­ras que se esvaiam tuber­cu­lo­sas; para sau­dar cri­an­ças recém-nascidas que sal­ta­vam pra den­tro da vida ali mesmo, sob os tea­res; e para cho­rar as enve­lhe­ci­das jovens que aos 30 anos ago­ni­za­vam em seus pos­tos e se des­pe­diam de sua breve vida.

Entre­tanto, emba­la­das pelo ritmo das máqui­nas, e, com o colo molhado pelas lágri­mas, ges­ta­vam sonhos de espe­rança: salá­rios dig­nos, melho­res con­di­ções de saúde, jor­nada de tra­ba­lho que lhes per­mi­tisse abra­çar mais lon­ga­mente suas cri­an­ças, bei­jar mais ter­na­mente seus mari­dos e sabo­rear um pouco mais a comu­nhão à mesa na sim­pli­ci­dade dos seus lares.

Con­ta­gi­a­das por esse sonho, foram compartilhá-lo com o patrão. Mas o patrão, indig­nado com tama­nho absurdo, jul­gou ser este um caso de polí­cia e resol­veu trans­for­mar aquele sonho divino em um pesa­delo infernal.

No dia 8 de março de 1857, as por­tas da fábrica Cot­ton de Nova York foram tran­ca­das e o edi­fí­cio trans­for­mado em um grande cre­ma­tó­rio onde 129 mulhe­res foram sacrificadas.

Mas… a fumaça daquele holo­causto espalhou-se por todo lugar levando con­sigo o sonho daque­las mulhe­res, con­ta­gi­ando e sen­si­bi­li­zando pes­soas em todo o mundo que se encar­re­ga­ram de tor­nar rea­li­dade aquele ideal.

Már­ti­res cre­ma­das, fios lila­ses, ges­tan­tes de um mundo melhor, ins­pi­ra­ram Clara Zet­kin, a pro­por, durante o Con­gresso Inter­na­ci­o­nal de Mulhe­res, rea­li­zado na Noru­ega em 1910,  a ins­ti­tui­ção do Dia Inter­na­ci­o­nal da Mulher.

Desde então, a cada 8 de março, mulhe­res e homens rea­fir­mam sua tarefa como tece­lãs e tece­lões de uma nova História.

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O fio da his­tó­ria: Dia Inter­na­ci­o­nal da Mulher de Luiz Car­los Ramos é licen­ci­ado sob uma Licença Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso não-comercial-No Deri­va­tive Works 3.0 Bra­sil.


Jan 21 2010

Outra história de Natal

Ele­nise Ramos
(Natal 2009)

As his­tó­rias de Natal acon­te­ce­ram há muito tempo em diver­sos luga­res do mundo, pois eu digo a vocês: aqui em Cas­tro tam­bém tem uma his­tó­ria, só que essa é bem recente

 55 anos atrás havia um Papai Noel e uma Mamãe Noel… bem eles ainda não eram Papai e Mamãe Noel.

Vou expli­car: Eles se namo­ra­ram pri­meiro, noi­va­ram e final­mente se casa­ram num belo dia de chuva, com direito a bolo e tudo o mais.

Mas sem filhi­nhos como pode­riam se mamãe e papai Noel? Que eu saiba pra ser papai e mamãe tem que haver filhi­nhos, então, eles come­ça­ram a tra­ba­lhar nessa árdua tarefa.

 Che­gou a pri­meira, era uma anji­nha linda e muito amada, mas só veio dar um beijo na face de cada um disse-lhe que tudo daria certo e foi, morar com outro papai, o Papai do Céu.

 Então veio a segunda filhi­nha, toda ale­gre e sor­ri­dente, eles gos­ta­ram muito de seu sor­riso e cada vez que ela sor­ria, a casa ficava cheia de luz. E assim come­çou a Natal da Famí­lia Noel na Rua Maes­tro Bene­dito Pereira, 960.

Mas a bebe­zi­nha não tinha com quem brincar.

 Então eles tive­ram outra filhi­nha, toda cheia de vida, olhos gran­des e ávidos pela vida, curi­osa e sob os cui­da­dos da irmã mais velha pre­en­che­ram a casa, o jar­dim da vovó Noel e com mais ale­gria pre­en­chiam a casa de mais sor­ri­sos, por isso a casa a cada dia ficava ainda mais ilu­mi­nada, e quem pas­sava por perto dizia: nossa que casa iluminada!

 Papai e Mamãe Noel pen­sa­ram que pode­riam ter filhi­nhos meni­ni­nhos… e tive­ram, o pri­meiro muito inte­res­sado nas letras e figu­ras desde cedo, come­çou sua sabe­do­ria com os mes­tres Pati­nhas, Zé Cari­oca, Pato Donald, um tal de Fan­tasma, ah, e tinha o recruta Zero. Pes­soas que lhe pas­sa­vam vali­o­sos con­cei­tos de viver com sor­riso sem­pre largo e farto.

E com isso ale­gria ia aumentando.

 Che­gou então o segundo pia­zi­nho. Atleta exí­mio, dedi­cado, fez a ale­gria da casa com suas meda­lhas e vitó­rias em diver­sos cam­pe­o­na­tos. Todos batiam pal­mas e quando a gente bate pal­mas, sem­pre sorri, e assim casa espa­lhava cada vez mais luzes.

 Quando acha­ram que não cabia mais ale­gria na casa, che­gou a última filhi­nha, essa um pouco mais cho­rona mas sob o cui­dado de todos apren­deu a se sen­tir segura e amada e …lógico, apren­deu a arte do riso ensi­nada por todos.

 Papai e Mamãe Noel esta­vam ple­na­mente feli­zes até que um dia cada um foi tomando seu rumo ( os filhos pre­ci­sam tomar seus rumos pra se tor­na­rem outros Papais e Mamães Noel) e de tem­pos em tem­pos cada sor­riso foi-se indo, outros fica­vam, alguns vol­ta­vam, uns vinham só a pas­seio, e cada vez que a casa recebia-os de novo, era Natal.

 Che­ga­ram pes­soas novas, todas cri­an­ças que foram se tor­nando jovens e adul­tos e mesmo de longe, a cada sor­riso era Natal. Papai e Mamãe Noel final­mente se tor­na­ram Mamãe e Papai, Vovô e Vovó  e hoje são até Bisavô e Bisavó Noel.

O nome deles de ver­dade é Beto e Beta. Estão dis­far­ça­dos, para serem só nos­sos, pra nossa ale­gria nunca acabar. 

 No Natal em que Jesus nas­cia A cada sor­riso seu uma luz se acendia.

Por­tanto nessa famí­lia é natal todos os dias.


Nov 2 2009

O amor é forte como a morte

DB005693O texto de Cân­tico dos Cân­ti­cos – “O amor é forte como a morte” (Ct 8.6) – nos apre­senta as duas mai­o­res for­ças da natu­reza: o amor e a morte – Eros e Tha­na­tos (cf. a trad. da Sep­tu­a­ginta). Só há uma força capaz de ten­tar matar o amor: a morte – que nos separa das pes­soas que ama­mos. Entre­tanto, há uma única força capaz de sobre­vi­ver à morte: o amor – por­que o fato de nos sepa­rar­mos de quem ama­mos não nos impede de con­ti­nuar a amá-lo/a. O amor sobre­vive à morte por­que con­ti­nu­a­mos amando a pes­soa que mor­reu. E, no nosso amor, ela con­ti­nua a viver para sem­pre. Que Deus nos ajude a hon­rar­mos a sua memória.


Oct 15 2009

Ensinar é aprender

Luiz Car­los Ramos

Tive pro­fes­so­ras e pro­fes­so­res dos mais dife­ren­tes tipos: cal­cu­lis­tas e lite­ra­tos, atlé­ti­cos e raci­o­na­lis­tas, rudes e dóceis, extro­ver­ti­dos e reser­va­dos, dinâ­mi­cos e paca­tos, sisu­dos e cômi­cos, eru­di­tos e des­pre­ten­si­o­sos, exi­gen­tes e bene­vo­len­tes, ele­gan­tes e despojados… 

Todos me ensi­na­ram a aprender.

A vocês, mestres, expresso meu reco­nhe­ci­mento. Mas peço licença para dedi­car a honra maior àquela que me pos­si­bi­li­tou conhe­cer todos vocês: A pro­fes­sora que me ensi­nou o ABC.

Por­tanto, à minha pri­meira pro­fes­sora, pre­cur­sora de todos os demais mes­tres que tive, que tenho e que ainda have­rei de ter, tri­buto neste dia a minha espe­cial home­na­gem, com gra­ti­dão eterna.

A quem honra, honra!


Oct 12 2009

Tapete de nuvens

Luiz Car­los Ramos

A pri­meira vez que a Ana Paula, minha filha, via­jou de avião, ela ainda era bem pequena. Quando ultra­pas­sa­mos as nuvens, e voá­va­mos acima delas, olha­mos para baixo e vimos cen­te­nas de quilô­me­tros de nuvens que se esten­diam sob o avião.

Então comen­tei: “Filhota, você terá mui­tas novi­da­des pra con­tar para os seus cole­gui­nhas quando vol­tar, heim!” E ela, olhando encan­tada pela jane­li­nha, res­pon­deu: “É, eu vou con­tar que…” E eu, sim­plo­ri­a­mente, pen­sei que ela ia dizer “… que eu andei de avião…”. Mas, para minha sur­presa, ela com­ple­tou: “Eu vou con­tar que andei num tapete de nuvens.”

Então eu me lem­brei do que disse certa vez a poe­tiza Adé­lia Prado: “Às vezes Deus me cas­tiga: eu olho para uma pedra e só vejo pedra.”

Na minha insen­si­bi­li­dade poé­tica, eu estava vendo somente nuvens, mas fui salvo a tempo pela dádiva divina do olhar de uma cri­ança. Desde então, nunca mais con­tem­plei as nuvens da mesma forma. Afi­nal de con­tas, nuvens são tape­tes onde brin­cam cri­an­ças e poetas.

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Tapete de nuvens by Luiz Car­los Ramos is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Cri­a­ção de Obras Deri­va­das 2.5 Bra­sil License.


Aug 27 2009

A propósito de uma escola democrática

Ou diga-me se eu esti­ver errado

 

Luiz Car­los Ramos

Recen­te­mente, em uma con­fe­rên­cia sobre edu­ca­ção, ouvi que os três pila­res da auto­no­mia são: a liber­dade, a von­tade e a res­pon­sa­bi­li­dade. No mesmo dia par­ti­ci­pei de uma dis­cus­são com um grupo que sonha fun­dar uma escola demo­crá­tica, na cidade de São Paulo, com bases bas­tante ori­gi­nais. Tais epi­só­dios me ins­ti­ga­ram a rabis­car este texto no qual pre­tendo comen­tar, des­pre­ten­si­o­sa­mente, esse con­ceito de auto­no­mia com vis­tas a uma escola demo­crá­tica, a come­çar pela idéia de liber­dade. Tempo havendo e inte­resse não fal­tando, pode vir a calhar de seguir­mos comen­tando, em outra oca­sião, sobre os demais pés: a von­tade e a responsabilidade.

Veja que enras­cada: se optar­mos por uma escola demo­crá­tica, esta­mos a dizer que nela não tere­mos a liber­dade de ser anti­de­mo­crá­ti­cos. Isto é, nela não há liber­dade para auto­ri­ta­ris­mos, para pri­vi­lé­gios, para von­ta­des indi­vi­du­a­lis­tas que se opõem à von­tade da mai­o­ria e, muito menos, liber­dade para um ensino ban­cá­rio, ver­ti­cal, hie­rár­quico e não dialógico.

Em outras pala­vras, a opção pela demo­cra­cia tolhe a liber­dade indi­vi­dual daque­les que, em geral, sabem se bene­fi­ciar em um sis­tema não demo­crá­tico. Daí que o pri­meiro desa­fio, ou obs­tá­culo, para a implan­ta­ção da liber­dade demo­crá­tica, seja jus­ta­mente lograr-se anu­lar a liber­dade antidemocrática.

Con­clu­são óbvia: liber­dade, em sen­tido puro, ideal, é um para­doxo ine­xeqüí­vel. Tal­vez pos­sa­mos, limi­ta­da­mente, falar em prá­tica da liber­dade demo­crá­tica, sabendo que isso implica vigo­ro­sos limi­tes. Para que o indi­ví­duo possa exer­cer sua liber­dade demo­crá­tica, terá que abrir mão da sua liber­dade anti­de­mo­crá­tica, isto é, terá que sub­me­ter sua von­tade indi­vi­dual à von­tade do grupo, da mai­o­ria e blá, blá, blá.

Mas que garan­tia há de que a deci­são da mai­o­ria será, de fato, a mais apro­pri­ada? Nenhuma. Goethe dizia que entre ficar com a mai­o­ria e ficar com a mino­ria ele pre­fe­ria, sem titu­bear, ficar com esta última por­que “a mino­ria é sem­pre de longe o grupo mais inte­li­gente”. E caso haja una­ni­mi­dade a aten­ção deve ser redo­brada, pois “toda una­ni­mi­dade é burra”, já dizia o memo­rá­vel Nel­son Rodrigues.

Como garan­tir, então, que a liber­dade seja de fato demo­crá­tica. Aqui vai meu pal­pite: a mais impor­tante das liber­da­des a serem cul­ti­va­das deve ser a liber­dade de expres­são. É curi­oso notar que a retó­rica era dis­ci­plina fun­da­men­tal no cur­rí­culo da demo­crá­tica Ate­nas, visando à for­ma­ção do cida­dão; enquanto que, no sis­tema edu­ca­tivo do Impé­rio Romano, essa dis­ci­plina fora abo­lida. A razão disso é sim­ples: em um sis­tema auto­ri­tá­rio, não é pre­ciso saber se expres­sar, pois isso não fará a menor dife­rença nas deci­sões que serão toma­das, uma vez que estas serão impos­tas, inde­pen­den­te­mente da opi­nião favo­rá­vel ou não do “cidadão”.

Pla­tão, que era anti­de­mo­crá­tico, assim como Sócra­tes, ridi­cu­la­ri­zava a retó­rica dizendo que ela era a “arte de con­ven­cer as pes­soas não pela ver­dade, mas pelo que parece ser a ver­dade”, entre­tanto, ao dizer isso, ele mesmo estava fazendo um exer­cí­cio retó­rico. Se alguém apre­senta uma falsa ver­dade fantasiando-a de ver­dade, a única maneira de desmascará-la é pelo mesmo método argu­men­ta­tivo, denun­ci­ando em que medida o raci­o­cí­nio é falso ou incor­reto. Para lutar con­tra as men­ti­ras e con­tra as fal­sas ver­da­des, somente a prá­tica da liber­dade de expressão.

Daí que cres­cer apren­dendo a se expres­sar, a defen­der suas idéias e pon­tos de vista, a argu­men­tar e a contra-argumentar, constitui-se na melhor for­ma­ção que alguém pode ter; “ensi­nar” a liber­dade de expres­são é a melhor fer­ra­menta que um sis­tema de ensino pode ofe­re­cer. Para exem­pli­fi­car, con­si­de­re­mos que o impor­tante não é ser livre pra se che­gar à hora que se quer (atra­sado) a um com­pro­misso (ou sim­ples­mente não com­pa­re­cer), mas ter opor­tu­ni­dade para ten­tar con­ven­cer os demais inte­res­sa­dos de que pos­si­vel­mente há um horá­rio mais ade­quado para a ati­vi­dade em questão.

Você dis­corda? Então exerça seu direito à liber­dade de expres­são e convença-me do contrário.

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Aug 23 2009

“Fora do rosal”

 Luiz Car­los Ramos
(para Ana Paula)

Era uma vez uma meni­ni­nha que apren­dera a can­tar uma linda can­ção que dizia:

“Bor­bo­leta peque­nina que vem para nos sau­dar
Venha ver can­tar o hino que hoje é noite de natal

“Eu sou uma bor­bo­leta peque­nina e fei­ti­ceira
ando no meio das flo­res pro­cu­rando quem me queira…”

A esta altura da música, seu pai, zom­be­teiro, a interrompia, exclamando:

“— Eu quero, eu quero, eu quero!”

Então a menina parava, punha as mãos na cin­tu­ri­nha e protestava:

“— Não, pai, não é assim!”

E con­ti­nu­ava a cantar…

“Bor­bo­leta peque­nina saia fora do rosal
Venha ver quanta ale­gria que hoje é noite de natal

“Bor­bo­leta peque­nina venha para o meu cor­dão
Venha ver can­tar o hino que hoje é noite de natal

“Eu sou uma bor­bo­leta peque­nina e fei­ti­ceira
ando no meio das flo­res pro­cu­rando quem me queira…”

Ana Paula

Ana Paula

E nova­mente o pai a inter­rom­pia, entusiasmado:

“— Eu quero, eu quero, eu quero!”

Então, a meni­ni­nha se ren­dia e dizia:

“— Ah! pai…”

… e os dois tro­ca­vam um abraço apertado.

Hoje, essa meni­ni­nha é uma moça. E está de par­tida para os rosais de outra Amé­rica. Ao me des­pe­dir dela, entreguei-lhe uma rosa ver­me­lha e lhe disse:

“— Boa via­gem, filhota! Seja feliz! E volte sem­pre… por­que aqui sem­pre haverá quem lhe queira! Amo você!”

 

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“Fora do rosal” by Luiz Car­los Ramos is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Cri­a­ção de Obras Deri­va­das 2.5 Bra­sil License.