Jul 24 2010

Espiritualidade e convívio universitário

 Luiz Car­los Ramos

 © Paul Cox/arabianEye/Corbis (royalty-free)

Univer­si­dade lem­bra Uni­verso, uni­ver­sal, que por sua vez remete à oikou­mene, “todo o mundo habi­tado”. O susto que a gente leva quanto ingressa na Uni­ver­si­dade tem a ver em parte com a trans­cen­dên­cia de um ambi­ente mais domés­tico e íntimo vivido nas comu­ni­da­des de fé, para vis­lum­brar um hori­zonte uni­ver­sal e ecu­mê­nico expe­ri­men­tado no mundo acadêmico.

Esse susto pode tornar-se crise. E den­tre as mui­tas cri­ses vivi­das pelo alu­nado, pode­mos des­ta­car aque­las rela­ti­vas ao con­flito entre e razão, tão esti­mu­lado e exa­ge­rado no mundo acadêmico.

Novas cos­mo­vi­sões — fé x razão

Quanto mais pre­ten­si­o­sas forem as nos­sas ver­da­des, mais sec­tá­rios nos tor­na­mos. De um lado, se entrin­cheira a reli­gião e, de outro, a ciên­cia, ambas com suas nume­ro­sas sei­tas. E é pró­prio das sei­tas pele­ja­rem, guer­re­a­rem entre si. Cada qual com a pre­ten­são de sub­me­ter a outra e deter o mono­pó­lio da verdade.

Só que, na prá­tica, as coi­sas fun­ci­o­nam mais ou menos como na lógica semita (con­forme aprendi do meu colega Prof. Paulo Gar­cia): eu con­tra meu irmão; meu irmão e eu con­tra o nosso primo; nosso primo, meu irmão e eu con­tra o estran­geiro.

No dia a dia, a gente age da mesma forma para enfren­tar os con­fli­tos no âmbito da fé e da razão: bri­ga­mos na igreja local con­tra gru­pos de quem dis­cor­da­mos; mas nos uni­mos como tra­di­ção reli­gi­osa (por exem­plo, como pro­tes­tan­tes) para con­fron­tar outras tra­di­ções (como os cató­li­cos); e ainda nos uni­mos como cris­tãos (cató­li­cos e pro­tes­tan­tes), para lutar con­tra outras expres­sões de fé (isla­mismo, budismo, espi­ri­tismo…); e por fim, nos uni­mos como pes­soas reli­gi­o­sas para con­fron­tar as não reli­gi­o­sas (cien­tis­tas, ateus…).

Isso prova que, quando que­re­mos (ou pre­ci­sa­mos), não há bar­rei­ras que não pos­sam ser que­bra­das, acor­dos que não pos­sam ser fei­tos, sepa­ra­ções que não pos­sam ser uni­das. Quanto menos uni­ver­sal nossa visão, menos pos­si­bi­li­da­des de uni­dade na prática.

Isso nos pro­voca a pen­sar que até a divi­são entre reli­gião e ciên­cia pode ser repen­sada. Tal­vez pos­sa­mos ser ali­a­dos na luta con­tra outros deu­ses (ou demô­nios). Nós, reli­gi­o­sos, ten­de­mos a olhar des­con­fi­a­dos para a ciên­cia por­que ela se parece muito com Deus. Mas a ciên­cia não é o único novo deus que encon­tra­mos na Uni­ver­si­dade. Novas visões geram sem­pre novos con­fli­tos, e novos con­fli­tos pro­vo­cam novas con­ver­sões. Há uma infi­ni­dade de novos deu­ses (e novos demô­nios), todos ávidos e empe­nha­dos em nossa con­ver­são. Den­tre eles pode­mos identificar:

  • O deus Mer­cado, que quer nos con­ver­ter a todos em con­su­mi­do­res (Ah, se tivés­se­mos a com­pre­en­são de Gandhi. Conta-se que, quando foi levado para visi­tar um shop­ping cen­ter, em Lon­dres, obser­vando as vitri­nes, excla­mou: “Puxa vida, quan­tas coi­sas das quais eu não preciso!”)
  • O deus Entre­te­ni­mento, que quer que abra­mos mão da rea­li­dade, e nos con­ver­ta­mos em meros espec­ta­do­res da pró­pria vida.
  • O deus Pra­zer, que nos pro­mete a juven­tude eterna, mas com prazo de vali­dade curto e sem garantia.
  • O deus Vio­lên­cia, que vive nos ame­a­çando com um Juízo Final pre­ma­turo. Etc.

Enfim, esses, entre tan­tos outros, são todos deu­ses muito into­le­ran­tes e anti-ecumênicos. E é quase impos­sí­vel não tro­pe­çar­mos em seus sun­tu­o­sos tem­plos, inclu­sive nos campi uni­ver­si­tá­rios, pois são deu­ses que tam­bém aspi­ram à oni­po­tên­cia, à oni­pre­sença e à onisciência.

Igreja & Uni­ver­si­dade: seme­lhan­ças e diferenças

Por outro lado, tal­vez não devês­se­mos nos assus­tar tanto com a Uni­ver­si­dade, afi­nal, na essên­cia, ela não é assim tão dife­rente da Igreja Local. Se não, vejamos:

  • Na Igreja, a gente se filia.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente se matricula.
  • Na Igreja, a gente assiste aos cul­tos.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente freqüenta as aulas.
  • Na Igreja, a gente se senta pra ouvir o pro­fes­sor da fé.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente se senta pra ouvir o pre­ga­dor da ciência.
  • Na Igreja, a gente tem que con­tri­buir com o dízimo.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente tem que pagar a mensalidade.
  • Na Igreja, a gente tem que apren­der as dou­tri­nas da fé.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente tem que pro­fes­sar os dog­mas da ciência.
  • Na Igreja, a gente tem que obser­var os pre­cei­tos divi­nos.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente tem que cum­prir os man­da­men­tos do método car­te­si­ano, ou do his­tó­rico crítico.
  • Na Igreja, a gente é exco­mun­gado se não cum­pre as nor­mas ecle­siás­ti­cas.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente é expulso se não cum­pre o regu­la­mento acadêmico.
  • Na Igreja, a gente par­ti­cipa dos ritos e litur­gias ecle­si­ais (batis­mos, euca­ris­tias, fune­rais.…). Na Uni­ver­si­dade, a gente par­ti­cipa dos ritos e sole­ni­da­des aca­dê­mi­cas (aulas inau­gu­rais, for­ma­tu­ras, ban­cas, con­ces­são de títulos…).

Ora, con­quanto a Igreja à qual assis­ti­mos seja local, e a Uni­ver­si­dade na qual estu­da­mos se pre­tenda uni­ver­sal, cada igreja local tem o dever de ter um espí­rito uni­ver­sal — pois o Evan­ge­lho é para todos: “até os con­fins da terra” (At 1.8) —; e a Uni­ver­si­dade tem a obri­ga­ção de cum­prir sua voca­ção social — que é a de pres­tar ser­vi­ços à comu­ni­dade local.

Como se vê, as coi­sas não são muito dife­ren­tes lá e cá.

 Mesmo assim, há algu­mas dife­ren­ças entre Uni­ver­si­dade e igreja local para as quais eu gos­ta­ria de cha­mar a atenção:

  • Con­quanto a Uni­ver­si­dade se ocupe de for­mar pro­fis­si­o­nais de sucesso, é a igreja que ofe­rece o suporte quando expe­ri­men­ta­mos o fracasso.
  • Enquanto a Uni­ver­si­dade forma pes­soas para serem ven­ce­do­ras, a igreja pode aju­dar a nos reno­var a espe­rança quando sofre­mos as ine­vi­tá­veis der­ro­tas da vida.
  • A Uni­ver­si­dade nos pre­para para acer­tar, a igreja nos ajuda a cor­ri­gir o rumo quando erramos.
  • A Uni­ver­si­dade nos ofe­rece uma série de cren­ças sobre as cren­ças, na igreja a gente cele­bra a pró­pria essên­cia da fé.
  • A Uni­ver­si­dade nos ensina a fazer o certo, a igreja nos ensina a fazer o bem.
  • Enquanto a Uni­ver­si­dade pre­para as pes­soas para ganhar (bens, fama, pres­tí­gio, sta­tus…), a igreja nos con­sola quando per­de­mos, inclu­sive quando per­de­mos as pes­soas que amamos.

É ver­dade que nem todas as igre­jas e nem todas as uni­ver­si­da­des são assim. Mas essas idéias ser­vem para demons­trar que, con­quanto seme­lhan­tes, essas duas ins­ti­tui­ções têm voca­ções deferentes.

Essas dife­ren­ças, entre­tanto, não impli­cam na exclu­são sec­tá­ria de uma ou de outra. Mos­tram, antes, jus­ta­mente o con­junto que for­mam, a neces­si­dade que uma têm da outra. Por­que na vida, as dife­ren­ças somam e todos nos com­ple­men­ta­mos, inclu­sive a Igreja à Uni­ver­si­dade e a Uni­ver­si­dade à Igreja.

Con­cluindo…

Se a escola é uma comu­ni­dade de cren­ças na vida (na ciên­cia, no pro­gresso, no conhe­ci­mento, na razão…), a vida mesma é uma escola que ensina a pró­pria vida. A vida nos ensina que pre­ci­sa­mos uns dos outros, que pre­ci­sa­mos umas das outras.

Mas o que é que impede essa comunhão?

No fundo, somos como a cebola do Shrek, uma suces­são de cama­das com mui­tas cas­cas e pouca cons­ci­ên­cia da nossa essên­cia. Se fôs­se­mos tão esper­tos quanto quer a Uni­ver­si­dade, e tão sábios quanto a Igreja gos­ta­ria que fôs­se­mos, sabe­ría­mos que se pode­mos nos unir em cer­tos casos, pode­mos nos unir sem­pre.

Qual é o ele­mento que engen­dra e que com­porta todas as nos­sas con­tra­di­ções? A res­posta é uma só: a Vida! A vida é a única ins­tân­cia, ou melhor a ins­tân­cia comum a todos nós. E é em torno da vida que nos uni­mos para defen­der a pró­pria vida.

A vida é o ponto de encon­tro dos ami­gos. Um famoso teó­logo e filó­sofo do século xvii, quando per­gun­tado sobre sua espe­ci­a­li­dade, respondeu: — Eu, eu sou expert em ami­zade! O resto é brin­ca­deira de cri­ança, e até isso é mais gos­toso em com­pa­nhia de gente amiga. A Uni­ver­si­dade cum­pre seu papel quando forma ami­gos e a Igreja, quando cele­bra o sacra­mento da amizade.

Gos­ta­ria de con­cluir com uma afir­ma­ção de fé que escrevi há alguns anos, na qual declaro a minha na vida como uma escola:

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a conhe­cer as razões e a res­pei­tar os mistérios;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a coo­pe­rar para cons­truir e a con­fron­tar para resistir;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a pen­sar com o cora­ção e a amar com inteligência;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a huma­ni­dade divina e a divina humanidade:

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina que a feli­ci­dade é um verbo que se con­juga no plu­ral
e que a misé­ria é o antô­nimo de Deus;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a ser e a conhe­cer,
a fazer e a con­vi­ver,
a saber, enfim, trans­mi­tir a pró­pria vida,
na força da espe­rança, com a ter­nura da paz,
e no com­pro­misso da jus­tiça para todos.

Amém!