Um livro, uma capa e um amigo

Eis tudo que preciso

Luiz Car­los Ramos

 

2 Timó­teo 4.9ss: 9 Pro­cura vir ter comigo depressa. 10  Por­que Demas, tendo amado o pre­sente século, me aban­do­nou e se foi para Tes­salô­nica; Cres­cente foi para a Galá­cia, Tito, para a Dal­má­cia. 11 Somente Lucas está comigo. Toma con­tigo Mar­cos e traze-o, pois me é útil para o minis­té­rio. 12 Quanto a Tíquico, mandei-o até Éfeso. 13 Quando vie­res, traze a capa que dei­xei em Trôade, em casa de Carpo, bem como os livros, espe­ci­al­mente os per­ga­mi­nhos. 14 Ale­xan­dre, o lato­eiro, causou-me mui­tos males; o Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras. 15 Tu, guarda-te tam­bém dele, por­que resis­tiu for­te­mente às nos­sas palavras.

16 Na minha pri­meira defesa, nin­guém foi a meu favor; antes, todos me aban­do­na­ram. Que isto não lhes seja posto em conta! 17 Mas o Senhor me assis­tiu e me reves­tiu de for­ças, para que, por meu inter­mé­dio, a pre­ga­ção fosse ple­na­mente cum­prida, e todos os gen­tios a ouvis­sem; e fui liber­tado da boca do leão. 18 O Senhor me livrará tam­bém de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celes­tial. A ele, gló­ria pelos sécu­los dos sécu­los. Amém! 19 Saúda Prisca, e Áqüila, e a casa de One­sí­foro. 20  Erasto ficou em Corinto. Quanto a Tró­fimo, deixei-o doente em Mileto. 21 Apressa-te a vir antes do inverno. Êubulo te envia sau­da­ções; o mesmo fazem Pru­dente, Lino, Cláu­dia e os irmãos todos. 22 O Senhor seja com o teu espí­rito. A graça seja convosco.”

Intro­du­ção

Che­gou o fim do semes­tre, che­gou o frio inverno. Em breve, nos dis­per­sa­re­mos. Alguns sen­ti­rão frio. Outros se sen­ti­rão sós. Mui­tos sen­ti­rão sau­da­des. O texto que nos ins­pira neste dia nos fala de um sen­ti­mento pare­cido que, segundo uma antiga tra­di­ção, o grande após­tolo dos gen­tios esta­ria experimentando.

Segundo essa tra­di­ção, o fim da jor­nada do após­tolo Paulo estava che­gando, jun­ta­mente com um duro inverno. “O pri­si­o­neiro sente a soli­dão pelo aban­dono ou des­vio de alguns cola­bo­ra­do­res e a hos­ti­li­dade de um conhe­cido” (nota da Bíblia do Pere­grino). “Esta página con­tris­tada e serena, quem sabe a última que o após­tolo haja ditado, lem­bra o tema do justo aban­do­nado, tema este que a morte de Jesus na cruz ilus­trara tão cabal­mente. Mas assim como para Jesus, esta soli­dão está povo­ada pela pre­sença de Deus” (nota da Bíblia Tra­du­ção Ecu­mê­nica), bem como pela lem­brança de fatos mar­can­tes e pela sau­dade de ami­gos especiais.

Paulo se pre­pa­rava para enfren­tar um rigo­roso inverno, um inverno mete­o­ro­ló­gico, um inverno exis­ten­cial, um inverno afe­tivo. Para isso, teria escrito a Timó­teo, um amigo que­rido, pedindo que este lhe trou­xesse, o mais rápido pos­sí­vel, o que ele pre­ci­sa­ria para enfren­tar esse temí­vel inverno.

Uma das enco­men­das de Paulo foi…

… a capa

“Quando vie­res, traze a capa
que dei­xei em Trôade, em casa de Carpo.”
(v. 13)

Esse Paulo tinha um estilo de vida aus­tero. Não tinha luxos, não gozava de gran­des con­for­tos, nem pra­ti­cava mui­tas extra­va­gân­cias. Tanto é assim que ele teria dei­xado, ou esque­cido, um dos seus par­cos bens em Trôade. Ora, somente alguém desa­pe­gado dos bens mate­ri­ais dei­xa­ria para trás uma capa, um paletó, um sobretudo.

Entre­tanto, Paulo sabia que, por mais espi­ri­tual que fosse, pre­ci­sava cui­dar do corpo. E, embora já em sua reta final, a mis­são não pode­ria ser inter­rom­pida pre­ma­tu­ra­mente por uma pneu­mo­nia irresponsável.

Paulo pre­ci­sava da sua capa, como nós pre­ci­sa­mos do nosso aga­sa­lho. O inverno está aí, o semes­tre che­gou ao fim, mas a mis­são pre­cisa con­ti­nuar. Para isso, pre­ci­sa­mos nos man­ter aque­ci­dos, sau­dá­veis e dispostos.

Mas só a capa não bas­tava, por isso a outra enco­menda de Paulo incluia…

… os livros e os pergaminhos

“Quando vie­res, traze a capa […],
 bem como os livros, espe­ci­al­mente os per­ga­mi­nhos.”
  (v. 13)

Paulo foi um grande mis­si­o­ná­rio por­que foi um homem estu­di­oso, culto, eru­dito, amigo dos livros até nos últi­mos momen­tos de sua vida. Lei­tor com­pul­sivo, conhe­cia os clás­si­cos gre­gos, tanto filó­so­fos quanto poe­tas. Sabe­mos tam­bém que foi autor de pena gene­rosa e abun­dante — o que teria sido da teo­lo­gia cristã, não tives­sem Paulo e seus dis­cí­pu­los nos dei­xado seu legado por escrito? —. Para enfren­tar o rigo­roso inverno exis­ten­cial, Paulo abas­tece sua dis­pensa com livros, com pala­vras… não quais­quer pala­vras, mas pala­vras boas, pala­vras inte­li­gen­tes, pala­vras bem-ditas.

Já que as nos­sas férias tam­bém se apro­xi­mam, o que leva­re­mos na baga­gem para enfren­tar o nosso pró­prio inverno exis­ten­cial? Quem dera, como Paulo, nesse tempo de rea­va­li­a­ções, tenha­mos a chance de ler­mos bons livros, e nos ali­men­tar­mos far­ta­mente das pala­vras sagra­das que Deus e os homens, Deus e as mulhe­res, plan­tam nos livros; pala­vras que se ofe­re­cem a nós como pães aro­má­ti­cos, sabo­ro­sos e edificantes.

Mas, além da capa e dos livros, a enco­menda mais impor­tante de Paulo foi…

… o amigo João Marcos

“Toma con­tigo a Mar­cos e traze-o,
pois me é útil para o minis­té­rio.”
  (v. 11)

Paulo expe­ri­men­tara mui­tos tipos de rela­ci­o­na­men­tos: havia ami­gos que par­tiam, tais como Demas, que aban­do­rara a fé e abra­çara o mundo (v. 10), havia os que sim­ples­mente se muda­vam, como Cres­cente e Tito, que esta­vam morando agora em Galá­cia e Dal­má­cia, respectivamente.

Havia, ainda, os ami­gos que se tor­na­vam ini­mi­gos, como Ale­xan­dre, o lato­eiro (v. 14). Des­ses, Paulo diz que “o Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras” (v. 14); e que deles deve­mos nos guar­dar (cf. v. 15).

Mas tam­bém havia aque­les como Lucas, que nunca o aban­do­nara; amigo leal, fiel, cons­tante, sem­pre pre­sente, nas horas boas e nas horas amar­gas; aquele que per­ma­ne­cia quando todos já se tinham ido: “Somente Lucas está comigo” (v. 11).

Mas uma das ami­za­des mais mar­can­tes para Paulo, foi aquela com João Mar­cos. Quando em via­gem para Anti­o­quia da Psí­dia, João Mar­cos aban­do­nara Paulo e seus com­pa­nhei­ros, vol­tando para Jeru­sa­lém (cf. At 13.13). Paulo se lem­bra­ria desse aban­dono, quando Bar­nabé quis tor­nar a incluir João Mar­cos em outra via­gem mis­si­o­ná­ria: “Mas Paulo não era de opi­nião que se reto­masse como com­pa­nheiro um homem que os aban­do­nara na Pan­fí­lia e, por­tanto não par­ti­ci­para do tra­ba­lho deles. Essa dis­cor­dân­cia se agra­vou a tal ponto que eles par­ti­ram cada qual para seu lado. Bar­nabé tomou con­sigo Mar­cos e embar­cou para Chi­pre, enquanto Paulo asso­ci­ava Silas a si e par­tia…” (At 15.38 – 40).

O tempo se encar­re­ga­ria de mos­trar a Paulo que ele estava enga­nado. Nem sem­pre um colega que nos decep­ci­ona uma vez, está inca­pa­ci­tado para se asso­ciar a nós em outras jor­na­das. Bar­nabé que, do alto de sua expe­ri­ên­cia, podia dis­cer­nir isso, pos­si­bi­li­tou a Paulo essa impor­tante ami­zade e deu-lhe o com­pa­nheiro que o assis­ti­ria nas suas últi­mas horas.

Pero­ra­ção

Agora que o tempo de par­tir se apro­xima, e o inverno aperta, pre­ci­sa­mos estar pre­pa­ra­dos para enfrentá-los: a par­tida e o inverno. E, por mais que os aga­sa­lhos e os livros nos aju­dem, nada pode subs­ti­tuir um amigo.

Nes­tes tem­pos de for­ma­ção aca­dê­mica, deve­mos aten­tar para os cui­da­dos do corpo e os cui­da­dos da mente, man­tendo a capa e os livros sem­pre à mão, mas, prin­ci­pal­mente, não pode­mos esque­cer dos cui­da­dos do cora­ção, e é para isto que ser­vem os ami­gos, é para isto que ser­vem as ami­gas. Como diz o sábio em seu antigo pro­vér­bio: “Em todo tempo ama o amigo, e na angús­tia se faz o irmão” (Pv 17.17).

Que neste inverno não nos fal­tem aga­sa­lhos, nem livros e muito menos ami­gos e amigas.

Boas férias.

Facul­dade de Teo­lo­gia da Igreja Meto­dista
2004

IMAGEM: Cup on book on desk
© Bloomimage/Corbis; COLEÇÃO: Bloom
Padrão Royalty-Free (RF)
42 – 24011357


One Response to “Um livro, uma capa e um amigo”

  • Francisco Thiago Says:

    Vai demo­rar um pouco. No auge do inverno tal­vez eu regresse para as três coli­nas de minha alma.
    Mas para nós semi­na­ris­tas não há mais sos­sego. Vive­mos a dua­li­dade de ter dois lares e ter nenhum; de não saber se esta par­tindo para che­gar ou par­tindo para sair.
    E os ami­gos então… Para ver os anti­gos, é pre­ciso dizer adeus para os novos — que já estão ama­re­la­dos pela dores sofri­das em conjunto.

    Toda­via, vale o exem­plo de Paulo mesmo. Levar os livros, ami­gos nas pupi­las e não esque­cer a capa (de chuva, para os motociclistas)

    Boas férias para nós. E que bons ven­tos nos levem e que boa maré nos devolva a praias tranquilas.

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