Guerra Santa

A rela­ção de amor e ódio entre MPB e Religião

Luiz Car­los Ramos

 Dois poe­mas do mesmo autor insi­nuam carí­cias teo­ló­gi­cas de um lado; e, de outro, incu­tem mor­di­das tam­bém teo­ló­gi­cas. No pri­meiro, uma sen­sa­ção de indi­gên­cia do poeta-profeta-cantor na “aven­tura de subir aos céus”. Na segunda, um con­se­lho: “deixa o outro ven­der limões”.

 A rela­ção entre a arte e a reli­gião sem­pre foi con­fli­tu­osa, uma ver­da­deira rela­ção de amor & ódio. Assim têm sido com a Core­o­gra­fia, que é a arte do movi­mento; com a Lite­ra­tura, a arte da pala­vra; com a Arqui­te­tura, a arte do espaço vazio; com a Escul­tura, a arte do volume; com a Pin­tura, a arte da cor; e não pode­ria ser dife­rente com a Música, a arte do som – que é a que nos inte­ressa par­ti­cu­lar­mente neste ensaio. Arte e reli­gião se nutrem e se digla­diam reci­pro­ca­mente (nem mesmo a con­tro­ver­tida “sétima arte”, o Cinema, escapa dessa pro­je­ção dia­lé­tica, “entre tapas e bei­jos”, da reli­gião). Pode­ría­mos esten­der esta con­si­de­ra­ção às várias ciên­cias – exa­tas, bio­ló­gi­cas e huma­nas. Entre­tanto, nos res­trin­gi­re­mos a umas pou­cas notas, ainda que um tanto dis­so­nan­tes, a res­peito da rela­ção de amor e ódio entre MPB e Religião.

A reli­gião é pra­ti­ca­mente oni­pre­sente na música popu­lar: está nas modas cai­pi­ras e sambas-enredo, nos cho­ri­nhos e seres­tas, no rock e no rap, enfim, está em todas as bos­sas, novas ou velhas. O “tom” pode ser o mais ingê­nuo ou pie­gas, como em “Jesus Cristo eu estou aqui” e “Nossa Senhora, me dê a mão”, do rei Roberto; ou hete­ro­doxo, como em “Ói, lá vem Deus (…) / Ói, ói o mal / Vem de bra­ços e abra­ços com o bem / Num romance astral / Amém”, do maluco beleza; ou pode expres­sar sofis­ti­ca­das ela­bo­ra­ções teo­ló­gi­cas, como em “Se eu qui­ser falar com Deus”, do nosso ex-ministro da cultura.

Natu­ral­mente, como nas demais artes, não fal­tam as can­ções que alfi­ne­tam a reli­gião, às vezes com luva de pelica, como em “… e eu que não creio, peço a Deus por minha gente”, do incom­pa­rá­vel Chico, e as que recheiam a luva com tijo­los, como a música “Guerra Santa”, de Gil­berto Gil.

Pois é emba­lado pelas músi­cas “Se eu qui­ser falar com Deus” e “Guerra Santa”, que gos­ta­ria de ensaiar algu­mas vari­a­ções sobre o tema da rela­ção entre MPB e Reli­gião. (Note-se que não é um pro­blema entre com­po­si­to­res que favo­re­cem a reli­gião, de um lado, con­tra os que a cri­ti­cam, de outro. Pois essa rela­ção de amor & ódio pode ser notada em um mesmo com­po­si­tor e, até, em uma mesma composição).

 O beijo

Conta-nos o pró­prio Gil­berto Gil: “O Roberto [Car­los] me pediu uma can­ção; do que eu vou falar? Ele é tão reli­gi­oso – e se eu qui­ser falar de Deus? E se eu qui­ser falar com Deus.” Assim nas­ceu, no ano de 1980, “Se eu qui­ser falar com Deus”. Sabem qual foi a rea­ção do ilus­tre soli­ci­tante? Con­fira nova­mente nas pala­vras do pró­prio autor: “O que che­gou a mim como tendo sido a rea­ção dele, Roberto Car­los, foi que ele disse que aquela não era a idéia de Deus que ele tem.”

Qual é a “idéia de Deus” nesta can­ção? Eis algu­mas que estão em evi­dente e admi­rá­vel sin­to­nia com alguns dos mais emi­nen­tes e res­pei­ta­dos teó­lo­gos da nossa era:

O Deus abs­con­di­tus: Aqui está a idéia do “Deus des­co­nhe­cido” pre­gado pelo após­tolo Paulo, na cidade de Ate­nas (Atos 17). Trata-se do “Deus abs­con­di­tus”, a res­peito do qual se refe­ri­ram o pro­tes­tante Mar­ti­nho Lutero e o cató­lico Pas­cal, à luz do “Deus mis­te­ri­oso” do pro­feta Isaías (45.15, na ver­são latina, a Vul­gata). Esta con­cep­ção teo­ló­gica afirma que Deus se tor­nou ina­ces­sí­vel, escondendo-se dos olhos da huma­ni­dade peca­dora, mas que se revela a essa mesma huma­ni­dade por meio do desa­fi­a­dor ato exis­ten­cial da fé. Além disso, não dá pra dei­xar de fazer a asso­ci­a­ção com a ins­tru­ção de Jesus: “Quando ora­res, entra no teu quarto e, fechada a porta, ora­rás a teu Pai, que está em secreto” (Mt 6.6).

O vazio-Deus: O prin­ci­pal expo­ente do taoísmo, Lao Tzu (Lao Tsé), teria ensi­nado que a ori­gem das coi­sas está no “Vazio”. O “Tao” é o “Vazio”. Na nar­ra­tiva da Cri­a­ção, no livro do Gêne­sis, o iní­cio de tudo se dá a par­tir do caos, “a terra era sem forma e vazia”. E Ecle­si­as­tes, livro do sábio pre­ga­dor hebreu, é um tra­tado sobre o nada, o vazio, a vai­dade (do lat. Vani­tas = vacui­dade). O teó­logo cató­lico Rômulo Can­dido de Souza, em seu livro “Pala­vra Pará­bola”, demons­tra como a expres­são “pedra”, na Bíblia tem mais o sen­tido de caverna, esca­va­ção, buraco na rocha, do que o de um bloco mono­lí­tico sólido. Assim, quando Jesus, Pedro ou a Igreja são apre­sen­ta­dos como “pedra”, a idéia é mais de útero que gesta, do que pilar que sus­tenta. Um terno vazio que pos­si­bi­lita a vida. E esse lito-útero é cons­tan­te­mente rei­te­rado nas expe­ri­ên­cias teo­fâ­ni­cas dos patri­ar­cas (na mon­ta­nha Moi­sés recebe a Lei, esca­vada na pedra); e dos pro­fe­tas (Deus se revela ao pro­feta Elias na porta de uma caverna como brisa que sopra sobre as coli­nas). Tam­bém nos momen­tos cru­ci­ais da vida de Jesus, tais como o seu nas­ci­mento (na gruta de Belém),  a sua morte e sepul­ta­mento (no sepul­cro na rocha). Está inclu­sive na maior expe­ri­ên­cia reli­gi­osa de todos os tem­pos, a res­sur­rei­ção, que é sim­bo­li­zada pela pedra remo­vida, o túmulo vazio.

O nada-Deus: A aven­tura do des­co­nhe­cido, o salto no escuro, a aposta, a deci­são de cor­rer o risco, a pos­si­bi­li­dade de tudo dar em nada, não é nenhuma here­sia nova. Tal­vez quem melhor tenha tra­ba­lhado essa dimen­são exis­ten­cial do drama humano da angús­tia tenha sido o filósofo-teólogo Sören Aaybye Kier­ke­ga­ard: “A angús­tia é a pos­si­bi­li­dade de liber­dade: somente a angús­tia, atra­vés da fé, tem a capa­ci­dade de for­mar, enquanto des­trói todas as fini­tu­des” e “se alguém sou­ber tirar pro­veito da expe­ri­ên­cia da angús­tia, se tiver cora­gem de ir mais além, então dará à rea­li­dade outra expli­ca­ção”. E o grande salto, o mais difí­cil, é o de “cair nas mãos de Deus”. Alguns plan­to­nis­tas, defen­so­res de Deus, con­de­nam esse ponto do “ser­mão” de Gili­berto Gil, por afir­mar: “Se eu qui­ser falar com Deus / Tenho que me aven­tu­rar / Tenho que subir aos céus / Sem cor­das pra segu­rar / Tenho que dizer adeus / Dar as cos­tas, cami­nhar / Deci­dido, pela estrada / Que ao fin­dar vai dar em nada / Nada, nada, nada, nada / Nada, nada, nada, nada / Nada, nada, nada, nada / Do que eu pen­sava encontrar”.

A angus­ti­ante, e agou­renta, seqüên­cia de treze “nadas” insi­nu­ando, no dizer do com­po­si­tor, suces­si­vas cama­das de buraco (usando a expres­são da scho­lar norte-americana Karen Arms­trog), apa­vora os defen­so­res das cer­te­zas eter­nas. Nem sequer se dão conta da última frase, que, para Gil­berto Gil, é a expec­ta­tiva de algo que cul­mina “com uma luz no fim (do túnel, da estrada, da vida), quer dizer, dei­xando entre­ver embu­tida na morte, a pos­si­bi­li­dade de rea­li­za­ção de uma exis­tên­cia num plano dife­rente de tudo que se possa ima­gi­nar, mas que de qual­quer maneira se ima­gina exis­tir; a pos­si­bi­li­dade de trans­mu­ta­ção – com o desa­pa­re­ci­mento do corpo físico, da enti­dade psí­quica que cha­ma­mos de alma, incons­ci­ente, eu – para outra coisa, outra forma de cons­ci­ên­cia de todo modo impre­vi­sí­vel, se não for mesmo nada”. É aqui que o “nada-Deus” transforma-se no “total­mente Outro” de Rudolf Otto e na pos­si­bi­li­dade plena da rela­ção EU-TU, de Mar­tin Buber. Nada mais orto­doxo e evangélico.

Eis aí um típico e homi­lé­tico ser­mão de três estro­fes, ou uma can­ção de três pontos.

 O tapa

Entre­tanto essa sim­pa­tia para com a reli­gião, da parte do com­po­si­tor, não implica em ausên­cia de senso crí­tico. E é aqui que entra o “tapa” para reba­ter o “beijo”. Para com­pre­en­der­mos isso, farei refe­rên­cia à can­ção ins­pi­rada no lamen­tá­vel epi­só­dio que ficou conhe­cido como “Chute na Santa”, numa alu­são ao golpe des­fe­rido con­tra a ima­gem de Nossa Senhora Apa­re­cida pelo pas­tor Ser­gio Von Helde, da Igreja Uni­ver­sal do Reino de Deus, na vés­pera da festa da padro­eira do Bra­sil, em outu­bro e 1995.

Des­taco, a seguir, outras três idéias de Deus, reve­la­das agora pela can­ção “Guerra Santa” (1995):

O Deus-dinheiro: A can­ção denun­cia a explo­ra­ção capitalista/monetarista da fé, o modelo da eco­no­mia de mer­cado ado­tado por cer­tos reli­gi­o­sos, o estilo de vida da soci­e­dade de con­sumo que tran­subs­tan­cia Deus em pro­duto que pode ser colo­cado no car­ri­nho do Super(-)Mercado glo­ba­li­zado. “A man­são no paraíso”, o “céu”, pode ser adqui­rido, bas­tando para isso pas­sar & pagar no caixa, com direito a ser gui­ado “pelo bom ladrão”. Note a “suti­leza” da com­pa­ra­ção entre o reli­gi­oso e o “bom ladrão” (refe­rên­cia àquele que estava cru­ci­fi­cado à direita de Jesus e que foi per­do­ado por este). O ado­ra­dor do deus-Mamon “… é louco / mas não rasga dinheiro”, é aquele que, como dizia o Padre Vieira, está inte­res­sado não no nosso bem, mas nos nos­sos bens.

O Deus-empresário: A can­ção denun­cia, ainda, um Deus que con­trata exe­cu­ti­vos do teatro-templo-mercado, cujo com­pro­misso não é fazer sua pro­fis­são de fé, mas fazer da fé sua pro­fis­são. Pro­fis­si­o­nais da área de ven­das pra nego­ciar “paz, amor e axé”. Estes são os “sal­va­do­res pro­fis­si­o­nais” que estão a mon­tar “sua feira de ilu­sões”. Só que não admi­tem con­cor­rên­cia e, por isso, chu­tam a bar­raca do vizi­nho. Só ven­dem “pei­xes” mas não que­rem que outros ven­dam “limões”, numa explí­cita ten­ta­tiva de esta­be­le­cer o mono­pó­lio da fé.

O Deus-inquisidor: Como decor­rên­cia lógica, o com­po­si­tor denun­cia o reli­gi­oso into­le­rante, por­que este “diz que faz, que faz tudo isso em nome de Deus / Como um Papa da Inqui­si­ção”. Por­que usa o nome de Deus para agre­dir ao pró­ximo e con­de­nar outras expressões/opções de fé. O profeta/compositor des­vela ainda a igno­rân­cia teológico-histórica de reli­gi­o­sos como esse: “Nem se lem­bra do hor­ror da Noite de São Bar­to­lo­meu / Não, não lem­bra de nada não” – aqui é evo­cado um dos pio­res mas­sa­cres da his­tó­ria da França, quando foram mor­tos mais de 20.000 hugue­no­tes (que é como os pro­tes­tan­tes eram cha­ma­dos) em ape­nas dois dias, em agosto de 1572. Na can­ção, a into­le­rân­cia só pode ser pos­sí­vel para quem é igno­rante ou quem não quer “lem­brar de nada”. O uso do verbo “lem­brar” três vezes e a refe­rên­cia a dei­xar ven­der “peixe” e “limões” pode ser uma alu­são ao “pão” e “vinho”, uti­li­za­dos no memo­rial euca­rís­tico –  cha­mando aten­ção para o fato de que reli­gião é, essen­ci­al­mente, ato memo­rial, exer­cí­cio mnemô­nico, res­gate das lem­bran­ças significativas.

Trata-se, em última ins­tân­cia, de um apelo à tole­rân­cia e à con­vi­vên­cia pací­fica entre as dife­ren­tes expres­sões de fé, afi­nal “O nome de Deus pode ser Oxalá / Jeová, Tupã, Jesus, Maomé / Maomé, Jesus, Tupã, Jeová / Oxalá e tan­tos mais”. Pois tais expres­sões não pas­sam de “Sons dife­ren­tes, sim, para sonhos iguais”.


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