Quem sou

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Nasci quando obs­cu­ras for­ças mili­ta­res arti­cu­la­vam um golpe. Eu mal com­ple­tara três anos quanto ele veio. Quando pro­mul­ga­ram o Ato Ins­ti­tu­ci­o­nal Número Cinco, eu estava com sete. Nessa época, can­tá­va­mos dia­ri­a­mente hinos naci­o­nais, na escola pública. Pública para mui­tos, domés­tica para mim. Dos 7 aos 17 anos o Grupo Esco­lar, o Giná­sio e o Cien­tí­fico (era assim que os ensi­nos fun­da­men­tal e médio eram cha­ma­dos) foram a exten­são da minha casa. Esta ficava sob os para­na­en­ses pinhei­rais da cida­de­zi­nha de Cas­tro, que outrora fora posto de rea­bas­te­ci­mento e des­canso para rús­ti­cos tropeiros.

Naque­les idos, os da minha infân­cia, os mes­tres das esco­las públi­cas eram auto­ri­da­des, inclu­sive nas suas dis­ci­pli­nas. Alguns deles con­se­gui­ram me encan­tar. As pro­fes­so­ras de Lín­gua Por­tu­guesa, tão seve­ras e cul­tas, muito me ensi­na­ram (só não con­se­gui­ram resol­ver meu trauma com ces e esses). Apaixonei-me igual­mente por Bio­lo­gia e Física e por pouco essas dis­ci­pli­nas não me arras­ta­ram por esses cien­tí­fi­cos caminhos.

Não obs­tante, por força de inson­dá­veis desíg­nios, fui, desde menino, igual­mente incli­nado às coi­sas da fé. Aos 13 já me deci­dira pela Teo­lo­gia. Aos 18 ingres­sava no tra­di­ci­o­nal e len­dá­rio Semi­ná­rio Pres­bi­te­ri­ano do Sul, na cidade de Cam­pi­nas, tendo como tutor o notá­vel Rev. Acir Ric­kli. Eram os anos 80, mas ainda eco­a­vam pelos velhos cor­re­do­res os nomes ilus­tres de mito­ló­gi­cas per­so­na­gens que por lá pas­sa­ram: o revo­lu­ci­o­ná­rio Richard Schaull, o con­tun­dente Fran­cisco Penha Alves, o hono­rá­vel Júlio Andrade Fer­reira, o enci­clo­pé­dico Wal­dir Car­va­lho Luz, o insu­pe­rá­vel Rubem Alves, entre tan­tos outros.

Em 1984, já bacha­rel, fui para o “campo”, a cum­prir o que supu­nha ser minha voca­ção. Pas­to­reei peque­nas igre­jas na vila e no ser­tão. Aprendi a desa­to­lar car­ros e a ouvir his­tó­rias. Em 1986 fui para o extremo Oeste do Estado de Santa Cata­rina, perto da divisa do Rio Grande do Sul. Ado­tei Cha­pecó como minha terra e tomei chi­mar­rão e afei­ção por aquela gente. Como par­teira, assisti ao nas­ci­mento de uma comu­ni­dade ecle­sial (uma daque­las tão sonha­das e utó­pi­cas ecle­si­o­gê­ne­ses às quais os teó­lo­gos lati­no­a­me­ri­ca­nos gos­ta­vam de fazer refe­rên­cia). Por “suges­tão” de um com­pa­nheiro, tive que deixá-la em 1989.

Mas há males que para bem vêm. Assumi a coor­de­na­ção de uma orga­ni­za­ção ecu­mê­nica que foi deter­mi­nante para a minha for­ma­ção. O Cen­tro Ecu­mê­nico Bra­si­leiro de Expe­ri­ên­cias Pas­to­rais (Cebep) foi minha escola por 10 anos. De volta a Cam­pi­nas, fui morar a uma qua­dra do velho Semi­ná­rio e a outra do, não tão velho, Rubem Alves. Este, jun­ta­mente com o Zé Lima (a quem eu pron­ta­mente cano­ni­za­ria, tivesse inves­ti­dura para tal), se tor­na­ram ami­gos assí­duos e, como mes­tres do coti­di­ano, muito me aju­da­ram na impres­cin­dí­vel arte de desaprender.

Meu tra­ba­lho no Cebep era orga­ni­zar cur­sos para dis­cu­tir os desa­fios do con­texto bra­si­leiro e latino-americano para a prá­xis teológico-pastoral de líde­res reli­gi­o­sos. À medida que orga­ni­zava tais cur­sos, eu tam­bém neles me matri­cu­lava, e os cur­sava. O Cebep foi uma escola inten­siva, e eu, seu mais assí­duo estudante.

Com o incen­tivo do Cebep, obtive o grau de Mes­tre em Ciên­cias da Reli­gião pela ­ Uni­ver­si­dade Meto­dista de São Paulo, isso em 1996. Por essa oca­sião fui con­tra­tado pela Facul­dade de Teo­lo­gia para coor­de­nar o Ins­ti­tuto de Pas­to­ral e tra­ba­lhar no depar­ta­mento edi­to­rial. Pela con­fi­ança do Prof. Dr. Clo­vis Pinto de Cas­tro, tive as pri­mei­ras expe­ri­ên­cias docen­tes na gra­du­a­ção. Pri­meiro como pro­fes­sor subs­ti­tuto e depois como pro­fes­sor res­pon­sá­vel pelas cadei­ras de Comu­ni­ca­ção e Ação Pas­to­ral, Homi­lé­tica, Litur­gia e até Meto­do­lo­gia da Pes­quisa Cien­tí­fica. Cons­ta­tei que, de fato, os japo­ne­ses estão cer­tos: “ensi­nar é apren­der”. Minis­trar tais dis­ci­pli­nas abriu-me um fas­ci­nante leque de pos­si­bi­li­da­des aca­dê­mi­cas e cone­xões neu­ro­nais (os famo­sos “nós no cérebro”).

Por isso, criei cora­gem e, apoi­ado pela FaTeo e ori­en­tado pelo Prof. Dr. Geo­val Jacinto da Silva, con­clui o Dou­to­rado em Ciên­cias da Reli­gião (2005), tam­bém pela Umesp. Nessa jor­nada dou­to­ral, ten­tei reu­nir as áreas às quais tenho me dedi­cado como docente: a comu­ni­ca­ção, a homi­lé­tica e a liturgia.

Atu­al­mente (2009), res­pondo pelas dis­ci­pli­nas Homi­lé­tica e Litur­gia da Facul­dade de Teo­lo­gia da Igreja Meto­dista – FaTeo/Umesp, ao mesmo tempo em que coor­deno o setor de Litur­gia e Arte.

Con­de­co­ra­ções e car­gos à parte, aprendi com Sch­lei­er­ma­cher que o melhor título que um espe­ci­a­lista pode pre­ten­der é o de expert em ami­zade. A isso me aplico ultimamente.

 

 

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