Aug 4 2010

Oração pelos pais

Luiz Car­los Ramos

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Senhor,
rendemos-te gra­ças pela vida dos nos­sos pais,
por­que nos pos­si­bi­li­ta­ram nas­cer para a vida na terra;
rendemos-te gra­ças tam­bém pela vida dos nos­sos pais na fé,
por­que nos pos­si­bi­li­ta­ram nas­cer para a vida eterna.

Neste Dia dos Pais,
aben­çoa aos que estão pró­xi­mos,
dá for­ças aos que estão dis­tan­tes,
e con­forta aquele cujo pai está ausente.

Aben­çoa igual­mente a nós, filhos e filhas, para
que nos­sos ges­tos hon­rem a sua memó­ria,
que nos­sos pas­sos sigam-lhe o exem­plo,
que nos­sas pala­vras trans­mi­tam a sua sabedoria.

E se por­ven­tura esse amor paterno nos fal­tar,
dá-nos a cons­ci­ên­cia de que temos um Pai celes­tial,
que nos ama, que nos ajuda, que nos compreende.

E tu, que és Pai oni­po­tente, oni­pre­sente e onis­ci­ente,
com­pen­ses as limi­ta­ções dos pais ter­re­nos
e com­plete o seu amor.

Ben­dito sejas,
Pai bon­doso,
Pai dos pobres,
Pai de todos,
Pai nosso que estás nos céus…

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Jul 24 2010

Espiritualidade e convívio universitário

 Luiz Car­los Ramos

 © Paul Cox/arabianEye/Corbis (royalty-free)

Univer­si­dade lem­bra Uni­verso, uni­ver­sal, que por sua vez remete à oikou­mene, “todo o mundo habi­tado”. O susto que a gente leva quanto ingressa na Uni­ver­si­dade tem a ver em parte com a trans­cen­dên­cia de um ambi­ente mais domés­tico e íntimo vivido nas comu­ni­da­des de fé, para vis­lum­brar um hori­zonte uni­ver­sal e ecu­mê­nico expe­ri­men­tado no mundo acadêmico.

Esse susto pode tornar-se crise. E den­tre as mui­tas cri­ses vivi­das pelo alu­nado, pode­mos des­ta­car aque­las rela­ti­vas ao con­flito entre e razão, tão esti­mu­lado e exa­ge­rado no mundo acadêmico.

Novas cos­mo­vi­sões — fé x razão

Quanto mais pre­ten­si­o­sas forem as nos­sas ver­da­des, mais sec­tá­rios nos tor­na­mos. De um lado, se entrin­cheira a reli­gião e, de outro, a ciên­cia, ambas com suas nume­ro­sas sei­tas. E é pró­prio das sei­tas pele­ja­rem, guer­re­a­rem entre si. Cada qual com a pre­ten­são de sub­me­ter a outra e deter o mono­pó­lio da verdade.

Só que, na prá­tica, as coi­sas fun­ci­o­nam mais ou menos como na lógica semita (con­forme aprendi do meu colega Prof. Paulo Gar­cia): eu con­tra meu irmão; meu irmão e eu con­tra o nosso primo; nosso primo, meu irmão e eu con­tra o estran­geiro.

No dia a dia, a gente age da mesma forma para enfren­tar os con­fli­tos no âmbito da fé e da razão: bri­ga­mos na igreja local con­tra gru­pos de quem dis­cor­da­mos; mas nos uni­mos como tra­di­ção reli­gi­osa (por exem­plo, como pro­tes­tan­tes) para con­fron­tar outras tra­di­ções (como os cató­li­cos); e ainda nos uni­mos como cris­tãos (cató­li­cos e pro­tes­tan­tes), para lutar con­tra outras expres­sões de fé (isla­mismo, budismo, espi­ri­tismo…); e por fim, nos uni­mos como pes­soas reli­gi­o­sas para con­fron­tar as não reli­gi­o­sas (cien­tis­tas, ateus…).

Isso prova que, quando que­re­mos (ou pre­ci­sa­mos), não há bar­rei­ras que não pos­sam ser que­bra­das, acor­dos que não pos­sam ser fei­tos, sepa­ra­ções que não pos­sam ser uni­das. Quanto menos uni­ver­sal nossa visão, menos pos­si­bi­li­da­des de uni­dade na prática.

Isso nos pro­voca a pen­sar que até a divi­são entre reli­gião e ciên­cia pode ser repen­sada. Tal­vez pos­sa­mos ser ali­a­dos na luta con­tra outros deu­ses (ou demô­nios). Nós, reli­gi­o­sos, ten­de­mos a olhar des­con­fi­a­dos para a ciên­cia por­que ela se parece muito com Deus. Mas a ciên­cia não é o único novo deus que encon­tra­mos na Uni­ver­si­dade. Novas visões geram sem­pre novos con­fli­tos, e novos con­fli­tos pro­vo­cam novas con­ver­sões. Há uma infi­ni­dade de novos deu­ses (e novos demô­nios), todos ávidos e empe­nha­dos em nossa con­ver­são. Den­tre eles pode­mos identificar:

  • O deus Mer­cado, que quer nos con­ver­ter a todos em con­su­mi­do­res (Ah, se tivés­se­mos a com­pre­en­são de Gandhi. Conta-se que, quando foi levado para visi­tar um shop­ping cen­ter, em Lon­dres, obser­vando as vitri­nes, excla­mou: “Puxa vida, quan­tas coi­sas das quais eu não preciso!”)
  • O deus Entre­te­ni­mento, que quer que abra­mos mão da rea­li­dade, e nos con­ver­ta­mos em meros espec­ta­do­res da pró­pria vida.
  • O deus Pra­zer, que nos pro­mete a juven­tude eterna, mas com prazo de vali­dade curto e sem garantia.
  • O deus Vio­lên­cia, que vive nos ame­a­çando com um Juízo Final pre­ma­turo. Etc.

Enfim, esses, entre tan­tos outros, são todos deu­ses muito into­le­ran­tes e anti-ecumênicos. E é quase impos­sí­vel não tro­pe­çar­mos em seus sun­tu­o­sos tem­plos, inclu­sive nos campi uni­ver­si­tá­rios, pois são deu­ses que tam­bém aspi­ram à oni­po­tên­cia, à oni­pre­sença e à onisciência.

Igreja & Uni­ver­si­dade: seme­lhan­ças e diferenças

Por outro lado, tal­vez não devês­se­mos nos assus­tar tanto com a Uni­ver­si­dade, afi­nal, na essên­cia, ela não é assim tão dife­rente da Igreja Local. Se não, vejamos:

  • Na Igreja, a gente se filia.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente se matricula.
  • Na Igreja, a gente assiste aos cul­tos.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente freqüenta as aulas.
  • Na Igreja, a gente se senta pra ouvir o pro­fes­sor da fé.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente se senta pra ouvir o pre­ga­dor da ciência.
  • Na Igreja, a gente tem que con­tri­buir com o dízimo.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente tem que pagar a mensalidade.
  • Na Igreja, a gente tem que apren­der as dou­tri­nas da fé.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente tem que pro­fes­sar os dog­mas da ciência.
  • Na Igreja, a gente tem que obser­var os pre­cei­tos divi­nos.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente tem que cum­prir os man­da­men­tos do método car­te­si­ano, ou do his­tó­rico crítico.
  • Na Igreja, a gente é exco­mun­gado se não cum­pre as nor­mas ecle­siás­ti­cas.
    Na Uni­ver­si­dade, a gente é expulso se não cum­pre o regu­la­mento acadêmico.
  • Na Igreja, a gente par­ti­cipa dos ritos e litur­gias ecle­si­ais (batis­mos, euca­ris­tias, fune­rais.…). Na Uni­ver­si­dade, a gente par­ti­cipa dos ritos e sole­ni­da­des aca­dê­mi­cas (aulas inau­gu­rais, for­ma­tu­ras, ban­cas, con­ces­são de títulos…).

Ora, con­quanto a Igreja à qual assis­ti­mos seja local, e a Uni­ver­si­dade na qual estu­da­mos se pre­tenda uni­ver­sal, cada igreja local tem o dever de ter um espí­rito uni­ver­sal — pois o Evan­ge­lho é para todos: “até os con­fins da terra” (At 1.8) —; e a Uni­ver­si­dade tem a obri­ga­ção de cum­prir sua voca­ção social — que é a de pres­tar ser­vi­ços à comu­ni­dade local.

Como se vê, as coi­sas não são muito dife­ren­tes lá e cá.

 Mesmo assim, há algu­mas dife­ren­ças entre Uni­ver­si­dade e igreja local para as quais eu gos­ta­ria de cha­mar a atenção:

  • Con­quanto a Uni­ver­si­dade se ocupe de for­mar pro­fis­si­o­nais de sucesso, é a igreja que ofe­rece o suporte quando expe­ri­men­ta­mos o fracasso.
  • Enquanto a Uni­ver­si­dade forma pes­soas para serem ven­ce­do­ras, a igreja pode aju­dar a nos reno­var a espe­rança quando sofre­mos as ine­vi­tá­veis der­ro­tas da vida.
  • A Uni­ver­si­dade nos pre­para para acer­tar, a igreja nos ajuda a cor­ri­gir o rumo quando erramos.
  • A Uni­ver­si­dade nos ofe­rece uma série de cren­ças sobre as cren­ças, na igreja a gente cele­bra a pró­pria essên­cia da fé.
  • A Uni­ver­si­dade nos ensina a fazer o certo, a igreja nos ensina a fazer o bem.
  • Enquanto a Uni­ver­si­dade pre­para as pes­soas para ganhar (bens, fama, pres­tí­gio, sta­tus…), a igreja nos con­sola quando per­de­mos, inclu­sive quando per­de­mos as pes­soas que amamos.

É ver­dade que nem todas as igre­jas e nem todas as uni­ver­si­da­des são assim. Mas essas idéias ser­vem para demons­trar que, con­quanto seme­lhan­tes, essas duas ins­ti­tui­ções têm voca­ções deferentes.

Essas dife­ren­ças, entre­tanto, não impli­cam na exclu­são sec­tá­ria de uma ou de outra. Mos­tram, antes, jus­ta­mente o con­junto que for­mam, a neces­si­dade que uma têm da outra. Por­que na vida, as dife­ren­ças somam e todos nos com­ple­men­ta­mos, inclu­sive a Igreja à Uni­ver­si­dade e a Uni­ver­si­dade à Igreja.

Con­cluindo…

Se a escola é uma comu­ni­dade de cren­ças na vida (na ciên­cia, no pro­gresso, no conhe­ci­mento, na razão…), a vida mesma é uma escola que ensina a pró­pria vida. A vida nos ensina que pre­ci­sa­mos uns dos outros, que pre­ci­sa­mos umas das outras.

Mas o que é que impede essa comunhão?

No fundo, somos como a cebola do Shrek, uma suces­são de cama­das com mui­tas cas­cas e pouca cons­ci­ên­cia da nossa essên­cia. Se fôs­se­mos tão esper­tos quanto quer a Uni­ver­si­dade, e tão sábios quanto a Igreja gos­ta­ria que fôs­se­mos, sabe­ría­mos que se pode­mos nos unir em cer­tos casos, pode­mos nos unir sem­pre.

Qual é o ele­mento que engen­dra e que com­porta todas as nos­sas con­tra­di­ções? A res­posta é uma só: a Vida! A vida é a única ins­tân­cia, ou melhor a ins­tân­cia comum a todos nós. E é em torno da vida que nos uni­mos para defen­der a pró­pria vida.

A vida é o ponto de encon­tro dos ami­gos. Um famoso teó­logo e filó­sofo do século xvii, quando per­gun­tado sobre sua espe­ci­a­li­dade, respondeu: — Eu, eu sou expert em ami­zade! O resto é brin­ca­deira de cri­ança, e até isso é mais gos­toso em com­pa­nhia de gente amiga. A Uni­ver­si­dade cum­pre seu papel quando forma ami­gos e a Igreja, quando cele­bra o sacra­mento da amizade.

Gos­ta­ria de con­cluir com uma afir­ma­ção de fé que escrevi há alguns anos, na qual declaro a minha na vida como uma escola:

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a conhe­cer as razões e a res­pei­tar os mistérios;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a coo­pe­rar para cons­truir e a con­fron­tar para resistir;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a pen­sar com o cora­ção e a amar com inteligência;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a huma­ni­dade divina e a divina humanidade:

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina que a feli­ci­dade é um verbo que se con­juga no plu­ral
e que a misé­ria é o antô­nimo de Deus;

Cre­mos na vida como uma escola
que nos ensina a ser e a conhe­cer,
a fazer e a con­vi­ver,
a saber, enfim, trans­mi­tir a pró­pria vida,
na força da espe­rança, com a ter­nura da paz,
e no com­pro­misso da jus­tiça para todos.

Amém!


Jul 14 2010

Luas e luas

(His­tó­ria ori­gi­nal de James Thur­ber,
Adap­tada por Luiz Car­los Ramos
a par­tir da ver­são de Rômulo Cân­dido de Souza)

Era uma vez uma prin­ce­si­nha que ficou muito doente. O rei fez de tudo pra que ela ficasse boa nova­mente. Mas os médi­cos do reino não con­se­guiam curá-la. Deses­pe­rado, o rei, junto ao leito da filha, disse-lhe: “Pede-me o que qui­se­res para que fiques boa.” Então a prin­ce­si­nha res­pon­deu: “Eu quero a Lua!”

O rei ficou apa­vo­rado. Cha­mou todos os sábios do reino para ver como resol­ver o pro­blema. Os astrô­no­mos dis­se­ram: “Impos­sí­vel, está muito longe!” Os enge­nhei­ros dis­se­ram: “Impos­sí­vel, é muito pesada!” Os eco­no­mis­tas dis­se­ram: “Impos­sí­vel, cus­ta­ria muito dinheiro!” Os mate­má­ti­cos fize­ram seus cál­cu­los e dis­se­ram: “Impos­sí­vel, leva­ria muito tempo!” e assim por diante.

O bobo da corte, que até então só ficara ouvindo e vendo o deses­pero do rei, arris­cou: “Majes­tade, se me per­mi­ti­res, tal­vez eu possa ajudar.”

 O rei estava cético, mas na falta de alter­na­ti­vas resol­veu dar uma chance ao bobo.

O bobo foi até o quarto da prin­ce­si­nha: “Boa noite, prin­ce­si­nha! Então, você quer a Lua, não é? E como é mesmo a Lua? Do que ela é feita?”

“Ora, seu bobo, todo mundo sabe que a lua é feita de prata, e que é assim, deste tama­nho…”  (e fez um pequeno cír­culo jun­tando os indi­ca­do­res e os polegares).

Então o bobo  disse: “Ah, claro!” E abriu a janela do quarto. A lua cheia bri­lhava alta no céu. E, voltando-se pra prin­ce­si­nha: “Olha, agora ela está muito alta. Mas quando esti­ver mais baixa, ali perto daquela árvore, eu subo lá e pego a lua pra você. Agora des­canse, ela ainda vai demo­rar pra abaixar.”

A prin­ce­si­nha ficou des­can­sando e o bobo pediu ao rei auto­ri­za­ção para ir até o tesouro real. Lá esco­lheu uma meda­lha de prata, mais ou menos do tama­nho que a prin­ce­si­nha tinha dito que era o da Lua. Colo­cou numa cor­rente e espe­rou amanhecer.

No outro dia, o rei e todos do palá­cio anda­vam curi­o­sos atrás do bobo que se diri­gia ao quarto da prin­ce­si­nha. O bobo entrou no quarto com as mãos pra trás.

“Bom dia, prin­ce­si­nha, que acaba de acor­dar com um beijo do sol bem na ponta do nariz! Adi­vi­nha o que eu trouxe pra você?”

E lhe esten­deu as mãos com a meda­lha de prata! Os olhos da prin­ce­si­nha bri­lha­ram, e ela excla­mou: “A Lua!”

E o rei: “A Lua!” E todos repe­ti­ram: “A Lua! A Lua! A Lua!”

Naquela mesma noite, a prin­ce­si­nha e o bobo esta­vam olhando pela janela, e a lua tor­nou a apa­re­cer no céu. Todos fica­ram apre­en­si­vos. Então o bobo arrematou:

“Veja só como Deus é mara­vi­lhoso. Ontem rou­ba­mos a lua, e Ele já pôs outra no lugar!”

E ela: “Seu bobo, Deus sem­pre faz isso quando cor­ta­mos as unhas!”

E a prin­ce­si­nha sarou completamente!

FIM


Jul 11 2010

Guerra Santa

A rela­ção de amor e ódio entre MPB e Religião

Luiz Car­los Ramos

 Dois poe­mas do mesmo autor insi­nuam carí­cias teo­ló­gi­cas de um lado; e, de outro, incu­tem mor­di­das tam­bém teo­ló­gi­cas. No pri­meiro, uma sen­sa­ção de indi­gên­cia do poeta-profeta-cantor na “aven­tura de subir aos céus”. Na segunda, um con­se­lho: “deixa o outro ven­der limões”.

 A rela­ção entre a arte e a reli­gião sem­pre foi con­fli­tu­osa, uma ver­da­deira rela­ção de amor & ódio. Assim têm sido com a Core­o­gra­fia, que é a arte do movi­mento; com a Lite­ra­tura, a arte da pala­vra; com a Arqui­te­tura, a arte do espaço vazio; com a Escul­tura, a arte do volume; com a Pin­tura, a arte da cor; e não pode­ria ser dife­rente com a Música, a arte do som – que é a que nos inte­ressa par­ti­cu­lar­mente neste ensaio. Arte e reli­gião se nutrem e se digla­diam reci­pro­ca­mente (nem mesmo a con­tro­ver­tida “sétima arte”, o Cinema, escapa dessa pro­je­ção dia­lé­tica, “entre tapas e bei­jos”, da reli­gião). Pode­ría­mos esten­der esta con­si­de­ra­ção às várias ciên­cias – exa­tas, bio­ló­gi­cas e huma­nas. Entre­tanto, nos res­trin­gi­re­mos a umas pou­cas notas, ainda que um tanto dis­so­nan­tes, a res­peito da rela­ção de amor e ódio entre MPB e Religião.

A reli­gião é pra­ti­ca­mente oni­pre­sente na música popu­lar: está nas modas cai­pi­ras e sambas-enredo, nos cho­ri­nhos e seres­tas, no rock e no rap, enfim, está em todas as bos­sas, novas ou velhas. O “tom” pode ser o mais ingê­nuo ou pie­gas, como em “Jesus Cristo eu estou aqui” e “Nossa Senhora, me dê a mão”, do rei Roberto; ou hete­ro­doxo, como em “Ói, lá vem Deus (…) / Ói, ói o mal / Vem de bra­ços e abra­ços com o bem / Num romance astral / Amém”, do maluco beleza; ou pode expres­sar sofis­ti­ca­das ela­bo­ra­ções teo­ló­gi­cas, como em “Se eu qui­ser falar com Deus”, do nosso ex-ministro da cultura.

Natu­ral­mente, como nas demais artes, não fal­tam as can­ções que alfi­ne­tam a reli­gião, às vezes com luva de pelica, como em “… e eu que não creio, peço a Deus por minha gente”, do incom­pa­rá­vel Chico, e as que recheiam a luva com tijo­los, como a música “Guerra Santa”, de Gil­berto Gil.

Pois é emba­lado pelas músi­cas “Se eu qui­ser falar com Deus” e “Guerra Santa”, que gos­ta­ria de ensaiar algu­mas vari­a­ções sobre o tema da rela­ção entre MPB e Reli­gião. (Note-se que não é um pro­blema entre com­po­si­to­res que favo­re­cem a reli­gião, de um lado, con­tra os que a cri­ti­cam, de outro. Pois essa rela­ção de amor & ódio pode ser notada em um mesmo com­po­si­tor e, até, em uma mesma composição).

 O beijo

Conta-nos o pró­prio Gil­berto Gil: “O Roberto [Car­los] me pediu uma can­ção; do que eu vou falar? Ele é tão reli­gi­oso – e se eu qui­ser falar de Deus? E se eu qui­ser falar com Deus.” Assim nas­ceu, no ano de 1980, “Se eu qui­ser falar com Deus”. Sabem qual foi a rea­ção do ilus­tre soli­ci­tante? Con­fira nova­mente nas pala­vras do pró­prio autor: “O que che­gou a mim como tendo sido a rea­ção dele, Roberto Car­los, foi que ele disse que aquela não era a idéia de Deus que ele tem.”

Qual é a “idéia de Deus” nesta can­ção? Eis algu­mas que estão em evi­dente e admi­rá­vel sin­to­nia com alguns dos mais emi­nen­tes e res­pei­ta­dos teó­lo­gos da nossa era:

O Deus abs­con­di­tus: Aqui está a idéia do “Deus des­co­nhe­cido” pre­gado pelo após­tolo Paulo, na cidade de Ate­nas (Atos 17). Trata-se do “Deus abs­con­di­tus”, a res­peito do qual se refe­ri­ram o pro­tes­tante Mar­ti­nho Lutero e o cató­lico Pas­cal, à luz do “Deus mis­te­ri­oso” do pro­feta Isaías (45.15, na ver­são latina, a Vul­gata). Esta con­cep­ção teo­ló­gica afirma que Deus se tor­nou ina­ces­sí­vel, escondendo-se dos olhos da huma­ni­dade peca­dora, mas que se revela a essa mesma huma­ni­dade por meio do desa­fi­a­dor ato exis­ten­cial da fé. Além disso, não dá pra dei­xar de fazer a asso­ci­a­ção com a ins­tru­ção de Jesus: “Quando ora­res, entra no teu quarto e, fechada a porta, ora­rás a teu Pai, que está em secreto” (Mt 6.6).

O vazio-Deus: O prin­ci­pal expo­ente do taoísmo, Lao Tzu (Lao Tsé), teria ensi­nado que a ori­gem das coi­sas está no “Vazio”. O “Tao” é o “Vazio”. Na nar­ra­tiva da Cri­a­ção, no livro do Gêne­sis, o iní­cio de tudo se dá a par­tir do caos, “a terra era sem forma e vazia”. E Ecle­si­as­tes, livro do sábio pre­ga­dor hebreu, é um tra­tado sobre o nada, o vazio, a vai­dade (do lat. Vani­tas = vacui­dade). O teó­logo cató­lico Rômulo Can­dido de Souza, em seu livro “Pala­vra Pará­bola”, demons­tra como a expres­são “pedra”, na Bíblia tem mais o sen­tido de caverna, esca­va­ção, buraco na rocha, do que o de um bloco mono­lí­tico sólido. Assim, quando Jesus, Pedro ou a Igreja são apre­sen­ta­dos como “pedra”, a idéia é mais de útero que gesta, do que pilar que sus­tenta. Um terno vazio que pos­si­bi­lita a vida. E esse lito-útero é cons­tan­te­mente rei­te­rado nas expe­ri­ên­cias teo­fâ­ni­cas dos patri­ar­cas (na mon­ta­nha Moi­sés recebe a Lei, esca­vada na pedra); e dos pro­fe­tas (Deus se revela ao pro­feta Elias na porta de uma caverna como brisa que sopra sobre as coli­nas). Tam­bém nos momen­tos cru­ci­ais da vida de Jesus, tais como o seu nas­ci­mento (na gruta de Belém),  a sua morte e sepul­ta­mento (no sepul­cro na rocha). Está inclu­sive na maior expe­ri­ên­cia reli­gi­osa de todos os tem­pos, a res­sur­rei­ção, que é sim­bo­li­zada pela pedra remo­vida, o túmulo vazio.

O nada-Deus: A aven­tura do des­co­nhe­cido, o salto no escuro, a aposta, a deci­são de cor­rer o risco, a pos­si­bi­li­dade de tudo dar em nada, não é nenhuma here­sia nova. Tal­vez quem melhor tenha tra­ba­lhado essa dimen­são exis­ten­cial do drama humano da angús­tia tenha sido o filósofo-teólogo Sören Aaybye Kier­ke­ga­ard: “A angús­tia é a pos­si­bi­li­dade de liber­dade: somente a angús­tia, atra­vés da fé, tem a capa­ci­dade de for­mar, enquanto des­trói todas as fini­tu­des” e “se alguém sou­ber tirar pro­veito da expe­ri­ên­cia da angús­tia, se tiver cora­gem de ir mais além, então dará à rea­li­dade outra expli­ca­ção”. E o grande salto, o mais difí­cil, é o de “cair nas mãos de Deus”. Alguns plan­to­nis­tas, defen­so­res de Deus, con­de­nam esse ponto do “ser­mão” de Gili­berto Gil, por afir­mar: “Se eu qui­ser falar com Deus / Tenho que me aven­tu­rar / Tenho que subir aos céus / Sem cor­das pra segu­rar / Tenho que dizer adeus / Dar as cos­tas, cami­nhar / Deci­dido, pela estrada / Que ao fin­dar vai dar em nada / Nada, nada, nada, nada / Nada, nada, nada, nada / Nada, nada, nada, nada / Do que eu pen­sava encontrar”.

A angus­ti­ante, e agou­renta, seqüên­cia de treze “nadas” insi­nu­ando, no dizer do com­po­si­tor, suces­si­vas cama­das de buraco (usando a expres­são da scho­lar norte-americana Karen Arms­trog), apa­vora os defen­so­res das cer­te­zas eter­nas. Nem sequer se dão conta da última frase, que, para Gil­berto Gil, é a expec­ta­tiva de algo que cul­mina “com uma luz no fim (do túnel, da estrada, da vida), quer dizer, dei­xando entre­ver embu­tida na morte, a pos­si­bi­li­dade de rea­li­za­ção de uma exis­tên­cia num plano dife­rente de tudo que se possa ima­gi­nar, mas que de qual­quer maneira se ima­gina exis­tir; a pos­si­bi­li­dade de trans­mu­ta­ção – com o desa­pa­re­ci­mento do corpo físico, da enti­dade psí­quica que cha­ma­mos de alma, incons­ci­ente, eu – para outra coisa, outra forma de cons­ci­ên­cia de todo modo impre­vi­sí­vel, se não for mesmo nada”. É aqui que o “nada-Deus” transforma-se no “total­mente Outro” de Rudolf Otto e na pos­si­bi­li­dade plena da rela­ção EU-TU, de Mar­tin Buber. Nada mais orto­doxo e evangélico.

Eis aí um típico e homi­lé­tico ser­mão de três estro­fes, ou uma can­ção de três pontos.

 O tapa

Entre­tanto essa sim­pa­tia para com a reli­gião, da parte do com­po­si­tor, não implica em ausên­cia de senso crí­tico. E é aqui que entra o “tapa” para reba­ter o “beijo”. Para com­pre­en­der­mos isso, farei refe­rên­cia à can­ção ins­pi­rada no lamen­tá­vel epi­só­dio que ficou conhe­cido como “Chute na Santa”, numa alu­são ao golpe des­fe­rido con­tra a ima­gem de Nossa Senhora Apa­re­cida pelo pas­tor Ser­gio Von Helde, da Igreja Uni­ver­sal do Reino de Deus, na vés­pera da festa da padro­eira do Bra­sil, em outu­bro e 1995.

Des­taco, a seguir, outras três idéias de Deus, reve­la­das agora pela can­ção “Guerra Santa” (1995):

O Deus-dinheiro: A can­ção denun­cia a explo­ra­ção capitalista/monetarista da fé, o modelo da eco­no­mia de mer­cado ado­tado por cer­tos reli­gi­o­sos, o estilo de vida da soci­e­dade de con­sumo que tran­subs­tan­cia Deus em pro­duto que pode ser colo­cado no car­ri­nho do Super(-)Mercado glo­ba­li­zado. “A man­são no paraíso”, o “céu”, pode ser adqui­rido, bas­tando para isso pas­sar & pagar no caixa, com direito a ser gui­ado “pelo bom ladrão”. Note a “suti­leza” da com­pa­ra­ção entre o reli­gi­oso e o “bom ladrão” (refe­rên­cia àquele que estava cru­ci­fi­cado à direita de Jesus e que foi per­do­ado por este). O ado­ra­dor do deus-Mamon “… é louco / mas não rasga dinheiro”, é aquele que, como dizia o Padre Vieira, está inte­res­sado não no nosso bem, mas nos nos­sos bens.

O Deus-empresário: A can­ção denun­cia, ainda, um Deus que con­trata exe­cu­ti­vos do teatro-templo-mercado, cujo com­pro­misso não é fazer sua pro­fis­são de fé, mas fazer da fé sua pro­fis­são. Pro­fis­si­o­nais da área de ven­das pra nego­ciar “paz, amor e axé”. Estes são os “sal­va­do­res pro­fis­si­o­nais” que estão a mon­tar “sua feira de ilu­sões”. Só que não admi­tem con­cor­rên­cia e, por isso, chu­tam a bar­raca do vizi­nho. Só ven­dem “pei­xes” mas não que­rem que outros ven­dam “limões”, numa explí­cita ten­ta­tiva de esta­be­le­cer o mono­pó­lio da fé.

O Deus-inquisidor: Como decor­rên­cia lógica, o com­po­si­tor denun­cia o reli­gi­oso into­le­rante, por­que este “diz que faz, que faz tudo isso em nome de Deus / Como um Papa da Inqui­si­ção”. Por­que usa o nome de Deus para agre­dir ao pró­ximo e con­de­nar outras expressões/opções de fé. O profeta/compositor des­vela ainda a igno­rân­cia teológico-histórica de reli­gi­o­sos como esse: “Nem se lem­bra do hor­ror da Noite de São Bar­to­lo­meu / Não, não lem­bra de nada não” – aqui é evo­cado um dos pio­res mas­sa­cres da his­tó­ria da França, quando foram mor­tos mais de 20.000 hugue­no­tes (que é como os pro­tes­tan­tes eram cha­ma­dos) em ape­nas dois dias, em agosto de 1572. Na can­ção, a into­le­rân­cia só pode ser pos­sí­vel para quem é igno­rante ou quem não quer “lem­brar de nada”. O uso do verbo “lem­brar” três vezes e a refe­rên­cia a dei­xar ven­der “peixe” e “limões” pode ser uma alu­são ao “pão” e “vinho”, uti­li­za­dos no memo­rial euca­rís­tico –  cha­mando aten­ção para o fato de que reli­gião é, essen­ci­al­mente, ato memo­rial, exer­cí­cio mnemô­nico, res­gate das lem­bran­ças significativas.

Trata-se, em última ins­tân­cia, de um apelo à tole­rân­cia e à con­vi­vên­cia pací­fica entre as dife­ren­tes expres­sões de fé, afi­nal “O nome de Deus pode ser Oxalá / Jeová, Tupã, Jesus, Maomé / Maomé, Jesus, Tupã, Jeová / Oxalá e tan­tos mais”. Pois tais expres­sões não pas­sam de “Sons dife­ren­tes, sim, para sonhos iguais”.


Jun 27 2010

Capela da Serra (fotos)

Fotos: Car­los Nagumo


Jun 25 2010

Capela da Serra

Litur­gia do dia 27 de junho de 2010


Jun 24 2010

Capela da Serra

Con­vite para a cele­bra­ção do dia 27 de junho

Arte: Juli­ana Mesquita

CAPELA DA SERRA

AQUI NUNCA ESTAMOS SOZINHOS

Que­ri­das ami­gas e ami­gos da Capela da Serra,

Pri­mei­ra­mente que­re­mos expres­sar nossa gra­ti­dão por sua par­ti­ci­pa­ção na nossa festa de ani­ver­sá­rio de 4 anos da Capela da Serra. Foi uma oca­sião real­mente feliz e ins­pi­ra­dora (não deixe de ver as fotos no site http://www.luizcarlosramos.net/?cat=6).

Agora, com a che­gada do inverno, que­re­mos sen­tir nova­mente o calor da nossa fraternura, e para isso con­vi­da­mos você e todos os seus que­ri­dos, para a nossa última cele­bra­ção do semestre, que acon­te­cerá no pró­ximo domingo, dia 27 de junho. A par­tir das 11h já esta­re­mos a pre­pa­rar os deta­lhes do ambi­ente, dos cân­ti­cos e da litur­gia, e às 11h30 ini­ci­a­re­mos a cele­bra­ção. Espe­ci­al­mente as cri­an­ças serão muito bem-vindas.

Para o ofer­tó­rio, que­re­mos con­ti­nuar a demons­trar nossa soli­da­ri­e­dade ao Grupo de Defesa da Cri­ança com Cân­cer (GRENDACC). Uma das neces­si­da­des mais fre­quen­tes deles é mate­rial des­car­tá­vel, tal como copos e toa­lha de papel. Para conhe­cer melhor o GRENDACC, acesse http://www.grendacc.org.br/.

Apro­vei­ta­mos para con­vi­dar você a aces­sar http://www.luizcarlosramos.net, sele­ci­o­nar a cate­go­ria “Capela da Serra”, no menu late­ral, e con­fe­rir, além das fotos, as litur­gias da nossa comu­ni­dade.
 

Abraço fra­ter­nal,

Rev. Luiz Car­los Ramos          
luiz.carlos.ramos@terra.com.br       

Rev. Pedro Nolasco Toso
pedronct@uol.com.br

Rev. Luci­ano José de Lima
lvcivs@hotmail.com

Rua Ângelo Per­nam­buco, 180 Jar­dim Ermida II, Eloy Cha­ves Jun­diaí — SP
nas depen­dên­cias da Escola Geraldo P. D. Paes (pró­ximo à Serra do Japi)

Aces­sem o mapa aqui: http://www.luizcarlosramos.net/?p=490
Litur­gias e fotos de encon­tros pas­sa­dos no site: http://luizcarlosramos.net


Jun 23 2010

A fé e a arte na construção do kosmos

Luiz Car­los Ramos

“Ars longa, vita bre­vis”
(Hipócrates)

Nós somos o resul­tado da equa­ção natura+cultura.

De mui­tos pro­du­tos in natura depende a nossa vida, tais como a água e o ar. Estes, quanto menos sofre­rem a inter­fe­rên­cia humana, quanto menos adul­te­ra­dos, quanto menos con­ta­mi­na­dos e quanto mais puros forem pre­ser­va­dos, melhor ser­vi­rão à humanidade.

Mas tam­bém nós, huma­nos, não sobre­vi­ve­mos sem o segundo ele­mento da equa­ção: a cul­tura. Mui­tos pro­du­tos manu­fa­tu­ra­dos garan­tem a nossa sobre­vi­vên­cia: o pão, as ves­tes, a habi­ta­ção, os livros… Todos esses são ela­bo­ra­ções cul­tu­rais de notó­ria utilidade.

Mas, além de pro­du­tos úteis, a cul­tura tam­bém pro­duz a arte. Como já ensi­nava Santo Agos­ti­nho, há obje­tos fei­tos para serem usa­dos e outros para serem usu­fruí­dos. E, segundo o mesmo santo, estes últi­mos são supe­ri­o­res aos primeiros.

Para os chi­ne­ses, a pala­vra “arte” se escreve com­pondo dois carac­te­res: um que sig­ni­fica “conhe­ci­mento” e outro que sig­ni­fica “beleza”. Arte, por­tanto, é a com­bi­na­ção pre­cisa entre conhe­ci­mento (ou sabe­do­ria) e beleza. Umberto Eco, como esteta, diz algo pare­cido: Arte é quando a forma comenta o con­teúdo e o con­teúdo comenta a forma.

Em outras pala­vras, a arte é sem­pre inten­ci­o­nal. Um pôr-do-sol pode ser belo, uma mon­ta­nha pode ser bela, uma árvore pode ser bela, mas não são arte, por­que nelas não foi apli­cado o conhe­ci­mento e a sabe­do­ria huma­nas – pode­mos, no máximo, considerá-las, obras de arte do Criador.

Para que algo seja con­si­de­rado legi­ti­ma­mente como obra de arte, é pre­ciso que seja inten­ci­o­nal­mente belo.

Em geral, todas as reli­giões enten­dem que o kos­mos é a orde­na­ção do caos pelas mãos hábeis e pelas pala­vras cri­a­ti­vas do Cri­a­dor. Essa orde­na­ção não pres­cinde da beleza.

Na nar­ra­tiva bíblica da cri­a­ção, no livro de Gêne­sis, lê-se que: no sétimo dia, viu Deus que tudo era bom/belo. E, ainda: “Do solo fez o SENHOR Deus bro­tar toda sorte de árvo­res agra­dá­veis à vista e boas para ali­mento”. Note-se a inten­ção divina de que esse jar­dim deve­ria “agra­dar à vista” e pro­ver sus­tento com coi­sas “boas para ali­mento”. Deus com­bina, nesse jar­dim, ques­tões plás­ti­cas e prá­ti­cas, esté­ti­cas e téc­ni­cas, poé­ti­cas e éticas. Deus não se con­tenta com uma beleza que não sus­tente a vida, nem quer uma vida que não nos ale­gre e torne as pes­soas mais felizes.

Arti­cu­lar arte — fé — e — cida­da­nia nos leva pen­sar que os seres huma­nos, sendo a ima­gem do Cri­a­dor, devem imitá-lo no pro­cesso de orde­na­ção do caos, cola­bo­rando na cons­tru­ção do kosmos.

Que esse kos­mos deve man­ter intac­tas cer­tas áreas de pre­ser­va­ção, por­que delas depende a nossa pró­pria vida.

Que esse kos­mos não deve ser sim­ples­mente útil, mas igual­mente belo. E para isso deve­mos empe­nhar o nosso conhe­ci­mento e apli­car a nossa sabedoria.

Sabe­mos que esta­mos diante de uma “obra de arte” quando essa mesma obra nos faz trans­cen­der. Quando ela nos arre­bata e nos leva para além da sua dimen­são uti­li­tá­ria. As fer­ra­men­tas nos tor­nam máqui­nas pro­du­ti­vas mais efi­ci­en­tes. A arte nos torna mais huma­nos, e por isso mesmo no levam para mais perto de Deus.

Tor­nar o mundo mais inte­li­gente e mais belo é tarefa do artista, essa tam­bém é a tarefa de toda pes­soa cristã, por­que essa sem­pre foi a inten­ção do Criador.

A vida é breve, mas a arte é eterna!


Jun 9 2010

Namorados

Um tre­cho do “Cân­tico dos cânticos”

Ver­são de Luiz Car­los Ramos

Este é o mais belo poema jamais escrito por uma mulher que amou o seu homem apaixonadamente.

[…]

Ami­gas e Amigos:

Você é uma mulher bela
entre as mais belas mulheres.

Ele:

Meu amor,
Seu andar é gra­ci­oso e sedu­tor.
São lin­das as mechas
dos seus cabe­los.
Em meio aos belos cola­res
bri­lha belís­simo o seu colo.
Quero hoje pre­sen­tear você
com jóias de ouro
incrus­ta­das de prata!

Ela:

Espere, meu prín­cipe,
enquanto meu per­fume
esparge sua fra­grân­cia.
Você, meu amor,
é o per­fume da minha pele.
Você, meu amor, é para mim
um buquê de flo­res exuberantes.

[…]

Ele:

Como você é linda, meu amor;
Bela como uma cidade len­dá­ria,
for­mosa como a cidade da paz,
majes­tosa como estrela cin­ti­lante.
Eu lhe peço, não me olhes assim
pois seus olhos me seduzem!

Seus cabe­los negros
aca­ri­ci­ando os ombros;
seu sor­riso ale­gre e per­feito;
suas faces cora­das,
ver­me­lhas como maçãs…

Sei que há deze­nas de rai­nhas
e inú­me­ras mulhe­res,
mas você, minha pom­bi­nha amada,
é única;
você é a mulher da minha vida!
Tão que­rida pelos da sua casa;
a vizi­nhança vem para felicitá-la:
rai­nhas e prin­ce­sas
não se can­sam de elogiá-la.

Ami­gos e amigas:

Mas quem é essa for­mo­sura?
Tão admi­rá­vel como a aurora:
bela como a lua,
e esplen­do­rosa como o sol;
majes­tosa como as estrelas?

Ela:

Desci ao jar­dim das noguei­ras
para ver o vale flo­rido,
os reben­tos da vide,
e as maci­ei­ras em flor.
E, antes que me desse conta,
minha pai­xão me trans­for­mara
numa car­ru­a­gem de fogo!

[…]

IMAGEM: Young Lovers
© Hans Neleman/Corbis; COLEÇÃO: zefa (RF);
Pre­mium Royalty-Free (RF): 42 – 18030174


Jun 6 2010

Um livro, uma capa e um amigo

Eis tudo que preciso

Luiz Car­los Ramos

 

2 Timó­teo 4.9ss: 9 Pro­cura vir ter comigo depressa. 10  Por­que Demas, tendo amado o pre­sente século, me aban­do­nou e se foi para Tes­salô­nica; Cres­cente foi para a Galá­cia, Tito, para a Dal­má­cia. 11 Somente Lucas está comigo. Toma con­tigo Mar­cos e traze-o, pois me é útil para o minis­té­rio. 12 Quanto a Tíquico, mandei-o até Éfeso. 13 Quando vie­res, traze a capa que dei­xei em Trôade, em casa de Carpo, bem como os livros, espe­ci­al­mente os per­ga­mi­nhos. 14 Ale­xan­dre, o lato­eiro, causou-me mui­tos males; o Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras. 15 Tu, guarda-te tam­bém dele, por­que resis­tiu for­te­mente às nos­sas palavras.

16 Na minha pri­meira defesa, nin­guém foi a meu favor; antes, todos me aban­do­na­ram. Que isto não lhes seja posto em conta! 17 Mas o Senhor me assis­tiu e me reves­tiu de for­ças, para que, por meu inter­mé­dio, a pre­ga­ção fosse ple­na­mente cum­prida, e todos os gen­tios a ouvis­sem; e fui liber­tado da boca do leão. 18 O Senhor me livrará tam­bém de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celes­tial. A ele, gló­ria pelos sécu­los dos sécu­los. Amém! 19 Saúda Prisca, e Áqüila, e a casa de One­sí­foro. 20  Erasto ficou em Corinto. Quanto a Tró­fimo, deixei-o doente em Mileto. 21 Apressa-te a vir antes do inverno. Êubulo te envia sau­da­ções; o mesmo fazem Pru­dente, Lino, Cláu­dia e os irmãos todos. 22 O Senhor seja com o teu espí­rito. A graça seja convosco.”

Intro­du­ção

Che­gou o fim do semes­tre, che­gou o frio inverno. Em breve, nos dis­per­sa­re­mos. Alguns sen­ti­rão frio. Outros se sen­ti­rão sós. Mui­tos sen­ti­rão sau­da­des. O texto que nos ins­pira neste dia nos fala de um sen­ti­mento pare­cido que, segundo uma antiga tra­di­ção, o grande após­tolo dos gen­tios esta­ria experimentando.

Segundo essa tra­di­ção, o fim da jor­nada do após­tolo Paulo estava che­gando, jun­ta­mente com um duro inverno. “O pri­si­o­neiro sente a soli­dão pelo aban­dono ou des­vio de alguns cola­bo­ra­do­res e a hos­ti­li­dade de um conhe­cido” (nota da Bíblia do Pere­grino). “Esta página con­tris­tada e serena, quem sabe a última que o após­tolo haja ditado, lem­bra o tema do justo aban­do­nado, tema este que a morte de Jesus na cruz ilus­trara tão cabal­mente. Mas assim como para Jesus, esta soli­dão está povo­ada pela pre­sença de Deus” (nota da Bíblia Tra­du­ção Ecu­mê­nica), bem como pela lem­brança de fatos mar­can­tes e pela sau­dade de ami­gos especiais.

Paulo se pre­pa­rava para enfren­tar um rigo­roso inverno, um inverno mete­o­ro­ló­gico, um inverno exis­ten­cial, um inverno afe­tivo. Para isso, teria escrito a Timó­teo, um amigo que­rido, pedindo que este lhe trou­xesse, o mais rápido pos­sí­vel, o que ele pre­ci­sa­ria para enfren­tar esse temí­vel inverno.

Uma das enco­men­das de Paulo foi…

… a capa

“Quando vie­res, traze a capa
que dei­xei em Trôade, em casa de Carpo.”
(v. 13)

Esse Paulo tinha um estilo de vida aus­tero. Não tinha luxos, não gozava de gran­des con­for­tos, nem pra­ti­cava mui­tas extra­va­gân­cias. Tanto é assim que ele teria dei­xado, ou esque­cido, um dos seus par­cos bens em Trôade. Ora, somente alguém desa­pe­gado dos bens mate­ri­ais dei­xa­ria para trás uma capa, um paletó, um sobretudo.

Entre­tanto, Paulo sabia que, por mais espi­ri­tual que fosse, pre­ci­sava cui­dar do corpo. E, embora já em sua reta final, a mis­são não pode­ria ser inter­rom­pida pre­ma­tu­ra­mente por uma pneu­mo­nia irresponsável.

Paulo pre­ci­sava da sua capa, como nós pre­ci­sa­mos do nosso aga­sa­lho. O inverno está aí, o semes­tre che­gou ao fim, mas a mis­são pre­cisa con­ti­nuar. Para isso, pre­ci­sa­mos nos man­ter aque­ci­dos, sau­dá­veis e dispostos.

Mas só a capa não bas­tava, por isso a outra enco­menda de Paulo incluia…

… os livros e os pergaminhos

“Quando vie­res, traze a capa […],
 bem como os livros, espe­ci­al­mente os per­ga­mi­nhos.”
  (v. 13)

Paulo foi um grande mis­si­o­ná­rio por­que foi um homem estu­di­oso, culto, eru­dito, amigo dos livros até nos últi­mos momen­tos de sua vida. Lei­tor com­pul­sivo, conhe­cia os clás­si­cos gre­gos, tanto filó­so­fos quanto poe­tas. Sabe­mos tam­bém que foi autor de pena gene­rosa e abun­dante — o que teria sido da teo­lo­gia cristã, não tives­sem Paulo e seus dis­cí­pu­los nos dei­xado seu legado por escrito? —. Para enfren­tar o rigo­roso inverno exis­ten­cial, Paulo abas­tece sua dis­pensa com livros, com pala­vras… não quais­quer pala­vras, mas pala­vras boas, pala­vras inte­li­gen­tes, pala­vras bem-ditas.

Já que as nos­sas férias tam­bém se apro­xi­mam, o que leva­re­mos na baga­gem para enfren­tar o nosso pró­prio inverno exis­ten­cial? Quem dera, como Paulo, nesse tempo de rea­va­li­a­ções, tenha­mos a chance de ler­mos bons livros, e nos ali­men­tar­mos far­ta­mente das pala­vras sagra­das que Deus e os homens, Deus e as mulhe­res, plan­tam nos livros; pala­vras que se ofe­re­cem a nós como pães aro­má­ti­cos, sabo­ro­sos e edificantes.

Mas, além da capa e dos livros, a enco­menda mais impor­tante de Paulo foi…

… o amigo João Marcos

“Toma con­tigo a Mar­cos e traze-o,
pois me é útil para o minis­té­rio.”
  (v. 11)

Paulo expe­ri­men­tara mui­tos tipos de rela­ci­o­na­men­tos: havia ami­gos que par­tiam, tais como Demas, que aban­do­rara a fé e abra­çara o mundo (v. 10), havia os que sim­ples­mente se muda­vam, como Cres­cente e Tito, que esta­vam morando agora em Galá­cia e Dal­má­cia, respectivamente.

Havia, ainda, os ami­gos que se tor­na­vam ini­mi­gos, como Ale­xan­dre, o lato­eiro (v. 14). Des­ses, Paulo diz que “o Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras” (v. 14); e que deles deve­mos nos guar­dar (cf. v. 15).

Mas tam­bém havia aque­les como Lucas, que nunca o aban­do­nara; amigo leal, fiel, cons­tante, sem­pre pre­sente, nas horas boas e nas horas amar­gas; aquele que per­ma­ne­cia quando todos já se tinham ido: “Somente Lucas está comigo” (v. 11).

Mas uma das ami­za­des mais mar­can­tes para Paulo, foi aquela com João Mar­cos. Quando em via­gem para Anti­o­quia da Psí­dia, João Mar­cos aban­do­nara Paulo e seus com­pa­nhei­ros, vol­tando para Jeru­sa­lém (cf. At 13.13). Paulo se lem­bra­ria desse aban­dono, quando Bar­nabé quis tor­nar a incluir João Mar­cos em outra via­gem mis­si­o­ná­ria: “Mas Paulo não era de opi­nião que se reto­masse como com­pa­nheiro um homem que os aban­do­nara na Pan­fí­lia e, por­tanto não par­ti­ci­para do tra­ba­lho deles. Essa dis­cor­dân­cia se agra­vou a tal ponto que eles par­ti­ram cada qual para seu lado. Bar­nabé tomou con­sigo Mar­cos e embar­cou para Chi­pre, enquanto Paulo asso­ci­ava Silas a si e par­tia…” (At 15.38 – 40).

O tempo se encar­re­ga­ria de mos­trar a Paulo que ele estava enga­nado. Nem sem­pre um colega que nos decep­ci­ona uma vez, está inca­pa­ci­tado para se asso­ciar a nós em outras jor­na­das. Bar­nabé que, do alto de sua expe­ri­ên­cia, podia dis­cer­nir isso, pos­si­bi­li­tou a Paulo essa impor­tante ami­zade e deu-lhe o com­pa­nheiro que o assis­ti­ria nas suas últi­mas horas.

Pero­ra­ção

Agora que o tempo de par­tir se apro­xima, e o inverno aperta, pre­ci­sa­mos estar pre­pa­ra­dos para enfrentá-los: a par­tida e o inverno. E, por mais que os aga­sa­lhos e os livros nos aju­dem, nada pode subs­ti­tuir um amigo.

Nes­tes tem­pos de for­ma­ção aca­dê­mica, deve­mos aten­tar para os cui­da­dos do corpo e os cui­da­dos da mente, man­tendo a capa e os livros sem­pre à mão, mas, prin­ci­pal­mente, não pode­mos esque­cer dos cui­da­dos do cora­ção, e é para isto que ser­vem os ami­gos, é para isto que ser­vem as ami­gas. Como diz o sábio em seu antigo pro­vér­bio: “Em todo tempo ama o amigo, e na angús­tia se faz o irmão” (Pv 17.17).

Que neste inverno não nos fal­tem aga­sa­lhos, nem livros e muito menos ami­gos e amigas.

Boas férias.

Facul­dade de Teo­lo­gia da Igreja Meto­dista
2004

IMAGEM: Cup on book on desk
© Bloomimage/Corbis; COLEÇÃO: Bloom
Padrão Royalty-Free (RF)
42 – 24011357