Nov 24 2009

O Natal do Sol da Justiça

Luiz Car­los Ramos

 CB055246  

Mas para vós outros que temeis o meu nome
nas­cerá o sol da jus­tiça, tra­zendo sal­va­ção nas suas asas.
(Mala­quias 4.2.)

O Natal e a Pás­coa se cons­ti­tuem nas mais impor­tan­tes sole­ni­da­des da tra­di­ção cristã. O Natal, por­que faz refe­rên­cia à encar­na­ção do Sal­va­dor divino, na cri­ança humilde de Jesus, filho de Maria, na época em que Hero­des Anti­pas era o tetrarca da Gali­léia; e a Pás­coa, por­que reme­mora a pai­xão, morte e res­sur­rei­ção de Jesus Cristo, ocor­rida no período em que Pôn­cio Pila­tos gover­nava a Judéia.

No entanto, não se trata de mera retros­pec­tiva his­tó­rica, mas, antes, de atu­a­li­za­ção cele­bra­tiva de um acon­te­ci­mento sal­ví­fico que tem impli­ca­ções para o pre­sente e é deter­mi­nante em rela­ção ao futuro daque­les e daque­las que o cele­bram com fé.

A Pás­coa cristã é a festa mais antiga, e já era come­mo­rada no final do pri­meiro século da nossa era. O Natal é mais tar­dio, e só se fixou a par­tir do século IV, mas isso a par­tir da tra­di­ci­o­nal cele­bra­ção do dia de Epi­fa­nia (6 de janeiro), que já era come­mo­rada em mea­dos do pri­meiro século.

A Epi­fa­nia (pala­vra que sig­ni­fica “mani­fes­ta­ção”) era fes­te­jada pelos cris­tãos já no final do pri­meiro século e iní­cio do segundo (a ponto de ficar regis­trada nos Evan­ge­lhos, cf. Mt 2), como a evi­dên­cia de que o evan­ge­lho de Jesus Cristo não era uma exclu­si­vi­dade dos judeus-cristãos, mas uma mani­fes­ta­ção da graça de Deus para toda a huma­ni­dade. Por isso, recorda-se, nessa festa, a visita dos Magos, que vie­ram do Ori­ente para sau­dar o Deus cri­ança e dar-lhe pre­sen­tes; bem como o Batismo do Senhor, oca­sião em que Jesus se apre­senta publi­ca­mente como Filho de Deus; e ainda a rea­li­za­ção do seu pri­meiro mila­gre, na cidade de Caná da Gali­léia, pelo qual Jesus ini­cia publi­ca­mente seu ministério.

No con­texto romano, do iní­cio da nossa era, por influên­cia egíp­cia, havia uma grande festa popu­lar que, a pro­pó­sito do sols­tí­cio de inverno (hemis­fé­rio Norte), rea­li­zava uma série de ritu­ais dedi­ca­dos ao deus-sol. Tais ritu­ais eram rea­li­za­dos na expec­ta­tiva de que o mundo não fosse engo­lido pelas tre­vas ame­a­ça­do­ras do inverno (oca­sião em que o sol pare­cia ficar cada vez mais dis­tante, os dias mais cur­tos e as noi­tes mais lon­gas). Essa festa era cha­mada de Adven­tus Reden­to­ris e Natale Solis Invic­tus, ou a Che­gada do Reden­dor e Nas­ci­mento do Sol Invencível.

Os cris­tãos, então, “evan­ge­li­za­ram” essa festa, reinterpretando-a à luz dos escri­tos bíbli­cos. A jus­tiça divina se alteia sobre a humana, tal como des­crito capí­tulo 60 do pro­feta Isaías (a lei­tura des­ses 22 ver­sí­cu­los des­cor­tina para nós o ver­da­deiro hori­zonte natalino):

1   Dispõe-te, res­plan­dece, por­que vem a tua luz, e a gló­ria do SENHOR nasce sobre ti.   2   Por­que eis que as tre­vas cobrem a terra, e a escu­ri­dão, os povos; mas sobre ti apa­rece res­plen­dente o SENHOR, e a sua gló­ria se vê sobre ti.   3   As nações se enca­mi­nham para a tua luz, e os reis, para o res­plen­dor que te nas­ceu.   4   Levanta em redor os olhos e vê; todos estes se ajun­tam e vêm ter con­tigo; teus filhos che­gam de longe, e tuas filhas são tra­zi­das nos bra­ços.   5   Então, o verás e serás radi­ante de ale­gria; o teu cora­ção estre­me­cerá e se dila­tará de júbilo, por­que a abun­dân­cia do mar se tor­nará a ti, e as rique­zas das nações virão a ter con­tigo.   6   A mul­ti­dão de came­los te cobrirá, os dro­me­dá­rios de Midiã e de Efa; todos virão de Sabá; tra­rão ouro e incenso e publi­ca­rão os lou­vo­res do SENHOR.   7   Todas as ove­lhas de Que­dar se reu­ni­rão junto de ti; servir-te-ão os car­nei­ros de Nebai­ote; para o meu agrado subi­rão ao meu altar, e eu tor­na­rei mais glo­ri­osa a casa da minha gló­ria.   8   Quem são estes que vêm voando como nuvens e como pom­bas, ao seu pom­bal?   9   Cer­ta­mente, as ter­ras do mar me aguar­da­rão; virão pri­meiro os navios de Tár­sis para tra­ze­rem teus filhos de longe e, com eles, a sua prata e o seu ouro, para a san­ti­fi­ca­ção do nome do SENHOR, teu Deus, e do Santo de Israel, por­que ele te glo­ri­fi­cou.   10   Estran­gei­ros edi­fi­ca­rão os teus muros, e os seus reis te ser­vi­rão; por­que no meu furor te cas­ti­guei, mas na minha graça tive mise­ri­cór­dia de ti.   11   As tuas por­tas esta­rão aber­tas de con­tí­nuo; nem de dia nem de noite se fecha­rão, para que te sejam tra­zi­das rique­zas das nações, e, con­du­zi­dos com elas, os seus reis.   […]   17   Por bronze tra­rei ouro, por ferro tra­rei prata, por madeira, bronze e por pedras, ferro; farei da paz os teus ins­pe­to­res e da jus­tiça, os teus exa­to­res.   18   Nunca mais se ouvirá de vio­lên­cia na tua terra, de deso­la­ção ou ruí­nas, nos teus limi­tes; mas aos teus muros cha­ma­rás Sal­va­ção, e às tuas por­tas, Lou­vor.   19   Nunca mais te ser­virá o sol para luz do dia, nem com o seu res­plen­dor a lua te alu­mi­ará; mas o SENHOR será a tua luz per­pé­tua, e o teu Deus, a tua gló­ria.   20   Nunca mais se porá o teu sol, nem a tua lua min­guará, por­que o SENHOR será a tua luz per­pé­tua, e os dias do teu luto fin­da­rão.   21   Todos os do teu povo serão jus­tos, para sem­pre her­da­rão a terra; serão reno­vos por mim plan­ta­dos, obra das minhas mãos, para que eu seja glo­ri­fi­cado.   22   O menor virá a ser mil, e o mínimo, uma nação forte; eu, o SENHOR, a seu tempo farei isso prontamente.

Como o calen­dá­rio dos pri­mei­ros sécu­los eram muito rudi­men­ta­res, a data não era pre­cisa e podia variar entre 21 de dezem­bro e 6 de janeiro. Com o pas­sar do tempo, essa fes­ti­vi­dade foi adqui­rindo con­tor­nos mais cla­ros, e convencionou-se o dia 25 de dezem­bro como sendo o dia do nas­ci­mento de Jesus e o dia 6 como o ápice da festa, cul­mi­nando com alu­são à visita dos Magos e ao Batismo do Senhor.

Os que cri­ti­cam a come­mo­ra­ção do Natal, acusando-o de ser uma festa pagã, devem ser adver­ti­dos de que não há uma única festa reli­gi­osa sequer que seja abso­lu­ta­mente genuína e exclu­si­va­mente cristã.

E não deixa de ser curi­oso o fato de que parece haver menos resis­tên­cia a cer­tas come­mo­ra­ções, às quais não há refe­rên­cia bíblica explí­cita (do tipo: Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Cri­an­ças, Dia do Índio, Dia da Pátria) do que àque­las com ampla fun­da­men­ta­ção nas Escri­tu­ras (tais como: Natal, Pás­coa e Pentecostes).

O enten­di­mento das efe­mé­ri­des depende do olhar do intér­prete: para uns (aque­les que crêem que os pode­res “do mundo” são mais for­tes que o “rei­nado de Deus”), trata-se da paga­ni­za­ção do cris­ti­a­nismo; para outros (que crêem na força trans­for­ma­dora do Evan­ge­lho), trata-se da cris­ti­a­ni­za­ção do paga­nismo. A ques­tão está na fé de quem lê a realidade.

Natal “ver­sus” Páscoa

A rela­ção entre o Natal e a Pás­coa pode ser mais bem com­pre­en­dida se tra­çar­mos um para­lelo entre os ele­men­tos comuns e os con­tras­tan­tes que ligam as duas festas:

  • Jesus nasce numa gruta empres­tada em Belém e é sepul­tado num túmulo empres­tado por José de Arimatéia;
  • Comemora-se a noite (vés­pera) de Natal, que remete ao Sol da Jus­tiça, em pleno inverno e a manhã (madru­gada) da Pás­coa, que cele­bra a pri­meira lua-cheia da primavera
  • Jesus nasce no inverno que é sím­bolo de morte e morre na pri­ma­vera, que é sím­bolo da vida
  • Ao nas­cer, é colo­cado numa man­je­doura de madeira para mor­rer é pre­gado numa cruz igual­mente de madeira
  • Como bebê é envolto em fai­xas na morte em um len­çol (sudário)
  • Pas­to­res pobres tes­te­mu­nham sua che­gada mal­fei­to­res cru­ci­fi­ca­dos tes­te­mu­nham sua morte
  • Anjos can­to­res anun­ciam seu nas­ci­mento: “gló­ria a Deus nas altu­ras e paz na terra…” anjo anun­ci­a­dor anun­cia a Maria Mada­lena sua res­sur­rei­ção: “ele não está aqui, mas ressuscitou”;
  • A vir­gem, no nas­ci­mento a peca­dora (Maria Mada­lena), na ressurreição;
  • 25 de dezem­bro (Natal) é data fixa, no entanto, pode cair em qual­quer dia da semana enquanto a pri­meira lua-cheia da pri­ma­vera (Pás­coa), que é data móvel (podendo ocor­rer entre 21 de março e 23 de abril), é cele­brada sem­pre no domingo mais próximo;
  • O Natal tem influên­cia pagã (egíp­cia) a Pás­coa tem ori­gem Judaica (e que marca a liber­ta­ção do Egito);
  • O Natal é pre­ce­dido de qua­tro sema­nas de pre­pa­ra­ção, o cha­mado período do Advento a Pás­coa é ante­ce­dida por qua­renta dias de ora­ção, cha­ma­dos Quaresma;
  • A festa do Natal se estende até a Epi­fa­nia, que se refere à mani­fes­ta­ção de Deus a todas as nações que vêm ao seu encon­tro a festa da Pás­coa se estende até o Pen­te­cos­tes, oca­sião em que os dis­cí­pu­los (igreja) saem ao encon­tro das nações para anunciar-lhes as “mara­vi­lhas de Deus”, dirigindo-se a elas em suas dife­ren­tes lín­guas maternas.
  • Visita dos magos do Ori­ente, na Epi­fa­nia, e tes­te­mu­nhas de todo o “mundo conhe­cido”, no Pentecostes;
  • Por­tanto, o ciclo do Natal faz omo­vi­mento das tre­vas para a luz e no ciclo da Pás­coa par­ti­mos das cin­zas para o fogo (Pentecostes).

Trata-se, por­tanto de um tempo que foi trans­for­mado, não mera­mente pelas pala­vras, mas pela Pala­vra, no dia em que “o Verbo se fez carne e habi­tou entre nós, cheio de graça e de ver­dade, e vimos a sua gló­ria, gló­ria como do uni­gê­nito do Pai” (Jo 1.14).

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