Dec 13 2009

“Deus, quando vier, que venha armado”

Luiz Car­los Ramos
(Escrito para o Natal de 2005)

 

 “Vindo, porém, a ple­ni­tude do tempo, Deus enviou seu Filho, nas­cido de mulher…” (Gála­tas 4.4) 

“Exul­tai, vós que sois jus­tos, por­que aquele que traz jus­tiça nas­ceu neste dia. Exul­tai vós que estais fra­cos e vós que estais enfer­mos, pois aquele que traz a cura nas­ceu neste dia. Exul­tai, vós que estais em cati­veiro, por­que o vosso ver­da­deiro Senhor nas­ceu neste dia. Exul­tai, vós que sois livres, por­que aquele que traz liber­ta­ção, nas­ceu neste dia. Exul­tai, todos os cris­tãos, por­que Jesus Cristo nas­ceu neste dia. Seu nas­ci­mento não tem fim e prin­ci­pia onde ter­mina.” (Santo Agostinho)

Para qual­quer um, o tempo pare­ce­ria abso­lu­ta­mente impró­prio. Não se podia des­cer de Jeru­sa­lém a Jericó sem se cor­rer o risco de ser assal­tado ou ser vítima de ten­ta­tiva de latro­cí­nio. Era difí­cil con­se­guir um emprego, fosse de car­pin­teiro ou pes­ca­dor, até mesmo um bico de bóia-fria. As esca­da­rias e os cru­za­men­tos eram dis­pu­ta­dos por molam­bos que implo­ra­vam esmo­las. Os que tinham algum recurso, o iam per­dendo aos pou­cos para a ganân­cia dos cole­to­res de impos­tos. Revol­tas e quebra-quebras pipo­ca­vam por toda parte. Os cida­dãos anda­vam arma­dos. A polí­cia era vio­lenta. A pena de morte exi­bia com orgu­lho seus tro­féus no alto das coli­nas ensangüentadas.

Ao que tudo indica, Deus, se qui­sesse visi­tar a terra naquela época, deve­ria seguir o con­se­lho do Rio­baldo, que dizia: — Deus, mesmo, quando vier ao ser­tão, que venha armado.

Mas não foi assim. Para os estra­nhos e tei­mo­sos pro­fe­tas bíbli­cos, aquele tempo ino­por­tuno era, na ver­dade, a ple­ni­tude dos tem­pos, o kai­rós, o tempo exato para que Deus irrom­pesse na his­tó­ria. E, a des­peito de todas as con­di­ções des­fa­vo­rá­veis, “o verbo se fez carne e habi­tou entre nós” (Jo 1.14).

Deus nas­ceu desar­mado. Sendo a luz do mundo, tudo o que se via eram dois olhos negros, bri­lhando no meio da noite. Sendo Pala­vra de Deus e Verbo divino, tudo o que sua boca podia fazer era cho­rar e sugar satis­feito o leite materno.

Sim, Deus nas­ceu desar­mado. Lá está ele! Aquele, a quem os céus não podem con­ter, nasce do ven­tre de uma mulher pobre e aconchega-se no calor daque­les bra­ços de mãe. Sendo o Senhor do uni­verso, hospeda-se em uma estre­ba­ria. Tendo a his­tó­ria nas mãos, dorme numa manjedoura.

De fato, Deus veio num tempo ino­por­tuno para os que lucram com as armas, com os juros e com a morte, por­que a sua che­gada pro­põe um basta! a tudo isso. Para nós, que que­re­mos a paz, que alme­ja­mos a jus­tiça, e sus­pi­ra­mos pela vida, Deus nos vem em boa hora. Por­que nós tam­bém clamamos: — Basta! Não que­re­mos mais tanta vio­lên­cia. Não que­re­mos mais tanta cor­rup­ção. Não supor­ta­mos mais tanta injus­tiça. Não que­re­mos mor­rer indig­na­mente. Que­re­mos a ple­ni­tude dos tem­pos. O tempo da graça. O tempo de Deus…

É desse tempo que nos fala, sem­pre de novo, o Natal; e é ele que anun­cia, sem­pre de novo, o Ano Novo. Sim, Deus con­ti­nua a nas­cer entre nós. Mas não se deve procurá-lo entre os que estão  arma­dos até os den­tes, nem mesmo entre os que ocu­pam as tri­bu­nas dos poderosos.

Ele estará sem­pre por perto a nos olhar com dois olhos negros e bri­lhan­tes, e a nos dizer, sem pala­vras, que a vida é uma cri­ança frá­gil e vul­ne­rá­vel que pre­cisa ser emba­lada com ter­nura, pro­te­gida com cui­dado e ali­men­tada com carinho.

Que, neste Natal, o Filho de Deus, que por amor, se fez filho do homem, nos dê a graça de nos tor­nar­mos, todos, irmãos e irmãs carís­si­mos e, por­tanto, filhas e filhos do Deus altíssimo.

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