Nov 24 2009

O Natal do Sol da Justiça

Luiz Car­los Ramos

 CB055246  

Mas para vós outros que temeis o meu nome
nas­cerá o sol da jus­tiça, tra­zendo sal­va­ção nas suas asas.
(Mala­quias 4.2.)

O Natal e a Pás­coa se cons­ti­tuem nas mais impor­tan­tes sole­ni­da­des da tra­di­ção cristã. O Natal, por­que faz refe­rên­cia à encar­na­ção do Sal­va­dor divino, na cri­ança humilde de Jesus, filho de Maria, na época em que Hero­des Anti­pas era o tetrarca da Gali­léia; e a Pás­coa, por­que reme­mora a pai­xão, morte e res­sur­rei­ção de Jesus Cristo, ocor­rida no período em que Pôn­cio Pila­tos gover­nava a Judéia.

No entanto, não se trata de mera retros­pec­tiva his­tó­rica, mas, antes, de atu­a­li­za­ção cele­bra­tiva de um acon­te­ci­mento sal­ví­fico que tem impli­ca­ções para o pre­sente e é deter­mi­nante em rela­ção ao futuro daque­les e daque­las que o cele­bram com fé.

A Pás­coa cristã é a festa mais antiga, e já era come­mo­rada no final do pri­meiro século da nossa era. O Natal é mais tar­dio, e só se fixou a par­tir do século IV, mas isso a par­tir da tra­di­ci­o­nal cele­bra­ção do dia de Epi­fa­nia (6 de janeiro), que já era come­mo­rada em mea­dos do pri­meiro século.

A Epi­fa­nia (pala­vra que sig­ni­fica “mani­fes­ta­ção”) era fes­te­jada pelos cris­tãos já no final do pri­meiro século e iní­cio do segundo (a ponto de ficar regis­trada nos Evan­ge­lhos, cf. Mt 2), como a evi­dên­cia de que o evan­ge­lho de Jesus Cristo não era uma exclu­si­vi­dade dos judeus-cristãos, mas uma mani­fes­ta­ção da graça de Deus para toda a huma­ni­dade. Por isso, recorda-se, nessa festa, a visita dos Magos, que vie­ram do Ori­ente para sau­dar o Deus cri­ança e dar-lhe pre­sen­tes; bem como o Batismo do Senhor, oca­sião em que Jesus se apre­senta publi­ca­mente como Filho de Deus; e ainda a rea­li­za­ção do seu pri­meiro mila­gre, na cidade de Caná da Gali­léia, pelo qual Jesus ini­cia publi­ca­mente seu ministério.

No con­texto romano, do iní­cio da nossa era, por influên­cia egíp­cia, havia uma grande festa popu­lar que, a pro­pó­sito do sols­tí­cio de inverno (hemis­fé­rio Norte), rea­li­zava uma série de ritu­ais dedi­ca­dos ao deus-sol. Tais ritu­ais eram rea­li­za­dos na expec­ta­tiva de que o mundo não fosse engo­lido pelas tre­vas ame­a­ça­do­ras do inverno (oca­sião em que o sol pare­cia ficar cada vez mais dis­tante, os dias mais cur­tos e as noi­tes mais lon­gas). Essa festa era cha­mada de Adven­tus Reden­to­ris e Natale Solis Invic­tus, ou a Che­gada do Reden­dor e Nas­ci­mento do Sol Invencível.

Os cris­tãos, então, “evan­ge­li­za­ram” essa festa, reinterpretando-a à luz dos escri­tos bíbli­cos. A jus­tiça divina se alteia sobre a humana, tal como des­crito capí­tulo 60 do pro­feta Isaías (a lei­tura des­ses 22 ver­sí­cu­los des­cor­tina para nós o ver­da­deiro hori­zonte natalino):

1   Dispõe-te, res­plan­dece, por­que vem a tua luz, e a gló­ria do SENHOR nasce sobre ti.   2   Por­que eis que as tre­vas cobrem a terra, e a escu­ri­dão, os povos; mas sobre ti apa­rece res­plen­dente o SENHOR, e a sua gló­ria se vê sobre ti.   3   As nações se enca­mi­nham para a tua luz, e os reis, para o res­plen­dor que te nas­ceu.   4   Levanta em redor os olhos e vê; todos estes se ajun­tam e vêm ter con­tigo; teus filhos che­gam de longe, e tuas filhas são tra­zi­das nos bra­ços.   5   Então, o verás e serás radi­ante de ale­gria; o teu cora­ção estre­me­cerá e se dila­tará de júbilo, por­que a abun­dân­cia do mar se tor­nará a ti, e as rique­zas das nações virão a ter con­tigo.   6   A mul­ti­dão de came­los te cobrirá, os dro­me­dá­rios de Midiã e de Efa; todos virão de Sabá; tra­rão ouro e incenso e publi­ca­rão os lou­vo­res do SENHOR.   7   Todas as ove­lhas de Que­dar se reu­ni­rão junto de ti; servir-te-ão os car­nei­ros de Nebai­ote; para o meu agrado subi­rão ao meu altar, e eu tor­na­rei mais glo­ri­osa a casa da minha gló­ria.   8   Quem são estes que vêm voando como nuvens e como pom­bas, ao seu pom­bal?   9   Cer­ta­mente, as ter­ras do mar me aguar­da­rão; virão pri­meiro os navios de Tár­sis para tra­ze­rem teus filhos de longe e, com eles, a sua prata e o seu ouro, para a san­ti­fi­ca­ção do nome do SENHOR, teu Deus, e do Santo de Israel, por­que ele te glo­ri­fi­cou.   10   Estran­gei­ros edi­fi­ca­rão os teus muros, e os seus reis te ser­vi­rão; por­que no meu furor te cas­ti­guei, mas na minha graça tive mise­ri­cór­dia de ti.   11   As tuas por­tas esta­rão aber­tas de con­tí­nuo; nem de dia nem de noite se fecha­rão, para que te sejam tra­zi­das rique­zas das nações, e, con­du­zi­dos com elas, os seus reis.   […]   17   Por bronze tra­rei ouro, por ferro tra­rei prata, por madeira, bronze e por pedras, ferro; farei da paz os teus ins­pe­to­res e da jus­tiça, os teus exa­to­res.   18   Nunca mais se ouvirá de vio­lên­cia na tua terra, de deso­la­ção ou ruí­nas, nos teus limi­tes; mas aos teus muros cha­ma­rás Sal­va­ção, e às tuas por­tas, Lou­vor.   19   Nunca mais te ser­virá o sol para luz do dia, nem com o seu res­plen­dor a lua te alu­mi­ará; mas o SENHOR será a tua luz per­pé­tua, e o teu Deus, a tua gló­ria.   20   Nunca mais se porá o teu sol, nem a tua lua min­guará, por­que o SENHOR será a tua luz per­pé­tua, e os dias do teu luto fin­da­rão.   21   Todos os do teu povo serão jus­tos, para sem­pre her­da­rão a terra; serão reno­vos por mim plan­ta­dos, obra das minhas mãos, para que eu seja glo­ri­fi­cado.   22   O menor virá a ser mil, e o mínimo, uma nação forte; eu, o SENHOR, a seu tempo farei isso prontamente.

Como o calen­dá­rio dos pri­mei­ros sécu­los eram muito rudi­men­ta­res, a data não era pre­cisa e podia variar entre 21 de dezem­bro e 6 de janeiro. Com o pas­sar do tempo, essa fes­ti­vi­dade foi adqui­rindo con­tor­nos mais cla­ros, e convencionou-se o dia 25 de dezem­bro como sendo o dia do nas­ci­mento de Jesus e o dia 6 como o ápice da festa, cul­mi­nando com alu­são à visita dos Magos e ao Batismo do Senhor.

Os que cri­ti­cam a come­mo­ra­ção do Natal, acusando-o de ser uma festa pagã, devem ser adver­ti­dos de que não há uma única festa reli­gi­osa sequer que seja abso­lu­ta­mente genuína e exclu­si­va­mente cristã.

E não deixa de ser curi­oso o fato de que parece haver menos resis­tên­cia a cer­tas come­mo­ra­ções, às quais não há refe­rên­cia bíblica explí­cita (do tipo: Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Cri­an­ças, Dia do Índio, Dia da Pátria) do que àque­las com ampla fun­da­men­ta­ção nas Escri­tu­ras (tais como: Natal, Pás­coa e Pentecostes).

O enten­di­mento das efe­mé­ri­des depende do olhar do intér­prete: para uns (aque­les que crêem que os pode­res “do mundo” são mais for­tes que o “rei­nado de Deus”), trata-se da paga­ni­za­ção do cris­ti­a­nismo; para outros (que crêem na força trans­for­ma­dora do Evan­ge­lho), trata-se da cris­ti­a­ni­za­ção do paga­nismo. A ques­tão está na fé de quem lê a realidade.

Natal “ver­sus” Páscoa

A rela­ção entre o Natal e a Pás­coa pode ser mais bem com­pre­en­dida se tra­çar­mos um para­lelo entre os ele­men­tos comuns e os con­tras­tan­tes que ligam as duas festas:

  • Jesus nasce numa gruta empres­tada em Belém e é sepul­tado num túmulo empres­tado por José de Arimatéia;
  • Comemora-se a noite (vés­pera) de Natal, que remete ao Sol da Jus­tiça, em pleno inverno e a manhã (madru­gada) da Pás­coa, que cele­bra a pri­meira lua-cheia da primavera
  • Jesus nasce no inverno que é sím­bolo de morte e morre na pri­ma­vera, que é sím­bolo da vida
  • Ao nas­cer, é colo­cado numa man­je­doura de madeira para mor­rer é pre­gado numa cruz igual­mente de madeira
  • Como bebê é envolto em fai­xas na morte em um len­çol (sudário)
  • Pas­to­res pobres tes­te­mu­nham sua che­gada mal­fei­to­res cru­ci­fi­ca­dos tes­te­mu­nham sua morte
  • Anjos can­to­res anun­ciam seu nas­ci­mento: “gló­ria a Deus nas altu­ras e paz na terra…” anjo anun­ci­a­dor anun­cia a Maria Mada­lena sua res­sur­rei­ção: “ele não está aqui, mas ressuscitou”;
  • A vir­gem, no nas­ci­mento a peca­dora (Maria Mada­lena), na ressurreição;
  • 25 de dezem­bro (Natal) é data fixa, no entanto, pode cair em qual­quer dia da semana enquanto a pri­meira lua-cheia da pri­ma­vera (Pás­coa), que é data móvel (podendo ocor­rer entre 21 de março e 23 de abril), é cele­brada sem­pre no domingo mais próximo;
  • O Natal tem influên­cia pagã (egíp­cia) a Pás­coa tem ori­gem Judaica (e que marca a liber­ta­ção do Egito);
  • O Natal é pre­ce­dido de qua­tro sema­nas de pre­pa­ra­ção, o cha­mado período do Advento a Pás­coa é ante­ce­dida por qua­renta dias de ora­ção, cha­ma­dos Quaresma;
  • A festa do Natal se estende até a Epi­fa­nia, que se refere à mani­fes­ta­ção de Deus a todas as nações que vêm ao seu encon­tro a festa da Pás­coa se estende até o Pen­te­cos­tes, oca­sião em que os dis­cí­pu­los (igreja) saem ao encon­tro das nações para anunciar-lhes as “mara­vi­lhas de Deus”, dirigindo-se a elas em suas dife­ren­tes lín­guas maternas.
  • Visita dos magos do Ori­ente, na Epi­fa­nia, e tes­te­mu­nhas de todo o “mundo conhe­cido”, no Pentecostes;
  • Por­tanto, o ciclo do Natal faz omo­vi­mento das tre­vas para a luz e no ciclo da Pás­coa par­ti­mos das cin­zas para o fogo (Pentecostes).

Trata-se, por­tanto de um tempo que foi trans­for­mado, não mera­mente pelas pala­vras, mas pela Pala­vra, no dia em que “o Verbo se fez carne e habi­tou entre nós, cheio de graça e de ver­dade, e vimos a sua gló­ria, gló­ria como do uni­gê­nito do Pai” (Jo 1.14).

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O Natal do Sol da Jus­tiça by Luiz Car­los Ramos is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Cri­a­ção de Obras Deri­va­das 2.5 Bra­sil License.


Aug 18 2009

“Lex orandi lex credendi”

A lei da ora­ção é a lei da fé

 Luiz Car­los Ramos

A rigor, se entende que a Teo­lo­gia molda a Litur­gia, mas nem sem­pre nos damos conta de que o inverso tam­bém é ver­da­deiro. Segundo Ronald Byards, a Litur­gia molda a Teo­lo­gia de duas manei­ras: Pri­mei­ra­mente, a litur­gia de uma comu­ni­dade dá corpo e expressa uma teo­lo­gia intrín­seca, mas tam­bém molda uma forma de crença. Às vezes isso se dá inten­ci­o­nal­mente, outras, não. Em segundo lugar, nenhuma teo­lo­gia, que não ofe­reça suporte ou con­tri­bua para  o culto (i.e., para a litur­gia) da comu­ni­dade, será, em longo prazo, aceita e assi­mi­lada pela igreja (cf. BYARDS, 2008).

Como sem­pre insiste o biblista Frei Car­los Mes­ters, a Bíblia nas­ceu do povo e tem que ser devol­vida ao povo. Isso implica que a Teo­lo­gia (Sis­te­má­tica, Bíblica e Pas­to­ral), que se cons­ti­tui a par­tir da Reve­la­ção, tem que estar a ser­viço do povo, caso con­trá­rio, a trans­for­ma­mos num sim­ples “livro antigo”. Ora, o que impede que os tex­tos sagra­dos se redu­zam a velhos tex­tos cadu­cos é o Espí­rito cele­bra­tivo, pelo qual a Bíblia nos ajuda a inter­pre­tar a Vida e a cons­truir comu­ni­dade. Bíblia-fé-e-comunidade (“comu­ni­dade” enten­dida aqui como par­ti­lha cele­bra­tiva, cf. Lc 24.30 – 35) são, no dizer de Mes­ters, como café-leite-e-açúcar: uma vez mis­tu­ra­dos já não podem ser sepa­ra­dos, for­mam uma unidade.

Ora, grande parte dos escri­tos bíbli­cos são tex­tos cele­bra­ti­vos: cân­ti­cos, sal­mos (lou­vor, lamento, ação de gra­ças), ora­ções, pre­ga­ções, tes­te­mu­nhos, apelos…

Na Igreja Pri­mi­tiva, foram neces­sá­rios 59 anos de tra­di­ção litúr­gica até que um Credo fosse for­mu­lado, e mais 300 anos para o esta­be­le­ci­mento do Cânon Bíblico.

Vale lem­brar o que Rubem Alves afirma no livro Dog­ma­tismo & tole­rân­cia a res­peito da fé cele­brada que pre­cede a fé sis­te­ma­ti­zada: a Reforma pro­tes­tante foi can­tada antes de ser enten­dida, isto é, o povo teve acesso aos ensi­nos da Reforma pri­mei­ra­mente por­que a can­tava cele­bra­ti­va­mente. A con­for­ma­ção de uma Teo­lo­gia Refor­mada mais sis­te­ma­ti­zada é enten­dida como ato segundo (cf. ALVES, 2004).

Depreende-se, pois, que a cele­bra­ção é fun­da­men­tal (é Teo­lo­gia Pri­meira). Assim sendo, pode-se afir­mar que se a Teo­lo­gia não ser­vir à doxo­lo­gia da igreja não terá sobre­vida fora dos cír­cu­los inte­lec­tu­ais e aca­dê­mi­cos. A fé cristã é antes de tudo cele­brada e depois, crida. Se algo não puder ser con­ce­le­brado, não poderá ser crido. Uma vez mais é o Frei Car­los Mes­ters quem sábia e sin­ge­la­mente diz: “Estudo só é tijolo, o cimento é a cele­bra­ção” (MESTERS, 2009).

O Leci­o­ná­rio inte­gra Teo­lo­gia e Liturgia

O leci­o­ná­rio tri­e­nal, em sua ver­são ecu­mê­nica, refor­mu­lada na década de 1970, tem sido ado­tado de maneira cres­cente pelos pas­to­res e pas­to­ras das prin­ci­pais igre­jas cris­tãs em todo o mundo. Como relata Byards, no mesmo artigo acima citado, pes­qui­sas fei­tas nos Esta­dos Uni­dos da Amé­rica demons­tram que 99% dos epis­co­pais angli­ca­nos, 98% dos lute­ra­nos, 87% dos pas­to­res da Igreja Unida de Cristo, 69% dos meto­dis­tas, 61% dos pres­bi­te­ri­a­nos, usam o leci­o­ná­rio sem­pre ou na mai­o­ria das vezes para a pre­pa­ra­ção de suas pré­di­cas e litur­gias sema­nais. A ado­ção do leci­o­ná­rio pelas prin­ci­pais igre­jas his­tó­ri­cas vem num cres­cente, desde a década de 80. De maneira bem mais tímida, o mesmo vem acon­te­cendo no Brasil.

A con­sequên­cia disso é que mui­tos temas, outrora sole­ne­mente omi­ti­dos — tais como a esca­to­lo­gia, a pri­ma­zia do rei­nado de Deus ou a opção pelos pobres —, por pare­ce­rem obs­cu­ros, anti­pá­ti­cos ou des­fa­vo­rá­veis, a alguns pre­ga­do­res e pre­ga­do­ras, vol­ta­ram à baila nos púl­pi­tos cris­tãos. E, com isso, a igreja ganha e passa a rece­ber ali­mento espi­ri­tual de maior qua­li­dade, pro­fun­di­dade e consistência.

“Lec­tio con­ti­nua” e “lec­tio selecta”

A rigor, o leci­o­ná­rio tri­e­nal ofe­rece qua­tro indi­ca­ções de lei­tura para o culto sema­nal, sendo duas toma­das da Bíblia Hebraica (incluindo um Salmo), e duas do Novo Tes­ta­mento (incluindo um texto do Evan­ge­lho). Res­pec­ti­va­mente, as lei­tu­ras, ou lições, são assim desig­na­das: “Pri­meira Lei­tura”, “Sal­mó­dia” (tam­bém con­ce­bida como “Canto Inter­lec­ci­o­nal”), “Lei­tura da Epís­tola” (ou “Segunda Lei­tura”) e “Lei­tura do Evangelho”.

O leci­o­ná­rio, por­tanto, é uma pro­posta de plano de lei­tura e pre­ga­ção que pre­tende abor­dar a Bíblia como um todo. Indica lei­tu­ras sele­ci­o­na­das (lec­tio selecta) para cada semana, orga­ni­za­das, tanto quanto pos­sí­vel, tema­ti­ca­mente, prin­ci­pal­mente nas oca­siões fes­ti­vas (Ciclo do Natal e Ciclo da Pás­coa). Em outras oca­siões, prin­ci­pal­mente ao longo do Tempo Comum, adota-se o cri­té­rio da lei­tura con­ti­nu­ada (lec­tio con­ti­nua), com o obje­tivo de pos­si­bi­li­tar à comu­ni­dade um conhe­ci­mento amplo de toda a Bíblia, no curso de três anos.

Ao longo da his­tó­ria da igreja, os pre­ga­do­res e pre­ga­do­ras que mais se des­ta­ca­ram ado­ta­vam algum plano de pre­ga­ção, para nor­tear seu labor como minis­tros da Pala­vra. Os judeus, na sina­goga, tinham desde há mui­tos sécu­los, o cos­tume de ler todo o livro dos Sal­mos em três anos. Sendo 150 o número dos sal­mos, o plano pre­via a lei­tura de um salmo por semana. Como há cerca de 50 sema­nas em um ano, três anos somam pro­vi­den­ci­al­mente 150, o mesmo número dos Salmos.

Sabe-se que os refor­ma­do­res do século XVI ado­ta­vam algum plano de pre­ga­ção, pre­fe­rindo a expo­si­ção de tex­tos bíbli­cos com­ple­tos (perí­co­pes e mesmo livros intei­ros). Empre­ga­vam, por­tanto, o método da lec­tio con­ti­nua; mas nas datas fes­ti­vas mai­o­res (Pás­coa, Pen­te­cos­tes e Natal) ado­ta­vam a lec­tio selecta — pois não faria sen­tido se, em pleno Domingo de Pás­coa, por exem­plo, o pre­ga­dor se pusesse a pre­gar sobre um assunto qual­quer, sem rela­ção com a res­sur­rei­ção, sendo esta a men­sa­gem cen­tral do cristianismo.

Mui­tos dos escri­tos que nos che­ga­ram de Cal­vino e Lutero, entre outros, prin­ci­pal­mente seus comen­tá­rios bíbli­cos, são essen­ci­al­mente resul­tado de ano­ta­ções de pré­di­cas sema­nais. Tanto é assim que desenvolveu-se uma prá­tica que per­dura até os dias de hoje em algu­mas igre­jas de tra­di­ção refor­mada, que é cha­mada de Reader’s Ser­vice (lit., “Culto da Lei­tura”), segundo a qual, os mem­bros de uma deter­mi­nada con­gre­ga­ção se reú­nem meia hora ou uma hora antes do culto prin­ci­pal para ouvir a lei­tura con­tí­nua de tex­tos bíbli­cos cri­te­ri­o­sa­mente escolhidos.

Até o século XVII, não havia, a rigor, a prá­tica da pre­ga­ção temá­tica des­con­tí­nua. Esta só viria a se tor­nar popu­lar com os avi­va­lis­tas do século XVIII e XIX. Ora, ser­mões temá­ti­cos pri­vi­le­giam idéias e temas e não tanto os livros bíbli­cos. Isso deu ensejo a uma prá­tica homi­lé­tica des­con­ti­nu­ada, frag­men­tada, e mais sujeita às idi­os­sin­cra­sias, humo­res, e con­di­ci­o­na­men­tos ide­o­ló­gi­cos pró­prios de cada pre­ga­dor ou pre­ga­dora. Temas que não fos­sem do inte­resse par­ti­cu­lar de certo pre­ga­dor seriam sis­te­ma­ti­ca­mente omi­ti­dos e sone­ga­dos à sua congregação.

Con­cluindo…

Pode-se afir­mar, a par­tir do exposto, que qual­quer plano de pre­ga­ção é melhor que nenhum. O ama­du­re­ci­mento na fé pres­su­põe fami­li­a­ri­dade e rela­ção intensa com os tex­tos sagra­dos. E esse apro­fun­da­mento difi­cil­mente se obtém com uma pre­ga­ção des­con­tí­nua, des­co­nexa e ale­a­tó­ria. É pre­ciso saber de onde vie­mos, para que pos­sa­mos ter noção de para onde vamos (e para que tenha­mos cer­teza de estar­mos indo para frente). O leci­o­ná­rio tri­e­nal nos dá esse roteiro. É inte­li­gente, dinâ­mico e fle­xí­vel. Ao mesmo tempo em que nos “obriga” a abor­dar­mos todos os gran­des temas bíbli­cos — até aque­les que por­ven­tura não nos agra­dem tanto —, tam­bém nos per­mite que, even­tu­al­mente, opte­mos por outros, mais apro­pri­a­dos a cer­tas oca­siões impos­tas pela pre­mên­cia do coti­di­ano — isso para o  caso de nossa cri­a­ti­vi­dade não dar conta de rela­ci­o­nar­mos os tex­tos indi­ca­dos pelo leci­o­ná­rio com tais situações.

O leci­o­ná­rio, por­tanto, é uma útil fer­ra­menta para o nosso tra­ba­lho como pre­ga­do­res e pre­ga­do­ras da Pala­vra (e não de idéias, sim­ples­mente). Um tra­ba­lho que inte­gra Fé e Vida, Pala­vra pre­gada e Pala­vra Crida, Teo­lo­gia e Litur­gia, Ora­ção e refle­xão. Afi­nal: “Lex cre­dendi lex orandi” — a lei da fé é a lei da oração!

Refe­rên­cias

ALVES, R. Dog­ma­tismo e Tole­rân­cia. São Paulo: Loyola, 2004. 

BYARDS, R. P. An Advent Gift: The Escha­to­lo­gi­cal Pro­mise. Inter­pre­ta­tion: a jour­nal of Bible and The­o­logy. v. 6. n. 4. Rich­mond: UTS-PSCE, 2008. p. 372 – 395.

MESTERS, F. C. Lei­tura popu­lar da Bíblia. Rumos da Teo­lo­gia Bíblica nos cami­nhos da Amé­rica Latina e Bra­sil. Cen­tro Uni­ver­si­tá­rio São Camilo (CETESP)2009.

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Jun 25 2009

Afeto & afago (liturgia)

 Cele­bra­ção do dia 28 de junho de 2009
(Quarto Domingo após Pentecostes)

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(Cli­que na ima­gem para abrir)

Senhor Deus Eterno, no dia de hoje tive­mos um encon­tro mara­vi­lhoso com tanta gente dife­rente e, como teu povo, fica­mos sur­pre­sos com a diver­si­dade da nossa famí­lia na fé. Senhor Jesus, abra­çar cada uma des­sas pes­soas tem sido como tocar em tuas pró­prias ves­tes, por­que a cada abraço sen­ti­mos ema­nar o poder da tua graça e isso nos res­taura a alma, nos for­ta­lece o espí­rito e ale­gra nosso coração.

Que no final deste dia tão cheio de novi­da­des e sur­pre­sas, quando esti­ver­mos aco­mo­da­dos e saci­a­dos, pedimos-te que nos aco­lhas em teus bra­ços e nos faças repou­sar em paz e tranqüilidade.

Que a noite seja nossa amiga, que a cama nos aca­lante, e que o tra­ves­seiro seja nosso cúm­plice nas súpli­cas que faze­mos por cada uma des­sas pes­soas mara­vi­lho­sas que conhe­ce­mos, pelas que reco­nhe­ce­mos, e pelas que ainda have­re­mos de conhecer.

Tam­bém nos lem­bra­mos dos nos­sos fami­li­a­res e dos ami­gos e ami­gas que dei­xa­mos para poder estar aqui: que toda essa gente que­rida sinta, como nós sen­ti­mos hoje, o toque res­tau­ra­dor da tua graça.

Prepara-nos para o dia de ama­nhã, para que des­per­te­mos com dis­po­si­ção e for­ças para bus­car em pri­meiro lugar o teu reino e a tua justiça.

Ora­mos em nome daquele que, com um gesto de amor, nos sal­vou e devol­veu à vida; a ele per­ten­cem a honra, o poder e a gló­ria para sem­pre. Amém. 

 

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4º. Domingo de Pen­te­cos­tes: Afeto & afago (Litur­gia) by Luiz Car­los Ramos is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial 2.5 Bra­sil License.