Dec 13 2009

“Deus, quando vier, que venha armado”

Luiz Car­los Ramos
(Escrito para o Natal de 2005)

 

 “Vindo, porém, a ple­ni­tude do tempo, Deus enviou seu Filho, nas­cido de mulher…” (Gála­tas 4.4) 

“Exul­tai, vós que sois jus­tos, por­que aquele que traz jus­tiça nas­ceu neste dia. Exul­tai vós que estais fra­cos e vós que estais enfer­mos, pois aquele que traz a cura nas­ceu neste dia. Exul­tai, vós que estais em cati­veiro, por­que o vosso ver­da­deiro Senhor nas­ceu neste dia. Exul­tai, vós que sois livres, por­que aquele que traz liber­ta­ção, nas­ceu neste dia. Exul­tai, todos os cris­tãos, por­que Jesus Cristo nas­ceu neste dia. Seu nas­ci­mento não tem fim e prin­ci­pia onde ter­mina.” (Santo Agostinho)

Para qual­quer um, o tempo pare­ce­ria abso­lu­ta­mente impró­prio. Não se podia des­cer de Jeru­sa­lém a Jericó sem se cor­rer o risco de ser assal­tado ou ser vítima de ten­ta­tiva de latro­cí­nio. Era difí­cil con­se­guir um emprego, fosse de car­pin­teiro ou pes­ca­dor, até mesmo um bico de bóia-fria. As esca­da­rias e os cru­za­men­tos eram dis­pu­ta­dos por molam­bos que implo­ra­vam esmo­las. Os que tinham algum recurso, o iam per­dendo aos pou­cos para a ganân­cia dos cole­to­res de impos­tos. Revol­tas e quebra-quebras pipo­ca­vam por toda parte. Os cida­dãos anda­vam arma­dos. A polí­cia era vio­lenta. A pena de morte exi­bia com orgu­lho seus tro­féus no alto das coli­nas ensangüentadas.

Ao que tudo indica, Deus, se qui­sesse visi­tar a terra naquela época, deve­ria seguir o con­se­lho do Rio­baldo, que dizia: — Deus, mesmo, quando vier ao ser­tão, que venha armado.

Mas não foi assim. Para os estra­nhos e tei­mo­sos pro­fe­tas bíbli­cos, aquele tempo ino­por­tuno era, na ver­dade, a ple­ni­tude dos tem­pos, o kai­rós, o tempo exato para que Deus irrom­pesse na his­tó­ria. E, a des­peito de todas as con­di­ções des­fa­vo­rá­veis, “o verbo se fez carne e habi­tou entre nós” (Jo 1.14).

Deus nas­ceu desar­mado. Sendo a luz do mundo, tudo o que se via eram dois olhos negros, bri­lhando no meio da noite. Sendo Pala­vra de Deus e Verbo divino, tudo o que sua boca podia fazer era cho­rar e sugar satis­feito o leite materno.

Sim, Deus nas­ceu desar­mado. Lá está ele! Aquele, a quem os céus não podem con­ter, nasce do ven­tre de uma mulher pobre e aconchega-se no calor daque­les bra­ços de mãe. Sendo o Senhor do uni­verso, hospeda-se em uma estre­ba­ria. Tendo a his­tó­ria nas mãos, dorme numa manjedoura.

De fato, Deus veio num tempo ino­por­tuno para os que lucram com as armas, com os juros e com a morte, por­que a sua che­gada pro­põe um basta! a tudo isso. Para nós, que que­re­mos a paz, que alme­ja­mos a jus­tiça, e sus­pi­ra­mos pela vida, Deus nos vem em boa hora. Por­que nós tam­bém clamamos: — Basta! Não que­re­mos mais tanta vio­lên­cia. Não que­re­mos mais tanta cor­rup­ção. Não supor­ta­mos mais tanta injus­tiça. Não que­re­mos mor­rer indig­na­mente. Que­re­mos a ple­ni­tude dos tem­pos. O tempo da graça. O tempo de Deus…

É desse tempo que nos fala, sem­pre de novo, o Natal; e é ele que anun­cia, sem­pre de novo, o Ano Novo. Sim, Deus con­ti­nua a nas­cer entre nós. Mas não se deve procurá-lo entre os que estão  arma­dos até os den­tes, nem mesmo entre os que ocu­pam as tri­bu­nas dos poderosos.

Ele estará sem­pre por perto a nos olhar com dois olhos negros e bri­lhan­tes, e a nos dizer, sem pala­vras, que a vida é uma cri­ança frá­gil e vul­ne­rá­vel que pre­cisa ser emba­lada com ter­nura, pro­te­gida com cui­dado e ali­men­tada com carinho.

Que, neste Natal, o Filho de Deus, que por amor, se fez filho do homem, nos dê a graça de nos tor­nar­mos, todos, irmãos e irmãs carís­si­mos e, por­tanto, filhas e filhos do Deus altíssimo.

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Dec 5 2009

“Um menino nasceu. O mundo tornou a começar”*

Luiz Car­los Ramos

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Foi numa noite de lua, nas vere­das do grande ser­tão… Rio­baldo atra­ves­sava os ermos da caa­tinga quando ouviu os gemi­dos de par­tu­ri­ente que vinham de um misér­rimo case­bre, enter­rado na soli­dão. A mulher estava só, com suas dores e seu ven­tre inchado.

Não obs­tante suas andan­ças o tives­sem pre­pa­rado mais para agente fune­rá­rio que para obs­te­tra, naquela noite o jagunço não teve esco­lha, a força irre­sis­tí­vel da vida o con­ver­tera em par­teira. Foi assim que, pelas mãos de um jagunço, no fundo do ser­tão, mais uma cri­ança “sal­tou pra den­tro da vida”**.

A essa altura da nar­ra­tiva, ao som do choro do recém-nascido, Gui­ma­rães Rosa colo­cou as seguin­tes pala­vras na boca do exta­si­ado Rio­baldo: “Um menino nas­ceu. O mundo tor­nou a come­çar. E saí para as luas…” O mila­gre do reco­meço do mundo acon­tece a cada parto. Sim, o mundo reco­meça todas as vezes que, ven­cendo tan­tas for­ças con­trá­rias, a vida sobrevive.

Nas vere­das dos nos­sos urba­nos, mas não menos peri­go­sos, ser­tões, tornamo-nos jagun­ços  cada vez mais cruéis, rudes e sel­va­gens. Extorquimo-nos mutu­a­mente, violentamo-nos, mutilamo-nos, agredimo-nos, ignoramo-nos, executamo-nos com fúria tal que dei­xa­ria per­plexo o mais impi­e­doso cangaceiro.

Em noi­tes enlu­a­ra­das, como a que banhou aquele case­bre, tudo pode acon­te­cer. Nos­sas cren­di­ces nos dizem que, em tais oca­siões, há homens que viram feras ter­rí­veis, e que vagam pela noite des­ti­lando hor­ror e morte. Entre­tanto, nesta his­tó­ria, o luar do ser­tão trans­for­mou Rio­baldo de uma maneira total­mente inu­si­tada: fez daquele ser, embru­te­cido pela cru­eza do can­gaço, um anfi­trião terno, pronto para aco­lher nos bra­ços a rein­ven­ção do mundo.

O Natal é isso: Dei­xar­mos que as estre­las e a lua nos tran­subs­tan­ciem em anfi­triões da vida. Anoi­te­ce­mos bru­tas feras, para ama­nhe­cer­mos par­tei­ras da huma­ni­dade. Faça­mos desta uma noite feliz, pois nas­ceu mais uma cri­ança e o mundo tor­nou a começar.

Feliz Natal!

 (Escrito em dezem­bro de 2004)

 

 

* Excla­ma­ção de Rio­baldo, per­so­na­gem de João Gui­ma­rães Rosa, no romance Grande Ser­tão Vere­das.

** Esta expres­são é de João Cabral de Melo Neto, em seu impa­gá­vel Morte e Vida Severina.


Dec 1 2009

Enquanto houver sol ainda haverá esperança

(Litur­gia de Natal)

R

Qui­sera
Senhor, neste Natal,
armar uma árvore e nela
pen­du­rar, em vez de bolas,
os nomes de todos os meus amigos.
Os amigos de longe, de perto. Os antigos
e os mais recen­tes. Os que vejo a cada dia e os
que rara­mente encontro. Os sem­pre lem­brados e
os que as vezes ficam esque­cidos. Os constan­tes e os
inter­mi­ten­tes. Das horas difí­ceis e os das horas ale­gres.
Os que, sem que­rer, eu magoei, ou sem que­rer me magoaram.
Aque­les a quem conheço profun­da­mente e aque­les de quem conheço
ape­nas a apa­rên­cia. Os que pouco me devem e aque­les a quem muito devo.
Meus amigos humil­des e meus amigos impor­tan­tes. Os nomes de todos os que já;
pas­sa­ram pela minha vida. Uma árvore de raí­zes muito profun­das para que
seus nomes
nunca sejam arran­cados do meu coração. De ramos muito
extensos para que novos nomes vindos de todas as par­tes venham juntar-se
aos exis­ten­tes. Uma árvore de sombras muito agra­dá­veis para

que nossa ami­zade,
seja um momento de
repouso nas lutas da vida.
Que o Natal esteja vivo em cada dia do Ano que
se ini­cia para que pos­sa­mos jun­tos viver o amor !!! (*) 

Aber­tura

  • Pre­lú­dio
  • Aco­lhida:

Outra vez nos encontramos…

Outro final de ano, mais um Natal.
A Pri­ma­vera se des­pede
para que pos­sa­mos sau­dar o Verão.

Aí vêm dias de muito sol e de muita chuva
que é pra que a gente não se esqueça
de que não há espe­rança sem dor,
nem sor­riso sem pranto,
como não há dia sem noite.

O novo não virá se o velho não se for…

  • Música
  • Cons­tru­ção da nossa árvore de Natal
    (com car­tões onde estão escri­tos os nomes de todos os/as pre­sen­tes na cele­bra­ção e o nome daque­las pes­soas que ama­mos e que gos­ta­ría­mos que fos­sem lembradas)
  • Música  e abraço da paz

Pro­cla­ma­ção

  • A voz de Deus: Gála­tas 4.4

“Vindo, porém, a ple­ni­tude do tempo, Deus enviou seu Filho, nas­cido de mulher…” 

  • Refle­xão pas­to­ral 
  • A voz do povo: expres­são comunitária

Encar­na­ção

  • Ora­ção de comunhão:

Senhor Jesus Cristo,
assim como aben­ço­aste os cinco pães
e satis­fi­zeste as cinco mil pes­soas famin­tas no deserto,
te pedi­mos que, agora, aben­çoes este pão e este cálice
e nos ali­men­tes para a vida eterna.

San­ti­fica aos que par­ti­ci­pa­rem desta mesa
e per­mite que sem­pre haja o sufi­ci­ente, não só para nós, aqui,
mas para todo o povo onde quer que se encontre.

Por­que és tu, ó Cristo, que ben­di­zes e san­ti­fi­cas a todas as coi­sas.
A ti seja a gló­ria, junto com o Pai eterno
e o Espí­rito Santo doa­dor da vida,
agora e sem­pre.
Amém.

  • Par­ti­lha da Ceia
  • Música: Enquanto Hou­ver Sol ( X )

(Titãs, Com­po­si­ção: Sér­gio Britto)

Quando não hou­ver saída
Quando não hou­ver mais solu­ção
Ainda há de haver saída
Nenhuma idéia vale uma vida
Quando não hou­ver espe­rança
Quando não res­tar nem ilu­são
Ainda há de haver espe­rança
Em cada um de nós, algo de uma criança

Enquanto hou­ver sol, enquanto hou­ver sol
Ainda haverá
Enquanto hou­ver sol, enquanto hou­ver sol

Quando não hou­ver cami­nho
Mesmo sem amor, sem dire­ção
A sós nin­guém está sozi­nho
É cami­nhando que se faz o cami­nho
Quando não hou­ver desejo
Quando não res­tar nem mesmo dor
Ainda há de haver desejo
Em cada um de nós, onde Deus colocou

Enquanto hou­ver sol, enquanto hou­ver sol
Ainda haverá
Enquanto hou­ver sol, enquanto hou­ver sol

  • Pre­ces

Ben­di­ção

  • Ora­ção final:

Deus-menino,

Vem, visita-nos neste tempo de tanta decep­ção;
pacifica-nos nesse tempo de tanta vio­lên­cia;
santifica-nos nesse tempo de tanta corrupção..

Desarma nosso cora­ção;
Desarma nossa mente;
desarma nos­sas mãos…

Envia tua bên­ção sobre nós,
Neste Natal
e no advento de cada novo dia.

Em nome da espe­rança,
E do Espí­rito da paz,
E da comu­nhão fra­terna.
Amém

  • Pos­lú­dio

* * *


Nov 24 2009

O Natal do Sol da Justiça

Luiz Car­los Ramos

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Mas para vós outros que temeis o meu nome
nas­cerá o sol da jus­tiça, tra­zendo sal­va­ção nas suas asas.
(Mala­quias 4.2.)

O Natal e a Pás­coa se cons­ti­tuem nas mais impor­tan­tes sole­ni­da­des da tra­di­ção cristã. O Natal, por­que faz refe­rên­cia à encar­na­ção do Sal­va­dor divino, na cri­ança humilde de Jesus, filho de Maria, na época em que Hero­des Anti­pas era o tetrarca da Gali­léia; e a Pás­coa, por­que reme­mora a pai­xão, morte e res­sur­rei­ção de Jesus Cristo, ocor­rida no período em que Pôn­cio Pila­tos gover­nava a Judéia.

No entanto, não se trata de mera retros­pec­tiva his­tó­rica, mas, antes, de atu­a­li­za­ção cele­bra­tiva de um acon­te­ci­mento sal­ví­fico que tem impli­ca­ções para o pre­sente e é deter­mi­nante em rela­ção ao futuro daque­les e daque­las que o cele­bram com fé.

A Pás­coa cristã é a festa mais antiga, e já era come­mo­rada no final do pri­meiro século da nossa era. O Natal é mais tar­dio, e só se fixou a par­tir do século IV, mas isso a par­tir da tra­di­ci­o­nal cele­bra­ção do dia de Epi­fa­nia (6 de janeiro), que já era come­mo­rada em mea­dos do pri­meiro século.

A Epi­fa­nia (pala­vra que sig­ni­fica “mani­fes­ta­ção”) era fes­te­jada pelos cris­tãos já no final do pri­meiro século e iní­cio do segundo (a ponto de ficar regis­trada nos Evan­ge­lhos, cf. Mt 2), como a evi­dên­cia de que o evan­ge­lho de Jesus Cristo não era uma exclu­si­vi­dade dos judeus-cristãos, mas uma mani­fes­ta­ção da graça de Deus para toda a huma­ni­dade. Por isso, recorda-se, nessa festa, a visita dos Magos, que vie­ram do Ori­ente para sau­dar o Deus cri­ança e dar-lhe pre­sen­tes; bem como o Batismo do Senhor, oca­sião em que Jesus se apre­senta publi­ca­mente como Filho de Deus; e ainda a rea­li­za­ção do seu pri­meiro mila­gre, na cidade de Caná da Gali­léia, pelo qual Jesus ini­cia publi­ca­mente seu ministério.

No con­texto romano, do iní­cio da nossa era, por influên­cia egíp­cia, havia uma grande festa popu­lar que, a pro­pó­sito do sols­tí­cio de inverno (hemis­fé­rio Norte), rea­li­zava uma série de ritu­ais dedi­ca­dos ao deus-sol. Tais ritu­ais eram rea­li­za­dos na expec­ta­tiva de que o mundo não fosse engo­lido pelas tre­vas ame­a­ça­do­ras do inverno (oca­sião em que o sol pare­cia ficar cada vez mais dis­tante, os dias mais cur­tos e as noi­tes mais lon­gas). Essa festa era cha­mada de Adven­tus Reden­to­ris e Natale Solis Invic­tus, ou a Che­gada do Reden­dor e Nas­ci­mento do Sol Invencível.

Os cris­tãos, então, “evan­ge­li­za­ram” essa festa, reinterpretando-a à luz dos escri­tos bíbli­cos. A jus­tiça divina se alteia sobre a humana, tal como des­crito capí­tulo 60 do pro­feta Isaías (a lei­tura des­ses 22 ver­sí­cu­los des­cor­tina para nós o ver­da­deiro hori­zonte natalino):

1   Dispõe-te, res­plan­dece, por­que vem a tua luz, e a gló­ria do SENHOR nasce sobre ti.   2   Por­que eis que as tre­vas cobrem a terra, e a escu­ri­dão, os povos; mas sobre ti apa­rece res­plen­dente o SENHOR, e a sua gló­ria se vê sobre ti.   3   As nações se enca­mi­nham para a tua luz, e os reis, para o res­plen­dor que te nas­ceu.   4   Levanta em redor os olhos e vê; todos estes se ajun­tam e vêm ter con­tigo; teus filhos che­gam de longe, e tuas filhas são tra­zi­das nos bra­ços.   5   Então, o verás e serás radi­ante de ale­gria; o teu cora­ção estre­me­cerá e se dila­tará de júbilo, por­que a abun­dân­cia do mar se tor­nará a ti, e as rique­zas das nações virão a ter con­tigo.   6   A mul­ti­dão de came­los te cobrirá, os dro­me­dá­rios de Midiã e de Efa; todos virão de Sabá; tra­rão ouro e incenso e publi­ca­rão os lou­vo­res do SENHOR.   7   Todas as ove­lhas de Que­dar se reu­ni­rão junto de ti; servir-te-ão os car­nei­ros de Nebai­ote; para o meu agrado subi­rão ao meu altar, e eu tor­na­rei mais glo­ri­osa a casa da minha gló­ria.   8   Quem são estes que vêm voando como nuvens e como pom­bas, ao seu pom­bal?   9   Cer­ta­mente, as ter­ras do mar me aguar­da­rão; virão pri­meiro os navios de Tár­sis para tra­ze­rem teus filhos de longe e, com eles, a sua prata e o seu ouro, para a san­ti­fi­ca­ção do nome do SENHOR, teu Deus, e do Santo de Israel, por­que ele te glo­ri­fi­cou.   10   Estran­gei­ros edi­fi­ca­rão os teus muros, e os seus reis te ser­vi­rão; por­que no meu furor te cas­ti­guei, mas na minha graça tive mise­ri­cór­dia de ti.   11   As tuas por­tas esta­rão aber­tas de con­tí­nuo; nem de dia nem de noite se fecha­rão, para que te sejam tra­zi­das rique­zas das nações, e, con­du­zi­dos com elas, os seus reis.   […]   17   Por bronze tra­rei ouro, por ferro tra­rei prata, por madeira, bronze e por pedras, ferro; farei da paz os teus ins­pe­to­res e da jus­tiça, os teus exa­to­res.   18   Nunca mais se ouvirá de vio­lên­cia na tua terra, de deso­la­ção ou ruí­nas, nos teus limi­tes; mas aos teus muros cha­ma­rás Sal­va­ção, e às tuas por­tas, Lou­vor.   19   Nunca mais te ser­virá o sol para luz do dia, nem com o seu res­plen­dor a lua te alu­mi­ará; mas o SENHOR será a tua luz per­pé­tua, e o teu Deus, a tua gló­ria.   20   Nunca mais se porá o teu sol, nem a tua lua min­guará, por­que o SENHOR será a tua luz per­pé­tua, e os dias do teu luto fin­da­rão.   21   Todos os do teu povo serão jus­tos, para sem­pre her­da­rão a terra; serão reno­vos por mim plan­ta­dos, obra das minhas mãos, para que eu seja glo­ri­fi­cado.   22   O menor virá a ser mil, e o mínimo, uma nação forte; eu, o SENHOR, a seu tempo farei isso prontamente.

Como o calen­dá­rio dos pri­mei­ros sécu­los eram muito rudi­men­ta­res, a data não era pre­cisa e podia variar entre 21 de dezem­bro e 6 de janeiro. Com o pas­sar do tempo, essa fes­ti­vi­dade foi adqui­rindo con­tor­nos mais cla­ros, e convencionou-se o dia 25 de dezem­bro como sendo o dia do nas­ci­mento de Jesus e o dia 6 como o ápice da festa, cul­mi­nando com alu­são à visita dos Magos e ao Batismo do Senhor.

Os que cri­ti­cam a come­mo­ra­ção do Natal, acusando-o de ser uma festa pagã, devem ser adver­ti­dos de que não há uma única festa reli­gi­osa sequer que seja abso­lu­ta­mente genuína e exclu­si­va­mente cristã.

E não deixa de ser curi­oso o fato de que parece haver menos resis­tên­cia a cer­tas come­mo­ra­ções, às quais não há refe­rên­cia bíblica explí­cita (do tipo: Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Cri­an­ças, Dia do Índio, Dia da Pátria) do que àque­las com ampla fun­da­men­ta­ção nas Escri­tu­ras (tais como: Natal, Pás­coa e Pentecostes).

O enten­di­mento das efe­mé­ri­des depende do olhar do intér­prete: para uns (aque­les que crêem que os pode­res “do mundo” são mais for­tes que o “rei­nado de Deus”), trata-se da paga­ni­za­ção do cris­ti­a­nismo; para outros (que crêem na força trans­for­ma­dora do Evan­ge­lho), trata-se da cris­ti­a­ni­za­ção do paga­nismo. A ques­tão está na fé de quem lê a realidade.

Natal “ver­sus” Páscoa

A rela­ção entre o Natal e a Pás­coa pode ser mais bem com­pre­en­dida se tra­çar­mos um para­lelo entre os ele­men­tos comuns e os con­tras­tan­tes que ligam as duas festas:

  • Jesus nasce numa gruta empres­tada em Belém e é sepul­tado num túmulo empres­tado por José de Arimatéia;
  • Comemora-se a noite (vés­pera) de Natal, que remete ao Sol da Jus­tiça, em pleno inverno e a manhã (madru­gada) da Pás­coa, que cele­bra a pri­meira lua-cheia da primavera
  • Jesus nasce no inverno que é sím­bolo de morte e morre na pri­ma­vera, que é sím­bolo da vida
  • Ao nas­cer, é colo­cado numa man­je­doura de madeira para mor­rer é pre­gado numa cruz igual­mente de madeira
  • Como bebê é envolto em fai­xas na morte em um len­çol (sudário)
  • Pas­to­res pobres tes­te­mu­nham sua che­gada mal­fei­to­res cru­ci­fi­ca­dos tes­te­mu­nham sua morte
  • Anjos can­to­res anun­ciam seu nas­ci­mento: “gló­ria a Deus nas altu­ras e paz na terra…” anjo anun­ci­a­dor anun­cia a Maria Mada­lena sua res­sur­rei­ção: “ele não está aqui, mas ressuscitou”;
  • A vir­gem, no nas­ci­mento a peca­dora (Maria Mada­lena), na ressurreição;
  • 25 de dezem­bro (Natal) é data fixa, no entanto, pode cair em qual­quer dia da semana enquanto a pri­meira lua-cheia da pri­ma­vera (Pás­coa), que é data móvel (podendo ocor­rer entre 21 de março e 23 de abril), é cele­brada sem­pre no domingo mais próximo;
  • O Natal tem influên­cia pagã (egíp­cia) a Pás­coa tem ori­gem Judaica (e que marca a liber­ta­ção do Egito);
  • O Natal é pre­ce­dido de qua­tro sema­nas de pre­pa­ra­ção, o cha­mado período do Advento a Pás­coa é ante­ce­dida por qua­renta dias de ora­ção, cha­ma­dos Quaresma;
  • A festa do Natal se estende até a Epi­fa­nia, que se refere à mani­fes­ta­ção de Deus a todas as nações que vêm ao seu encon­tro a festa da Pás­coa se estende até o Pen­te­cos­tes, oca­sião em que os dis­cí­pu­los (igreja) saem ao encon­tro das nações para anunciar-lhes as “mara­vi­lhas de Deus”, dirigindo-se a elas em suas dife­ren­tes lín­guas maternas.
  • Visita dos magos do Ori­ente, na Epi­fa­nia, e tes­te­mu­nhas de todo o “mundo conhe­cido”, no Pentecostes;
  • Por­tanto, o ciclo do Natal faz omo­vi­mento das tre­vas para a luz e no ciclo da Pás­coa par­ti­mos das cin­zas para o fogo (Pentecostes).

Trata-se, por­tanto de um tempo que foi trans­for­mado, não mera­mente pelas pala­vras, mas pela Pala­vra, no dia em que “o Verbo se fez carne e habi­tou entre nós, cheio de graça e de ver­dade, e vimos a sua gló­ria, gló­ria como do uni­gê­nito do Pai” (Jo 1.14).

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O Natal do Sol da Jus­tiça by Luiz Car­los Ramos is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Cri­a­ção de Obras Deri­va­das 2.5 Bra­sil License.