Dec 22 2009

Olhos de Menino

(Epi­fa­nia)

Luiz Car­los Ramos

Numa época de tre­vas,
quando todos anda­vam cabis­bai­xos e deses­pe­ran­ça­dos,
estra­nhos via­jan­tes con­tem­pla­vam o céu.

Seus olhos vas­cu­lha­vam a escu­ri­dão infi­nita
enquanto seus quei­xos apon­ta­vam o horizonte.

Um pequeno ponto lumi­noso na vas­ti­dão
tornou-se razão sufi­ci­ente para uma longa jornada.

Par­ti­ram do Ori­ente.
Olhos nas estre­las,
pés na estrada…
… rumo ao horizonte.

— Que haverá no hori­zonte?
Quando lá che­ga­vam des­co­briam a res­posta:
 — Outro hori­zonte!

O povo con­ti­nu­ava a viver em tre­vas,
enquanto os via­jan­tes seguiam
gui­a­dos pelos peque­nos pon­tos lumi­no­sos
naquele mar de escuridão.

Tanto anda­ram
que um dia chegaram.

Tinham diante de si a porta entre­a­berta de um case­bre.
Com aque­les olhos acos­tu­ma­dos a pro­cu­rar luz na escu­ri­dão,
entra­ram na casa escura.

Lá esta­vam…
… duas con­tas bri­lhando no meio das trevas.

Aproximaram-se.
Era Ele! Deus!
Mas com olhos de menino… bri­lhando no meio da noite.

Deram-lhe pre­sen­tes.
Deus brin­cou com eles.

Vol­ta­ram feli­zes por­que brin­ca­ram com Deus.

Diz-se que, desde então, aque­les via­jan­tes tam­bém se tor­na­ram meni­nos;
e que quando vol­ta­ram para o seu povo, que ainda vivia nas tre­vas,
seus olhos tam­bém bri­lha­vam,
cada vez mais inten­sos como estre­las ao anoitecer…

… por­que tanto mais escura a noite, mais bri­lham as estrelas.

E o povo que andava em tre­vas foi ilu­mi­nado,
e aos que viviam na região da som­bra da morte
resplandeceu-lhes a luz (cf. Is 9.2).

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Olhos de menino (epi­fa­nia) by Luiz Car­los Ramos is licen­sed under a Cre­a­tive Com­mons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Cri­a­ção de Obras Deri­va­das 2.5 Bra­sil License.


Dec 13 2009

“Deus, quando vier, que venha armado”

Luiz Car­los Ramos
(Escrito para o Natal de 2005)

 

 “Vindo, porém, a ple­ni­tude do tempo, Deus enviou seu Filho, nas­cido de mulher…” (Gála­tas 4.4) 

“Exul­tai, vós que sois jus­tos, por­que aquele que traz jus­tiça nas­ceu neste dia. Exul­tai vós que estais fra­cos e vós que estais enfer­mos, pois aquele que traz a cura nas­ceu neste dia. Exul­tai, vós que estais em cati­veiro, por­que o vosso ver­da­deiro Senhor nas­ceu neste dia. Exul­tai, vós que sois livres, por­que aquele que traz liber­ta­ção, nas­ceu neste dia. Exul­tai, todos os cris­tãos, por­que Jesus Cristo nas­ceu neste dia. Seu nas­ci­mento não tem fim e prin­ci­pia onde ter­mina.” (Santo Agostinho)

Para qual­quer um, o tempo pare­ce­ria abso­lu­ta­mente impró­prio. Não se podia des­cer de Jeru­sa­lém a Jericó sem se cor­rer o risco de ser assal­tado ou ser vítima de ten­ta­tiva de latro­cí­nio. Era difí­cil con­se­guir um emprego, fosse de car­pin­teiro ou pes­ca­dor, até mesmo um bico de bóia-fria. As esca­da­rias e os cru­za­men­tos eram dis­pu­ta­dos por molam­bos que implo­ra­vam esmo­las. Os que tinham algum recurso, o iam per­dendo aos pou­cos para a ganân­cia dos cole­to­res de impos­tos. Revol­tas e quebra-quebras pipo­ca­vam por toda parte. Os cida­dãos anda­vam arma­dos. A polí­cia era vio­lenta. A pena de morte exi­bia com orgu­lho seus tro­féus no alto das coli­nas ensangüentadas.

Ao que tudo indica, Deus, se qui­sesse visi­tar a terra naquela época, deve­ria seguir o con­se­lho do Rio­baldo, que dizia: — Deus, mesmo, quando vier ao ser­tão, que venha armado.

Mas não foi assim. Para os estra­nhos e tei­mo­sos pro­fe­tas bíbli­cos, aquele tempo ino­por­tuno era, na ver­dade, a ple­ni­tude dos tem­pos, o kai­rós, o tempo exato para que Deus irrom­pesse na his­tó­ria. E, a des­peito de todas as con­di­ções des­fa­vo­rá­veis, “o verbo se fez carne e habi­tou entre nós” (Jo 1.14).

Deus nas­ceu desar­mado. Sendo a luz do mundo, tudo o que se via eram dois olhos negros, bri­lhando no meio da noite. Sendo Pala­vra de Deus e Verbo divino, tudo o que sua boca podia fazer era cho­rar e sugar satis­feito o leite materno.

Sim, Deus nas­ceu desar­mado. Lá está ele! Aquele, a quem os céus não podem con­ter, nasce do ven­tre de uma mulher pobre e aconchega-se no calor daque­les bra­ços de mãe. Sendo o Senhor do uni­verso, hospeda-se em uma estre­ba­ria. Tendo a his­tó­ria nas mãos, dorme numa manjedoura.

De fato, Deus veio num tempo ino­por­tuno para os que lucram com as armas, com os juros e com a morte, por­que a sua che­gada pro­põe um basta! a tudo isso. Para nós, que que­re­mos a paz, que alme­ja­mos a jus­tiça, e sus­pi­ra­mos pela vida, Deus nos vem em boa hora. Por­que nós tam­bém clamamos: — Basta! Não que­re­mos mais tanta vio­lên­cia. Não que­re­mos mais tanta cor­rup­ção. Não supor­ta­mos mais tanta injus­tiça. Não que­re­mos mor­rer indig­na­mente. Que­re­mos a ple­ni­tude dos tem­pos. O tempo da graça. O tempo de Deus…

É desse tempo que nos fala, sem­pre de novo, o Natal; e é ele que anun­cia, sem­pre de novo, o Ano Novo. Sim, Deus con­ti­nua a nas­cer entre nós. Mas não se deve procurá-lo entre os que estão  arma­dos até os den­tes, nem mesmo entre os que ocu­pam as tri­bu­nas dos poderosos.

Ele estará sem­pre por perto a nos olhar com dois olhos negros e bri­lhan­tes, e a nos dizer, sem pala­vras, que a vida é uma cri­ança frá­gil e vul­ne­rá­vel que pre­cisa ser emba­lada com ter­nura, pro­te­gida com cui­dado e ali­men­tada com carinho.

Que, neste Natal, o Filho de Deus, que por amor, se fez filho do homem, nos dê a graça de nos tor­nar­mos, todos, irmãos e irmãs carís­si­mos e, por­tanto, filhas e filhos do Deus altíssimo.

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Dec 5 2009

“Um menino nasceu. O mundo tornou a começar”*

Luiz Car­los Ramos

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Foi numa noite de lua, nas vere­das do grande ser­tão… Rio­baldo atra­ves­sava os ermos da caa­tinga quando ouviu os gemi­dos de par­tu­ri­ente que vinham de um misér­rimo case­bre, enter­rado na soli­dão. A mulher estava só, com suas dores e seu ven­tre inchado.

Não obs­tante suas andan­ças o tives­sem pre­pa­rado mais para agente fune­rá­rio que para obs­te­tra, naquela noite o jagunço não teve esco­lha, a força irre­sis­tí­vel da vida o con­ver­tera em par­teira. Foi assim que, pelas mãos de um jagunço, no fundo do ser­tão, mais uma cri­ança “sal­tou pra den­tro da vida”**.

A essa altura da nar­ra­tiva, ao som do choro do recém-nascido, Gui­ma­rães Rosa colo­cou as seguin­tes pala­vras na boca do exta­si­ado Rio­baldo: “Um menino nas­ceu. O mundo tor­nou a come­çar. E saí para as luas…” O mila­gre do reco­meço do mundo acon­tece a cada parto. Sim, o mundo reco­meça todas as vezes que, ven­cendo tan­tas for­ças con­trá­rias, a vida sobrevive.

Nas vere­das dos nos­sos urba­nos, mas não menos peri­go­sos, ser­tões, tornamo-nos jagun­ços  cada vez mais cruéis, rudes e sel­va­gens. Extorquimo-nos mutu­a­mente, violentamo-nos, mutilamo-nos, agredimo-nos, ignoramo-nos, executamo-nos com fúria tal que dei­xa­ria per­plexo o mais impi­e­doso cangaceiro.

Em noi­tes enlu­a­ra­das, como a que banhou aquele case­bre, tudo pode acon­te­cer. Nos­sas cren­di­ces nos dizem que, em tais oca­siões, há homens que viram feras ter­rí­veis, e que vagam pela noite des­ti­lando hor­ror e morte. Entre­tanto, nesta his­tó­ria, o luar do ser­tão trans­for­mou Rio­baldo de uma maneira total­mente inu­si­tada: fez daquele ser, embru­te­cido pela cru­eza do can­gaço, um anfi­trião terno, pronto para aco­lher nos bra­ços a rein­ven­ção do mundo.

O Natal é isso: Dei­xar­mos que as estre­las e a lua nos tran­subs­tan­ciem em anfi­triões da vida. Anoi­te­ce­mos bru­tas feras, para ama­nhe­cer­mos par­tei­ras da huma­ni­dade. Faça­mos desta uma noite feliz, pois nas­ceu mais uma cri­ança e o mundo tor­nou a começar.

Feliz Natal!

 (Escrito em dezem­bro de 2004)

 

 

* Excla­ma­ção de Rio­baldo, per­so­na­gem de João Gui­ma­rães Rosa, no romance Grande Ser­tão Vere­das.

** Esta expres­são é de João Cabral de Melo Neto, em seu impa­gá­vel Morte e Vida Severina.


Dec 3 2009

O sagrado se fez gente

Luiz Calor Ramos

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Não, moço. Não foi uma noite tão feliz. Fazia frio. O vento cor­tante feria os lábios, res­se­cava os ossos.

Os que vie­ram recensear-se abrigavam-se como podiam. Não era tanto por mal­dade que os mora­do­res do lugar não ofe­re­ciam hos­pe­da­gem. É que eles mes­mos viviam tão modes­ta­mente que era com difi­cul­dade que tapa­vam as fres­tas e aninhavam-se em seus case­bres. Ade­mais, era muita gente de uma só vez na pro­vi­cin­ci­ana e pacata Beth-Lehem.

Eu estava ao relento, sob as estre­las de um céu gelado-escuro, como de cos­tume. Não, não. Não é que eu seja uma cri­a­tura soturna, boê­mia ou român­tica. Sou só um pastor.

Isto é, sou sem-teto, sem-terra, sem edu­ca­ção, sem-eira-nem-beira… Cuido de ove­lhas, só isso — esses ani­mais frá­geis e melan­có­li­cos, quase tanto quanto eu.

A noite era como mui­tas outras — por­que, na ver­dade, tudo é igual, a gente é que é sem­pre dife­rente. Havia estre­las, havia vaga-lumes, havia sons ao longe: mugi­dos, lati­dos, cho­ros de criança…

Na mes­mice do balanço das árvo­res, acon­te­ceu alguma coisa dife­rente aos meus olhos. De repente, as estre­las de sem­pre pare­ciam bri­lhar mais que o nor­mal. Meus ouvi­dos sin­to­ni­za­ram um choro de recém-nascido. As folhas das árvo­res pare­ciam música ange­li­cal. Os piri­lam­pos pare­ciam bri­lhar gloriosamente.

Con­ti­nuei a cami­nho do aprisco. As ove­lhas, sem per­gun­tar nada, me seguiam tran­qui­las e paci­en­tes. O choro de cri­ança ficava mais forte e pude per­ce­ber de onde vinha.

Uma des­sas famílias-sem-nada havia ocu­pado uma das gru­tas onde os ani­mais se abri­ga­vam e ali dis­pu­ta­vam acon­chego junto a bois e ovelhas.

O pai tinha o rosto sul­cado pelo suor, fran­zido pelo tra­ba­lho rude. A mãe pare­cia mais a irmã do recém-nascido, tão joven­zi­nha. No rosto, a per­ple­xi­dade de quem con­tem­pla o maior dos mis­té­rios: a Vida. Nos lábios, o sor­riso tímido. Nos olhos mare­ja­dos, as gotas sal­ga­das que trans­bor­da­vam daque­las jane­las da alma.

Entrei deva­gar, quase solene. Tudo era tão igual, mas ao mesmo tempo tão radi­cal­mente dife­rente. Era como se eu não fosse eu. Meus olhos viam o que jamais haviam visto. Meus ouvi­dos se encan­ta­vam com sons tão cor­ri­queiro como se os ouvis­sem pela pri­meira vez.

Ajoelhei-me, por­que me dei conta de que estava diante do mis­té­rio da Vida.

Cho­rei, por­que tudo era tão sin­ge­la­mente fantástico.

Orei, por­que, naquele momento, per­cebi que estava face-a-face com o sagrado que habita o cotidiano.

Não. Não foi uma noite tão feliz. Con­ti­nu­ava frio. O cheiro de esterco ainda era forte. A palha pini­cava o recém-nascido. As rou­pas da mãe esta­vam sujas de sangue.

Eles, como eu, con­ti­nu­a­vam sem teto, sem aga­sa­lho, sem nada. Cho­ra­vam sor­rindo. Sor­riam cho­rando. Tudo era exa­ta­mente igual. A única coisa que já não era a mesma igual éramos eles e eu. Por­que nos­sos olhos viam não uma noite feliz no céu, mas o ama­nhe­cer de um novo dia de paz na terra.

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Aug 26 2009

Conversão da cabeça aos pés

Refle­xões sobre a trans­for­ma­ção da Igreja e do mundo, a par­tir de Atos 3.1 – 10

Luiz Car­los Ramos
(Em memó­ria do Rev. Elias Abraão,
 quem pri­meiro me con­ver­teu a este texto)

Não há dúvida de que Pedro e João eram homens pie­do­sos. O texto mos­tra que eles ora­vam três vezes ao dia no tem­plo. Não obs­tante, muita coisa ainda pre­ci­sava mudar em suas vidas.

Senão, veja­mos: o texto tam­bém diz que havia um coxo que era levado dia­ri­a­mente à porta do tem­plo para pedir esmo­las, e que tinha mais de 40 anos (cf. 4.22). Isso nos faz pen­sar que Jesus deve ter cru­zado por ele em outras oca­siões quando visi­tou Jeru­sa­lém. Daí surge a per­gunta: Por que, então, Jesus não o curara antes?

“Pedro e João subiam ao tem­plo para a ora­ção da hora nona”, i.e., às três horas da tarde. Isso tam­bém não é intri­gante? Pedro e João iam dia­ri­a­mente ao tem­plo, logo, cru­za­vam com o coxo todos os dias. E mais, naquele mesmo dia, já era a ter­ceira vez que Pedro e João pas­sa­vam pelo coxo. A pri­meira teria sido às nove horas e a segunda ao meio-dia, no tra­jeto rumo ás suas ora­ções diá­rias. Por que só agora Pedro e João para­ram para falar com o  coxo? Por que não o cura­ram antes? Parece que, de fato, Pedro e João nunca tinham visto aquele homem que, para nós, tipi­fica todas aque­las pes­soas a quem a Igreja deve alcan­çar com a men­sa­gem da salvação.

A nar­ra­tiva de Lucas deixa claro que foi pre­ciso haver pri­meiro a con­ver­são da “Igreja” (Pedro e João), para que depois hou­vesse a con­ver­são do “mundo” (coxo). Tal con­ver­são se deu em um pro­cesso fas­ci­nante: pri­mei­ra­mente foi neces­sá­ria a…

… Con­ver­são dos olhos

A reda­ção de Lucas repete tão insis­ten­te­mente os ver­bos olhar, fitar e ver que nos deixa des­con­fi­a­dos. Seria isso uma espé­cie de gagueira lite­rá­ria do autor ou, antes, uma admi­rá­vel trama nar­ra­tiva que pre­tende cha­mar a nossa aten­ção. Lucas parece inte­li­gente demais para optar­mos pela gagueira literária.

Então, veja­mos a expres­são: “Vendo o coxo a Pedro e a João que entra­vam no tem­plo”. Este tipo de olhar carac­te­riza o olhar dis­pli­cente, é o ver sem enxer­gar. Com freqüên­cia a igreja olha o mundo da mesma forma. É por isso que, não raro, como Pedro, tam­bém nós pas­sa­mos por cima do “campo mis­si­o­ná­rio”, quase todos os dias, sem notá-lo – e faze­mos isso por tanto tempo.

Então, “Pedro fitando-o jun­ta­mente com João…”. O verbo fitar sig­ni­fica, lite­ral­mente, olhar para den­tro (com olhar pene­trante). Daí pode­mos infe­rir que, até esse momento, o olhar da igreja (repre­sen­tada por Pedro) era um olhar super­fi­cial. E um olhar super­fi­cial só vê, obvi­a­mente, a super­fí­cie: um homem sujo, mal-cheiroso, de aspecto repug­nante… Mas, gra­ças a Deus, o olhar de Pedro se con­ver­teu. Ele con­se­guiu olhar para den­tro do homem, e viu, ali, uma pes­soa cri­ada à ima­gem e seme­lhança de Deus que deve­ria ser amada, res­pei­tada, e cuja dig­ni­dade deve­ria ser resgatada.

Assim, Pedro lhe disse: “Olha para nós”. Isso mos­tra que, em geral, o olhar do mundo tam­bém é super­fi­cial em rela­ção à Igreja. Com freqüên­cia, as pes­soas espe­ram da Igreja ape­nas uma “esmola”: i.e., emprego, cura, casa­mento… Mas isso não passa de cos­mé­tica superficial.

Por isso, Pedro cor­rige o olhar do homem (e emprega o mesmo verbo uti­li­zado para nar­rar o olhar de Jesus para o “jovem rico”, em Mc 10.21): “olha para den­tro de mim, não sou Pedro-o-primeiro-papa, não sou rico, não tenho prata nem ouro. Na ver­dade eu sou aquele que negou a Jesus três vezes, sou aquele que cor­tou a ore­lha de um ofi­cial, sou aquele que quis des­truir com fogo a uma cidade inteira, enfim, não sou nada, não tenho nada, mas o que tenho te dou: o nome de JESUS”.

Só que não basta mudar o olhar, é pre­ciso que haja, ainda a…

… Con­ver­são das mãos

Imaginem-se no lugar do coxo, ouvindo Pedro dizer: “levanta-te e anda”. Pen­sa­ría­mos: “Ih, o papa pirou! Ele não per­ce­beu que eu nasci com limi­ta­ções físi­cas?” e con­ti­nu­a­ría­mos nossa vida, sen­ta­dos, esmo­lando à porta do templo.

Pedro pre­ci­sou ser mais radi­cal: “e, tomando-o pela mão direita, o levan­tou”. A expres­são mão direita é car­re­gada de sig­ni­fi­ca­dos. Na tra­di­ção bíblica, reserva-se a direita para as pes­soas mais hon­ra­das, para aque­las que temos em mais alta conta. E, cá para nós, não dá pra levan­tar um defi­ci­ente físico só com um aperto de mão. Foi pre­ciso mais. Foi pre­ciso que Pedro e João se abai­xas­sem, o abra­ças­sem, sen­tis­sem de perto o seu cheiro e o sus­ten­tas­sem por algum tempo. Isso indica que Pedro e João fica­ram “con­ta­mi­na­dos”, pois a reli­gião de então con­si­de­rava ritu­al­mente impu­ros os defi­ci­en­tes físi­cos – e os impe­diam de entrar no tem­plo (por isso o coxo ficava “à porta”) – e con­si­de­rava igual­mente impu­ros aque­les que os tocassem.

É aqui que con­tem­pla­mos um qua­dro mara­vi­lhoso: a Igreja estende a mão ao mundo e o mundo estende a mão à igreja. Como na pin­tura A Cri­a­ção, de Miche­lan­gelo, na Capela Sis­tina: repre­sen­ta­ção terna do encon­tro divino-humano.

E é de mãos dadas que a Igreja e o mundo pas­sam pela…

… Con­ver­são dos pés

Lucas conta que “logo os pés e arte­lhos [do coxo] se fir­ma­ram, e andou, e entrou com eles no tem­plo, andando, e sal­tando, e lou­vando a Deus”. Eis a mis­são da Igreja: aju­dar os seres huma­nos a se colo­ca­rem em pé nova­mente; a res­ga­ta­rem sua dig­ni­dade; a serem capa­zes de andar pelos seus pró­prios pés. Não cabe à Igreja car­re­gar as pes­soas (quer seja com seu pater­na­lismo, quer seja com sua repres­são mora­lista). Antes, seu papel é vê-las madu­ras, livres das supers­ti­ções, entrando por seus pró­prios pés na pre­sença de Deus.

Note­mos que o homem não entrou no tem­plo lou­vando a Pedro ou a João, nem a reli­gião que eles pro­fes­sa­vam. O homem pôde lou­var a Deus por­que os após­to­los não anun­ci­a­ram a si mes­mos. Antes, a Igreja reve­lou o olhar amo­roso de Cristo pelos excluí­dos, e estendeu-lhes os bra­ços aco­lhe­do­res de Deus.

Con­clu­são

Note-se que a ora­ção emol­dura esta nar­ra­tiva bíblica. A mis­são começa e ter­mina com ora­ção. A litur­gia é a “fonte e o ápice” da mis­são. Por isso ora­mos pela con­ver­são do mundo. Por isso ora­mos pela con­ver­são da Igreja.

Mas ainda nos intriga a per­gunta: Por que Jesus não havia curado esse homem antes? Cer­ta­mente Jesus não pre­ci­sava ter os seus olhos con­ver­ti­dos, nem as suas mãos e, tam­pouco, os seus pés.

Tal­vez Jesus não tenha curado a todos os enfer­mos que encon­trou, pela mesma razão que não ali­men­tou a todos os famin­tos, nem evan­ge­li­zou a todos os povos. Por­que isso Cristo quer fazer com a nossa cola­bo­ra­ção. Curar o men­digo da porta For­mosa do tem­plo era tarefa para Pedro e João, e Jesus não faria isso no lugar deles.

Da mesma forma, Pedro e João tam­bém não cura­ram, nem evan­ge­li­za­ram todas as pes­soas, mesmo depois dessa con­ver­são mar­cante. Ainda há muito tra­ba­lho a ser feito, e parte dele com­pete a nós – nin­guém o fará em nosso lugar! Entre­tanto, só pode­re­mos cum­prir nossa mis­são se, ver­da­dei­ra­mente, nos con­ver­ter­mos inte­gral­mente, da cabeça aos pés.

Se o pró­prio Pedro e até mesmo João pre­ci­sa­vam converter-se, que se dirá cada um de nós? Você gos­ta­ria de ganhar, hoje, novos olhos, novas mãos e novos pés? Eu quase nada posso lhe dar, mas o que tenho isso lhe dou: os meus olhos, as minhas mãos, os meus pés e o nome de Jesus.

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