Feb 11 2010

O ciclo pascal

 Luiz Car­los Ramos

O Ciclo Pas­cal — que com­pre­ende a Qua­resma, a Semana Santa, o Tempo Pas­cal pro­pri­a­mente dito, e encerra-se com o Pen­te­cos­tes — formou-se a par­tir de um pro­cesso de refle­xão e sis­te­ma­ti­za­ção do cris­ti­a­nismo que vai do pri­meiro ao quarto século da era Cristã. A par­tir deste ciclo se cons­ti­tuiu todo o calen­dá­rio litúrgico.

Nas comu­ni­da­des pri­mi­ti­vas, era comum a reu­nião no pri­meiro dia de cada semana na qual celebrava-se a memó­ria de Jesus. A ori­gem do culto cris­tão remonta a essa “Pás­coa Sema­nal”, que ocor­ria no cha­mado “Dia do Senhor”.

Em boa parte por influên­cia do judaísmo cris­tão, desenvolveu-se uma cele­bra­ção anual da Pás­coa como um “grande dia do Senhor”, cuja festa se pro­lon­gava por cinqüenta dias, sendo o último, o dia de che­gada do Espí­rito, o Pen­te­cos­tes Cris­tão, isso já no século II.

No século IV, desenvolveu-se a tra­di­ção de revi­ver e refle­tir de um modo mais sis­te­ma­ti­zado, os momen­tos da pai­xão, isso deu ori­gem às cele­bra­ções da Semana Santa. Desde o século III as vés­pe­ras da Pás­coa já eram dias de refle­xão. Os cate­cú­me­nos que por dois anos vinham sendo pre­pa­ra­dos, agora eram acom­pa­nha­dos por toda a comu­ni­dade. Inspirando-se nos qua­renta dias de pre­paro de Jesus para seu minis­té­rio, nas­ceu o período da qua­resma. Assim, em torno da cele­bra­ção da morte e res­sur­rei­ção de Jesus, desenvolveu-se todo o Ciclo Pas­cal do Calen­dá­rio Litúr­gico Cris­tão, mar­cado pela peni­tên­cia e con­fis­são, mas tam­bém pela ale­gria e exul­ta­ção do cru­ci­fi­cado e ressuscitado.

A Qua­resma é o período no qual se enfa­tiza a impor­tân­cia da con­tri­ção, do pre­paro e da con­ver­são. Inicia-se no qua­dra­gé­simo dia antes da Pás­coa (não se con­tam os domin­gos). O iní­cio na Quarta-feira de Cin­zas retoma à tra­di­ção bíblica do arre­pen­di­mento com cin­zas e ves­tes de saco (Jn 3.5 – 6). É um momento opor­tuno para refle­tir sobre a con­fis­são e o valor do per­dão de Deus.

Sua espi­ri­tu­a­li­dade enfa­tiza momen­tos de pre­paro na his­tó­ria bíblica geral e da vida de Jesus:

  • Qua­renta dias de Jesus no deserto (Mt 4.2; Lc 4.1ss);
  • Qua­renta dias de Moi­sés no Sinai (Êx 34.28);
  • Qua­renta anos do povo no deserto (Êx 16.35);
  • Elias em dire­ção ao Horeb (1Rs 19.8).

A Semana Santa tem iní­cio no Domingo de Ramos, cele­bra­ção de Cristo como o Mes­sias, sal­va­dor dos pobres, o rei dos humil­des. Reflete-se, nessa semana, passo a passo, os últi­mos momen­tos da vida de Jesus.

Este é o momento da vigí­lia de pre­paro para a ressurreição.

Sua espi­ri­tu­a­li­dade chama-nos a aten­ção para os momen­tos finais de Jesus até o ápice de sua paixão:

  • A Santa Ceia (Mt 26.17 – 30);
  • O Lava-pés (Jo 13.1 – 17);
  • Jesus no Get­sê­mani (Mt 26.36 – 46; Mc 14.26 – 31);
  • O jul­ga­mento, sepul­ta­mento e a cru­ci­fi­ca­ção (Mt 27; Mc 15; Lc 23; Jo 19).

A Pás­coa¸ pro­pri­a­mente, é a festa da res­sur­rei­ção e da liber­ta­ção. Um novo Êxodo ocorre, e a huma­ni­dade passa do cati­veiro da morte para a vida.

Sua sole­ni­dade pode iniciar-se já na Quinta-Feira Santa (ins­ti­tui­ção da ceia), que dá iní­cio ao cha­mado Trí­duo Pas­cal. Con­tudo a cele­bra­ção da res­sur­rei­ção começa com uma vigí­lia na noite de sábado encon­trando sua ple­ni­tude no rom­per da aurora do Domingo da Pás­coa, quando Cristo é lem­brado como o sol da jus­tiça que traz a luz da nova vida, na ressurreição.

A espi­ri­tu­a­li­dade nor­te­a­dora da Pás­coa aponta para a res­sur­rei­ção nos mais vari­a­dos rela­tos das comu­ni­da­des do século I d.C.:

  • A res­sur­rei­ção (Mt 28.1 – 20; Mc 16.1 – 8; Lc 24.1 – 12; Jo 20.1 – 18; At 1.14);
  • Cân­ti­cos Pas­cais (Sl 113 ao 118 e Êx 12).

Entre os hebreus, era comum a cele­bra­ção da cha­mada “festa das sema­nas” ou Pen­te­cos­tes, isso por­que ela se dava sete sema­nas, ou cinqüenta dias, após a Pás­coa. Nela, o povo dava gra­ças ao Senhor pela colheita. Mais tarde, adqui­riu mais uma dimen­são cele­bra­tiva, a da pro­cla­ma­ção da lei (ins­tru­ção) no Sinai, cinqüenta dias após a liber­ta­ção do Egito.

Na era cristã, o Pen­te­cos­tes tornou-se o último dia do ciclo pas­cal, quando celebra-se a che­gada do Espí­rito Santo como aquele que atu­a­liza a pre­sença do res­sus­ci­tado entre nós, dando força para que as comu­ni­da­des sejam tes­te­mu­nhas de Jesus na história.

A espi­ri­tu­a­li­dade que nos ori­enta nesse período fala da pre­sença conso­ladora do Espí­rito que semeia nos cora­ções a espe­rança do Reino de Deus e nos impul­si­ona para a missão:

  • Festa das sema­nas (Êx 34.22; Lv 23.15);
  • Jesus pro­mete o Con­so­la­dor (Jo 16.7);
  • Jesus res­sus­ci­tado sopra seu Espí­rito (Jo 20.22);
  • A che­gada do Espí­rito Santo no dia de Pen­te­cos­tes (At 2).