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T e x t o s & T e x t u r a s

A criança da Bíblia

Introdução

Há muitas referências dramáticas envolvendo crianças na Bíblia. Dentre as mais terríveis estão os relatos de crimes hediondos e massacres cometidos contra elas (Nm 31.17), ódios incontidos (Sl 137.9), atitudes estúpidas e inconcebíveis (vd. 2Rs 2.23-25; Jz 11.30-40). Note que não me refiro aqui  ao que as crianças do povo de Deus sofreram, mas ao que este mesmo povo cometeu contra suas próprias crianças e  contra as crianças dos povos vizinhos.

Por que a Bíblia preservaria tais relatos, dos quais hoje temos tanta vergonha? Seria para que aprendêssemos que, mesmo em nome de Deus, podemos ser tão cruéis, até com os mais inocentes? Seria para nossa advertência? Para que nunca mais cometêssemos crimes como esses?

Levando-se em conta que, no cômputo geral, a grande ênfase das páginas da Bíblia é justamente a busca da superação de tais práticas inaceitáveis, a impressão que se tem é que, sim!, esses relatos foram mesmo preservados, nas páginas das Sagradas Escrituras, para nos servirem de alerta e de convocação para sua superação.

Analisemos mais de perto os padrões recorrentes, nos relatos bíblicos, nos quais as crianças são os sujeitos, as protagonistas.

Segundo Joseph Campbell[1], certas circunstâncias da infância são determinantes para a constituição de qualquer herói, mitológico ou não: nascimento miraculoso, abandono, orfandade, deserção, ameaças, perseguição, feitos extraordinários e, o maior de todos, a geração divina e mesmo o nascimento virginal: “Há, então, uma tradição de mitologias [Ulisses, Buda, Vyasa, Krishna…, Jesus] envolvendo o progenitor espiritual e o filho que precisa ir em busca desse pai”  (CAMPBELL, Joseph. Isto és tu: Redimensionando a Metáfora Religiosa. São Paulo: Landy Editora, 2008. p. 65).

Com os heróis bíblicos não foi diferente. Vejamos alguns deles, para mencionarmos apenas os mais conhecidos, envolvendo as circunstâncias extraordinárias em torno da sua natividade (paradigma do “nascimento virginal”), da perseguição sofrida (paradigma do “massacre dos inocentes”) e dos feitos extraordinários da criança bíblica (paradigma da “criança como mestre”):

Comecemos cosiderando os relatos quanto à natividade e à perseguição da criança bíblica, isto é:

Os paradigmas do “nascimento virginal” e do “massacre dos inocentes”

As primeiras crianças bíblicas só podem ter sido Adão e Eva. Todo mundo pensa que eles já nasceram adultos, mas não há nenhuma prova científica disso. Se Deus sempre quis ter filhos, não perderia a chance de tê-los desde bebês. Prova disso é que andavam nus, como faz toda criança, e não se envergonhavam. Depois que cresceram… bem, aí é outra estória. Brincadeiras à parte, notemos o padrão estabelecido: Geração divina, nascimento extraordinário (do barro/costela), feitos surpreendentes (comeram do fruto proibido), foram mortalmente ameaçados (pela serpente), são exilados em um mundo hostil e inóspito (expulsão do paraíso), são engravidados de uma saudade sem fim de um paraíso a ser reconquistado (germe da esperança messiânica). Desde então esse padrão se repediu, não só na história bíblica, em particular, como na história da humanidade, em geral.

Mas detenhamo-nos por ora em algumas das personagens bíblicas mais conhecidas.

  • No gênesis da história da gênese do povo de Israel, está Isaque, filho de mulher estéril, que escapa, por intervenção divina, do sacrifício infanticida, cena recorrente em muitas das culturas primevas — a despeito disso, há de tornar-se um dos três grandes patriarcas do seu povo;
  • Ismael, seu meio-irmão, filho de uma concubina, foi deserdado e abandonado no deserto para morrer de fome, não fosse a mesma intervenção divina — acaba tornando-se o pai de uma outra grande nação;
  • Moisés, filho de uma escrava, por providência divina e astúcia de algumas mulheres e meninas, consegue escapar do “massacre dos inocentes” deflagrado por Faraó — tornar-se-á o maior libertador de todos os tempos;
  • Samuel, filho de mulher estéril. É oferecido a Deus por seus pais, e vive um tipo especial de exílio, servindo no templo ao sacerdote Eli. Não era da tribo de Arão, condição para ser sacerdote, no entanto, por intervenção divina, torna-se o sucessor de Eli, passando a ocupar o lugar que deveria ser de um dos filhos desleixados do velho sacerdote;
  • Davi, antes de tornar-se o principal rei da história dos hebreus, não passava de uma criança desqualificada e subestimada por seus irmãos mais velhos. Pois é justamente essa criança enjeitada (há quem diga que era bastardo) que é escolhida pelos desígnios divinos para ser o grande herói de Israel: o menino poeta mata gigantes e torna-se rei, o maior deles;
  • João Batista, filho de um casal de idosos, ele sacerdote, ela estéril. Um anjo surge, quase matando o velhinho de susto (o coitado ficou sem fala por muito tempo por causa disso), e anuncia o nascimento dessa criança especial, que haveria de ser o precursor do Messias. O menino adquire manias esquisitas: come gafanhoto, veste-se com pele de camelo, perambula pelo deserto, e institui um novo padrão de higiene que foi batizado de batismo. Prega contra a corrupção e a imoralidade da coorte e acaba preso e decapitado.
  • Jesus, filho de uma virgem, nasce sem lugar na hospedaria, com direito a anjos, magos e pastores. Mas tem que fugir, para escapar ao “massacre dos inocentes”, supostamente decretado por Herodes o Grande, e passa um bom tempo exilado no Egito[2]. Volta e lidera o mais famoso movimento revolucionário da história do mundo. É preso, condenado injustamente, e sentenciado à pena de morte… mas vence a morte e continua sua revolução por meio dos seus seguidores;
  • Dentre eles, está o apóstolo João que, quando começou a seguir Jesus, era ainda uma criança pequena, que fazia perguntas indiscretas e deitava no colo do Mestre na hora do jantar. Diz a tradição  que mais tarde escreveria epístolas nas quais trataria a todos por “meus filhinhos” e terminaria exilado numa ilha (claro que gente adulta e séria não acredita muito nisso);
  • Outro foi o próprio apóstolo Paulo, que, tendo “nascido de novo” na estrada de Damasco, de perseguidor passa a ser perseguido e, por isso, exila-se na Arábia, antes de voltar e tornar-se o maior de todos os missionários cristãos. Escreve muitas cartas, nas quais questiona os valores do Império Romano, da cultura grega e do legalismo judaico. Naturalmente, acaba preso e é martirizado – não sem antes gerar muitos filhos na fé, alimentá-los com leite espiritual e, à medida que cresciam, com alimento teológico consistente.

Poderíamos estender a lista das “crianças” bíblicas, mas consideramos que as que aqui foram referidas já são suficientes para nos ajudarem a estabelecer o padrão e compreendermos o paradigma. Sim, à luz desses enunciados, podemos concluir, como Campbell (p. 69), que:

O que esse[s] relato[s] parece[m] representar é o rei-tirano, o velho monstro, que se agarra firme ao poder, e insiste em perpetuar-se no status quo, representando a dominação do princípio do ego, que se recusa a ceder e a abrir-se ao novo princípio, que aniquila o antigo e gera o novo. O tirano, então, [tem] que ser morto. E ele é finalmente vencido pelo herói que cresceu no exílio. […] a criança exposta ao perigo, substituída por uma criança com pais trocados cuja vida é ameaçada pelo rei-tirano e que retorna para sobrepujar o poder deste último e trazer algo novo ao mundo.

O paradigma da “criança como mestre”

O outro paradigma, que nos propusemos a considerar, é o que Campbell denomina “criança como mestre” (ibid.):

Uma vez que Cristo era para ser o preceptor do mundo e o mestre espiritual, Sua façanha infantil foi a de ensinar os sábios no templo naquela esplêndida oportunidade quando seus pais tiveram que ir a Jerusalém para o censo [sic.: na verdade, trata-se da festa da Páscoa]. Cada um pensa que Cristo está com o outro quando, de fato, Jesus está ensinando os sábios no templo.

Este episódio, narrado por Lucas, no cap. 2, a partir do verso 39, nos interessa particularmente para aprofundarmos nossa compreensão do que a Bíblia enfatiza quando trata da criança. Tomemos, então, o menino Jesus como emblema de toda criança:

A criança e a cultura: imersão e identidade

39.  Cumpridas todas as ordenanças segundo a Lei do Senhor, voltaram para a Galiléia, para a sua cidade de Nazaré. 40   Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele. 41   Ora, anualmente iam seus pais a Jerusalém, para a Festa da Páscoa. 42   Quando ele atingiu os doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. (Lc 2.39-42)

Chamo a atenção para a observância dos costumes, a participação nas festas e nos eventos da cultura do povo. Bem como, para o cumprimento de preceitos (“ordenanças”, “Lei do Senhor”), a prática cíclica e recorrente (“anualmente”, “segundo o costume”), a dimensão celebrativa (“festa da Páscoa”).

Tudo isso aponta para a importância da imersão cultural na formação da criança. Longe de repetição inócua, as comemorações cíclicas, os rituais, as festividades, os costumes e as rotinas,  são fundamentais no processo de amadurecimento da criança, na construção do seu caráter e da sua personalidade e, portanto, da sua identidade.

A criança e a religião: questionamento e alteridade

Para efeitos didáticos, saltemos para outra parte da narrativa:

46   Três dias depois, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. 47   E todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas.

Certa vez eu escrevi: “pena que já não se façam mais doutores como esses da infância de Jesus.” Como sabemos, Doutor que se preze não gosta de ser questionado, não perde tempo com conversa de criança, nem acha que pode aprender alguma coisa com elas.

Ao contrário, aqueles dos tempos de Jesus, ao que parece, ficaram três dias num fertilíssimo diálogo com um menino, ouvindo-lhe os insistentes “Por quês?” e admirando-se da sua inteligência… Sim! Crianças são inteligentes, mesmo na Bíblia. E, mais, os doutores também se admiravam das suas respostas. Quer dizer então que criança não está aí só pra aprender/perguntar, mas também para ser dar suas respostas. Então, só podemos concluir que ela não tem que ficar quietinha e ouvir as lições da Escola Dominical sem “dar um pio”… Porque, não poucas vezes, quem têm as respostas certas são as crianças.

Alem do que, sem a possibilidade da “alteridade”, não haverá nunca “identidade”. Questionar faz parte do crescimento, é condição imprescindível para o desenvolvimento do caráter e da personalidade.

A criança e os pais (a família): autonomia e submissão

Votemos aos versículos 43-45:

43   Terminados os dias da festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44   Pensando, porém, estar ele entre os companheiros de viagem, foram caminho de um dia e, então, passaram a procurá-lo entre os parentes e os conhecidos; 45   e, não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém à sua procura.

Aí está indicada também a importância das “viagens”, do “sair de casa”, do encontro com o desconhecido, o estrangeiro, o estranho, o imprevisto, o inesperado, o imponderável… Todos esses, elementos indispensáveis à experimentação em busca da autonomia e da maturidade no confronto com a alteridade.

Não pensemos que seus pais eram irresponsáveis. Há 12 anos repetiam o mesmo procedimento. Como das outras vezes, Jesus deveria estar com seus irmãos, com suas primas, com seus amigos, com suas colegas… Arriscado? Sem dúvida! Mas não se adquire autonomia por meio da superproteção.

Notemos como foi o reencontro:

48   Logo que seus pais o viram, ficaram maravilhados; e sua mãe lhe disse: Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura. 49   Ele lhes respondeu: Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai? 50   Não compreenderam, porém, as palavras que lhes dissera. 51   E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração.

Houve tensões e, evidentemente, constrangimentos… exortações e respostas atravessadas… Desentendimentos e disciplina. O conflito entre as gerações é inevitável. Há muitas coisas que os pais nunca entenderão em seus filhos. E há outras que os filhos nunca entenderão em seus pais. Às vezes o jeito é engolir (“guardar no coração”), outras, submeter-se (“e era-lhes submisso”). A relação pais-filhos é sempre marcada por concessões e intransigências, de ambos os lados. A corda nunca deve arrebentar de um só lado.

Autonomia e submissão são os pesos que equilibram a balança da vida humana. Para se manter o equilíbrio, é preciso aprender a fazer manobras “arriscadas”, como andar de bicicleta (conforme aprendi do meu amigo Zé Lima):

Quando a força centrípeta de uma curva puxa a bicicleta para a esquerda, por exemplo, o ciclista tem que pender para a direita, e vice-e-versa. Mas também é verdade que, quando a bicicleta vai caindo pra direita, o ciclista vira, rapidamente, o guidão para a mesma direita, e vice-e-versa.

Até que a criança aprenda a andar de bicicleta, ela toma uns tombos, leva uns arranhões, mas, uma vez aprendido o milagre do equilíbrio, ela nunca mais se esquece.

A criança e o mundo: sabedoria e graça

Note-se a moldura da perícope (versos 40 e 52), o destaque dado ao crescimento da criança: em estatura, sabedoria e graça.

40   Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele. […] 52   E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens.

Toda criança deve crescer em estatura. Isso é o normal e o esperado. Qualquer irregularidade nisso, pra mais ou pra menos, traz preocupação. Pra isso, é preciso o cuidado do corpo, da saúde, da alimentação, da higiene, do bem estar emocional, etc.

Toda criança também deve crescer rumo à sabedoria. Mas a esta não se chega de uma hora pra outra. Há um caminho lógico a ser percorrido: Primeiro é preciso que aprendamos a lidar com os dados, as informações. Depois é preciso aprender a transformar informações em conhecimento. Só então, poderemos decidir o que fazer com esse conhecimento. A maneira como aplicamos o conhecimento é que nos torna sábios ou não. Alguém que seja capaz de, com o os dados, as informações e o conhecimento, construir armas de destruição em massa, por exemplo, é, evidentemente, muito inteligente, mas não se pode dizer que seja sábio.

Por último, o texto fala que Jesus crescia em “graça”. Não dá pra nos determos nas enormes implicações disso, mas só pra dar um gostinho: em grego, “graça” (charis) tem a mesma raiz de outros termos, tais como “alegria” e “gratidão”…  E a palavra “charme”, em português, vem da mesma raiz grega.

Conclusão

Jesus criança crescia em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos seres humanos. Daí, concluímos que, crescer em estatura e em inteligência, mas não colocar isso a serviço do Reino de Deus e do bem estar do mundo não é crescimento de verdade.

A rigor, na Bíblia, não há crescimento em relação à humanidade que não implique em crescimento em relação a Deus, e não há crescimento em relação a Deus que não implique em crescimento em relação à humanidade.

O protagonismo da criança, também na Bíblia, é notório. Nunca houve e nunca haverá heróis, nem profetas,  nem libertadores, nem messias, nem salvadores, que não tenham sido crianças.

Não é sem razão que Isaías (11.6) anuncia que uma criancinha nos guiará!

Luiz Carlos Ramos
(Preparado, originalmente, para o Encontro de Comemoração dos 10 Anos do Projeto Sombra e Água Fresca, da Igreja Metodista (São Bernardo do Campo, 22-24 de outubro de © 2010 Luiz Carlos Ramos)


[1] Joseph Campbell (1904-1987) — Autor e professor norte-americano reconhecido por seu trabalho no campo da mitologia comparada. Para Campbell, todos os mitos e épicos estão vinculados na psique humana e são manifestações culturais da necessidade universal de explicar realidades sociais, cosmológicas e espirituais.

[2] (Vd. o documentário em vídeo disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=6mm3EdVt2qo):

2 Comentários

  1. Caro Luiz.
    Gosto muito de seus textos sobre a criança.
    abs.

  2. Professor,

    Sempre aprendo muito com os seus textos. Neste aqui, uma passagem muito me chamou a atenção, aquela onde você coloca a possibilidade de que Adão e Eva possam ter sido criados como crianças.
    Por que não?
    Abraço.
    Fernando Marin

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