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T e x t o s & T e x t u r a s

A fé e a arte na construção do kosmos

Luiz Carlos Ramos

“Ars longa, vita brevis”
(Hipócrates)

Nós somos o resultado da equação natura+cultura.

De muitos produtos in natura depende a nossa vida, tais como a água e o ar. Estes, quanto menos sofrerem a interferência humana, quanto menos adulterados, quanto menos contaminados e quanto mais puros forem preservados, melhor servirão à humanidade.

Mas também nós, humanos, não sobrevivemos sem o segundo elemento da equação: a cultura. Muitos produtos manufaturados garantem a nossa sobrevivência: o pão, as vestes, a habitação, os livros… Todos esses são elaborações culturais de notória utilidade.

Mas, além de produtos úteis, a cultura também produz a arte. Como já ensinava Santo Agostinho, há objetos feitos para serem usados e outros para serem usufruídos. E, segundo o mesmo santo, estes últimos são superiores aos primeiros.

Para os chineses, a palavra “arte” se escreve compondo dois caracteres: um que significa “conhecimento” e outro que significa “beleza”. Arte, portanto, é a combinação precisa entre conhecimento (ou sabedoria) e beleza. Umberto Eco, como esteta, diz algo parecido: Arte é quando a forma comenta o conteúdo e o conteúdo comenta a forma.

Em outras palavras, a arte é sempre intencional. Um pôr-do-sol pode ser belo, uma montanha pode ser bela, uma árvore pode ser bela, mas não são arte, porque nelas não foi aplicado o conhecimento e a sabedoria humanas – podemos, no máximo, considerá-las, obras de arte do Criador.

Para que algo seja considerado legitimamente como obra de arte, é preciso que seja intencionalmente belo.

Em geral, todas as religiões entendem que o kosmos é a ordenação do caos pelas mãos hábeis e pelas palavras criativas do Criador. Essa ordenação não prescinde da beleza.

Na narrativa bíblica da criação, no livro de Gênesis, lê-se que: no sétimo dia, viu Deus que tudo era bom/belo. E, ainda: “Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento”. Note-se a intenção divina de que esse jardim deveria “agradar à vista” e prover sustento com coisas “boas para alimento”. Deus combina, nesse jardim, questões plásticas e práticas, estéticas e técnicas, poéticas e éticas. Deus não se contenta com uma beleza que não sustente a vida, nem quer uma vida que não nos alegre e torne as pessoas mais felizes.

Articular arte—fé—e—cidadania nos leva pensar que os seres humanos, sendo a imagem do Criador, devem imitá-lo no processo de ordenação do caos, colaborando na construção do kosmos.

Que esse kosmos deve manter intactas certas áreas de preservação, porque delas depende a nossa própria vida.

Que esse kosmos não deve ser simplesmente útil, mas igualmente belo. E para isso devemos empenhar o nosso conhecimento e aplicar a nossa sabedoria.

Sabemos que estamos diante de uma “obra de arte” quando essa mesma obra nos faz transcender. Quando ela nos arrebata e nos leva para além da sua dimensão utilitária. As ferramentas nos tornam máquinas produtivas mais eficientes. A arte nos torna mais humanos, e por isso mesmo no levam para mais perto de Deus.

Tornar o mundo mais inteligente e mais belo é tarefa do artista, essa também é a tarefa de toda pessoa cristã, porque essa sempre foi a intenção do Criador.

A vida é breve, mas a arte é eterna!

Um comentário

  1. Prof. Luiz, já comentei pessoalmente, mas registro aqui minha admiração e encanto por esta reflexão. Obrigado por partilhar seus pensamentos que sempre nos inspiram. Grande abraço.

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