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T e x t o s & T e x t u r a s

A geometria do discurso religioso

Palavra, imagem e iconoclasmo

Por Luiz Carlos Ramos

Introdução

As três grandes religiões monoteístas também são as religiões do Livro. A proibição da adoração de imagem é princípio fundante em todas elas. São, portanto, religiões que declaram a vitória da palavra sobre a imagem, ou ao menos sobre as imagens que até então predominavam no cenário religioso coetâneo.

Curiosamente, um segmento do cristianismo se constituiu em exceção à regra das religiões do Livro: o Cristianismo Medieval, que se notabilizou pelo florescimento da arte sacra, especialmente a Arquitetura, a Pintura e a Escultura, conferindo à “imagem” status privilegiado como uma das principais representações da própria essência da fé ao longo desse extenso período.

Discurso religioso e formas arquitetônicas

Paul TILLICH (1977) dizia que nos inícios do cristianismo predominava uma teologia circular, teocêntrica, inclusiva e participativa; que foi trocada na Idade Média por uma teologia vertical, hierárquica e totalitária; que, por sua vez, foi substituída, no Iluminismo, por uma teologia horizontal, humanista e secularizada. Se estivesse vivo, talvez ele concordasse que a contemporânea converteu-se numa teologia quadrada (materialista) e, mais recentemente, numa teologia retangular (widescreen/midiatizada).

Me explico: Dando azo ao insight de Tillich, imagine-se a teologia primitiva como sendo circular — tome-se como ideia a multidão circundando os sacerdotes e altares, cercando os profetas para ouvir-lhes as pregações, ou aproximando-se do próprio Cristo para comer com ele ao redor da mesa — daí poder dizer-se dessa teologia que é teocêntrica. Formas circulares de reuniões públicas não eram raras, antes o contrário, como se vê em edificações como o Coliseu ou os teatros de arena gregos.

Considere-se ainda a teologia medieval com sua arquitetura marcada pelos arcos de forma predominantemente ogival, isto é, dois quartos de círculo apontando para o céu. Essa forma mais alta que larga predominou nos edifícios religiosos medievais, com suas torres altíssimas em forma de dedos apontando para o infinito. Essa forma de materializar a espiritualidade foi muito adequada para reforçar a hierarquia e o poder político-religioso da igreja. Não causa estranheza que se diga que essa teologia ogival era eclesiocêntrica.

Avançando um pouco mais, e pensando sobre a religiosidade numa cultura iluminista, entende-se porque esta preferirá uma forma menos verticalizada e mais horizontal, porque seu interesse não é mais o infinito e o transcendente, mas o tangível e o humano. Não erraremos muito se a apelidarmos de humanista e antropocêntrica.

A tendência atual da teologia é notoriamente quadrada. Talvez a possamos classificar esta como sendo uma teologia coisocêntrica, porque expressa a predominância de uma cultura materialista, coisificadora e desumanizante.

O reflexo dessas teologias se nota, portanto, de maneira evidente, na concepção arquitetônica e nas linhas dos espaços sagrados. Como bem sinalizou o teólogo e arquiteto sacro Otávio Ferreira ANTUNES (ver 2010, p. 22-25), até o século XII, a arquitetura religiosa era marcada pelo arco românico (circularidade teocêntrica); sendo substituído então pelo arco ogival do período gótico (teologia vertical e hierárquica); que deu lugar ao arco renascentista (antropocêntrica) do Renascimento; substituído, em seguida, pelo arco barroco da contrarreforma e pelo arco neoclássico (racionalismo); que na contemporaneidade foi suplantado pelo quadrado (materialismo estrito) característico dos templos em forma de caixa de sapato (nada de arcos) que sobram nos pequenos e grandes centros urbanos.

Discurso religioso e arte dos vitrais

As edificações religiosas medievais foram decoradas generosamente com as mais diversas técnicas e os mais variados estilos de representações visuais. Afrescos, mosaicos, pinturas a óleo, vitrais…
Tais representações, num tempo em que predominava o analfabetismo, foi de grande valor instrutivo, mais que ilustrativo, para muitas gerações. Essa representação artística foi saudada como sendo as Escrituras dos iletrados, a Bíblia dos pobres.

Mais que mero suporte iconográfico, portanto, o vitral tornou-se instrumento eficaz para promover um clima de recolhimento místico no interior dos templos, pelo efeito da luz natural que se filtra através deles e se derrama pelo cenário em que essa luz é percebida.

O contraste é um elemento fundamental: faz com que as janelas que iluminam o interior amplo e escuro das catedrais góticas pareçam intensamente brilhantes, como joias. A luz natural muda constantemente, de acordo com a hora do dia e a estação do ano. Isso faz com que os vitrais também pareçam mudar de cor, intensidade e expressão (Cf. VESCOVI, p. 86-87).

Sabe-se que não há menção de janelas com vidros coloridos antes do século IV e que estes foram desprezados pelo Renascimento, que preferiu o vidro incolor, de modo que se pode constatar que os vitrais tiveram seu desenvolvimento estreitamente ligado ao da arquitetura gótica.

Com seus vitrais multicoloridos, a Igreja gótica foi à representação material da Jerusalém celeste, símbolo por excelência da Igreja. As Igrejas medievais orientavam-se sempre para o nascente. Aquele que nela entra pela manhã vai da região de maior sombra, junto ao átrio, para a de maior luz, onde está o sacrário. Assim como a luz, ao passar pelo prisma, se divide, assim também Deus quis que a luz de sua graça passasse através de Maria para ser distribuída a todos os homens. Por isso a Idade Média pôs, tão frequentemente, no centro de suas rosáceas luminosas, a figura de Maria. (RODRIGUES, 2005)

Discurso religioso e escultura

A representação dos santos na forma de estatuetas tem uma história curiosa e remonta à veneração das relíquias (para aprofundar o tema, sugiro SCHMITT, 2007).

Desde muito cedo, passou-se a venerar os restos mortais de personalidades consideradas mártires ou santos da igreja. Em geral, preservava-se um esqueleto, ou um único osso (de um dedo, um dente ou uma costela). O lugar onde essas relíquias eram depositadas serviram de ponto de referencia para as peregrinações de fiéis que queriam ir até lá para render homenagem a esses santos.

Naturalmente, logo se deram conta de que o acondicionamento de tais relíquias requeria um recipiente condigno. Passaram a construir relicários muito sofisticados, como caixas e baús incrustados de pedras preciosas e, em alguns casos, havendo artista competente, esculpia-se ou moldava-se uma estatueta representando o referido santo, ou santa, e mantinha-se o seu interior oco, para que as relíquias fossem depositadas dentro dessas esculturas.

Como se pode perceber com alguma facilidade, a princípio as pessoas vinham para venerar a relíquia, considerando a escultura mero relicário, mas não custou muito para que as relíquias passassem para um segundo plano e a veneração fosse transferida para a escultura mesma.

Isso facilitou bastante a vida dos que queriam promover determinados santos, mas que não tinham relíquias suficientes para disseminar sua fama por áreas mais abrangentes. Passaram, assim, a encomendar réplicas do relicário original, e a equipar santuários em muitas praças com tais estatuetas, de modo que as pessoas que não podiam peregrinar até o relicário original, podiam se contentar com essa criativa representação.

Assim nasce a veneração imagens de escultura no cristianismo medieval.

Discurso religioso e iconoclasmo

A Reforma Protestante do século XVI deu ensejo a uma sanha iconoclasta, que haveria de varrer boa parte da Europa, incitada pelos pregadores, a partir do púlpito. Matin N. Dreher, em sua História do povo de Jesus: uma leitura latino-americana, sugere que foram múltiplas as causas que levaram ao iconoclasmo. Dentre elas, não se pode ignorar o clima criado pelos poderes caóticos que dominaram a Modernidade, lembrando que no mesmo século os conquistadores europeus buscaram destruir toda a arte da América pré-colombiana.

Como comumente acontece em épocas conturbadas, discursos intransigentes e intolerantes, como o de Karlstadt, em Wittenberg, encontraram ouvidos atentos e dispostos a tudo. Explode, assim, uma

revolta contra as formas que a devoção a imagens havia assumido no final da Idade Média. Na percepção de muitos pregadores puritanos, elas não estavam mais a serviço da piedade, e a relação entre arte e religião não seria mais correta. (DREHER, 2013, P. 256)

O Renascimento havia provocado

o surgimento de uma arte religiosa confeccionada por pintores nada religiosos. Pinturas voluptuosas eram vistas por pessoas piedosas como não tendo mais nada a ver com a religião. Já Savonarola se voltara contra tais pinturas, e Zwínglio não as poupou, pois nelas via nada mais do que ídolos, alguns vestidos com armaduras, outros santos e santas eram apresentados nus, como se se pretendesse despertar a volúpia ao invés da veneração. (Id. Ibid.)

Também o biblicismo (literalismo bíblico), segundo Dreher, favoreceu tal atitude de intolerância e ódio contra as imagens, e classifica o século XVI como o século da vitória da palavra sobre a imagem e sobre o gesto (Id. Ibid., p. 257).

Como consequência, determinou-se a retirada dos templos das imagens, estátuas, pinturas, crucifixos, muito disso foi quebrado ou queimado: “Antiguidades e obras de arte foram destruídas sem piedade”. Muitas obras de arte foram depredadas ou recobertas com demãos de cal. Lugares onde outrora os fiéis se ajoelhavam para adorar, agora tornara-se palco de barbárie invadido pelos mesmos fiéis furibundos portando machados e martelos. (Cf. Id. Ibid., p. 255-256)

A revolta contra a nobreza, foi outro fator. De modo que os revoltosos, aproveitando-se da capa da piedade puritana, também passaram a atear fogo em castelos e residências dos senhores feudais.

Mas a pretensa volta à Palavra como único poder, ao Verbo da verdade, resultou, de fato, na perda da capacidade de se entender a linguagem das imagens, destruiu-se o pensamento simbólico. Como nos lembra Dreher, o

pensamento simbólico é pensamento religiosos propriamente dito. É na linguagem simbólica que se expressa a experiência do espiritual. Quando essa forma de pensamento não conceitual deixa de ser usada ou é ridicularizada, produz-se a destruição de uma das disposições religiosas do ser humano. O iconoclasmo provocou no ser humano o enfraquecimento do sentido para o religioso. (Id. Ibid., p. 257)

A geração reformada, assim conclui Dreher, desaprendeu a sentir simbolicamente. E em lugar de com isso alcançar uma religiosidade mais “espiritual”, apenas a deixou mais abstrata.

O que os religiosos fervorosos chamam iconoclasmo, nós chamamos hoje vandalismo. Ao que parece, o próprio Lutero ficou alarmado com a atitude do seu correligionário Karlstadt, a ponto de declarar que as “imagens são memoriais e testemunhas e como tais devem ser toleradas. Além disso, chegou a afirmar que, se pudesse, mandaria pintar toda a Bíblia dentro e fora das casas.” E afirmou, ainda, que “as imagens movem a fé das crianças e dos simples.” (DREHER, 2013, p. 258).

Como consequência, nos aponta Dreher, a arte foi expulsa da igreja e degradada ao museu”. A relação do protestante com a arte passou a de ser mero objeto de contemplação ligeira e superficial, como parte de um passado morto. Nada mais tem a ver com a sua vida de fé reduzindo-se a enfadonhos roteiros turísticos. A visita a uma catedral tem a mesma conotação da visita a um museu.

No entanto, durante séculos de analfabetismo literário, o evangelho e a fé foram proclamados com razoável eficiência, não pelos livros e pela literatura, mas pelos pintores e escultores sacros, que talvez devam ser considerados, como sugere Dreher, os “maiores pregadores” de todos os tempos. Enfim, superamos o analfabetismo literário, mas sucumbimos ao analfabetismo artístico.

Discurso religioso imagético-visual-icônico na sociedade do espetáculo

Com o advento da Sociedade do Espetáculo (cf. DEBORD), a imagem entra novamente em cena no universo religioso ocidental, só que não mais como expressão artística da transcendência, mas como estratégia publicitária atrelada à economia de mercado.

Em contraponto à preocupação excessiva com o conteúdo, característica do discurso religioso medieval, a tônica do horizonte midiático é o continente, i.e, a embalagem ou a forma da mensagem. Na sociedade do espetáculo, dá-se o deslocamento do verbal-oral-literário para o imagético-visual-icônico. Chama a atenção, nesse modelo que está em franca expansão, o deslumbramento tecnológico, no sentido de que a tecnologia em si desperta mais atenção e cuidado do que o continente que será veiculado por esses recursos.

A geração protagonista da sociedade da informação —notem que não é uma sociedade do conhecimento, e muito menos da sapiência ou da sabedoria, e por isso preferimos chamar de sociedade do espetáculo—, tem sido caracterizada pelos seus objetos preferidos: o controle-remoto, o mouse e o telefone celular (cf. Andy WARHOL in VENN, W.; VRAKKING, B., 2009). Esses objetos são paradigmáticos de um novo jeito de pensar e interagir com a informação, marcado pela não-linearidade no fluxo das informações, pelo comportamento multitarefa, e pelo aumento na velocidade e facilidade de acesso à informação, para citar apenas alguns aspectos.

A leitura de textos monocromáticos (tinta preta sobre papel branco) dá lugar à decodificação de ícones multicoloridos e imagens complexas. Sintoma evidente de que a racionalidade perdeu seu protagonismo para a sensação e a emoção. A comunicação midiática é essencialmente emocional. Interagir com um ícone é muito mais “amigável” do que com uma palavra.

Pregadores/as que atuam nesse contexto se adaptam às expectativas da geração cibernética, que prefere narrativas imaginativas a discursos verbais abstratos; que se comporta de maneira impaciente com a lentidão no fluxo da informação e quando há demora na obtenção de respostas; que em geral, durante o sermão, não se concentra exclusivamente na pregação, mas ao mesmo tempo está a dedilhar seus smartphones e tablets, em um processo de interação social que pode ou não ter a ver com o conteúdo da prédica; e que, sem maiores escrúpulos, dividirá sua fidelidade zapeando por “diferentes canais” para acompanhar vários “programas” religiosos (igrejas e movimentos), simultaneamente.

A não-linearidade, a descontinuidade do fluxo nesse processo de comunicação midiatizado parece sugerir que não é relevante encadear informações ordenadamente, nem concluir ou encerrar processos. Nesse modelo parecemos viver num eterno presente, de modo que a relação com o passado e a iminência do futuro perdem sua vinculação histórica. Na sociedade da informação, tudo é presente (quão diferente seria se vivêssemos numa sociedade do conhecimento?).

A contribuição do modelo espetacular é a demonstração enfática de que a comunicação do Evangelho não precisa ficar acondicionada exclusivamente à dimensão lógico-verbal-oral ou literária, e que há muitas outras possibilidades comunicacionais, nas quais os sentidos e as emoções assumem o protagonismo. A geração Idade Mídia não dá crédito à persuasão lógico-argumentativa do discurso racional, ao contrário, desconfia profundamente dele, no entanto está suscetível à sedução do apelo emocional-afetivo do discurso imagético-visual-icônico de maneira muito menos crítica.

Referências

Relaciono a seguir obras que de alguma forma dão suporte ao presente texto, conquanto nem todas tenham sido referidas em citações textuais ou diretas.

ALVES, R. A. Del paraíso al desierto: Reflexiones autobiográficas in GIBELLINI, R. O (org.). La nueva frontera de la teologia en America latina. Salamanca: Sígueme, 1977. p. 261-279. (Ágora Crítica Religión Sociedad).

ANTUNES, O. F. A beleza como experiência de Deus. São Paulo: Paulus, 2010.

BUBER, M. Eu e Tu. 10. ed. São Paulo: Centauro, 2006.

DEBORD, G. A sociedade do espetáculo (seguido do prefácio à 4ª Edição italiana) e Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FERRÉS, J. Televisão subliminar: socializando através de comunicações despercebidas. Porto Alegre: Artmed, 1998.

MANELI, Mieczyslaw. A Nova Retórica de Perelman: filosofia e metodologia para o século XXI. Trad. Mauro Raposo de Mello. Barueri: Manole, 2004.

MESTERS. C. Por trás das palavras. Petrópolis: Vozes, 1981.

PERELMAN, C. Retóricas. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

RAMOS, L.C. A pregação na idade mídia: desafios da sociedade do espetáculo para a prática homilética contemporânea. São Bernardo do Campo: Editeo. 2012.

______. Em espírito e em verdade: Curso prático de liturgia. 2. ed. São Bernardo do Campo: Editeo, 2011.

______. O culto, a pregação e a Bíblia in Revista Caminhando v. 16, n. 1, p. 19-28, jan./jun. 2011.

RODRIGUES, Rê. Aprenda mais. Texto apresentado a Cyberartes em 2005. Disponível em: < www.cyberartes.com.br >. Acesso em 15 dez. 2005

SCHLEIERMACHER, Friedrich D. E. Sobre a religião. Trad. Daniel Costa. São Paulo: Novo Século, 2000.

SCHMITT, Jean-Claude. O corpo das imagens. Ensaios sobre a cultura visual na Idade Média. São Paulo: Edusc, 2007.

TILLICH, P. Pensamiento cristiano y cultura en occidente: De la Ilustración a nuestros días. Buenos Aires: Editorial La Aurora, 1977.

VENN, W.; VRAKKING, B. Homo Zapiens: educando na era digital. Porto Alegre: Artmed, 2009.

VESCOVI, Alessandro. À luz dos vitrais: A história da arquidiocese de Vitória, Espírito Santo, no período entre 1979 e 1984, a partir da trajetória política de dom João Batista da Mota e Albuquerque. Vitória, 2007. 159 f. Dissertação de mestrado (Centro de Ciências Humanas e Naturais do Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas) — Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória, 2007.

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