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T e x t o s & T e x t u r a s

A Palavra e a Voz

(a propósito dos 75 anos da revista Voz Missionária)

Luiz Carlos Ramos
(Rudge Ramos, setembro de 2004)

Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Todo vale será aterrado, e nivelados, todos os montes e outeiros; o que é tortuoso será retificado, e os lugares escabrosos, aplanados. A glória do SENHOR se manifestará, e toda a carne a verá, pois a boca do SENHOR o disse. Uma voz diz: Clama; e alguém pergunta: Que hei de clamar? Toda a carne é erva, e toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do SENHOR. Na verdade, o povo é erva; seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente. (Isaías 40.3-8)

A revista Voz Missionária completa 75 anos. Nessa Voz soam as vozes missionárias de Eulas, Mercedes e Lídias; Gláucias, Otílias e Naires; Leilas, Milzas e Tirzas; Léias, Marias e Neusas; Mírians, Déas e Amélias… essas, sim, é que eram e são mulheres de verdade (!) porque viveram e vivem para servir.

Essas mulheres tiveram a idéia de criar uma Voz diferente, uma Voz que pudesse ser lida, folheada, contemplada e admirada. Nenhum de nós que, tendo “ouvido” essa Voz, tem dúvida de que “a informação conduz à inspiração”, e que essas páginas nos motivam para a missão.

O texto bíblico do segundo Isaías, que nos alimenta nesta reflexão, também nos fala de uma “voz missionária”:

“Uma voz clama: no deserto, abri um caminho para Iahweh; na estepe, aplainai uma vereda para o nosso Deus” (para usarmos uma tradução mais precisa).

Que voz é essa? Trata-se de uma voz anônima que tem uma tarefa árdua: abrir caminho em lugares ermos, aterrar vales, nivelar colinas, retificar estradas tortuosas para o próprio Deus passar.

O Novo Testamento batizou essa “voz do que clama” com o nome de João Batista, porque tanto João como a “voz” do segundo Isaías marcam o fim de um tempo e o início de um novo êxodo: um tempo no qual “a glória do SENHOR se manifestará, e toda a carne a verá”.

A topografia e a geografia por onde ecoa essa voz são os desertos e estepes, as planícies e vales, as colinas e escarpas. São lugares tortuosos, escabrosos, áridos, sinuosos, ermos… Ali a voz se ergue para romper o silêncio da solidão e do abandono; para quebrar a monotonia da desesperança e da desilusão; para denunciar a tirania e a exclusão; para anunciar um novo tempo, para inaugurar uma nova astronomia e uma nova geografia, para criar, pela Palavra, um novo céu e uma nova terra.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça: jardins florescerão no deserto; videiras e trigais cobrirão as planícies e os vales; e as colinas e escarpas se converterão em altares: “em lugar do espinheiro, crescerá o cipreste, e em lugar da sarça crescerá a murta; e será isto glória para o SENHOR e memorial eterno, que jamais será extinto” (Is 55.13)

Mas o que é uma simples voz anônima, diante de tamanha empresa missionária? Além disso, essa “voz”, a despeito de tanta beleza e da nobreza de sua tarefa, é fugaz, efêmera, temporária, transitória e breve como as flores: “Que hei de clamar? —pergunta-se a voz— Toda a carne é erva, e toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e caem as flores” (Is 40.6).

Entretanto, em contraposição à transitoriedade da voz, o texto nos apresenta a eternidade da Palavra: “Na verdade, o povo é erva; seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente” (Is 40.7-8) —A Palavra eterna presente na voz efêmera.

A voz humana, por mais bela que seja, jamais poderá ser comparada à Palavra divina. O notável monge e teólogo São Tomás de Aquino dizia que há três diferenças fundamentais entre a palavra humana e a divina: a primeira diferença é que a palavra humana é antes formável do que formada, ao passo que é a Palavra divina que a tudo dá forma e existência; a segunda diferença entre a nossa palavra e a Palavra divina é que a nossa é imperfeita, enquanto o Verbo divino é perfeitíssimo; a terceira diferença está em que a nossa palavra não constitui uma única natureza conosco, enquanto o Verbo divino constitui uma mesma natureza com Deus e subsiste na natureza divina —em outras palavras, o Verbo é o próprio Deus, e Ele é a Palavra que se fez carne e ainda habita entre nós cheia de graça e de verdade.

Santo Agostinho, o maior pregador e teólogo de todos os tempos, ao distinguir Jesus de João Batista, disse que aquEle é a Palavra e que este é a Voz. João Batista exclamava: “convém que ele (a Palavra) cresça e que eu (a Voz) diminua”. A Palavra é eterna, a voz é transitória, mas nem por isso, desnecessária, pois é pela voz que a Palavra alcança os corações. Quando quero transmitir a Palavra que está no meu coração para o teu coração, sirvo-me da voz. Então, a voz leva o que está no meu coração até o teu. Feito isto, a voz desaparece. Permanece, porém, a Palavra no teu e no meu coração.

Aquino, Agostinho, João Batista e o dêutero Isaías, sabiam que a voz é passageira, fugaz, mutável, transitória; ao passo que a Palavra é permanente, firme, imutável, eterna.

Assim, devemos ter a consciência de que também a Voz Missionária é passageira. Viajante e peregrina, como todos nós, um dia essa voz desaparecerá, da mesma forma que, ao encerrarmos esta celebração, cessarão as nossas vozes; entretanto, permanecerá em cada coração, a Palavra de Deus transmitida tão carinhosamente, palavra por palavra, página por página, de coração para coração, pela querida revista Voz Missionária.

Hoje, celebramos a eternidade da Palavra proclamada nos 75 anos da nossa Voz. Quem faz aniversário é a Voz, mas quem está de parabéns, somos nós.

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