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T e x t o s & T e x t u r a s

Quem sou

Luiz Carlos Ramos
(Foto: Vitor Chaves)

Nasci quando obscuras forças militares articulavam um golpe. Eu mal completara três anos quanto ele veio. Quando promulgaram o Ato Institucional Número Cinco, eu estava com sete. Nessa época, cantávamos diariamente hinos nacionalistas, na escola pública. Pública para muitos, doméstica para mim. Dos 7 aos 17 anos o Grupo Escolar, o Ginásio e o Científico (era assim que os ensinos fundamental e médio eram chamados) foram a extensão da minha casa. Esta ficava sob os paranaenses pinheirais da cidadezinha de Castro, que outrora fora posto de reabastecimento e descanso para rústicos tropeiros.

Naqueles idos, os da minha infância, os mestres das escolas públicas eram autoridades, inclusive nas suas disciplinas. Alguns deles conseguiram me encantar. As professoras de Língua Portuguesa, tão severas e cultas, muito me ensinaram (só não conseguiram resolver meu trauma com ces e esses). Apaixonei-me igualmente por Biologia e Física e por pouco essas disciplinas não me arrastaram por esses científicos caminhos.

Não obstante, por força de insondáveis desígnios, fui, desde menino, igualmente inclinado às coisas da fé. Aos 13 já me decidira pela Teologia. Aos 18 ingressava no tradicional e lendário Seminário Presbiteriano do Sul, na cidade de Campinas, tendo como tutor o notável Rev. Acir Rickli. Eram os anos 80, mas ainda ecoavam pelos velhos corredores os nomes ilustres de mitológicas personagens que por lá passaram: o revolucionário Richard Schaull, o contundente Francisco Penha Alves, o honorável Júlio Andrade Ferreira, o enciclopédico Waldir Carvalho Luz, o insuperável Rubem Alves, entre tantos outros.

Em 1984, já bacharel, fui para o “campo”, a cumprir o que supunha ser minha vocação. Pastoreei pequenas igrejas na vila e no sertão. Aprendi a desatolar carros e a ouvir histórias. Em 1986 fui para o extremo Oeste do Estado de Santa Catarina, perto da divisa do Rio Grande do Sul. Adotei Chapecó como minha terra e tomei chimarrão e afeição por aquela gente. Como parteira, assisti ao nascimento de uma comunidade eclesial (uma daquelas tão sonhadas e utópicas eclesiogêneses às quais os teólogos latinoamericanos gostavam de fazer referência). Por “sugestão” de um companheiro, tive que deixá-la em 1989.

Mas há males que para bem vêm. Assumi a coordenação de uma organização ecumênica que foi determinante para a minha formação. O Centro Ecumênico Brasileiro de Experiências Pastorais (Cebep) foi minha escola por 10 anos. De volta a Campinas, fui morar a uma quadra do velho Seminário e a outra do, não tão velho, Rubem Alves. Este, juntamente com o Zé Lima (a quem eu prontamente canonizaria, tivesse investidura para tal), se tornaram amigos assíduos e, como mestres do cotidiano, muito me ajudaram na imprescindível arte de desaprender.

Meu trabalho no Cebep era organizar cursos para discutir os desafios do contexto brasileiro e latino-americano para a práxis teológico-pastoral de líderes religiosos. À medida que organizava tais cursos, eu também neles me matriculava, e os cursava. O Cebep foi uma escola intensiva, e eu, seu mais assíduo estudante.

Com o incentivo do Cebep, obtive o grau de Mestre em Ciências da Religião pela ­ Universidade Metodista de São Paulo, isso em 1996. Por essa ocasião fui contratado pela Faculdade de Teologia para coordenar o Instituto de Pastoral e trabalhar no departamento editorial. Pela confiança do Prof. Dr. Clovis Pinto de Castro, tive as primeiras experiências docentes na graduação. Primeiro como professor substituto e depois como professor responsável pelas cadeiras de Comunicação e Ação Pastoral, Homilética, Liturgia e até Metodologia da Pesquisa Científica. Constatei que, de fato, os japoneses estão certos: “ensinar é aprender”. Ministrar tais disciplinas abriu-me um fascinante leque de possibilidades acadêmicas e conexões neuronais (os famosos “nós no cérebro”).

Por isso, criei coragem e, apoiado pela FaTeo e orientado pelo Prof. Dr. Geoval Jacinto da Silva, conclui o Doutorado em Ciências da Religião (2005), também pela Umesp. Nessa jornada doutoral, tentei reunir as áreas às quais tenho me dedicado como docente: a comunicação, a homilética e a liturgia.

Atualmente (2012), respondo pelas disciplinas Homilética e Liturgia da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista – FaTeo/Umesp, ao mesmo tempo em que coordeno o Centro de Estudos de Homilética, Liturgia e Arte.

Condecorações e cargos à parte, aprendi com Schleiermacher que o melhor título que um especialista pode pretender é o de expert em amizade. A isso me aplico ultimamente.

 

 

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