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T e x t o s & T e x t u r a s

Brevíssimas considerações sobre Pastoral da Cidadania

 Luiz Carlos Ramos

 

Introdução[1]

O

 crescimento do cristianismo em todo o mundo, e particularmente dos evangélicos no Brasil, coloca em cheque a tradicional teoria de que a conversão do “homem” resultaria, automaticamente, na conversão do “mundo”.

Nunca houve tantas igrejas, tanta literatura evangélica, tantos programas religiosos de rádio e TV, tantas campanhas evangelísticas, correntes de oração, marchas, concentrações em estádios e em praças públicas etc. etc. etc.

A pergunta que se faz é: quais os resultados, ou melhor, os benefícios sociais, que o crescimento dos cristãos em geral, e dos evangélicos em particular, trouxe para a humanidade? O mundo é melhor porque há mais cristãos/evangélicos nele?

O Problema

A análise do compromisso religioso de grande parte das pessoas que se dizem cristãs parece evidenciar que essas pessoas restringem sua vivência cristã tão somente à dimensão privada da fé. Exercitam uma fé mágica e de consumo particular. O significado e as implicações de sua prática religiosa permanecem insensíveis e intocadas pela dimensão pública, comunitária e social da fé.

Afinal, a fé tem mesmo desdobramentos externos ao indivíduo? A fé tem mesmo uma dimensão pública? O Evangelho tem algo a ver com a sociedade?

Bem, na opinião de alguns de nós, a resposta é “Sim!” e, portanto, é preciso, urgentemente, ressignificar a fé à luz de uma dimensão pública!

Mas, o que é isso, afinal?

Dimensão pública da fé? Que diabos é isso, afinal? Bom, na verdade não é novidade nenhuma. Desde que existe fé, existe a consciência da implicação social dessa mesma fé. Sem nos determos na longa trajetória das histórias da igreja ao longo dos séculos, abordemos diretamente o problema em nossos dias.

Para que a fé exerça livremente sua dimensão pública, isto é, para que a ela possa ser efetivamente uma “fé cidadã”, é imprescindível que se estabeleça uma sociedade democrática. Creio que é pertinente, a esta altura, perguntarmos: O que é Democracia? O que é Cidadania? O que é Pastoral?

O que é Democracia?

Longe de nós tentar explicar aqui tal conceito que há milênios vem gerando tanta discussão e debates. Sabemos, porém, que a palavra democracia foi usada pela primeira vez (pelo menos é o que muitos acham), na peça “As suplicantes” de Ésquilo em 468 a.C., na Grécia antiga. Em seu sentido etimológico, democracia significa literalmente “poder do povo”. Daí em diante surgiram muitas democracias: as radicais (diretas), as liberais (representativa e pluralistas) e as sociais, entre outras, que se estabeleceram em diferentes e específicos contextos históricos, políticos, culturais, sociais e econômicos. De qualquer forma, democracia é sempre entendida como contraposta a todas as formas de governo autocrático; é entendida também como a possibilidade de tomadas de decisões coletivas. Seja como for, na prática ainda não existe a democracia ideal. O que temos, na melhor das hipóteses, é um processo de democracia em construção. A pergunta é: que papel desempenham os cristãos na construção democrática e na conquista da cidadania?

O que é Cidadania?

Cidadania é a qualidade de cidadão. E cidadão, segundo Michaelis, é o “indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado”. Uma pessoa adquire cidadania, não por herança, mas por conquista. Não se nasce cidadão, torna-se. Isto se dá quando nos tornamos conscientes de que “o Estado sou eu”, e nos dispomos a

“construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (Constituição, Art. 3o Dos Princípios Fundamentais).

O que é Pastoral?

Vou direto ao ponto: pastoral não é somente aquilo que é referente ao pastor profissional, tampouco é aquela página nos boletins das igrejas locais na qual o pastor escreve, também não é aquele tipo de agremiação que encontramos em escolas e hospitais. Pastoral é a ação da igreja, o ministério dos cristãos, o serviço que a Igreja presta ao mundo. A pastoral é a prática da doutrina. Afinal, ao lado da ortodoxia tem que haver uma ortopraxis.

A prática da igreja se expressa em três frentes distintas, mas interconectatas, como nos lembrou certa vez o revmo. Bispo Nelson Campos Leite: (a) a primeira podemos chamar de missão ad intra, e diz respeito à dimensão pessoal, íntima e particular da fé; (b) a segunda chamaremos de ad enter, porque se refere à prática entre os da família da fé – entre irmãos, comunidades e denominações religiosas (é a dimensão ecumênica); (c) e a terceira vamos chamar de ad extra, porque diz respeito ao compromisso dos cristãos (como indivíduos e como comunidade) para com o próximo, seja ele cristão ou não – aqui está, mais explicitamente localizada a pastoral da cidadania.

E essa missão da Igreja não se dá sucessivamente, mas simultaneamente. Isto quer dizer que os cristãos pensam e agem global e localmente, a uma só vez. É uma coisa e outra.[2]

A inserção no espaço público

A inserção dos cristãos no espaço público tem de ser mais do que a conquista da visibilidade (estar na mídia, crescer numericamente). Tem que se evidenciar numa presença qualitativa. Para não ser considerada perfeitamente dispensável, a participação cristã tem que ser relevante no processo de busca de respostas para as grandes questões contemporâneas.

As revoluções da humanidade

Muita água rolou debaixo da ponte desde que o “homem” recebeu o apelido de “sapiens”! (a) A primeira grande revolução, dizem[3], foi a que conseguiu ampliar o sistema muscular humano, o que foi possível com a invenção da roda e da alavanca. (b) A segunda, foi a que conseguiu ampliar o sistema digestivo, pela invenção da máquina a vapor e da industrialização. (b) E a terceira, é a que está conseguindo ampliar o nosso sistema neurológico – é isso que tenta fazer a tecnologia da informação (informatização).

Um importante teórico da comunicação[4], certa vez, mencionou que as três maiores transformações sofridas pela humanidade foram as que se deram por ocasião (1) da invenção da imprensa – pois surgiu uma nova linguagem (forma de comunicação); (2) da descoberta da América – pois descobriu-se um novo mundo inexplorado; (3) e da Reforma Protestante – porque uma nova maneira de conceituar e encarar o sentido da vida foi descoberto. Os paralelos contemporâneos dessas três seriam: (1) a invenção do computador – que inaugurou uma nova forma de comunicação, um nova linguagem; (2) a criação da internet que nos descortinou um novo mundo virtual inteiramente novo e inexplorado; falta, entretanto a terceira grande transformação que não diz respeito à técnica, ou à tecnologia, nem à forma, mas diz respeito ao conteúdo e ao sentido da vida. Quem serão os reformadores contemporâneos que terão coragem de fixar suas “95 teses”, não nas portas, mas nas janelas (windows) da internet e propor uma nova cosmovisão segundo os princípios do Evangelho? Por enquanto os mais bem sucedidos têm sido os hackers.

A atmosfera contemporânea

Antes de alguém oferecer respostas, precisa ouvir as perguntas. “O que será que será que andam perguntando nos becos” e nas praças, atualmente? O mundo está marcado fortemente, entre outras coisas, pelo:

  • Pessimismo: a decepção com os modelos políticos decadentes, com as propostas religiosas tradicionais e com as tradições morais;
  • Hedonismo: que alimenta a industria do entretenimento e leva às últimas conseqüências o individualismo descomprometido;
  • Misticismo: caracterizado pela privatização da fé, que age como aliado mágico para reforçar ambições mesquinhas e justificar conquistas iníquas;
  • Consumismo: resultante de uma obsessão pela prosperidade – o verbo ter ascendeu à categoria do ser.

O que é preciso para se implementar uma Pastoral da Cidadania

A implementação de uma Pastoral da Cidadania, e mesmo uma Pastoral Urbana, pressupõe:

  • Uma fé participativa – não um mero ativismo ingênuo, mas um engajamento consciente e conscientizador, que “ative nas pessoas a consciência ética”, e que opere publicamente muitos “sinais e prodígios” (cf. At. 2.43 e Hannah Arendt, milagre = acontecimento absolutamente inesperado, capacidade de iniciar algo novo);
  • Uma teologia da encarnação – geográfica, cultural, religiosa, política etc. 
  • Uma teologia da extrapolação – idem, i.e., que consiga romper com as barreiras e preconceitos geográficos, culturais, religiosos, políticos, raciais etc. 
  • Uma  desprivatização da fé – disposição para superar a religião “self service” e implementar a “comunidade missionária a serviço do povo” (slogan da Igreja Metodista); 
  • Uma paixão pela cidade (polis) – o reconhecimento de que as grandes áreas urbanas constituem um espaço privilegiado para a missão da Igreja e a conquista da cidadania; 
  • Uma consciência meta-pastoral – a compreensão de que, além de ser uma instância específica, a teologia da Pastoral da Cidadania constitui-se num referencial para todas as demais ações pastorais da Igreja. 
  • Uma disposição para ouvir, sentir e partilhar a vida do povo – o “cristão” é o “cidadão”, as necessidades e conquistas, a angústias e as alegrias, as derrotas e as vitórias do povo são também as suas. Não é preciso fazer a opção entre ser um cidadão ou ser um cristão, pois ambos são a mesma pessoa. 

Considerações finais

Católicos e protestantes têm maneiras distintas de fazer missão. Nisso há vantagens e desvantagens. No caso dos católicos, estes organizam sua prática numa maneira tricêntrica tradicional: ao redor da igreja, da praça e da moradia[5]; isto é, os próprios bairros e a vizinhança já lhes fornecem as condições ideais para sua inserção e ação.

Os protestantes, por sua vez, estão distribuídos de maneira mais dispersa. A comunidade à qual uma pessoa evangélica pertence não está, necessariamente, geograficamente próxima à sua casa (pode estar do outro lado da cidade). Isto, de certa forma, dificulta um engajamento centralizado geograficamente (por exemplo: numa associação de bairro).

Entretanto, o mundo moderno (ou, se preferirem, pós-moderno) já não está mais se estruturando de maneira tradicional. As sociedades urbanas, cada vez mais, estão se organizando policentricamente. A localização da moradia não é, necessariamente, a referência para o centro de interesse das pessoas. Na verdade, há muitos centros definidos por interesses os mais variados: econômicos, políticos, culturais, de lazer etc.

Nesse sentido, talvez sejam, justamente, os protestantes os mais bem preparados para atuar pastoralmente junto a essa população urbana que vaga como “ovelhas que não têm pastor”.

É um desafio tremendo. Que Deus nos ajude a enfrentá-lo!


[1] Para escrever este texto, servi-me abusivamente da reflexão do Prof. Dr. Clovis Pinto de CASTRO, da Universidade Metodista de São Paulo, conforme expressa em seu livro Por uma fé cidadã: a dimensão pública da igreja – fundamentos para um pastoral da cidadania (Umesp/Loyola, 2000). Considero-me, com a devida licença do/a leitor/a, escusado por não repetir as respectivas referências e créditos, ao longo do texto.

[2] Cf. Jung Mo SUNG em palestra proferida por ocasião do 5o Congresso de Produção Científica da UMESP, em 8 de novembro de 2000.

[3] Cf. Antônio Joaquim SEVERINO, em palestra proferida na UMESP em junho de 2000.

[4] Citado por Fernando ALTEMEYER JÚNIOR, em palestra proferida durante a XX Semana de Atualização Teológica, promovida pelo CEBEP, em Vinhedo, SP, de 20 a 23 de julho de 2000.

[5] Cf. João Batista LIBÂNIO, no artigo “A Igreja na cidade”, na revista Perspectiva Teológica no 18 (1996), editada pela Faculdade de Teologia do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus – CES.

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