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T e x t o s & T e x t u r a s

Capela da Serra

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A Capela da Serra completa, no Pentecostes de 2010, quatro anos de existência. Ela nasceu da convivência fraterna de alguns irmãos e irmãs que moram nas imediações da Serra do Japi, em Jundiaí, SP. Pela rede de relações e amizade, outros irmãos e irmãs se somaram ao longo desse tempo.

 

Hoje, congregam conosco mais de 50 pessoas; algumas, de Jundiaí, outras vêm da grande São Paulo, outras, do interior —Campinas, Piracicaba, Sorocaba—, e mesmo de outros estados: é o caso da regente do Coro da Capela da Serra, que vem do Paraná.

Desde seu início, propusemos que esse fosse um espaço de compromisso com o reino de Deus e a sua justiça; de oração e de vivência da unidade cristã; e de celebração de uma espiritualidade sacramental historicamente enraizada e culturalmente encarnada.

Quanto o projeto nasceu, recebeu o nome carinhoso de Capela da Serra, pela razão que se segue:

Atribui-se o termo “capela” a São Martinho de Tours, que viveu na época do imperador Constâncio, no século IV d.C. Conta-se que, quando ainda era soldado romano, desejava tornar-se cristão, mas relutava a tomar essa decisão por influência do pai, também militar, e por força de sua profissão. Certa noite, quando cavalgava pela neve, viu um mendigo. Movido por compaixão, rasgou a sua capa em duas partes e deu uma metade para o homem que padecia de frio. Mais tarde, durante aquela noite, enquanto dormia, teve um sonho no qual via Jesus Cristo envolto com a metade da sua capa. Quando narrou seu sonho, o termo que empregou para designar a metade da capa (ou capa pequena) foi “capela”. Essa experiência determinaria o modo de vida monástica que Martinho adotaria dali em diante. A partir de então, uma pequena construção destinada a acolher o Cristo no acolhimento dos irmãos, passou a designar-se “capela”.

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Estamos chamando o espaço no qual nos reunimos de “Capela da Serra” porque o nosso sonho é que este seja um lugar onde Cristo seja acolhido no acolhimento que fizermos uns dos outros e, já que estamos ecologicamente situados ao pé da Serra do Japi, pareceu-nos apropriado designar este lugar de “Capela da Serra”. Além disso, há aqui um encontro maravilhoso da natura com a cultura. As serras são edificações geológicas que naturalmente vão ao encontro do céu, enquanto as capelas são edificações humanas nas quais sobrenaturalmente Deus vem ao nosso encontro.

Ao longo desses anos, nossa comunidade já deu provas de que está se solidificando sadiamente: temos um significativo grupo que é pontual, assíduo e comprometido; todos são muito talentosos e dispostos a empregar seus dons para servir a Deus na comunidade; temos um espaço agradável para realizar as atividades; temos autonomia financeira; etc., etc.

Por outro lado, muitos de nós somos cooperadores e construtores de uma Igreja que hoje vem sendo dilapidada e desvirtuada pela lógica do deus-mercado, do consumo, do entretenimento e do espetáculo. Qual a nossa responsabilidade nesse processo? Cruzar os braços e assistir de longe?

Assim, é nosso desafio “vestirmos a camisa” do nosso time e entrarmos em campo pra jogar com técnica (sem esquecer a arte), dentro das regras, mas sem a ingenuidade, sabendo que há, sim, como advertira Jesus, juízes iníquos que precisam ser persuadidos com a teimosia e a persistências das viúvas pobres.

Uma proposta de estilo de vida

E assim concebemos essa nova comunidade eclesial (estamos, aqui, em pleno processo daquilo que os teólogos e teólogas dos anos 70-80 chamavam de uma nova eclesiogênese):

 A espiritualidade wesleyana se fundamenta na prática dos atos de piedade e nas obras de misericórdia. Essa é a síntese teológica do estilo de vida cristão formulado por John Wesley, tendo como base a teologia de Santo Agostinho e, principalmente, a síntese evangélica de toda a Lei, os Profetas e os Escritos da Bíblia Hebraica: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27).

Assim, inspirados/as por práticas já consagradas de ordens religiosas, comunidades eclesiais, litúrgicas e confrarias cristãs históricas, propomos uma comunidade (comunhão) que se edifique sobre quatro “alicerces” ou “pilares”:  o Trabalho, o Estudo, a Oração e o Silêncio (TEOS)—ver também: At 2.42: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”:

 

Trabalho

Um pilar, ou alicerce, que dá sustentação à nossa fé são as “obras de misericórdia”, entendidas aqui como toda a prática diaconal e “missionária a serviço do povo”, especialmente aos mais necessitados. Isso se faz mediante a realização de oficinas, laboratórios, mutirões, campanhas, e também por meio do ofertório, realizado nos momentos celebrativo-sacramentais.

 

Estudo

Nem os atos de piedade, nem as obras de misericórdia serão consistentes se não forem praticados criteriosa e conscientemente. Não se trata do estudo pelo estudo, mas de verdadeira práxis, isto é, de reflexão sobre a ortodoxia que fundamenta uma prática correta. A influência, principalmente dos meios de comunicação de massa, tem contribuído para a simplificação e superficialização da compreensão do mundo. Este, entretanto, é complexo, o que freqüentemente ilude o senso comum, fazendo-nos perder o bom senso. Temos um legado cultural que nos permite, não sem certo esforço, selecionar melhor as informações, transformá-las em conhecimento, e, pela graça de Deus, virmos a adquirir sabedoria. O estudo, portanto, é o terceiro pilar a sustentar nossa vida de fé.

Oração

Outro pilar que sustenta a comunhão da comunidade é a Oração, entendida aqui como toda a prática litúrgico-celebrativa-sacramental da vida comunitária. A Igreja se pauta pelo culto, pelos sacramentos, pela prática devocional, pelas orações, pela adoração e louvor, enfim, pelos “atos de piedade”. Isso pretendemos fazer sempre levando em conta tanto as nossas raízes históricas como o contexto cultural no qual estamos inseridos. 

Silêncio (descanso)

Este quarto pilar constitui novidade e não tem paralelo, até onde nosso conhecimento alcança, em outras ordens religiosas ou práticas eclesiais (à exceção dos adventistas, mas por outras razões e com outros paradigmas). Trata-se do descanso.

As escrituras, no seu primeiro capítulo, concluem a narrativa da criação com uma deflagração de greve, capitaneada nada mais nada menos que pelo próprio YHVH. Se Deus descansou, porque nós teríamos a ilusão de que não precisamos descansar? A sociedade contemporânea é workólica, e considera um sacrilégio a observância do terceiro mandamento: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar” (Êx 2. 8).

Trabalhamos durante o dia, estudamos à noite, nos finais de semana assumimos inúmeros compromissos, inclusive na Igreja (coro, sociedades, conjuntos musicais, visitas, reuniões administrativas, evangelísticas, etc.). Já não há tempo para convivermos com nossas famílias, para a prática do culto doméstico, para a leitura da Bíblia e de bons livros, para a meditação silenciosa e tranqüila a sós (tão cara a Jesus).

Por essa razão entendemos que o descanso é imprescindível: trata-se de um tempo reservado para ficar a sós, conviver com a família, abster-se da ideologia da mídia (substituindo a TV por boa literatura), praticar o culto doméstico, meditar e cultivar a sabedoria pessoal e da vida interior.

Concluindo

Em resumo, pensamos em organizar nossos carisma e mística eclesiais ao longo dos domingos [atualmente nos reunimos aos sábados] do mês, da seguinte forma (em geral há quatro domingos [sábados] e, eventualmente, um quinto):

No primeiro final de semana nos dedicamos à oração, principalmente pelo culto público ao redor da Palavra e da Mesa da eucaristia;

No segundo final de semana nos dedicamos ao trabalho, realizando mutirões, oficinas e laboratórios a serviço do povo;

No terceiro final de semana nos dedicamos ao estudo, abordando temas relevantes da atualidade de maneira que tenhamos critérios para julgar, enfrentar e confrontar a realidade do dia-a-dia na qual estamos inseridos;

No quarto final de semana nos damos o direito de descansar. Nesse dia não há atividades na “igreja”, mas valorizaremos o convívio em casa, com a família;

Nos quintos finais de semana (a cada três meses) nos encontramos para o reforço dos laços de comunhão: para refeições comunitárias, confraternizações, convivência…

Importante, ainda, seria enfatizar que a nossa Igreja não depende de dispendiosos recursos para funcionar. Geralmente, os itens que mais implicam em custos e gastos, nas igrejas convencionais, são: a manutenção do patrimônio e os proventos e subsídios pastorais.

Retistre-se, portanto, que, por opção, a Capela da Serra não quis alugar, construir ou comprar um edifício religioso. Em geral, os edifícios religiosos são subutilizados, dispendiosos e foco de conflitos. Muitas igrejas têm escolas, no nosso caso, há uma escola do bairro que, por providência, tem uma Igreja: a Escola Municipal Eduardo Paes, gentilmente, nos cedeu o espaço para nossas reuniões.

Quanto aos proventos pastorais, temos o privilégio de contar, em nossa “membresia”, com pastores e pastoras dispostos a servir à comunidade voluntariamente.

Considere com atenção e carinho estas idéias e compartilhe conosco suas preocupações e sugestões. Saiba que “aqui, nunca estamos sozinhos”.

Com afeto e amizade,

Rev. Luiz Carlos Ramos 

 

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