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T e x t o s & T e x t u r a s

Carta ao Papa Francisco

Pirassununga, 15 de março de 2016.




Sua Santidade,
O Papa Francisco PP
Palácio Apostólico
Cidade do Vaticano
av@pccs.va

Assunto: Carta aberta de um insignificante protestante brasileiro ao Santíssimo Papa Francisco

Santíssimo Padre, Papa Francisco,

Escrevo-te esta carta aberta sabendo que, por teus inúmeros compromissos e prioridades, as chances de que venhas a lê-la não são muitas. Contento-me, contudo, em expressar publicamente os sentimentos que, como humilde clérigo protestante, acalento a respeito do Santo Padre.

Primeiro, cumprimento-te por teu sorriso de menino levado. Perdoe-me se minha maneira de me expressar soar-te banal. É que esse aspecto, i.e., o teu sorriso, por si só, já se constitui motivo mais que suficiente para que te admire.

Segundo, saibas que teus pensamentos postos em palavras e gestos provocam em mim grande empatia, a ponto de, perdoe-me a intimidade, considerar-te gente de casa, amigo do peito.

Terceiro —e a esse respeito muitos correligionários meus, também protestantes, haverão de censurar-me, mais do que pelos motivos acima já declinados—, quero dizer que reconhecendo-te como o mais influente porta-voz contemporâneo do Evangelho daquEle outro menino sorridente e levado, o Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, te tornaste muito mais que Bispo de Roma e Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana, antes te converteste em pastor para todos aqueles e aquelas que creem e, talvez ainda mais, para aqueles e aquelas que já não podem ou não conseguem mais crer.

Por fim, quero que saibas, conquanto eu mesmo não esteja certo de que isso possa vir a significar algo para ti, que o tenho em minhas orações. Oro por ti porque posso imaginar, ainda que parcialmente, que tremendas lutas devas travar com os que te cercam, principalmente contra aqueles que não sorriem.

Se porventura as sombras que te envolvem não se mostrarem amigas, lembra-te que não estás sós. Além da promessa do Cristo: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”, registradas no final do Evangelho segundo São Mateus, capítulo 28, (quem sou eu para recordar-te? queiras perdoar-me), cerca-te igualmente uma nuvem de testemunhas, de cujas fileiras fazem parte este insignificante pastor metodista que tem a audácia de lhe dirigir estas, um tanto, desconexas palavras, e mais alguns estimados colegas de quem, eu diria com tristeza, o mundo ainda parece ser indigno. Com eles nos esforçamos arduamente para honrar o nome Metodista, que ostentamos com convicção e reverência, e só por isso nos damos a liberdade de sermos também convictamente ecumênicos.

Muitos, suponho, meus colegas protestantes principalmente, julgar-me-ão bajulador, mas não me preocuparei em justificar-me perante eles. Não te escrevo por causa deles, antes, o faço por mim mesmo, principalmente, porque não queria omitir-me neste momento histórico singular, no qual percebo com alguma lucidez, a despeito de tudo, o sopro manso do Espírito de Deus por todo o mundo habitado, e constato, com candura, a encarnação do Evangelho do Amor que promoves por teus gestos corajosamente proféticos.

Como sei que os ventos costumam mudar sem prévio aviso, achei por bem não deixar pra remeter-te esta correspondência depois.

Termino, e peço-te mil perdões pela petulância, dizendo-te que, conquanto Santíssimo, sei que não és Santo, pelo menos não ainda, no sentido canonizado do termo. Por isso eu, conquanto pecador, tornado santo (com letra minúscula) pela Graça e pelo Amor do Deus Eterno manifestado em Cristo, rogo por ti para que cumpras em segurança e cabalmente teu ministério de menino sorridente, fiel ao Evangelho do Amor, no serviço do Reino de Deus.

Com nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, ouso acreditar que se alguém quer ser o maior no Reino de Deus deverá tornar-se como criança. E, ao que tudo indica, sorrir é um bom começo.

Receba, em retribuição aos teus, meu igualmente sincero e generoso sorriso.

Fraternal e mui respeitosamente, em Cristo,


Rev. Luiz Carlos Ramos
Pastor da pequena Igreja Metodista de Pirassununga,
plantada amorosamente no interior do Estado de São Paulo, Brasil.

19 Comentários

  1. Caro irmão, paz seja contigo! Fiquei muito feliz ao ler as palavras que enviastes ao Papa Francisco, e peço licença para juntar-me a ti nesta percepção do sopro do Espírito no nosso tempo. Seu texto fez-me recordar da experiência de Elias no monte Horebe, na qual a presença de Deus se manifestou na suavidade de uma brisa, semelhante ao sussurro. Hoje, num momento histórico em que a altivez reina dominando as relações humanas, o Papa suavemente recorda os valores do Evangelho, há muito esquecidos da cristandade…
    Que esse sopro continue afagando nossos rostos com a suavidade do amor do menino da manjedoura.
    Com saudades, um terno abraço!
    Cleber.

  2. Ola Pastor Luiz Carlos!
    Passeando por diferentes sites aqui no meu iPad, encontrei esta carta maravilhosa. Ela demonstra para mim a mais pura sinceridade nao de alguém que deseja, mas sim de quem vive o verdadeiro dialogo ecumênico. Confesso que fiquei emocionado com suas palavras. Também rezo para que o Papa Francisco tenha recebido em mãos esta carta, pois das milhares que chegam semanalmente tomara que nao caia nas mãos de algum assessor estressado. Suas palavras sao lindas! Deus o abençoe! DELIZ PÁSCOA!
    Pe. Roberto Luiz Preczevski (Diocese de Santo Amaro, SAO PAULO)

  3. Querido Luiz Carlos, cheguei à sua carta-ousadia pelo Jorge Mesquita. Entrar na intimidade do Papa por seu sorriso é desenhar o evangelho pela emoção. E a poesia, leve e solta, sugere profundidades inauditas. O Papa se saberá amado por um estranho que lhe empresta uma solidariedade insólita, mediada pelo sorriso de criança. Impossível que ele, o Papa, não chegue até o seu próprio sorriso, em um elo ecumênico aberto à mais pura humanidade. Ely Eser Barreto César

  4. Caro Luiz, que bom te ler neste texto da carta. Sorrio contigo na singeleza do gesto e podes ter certeza: mesmo que ele não eia, nós outros já lemos e fomos pastoreados pelas tuas palavras. Bom demais. Que o Senhor da Vida e da Alegria seja sempre teu companheiro de caminhada. Abraço.

  5. Luiz Carlos Ramos, tudo que a gente quer dizer do e ao papa. Obrigado pela “petulância” e por nos fazer representar, mesmo sem disto saber.

  6. Seria um desperdício o Sumo Pontífice não ler esta carta!!!

  7. Lindo e sensível texto …Parabéns professor Luiz Carlos Ramos!!

  8. Meu irmão Luiz, muito obrigado por palavras tão belas e que também resumem meu apreço pelo Santo Padre! Que Deus nos abençoe!

  9. Belas e sorridentes palavras! Conte-nos se houver resposta. Certamente sua missiva soprará brisa fresca nas sombras que, porventura, envolvam o Santo Padre.

  10. Prezado Luiz Carlos Ramos, espero que a carta chegue ao Papa. Imagino que o faria muito feliz a leitura desse texto tão bonito e sensível! Partilho sua admiração por Francisco! Que bom que escreveu!

  11. Luiz Carlos Ramos, meu caro pastor na Capela da Serra, se você não escrever qualquer outra coisa pelo resto da vida, já terá escrito uma linda mensagem de amor, enfeitada de sorrisos, destes que o Papa Francisco e você distribuem gratuitamente a esta enfarruscada e enfezada (vc sabe de onde vem esta palavra, certamente…) cristandade que teima em permanecer de olhos fechados para o Mestre Jesus que tanto amava a todos e todas. Repito, a todos e todas! Muito obrigado, meu irmão.

  12. Belíssima carta, espero que chegue até o Papa Francisco. Torço para que seja também divulgada e conhecida no meio metodista. Abraços, Luiz Carlos Ramos.

  13. Caro professor e colega pastor Luiz Carlos Ramos, Quero parabeniza-lo pela iniciativa, comoveu-me sua carta. Digna de um um pastor preocupado com as questões que dividem o propósito de Nosso Senhor Jesus. Há algum tempo que queria fazer o mesmo, mas infelizmente dada a minha dificuldade de buscar o endereço ainda não o fiz. Fico feliz por esta manifestação ao papa que tem demonstrado tanto amor sem considerar nossa postura protestante. Ao contrário, preocupado com a reforma e conclamando os irmãos em Cristo Jesus para a unidade, em Amor, pela igreja de Nosso Senhor Jesus.

  14. Uau! Sempre além. …na sua infância escrevia pra NASA e obteve resposta, creio que o Vaticano terá essa mesma delicadeza. Beijo com admiração a ambos : Pastor e Santo Padre.

  15. Sempre tive vontade de expressar minha admiração pelo Papa Francisco, como também a minha oração.
    Obrigado por tê-lo feito de forma tão brilhante, Amigo Luiz Carlos Ramos. Abraço

  16. Sempre muito grande de coração, VC Luizão!!!!!

  17. Caro Luiz:
    tenho aprendido de um filósofo francês que nenhuma carta, quando postada, pode ter um destinatário uma vez que toda carta, quando postada, já está disseminada–lançada, sob o risco e a promessa de cair em outras terras. E eis que, em outras terras, eu, que fui um seminarista cultivado por suas prédicas e liturgias, interceptei as palavras que você posta ao papa sorridente com um sorriso. E, nas entrelinhas entre sua carta postada ao papa e este post, também intercedi por você enquanto você intercedia pelo papa. Com um sorriso, claro. Receba o abraço deste seu seminarista, também plantado com amor no interior de São Paulo (do Estado e daquele outro lançador de cartas, que dizia que Deus faz as coisas que não-são deste mundo serem e faz as coisas que se acham muito, virarem nada)
    Filipe Maia

  18. Meu irmão Luiz
    Tuas palavras gritam bem alto, Pastor tem rebanho!
    Esteja onde estiver a criatura do grande aprisco, a ela Ele se manifesta por Seus pastores, com o mais sublime objetivo de “guardar vossa alma para amardes a Deus” Js.23.11.
    Uma reflexão que me foi possível por tuas lindas e edificantes linhas lançados ao alto.
    Admiro muito você meu irmão pastor.

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