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T e x t o s & T e x t u r a s

Cartas, algemas e promissórias

Reflexões sobre a liberdade e a libertação
a partir da carta de Paulo a Filemom

Luiz Carlos Ramos

No dia 13 de maio de 1888, diz-se que foi abolida a escravatura, pelo menos a oficial, legalizada pelo Estado e abençoada pela Igreja. Essa data é analisada da seguinte maneira pelo historiador  Alfredo Bosi:

Escravidao-199x300“o treze de maio não é uma data apenas entre outras, número neutro, notação cronológica. É o momento crucial de um processo que avança em duas direções. Para fora: [porque] o homem negro é expulso de um Brasil moderno, cosmético, europeizado. Para dentro: [porque] o mesmo homem negro [é] tangido para os porões do capitalismo nacional, sórdido, brutesco. O senhor liberta-se do escravo [grifo meu] e traz ao seu domínio o assalariado, migrante ou não. (…) Não se decretava oficialmente o exílio do ex-cativo, mas passaria a vivê-lo como estigma na cor da sua pele. Entre as conseqüências dos séculos de escravidão no Brasil desenvolveu-se um quadro de exclusão dos negros. No Brasil um branco recebe mensalmente, em média, o dobro do negro.”

Justamente pelo fato de que essa libertação foi antes a do senhor do que a do escravo, é que os negros brasileiros se recusam a comemorar esta data. Como sabemos, e anualmente concelebramos, a data festejada pelos negros é a do Dia da Consciência Negra, aos 20 de novembro, relembrando o martírio de Zumbi dos Palmares, assassinado no ano de 1695. Mas esta é uma outra história.

A história de libertação, que inspira nossa reflexão, está registrada no texto bíblico que acabamos de ler (Epístola de Paulo a Filemon) e que também trata da escravidão. Não da escravidão dos negros, como a do Brasil, mas daquela que, de certa forma, todos estamos passíveis de experimentar (então, como agora, alguém se tornava escravo por causa da guerra, por causa de dívida, ou por causa da sorte/azar de ter nascido escravo).

O texto é, na verdade, uma carta que se inscreve no contexto escravagista do primeiro século da era cristã – é a única carta pessoal de Paulo que foi preservada até nossos dias. Epístolas como essa não eram incomuns. A diferença é que tais cartas geralmente pediam para que se perdoasse o escravo e que este fosse restaurado à sua “mui digna” condição serviçal. Por isso, quanto ao objetivo, a carta a Filemom é absolutamente inédita, inusitada (pois não pede que o escravo seja restituído à sua condição de escravo).

(A palavra empregada pelo autor para designar “escravo” é doulos,  que significa aquele que está amarrado/ligado/algemado/acorrentado a seu senhor – note-se que no verso 13, Paulo usa, em contrapartida, o verbo diakoneo, para se referir a um outro tipo de serviço, o do Evangelho.)

A fuga de escravos não chegava a ser rara. Refugiavam-se, com freqüência em cidades grandes, como Roma, na esperança de poderem permanecer despercebidos no meio da multidão, e, os deuses ajudando, ou pelo menos não atrapalhando, podiam tentar ganhar a vida “honestamente”. Nem sempre isso era possível e, às vezes, para matar a fome, antes que fossem mortos por ela, acabavam praticando pequenos furtos.

Por esses pequenos delitos, com freqüência, tais escravos eram presos e, quando identificados como escravos fugitivos, eram devolvidos a seus senhores. Escravos fugitivos, quando recapturados eram severamente punidos (daí a origem do gesto litúrgico da oração: subjugado, manietado, o escravo recebia de joelhos a sentença e o castigo).

É nesse contexto que se inscreve a comovente Epístola a Filemom. Como toda carta que se preze, esta também tem um remetente, um portador e um destinatário. Personagens que, quando melhor conhecidos, muito podem nos ensinar. Vejamos o que descobrimos a respeito deles, começando pelo…

 … Destinatário: Filemom

Descobrimos que Filemom era querido e amado por Paulo e considerado seu colaborador (agapeto, synergo – v. 1). Que vivia provavelmente com a irmã Áfia e o esposo dela, Arquipo, em Colossos (v. 2) – outra versão interpreta que Filemom é que era casado com Áfia e que Arquipo era filho do casal. A carta diz que Filemom era amável e amoroso e que possuía notável fé (agapen kai ten pistin – v. 5).

Somos informados ainda de que sua casa se constituía num oásis, uma sinagoga/igreja (ekklesia – v. 2), para os cristãos de Colossos. E que por seu intermédio o coração dos santos era freqüentemente reanimado, confortado e alegrado (v. 7).

Podemos perceber que Filemom possuía algumas propriedades: uma casa, que virara igreja (v. 2); pelo menos um escravo, que fugira (vv. 10,11,15); e alguns bens (dentre eles os que teriam sido roubados pelo escravo fugitivo).

E, por último, ficamos sabendo que recebe de Paulo um pedido, no mínimo estranho, inusitado: transformar um escravo em um irmão.

Vejamos, agora, o que podemos descobrir a respeito do…

 … Portador: Onésimo

Que era de Colossos descobrimos lendo a Epístola aos Colossensens (“vosso conterrâneo” – cf. Cl 4.9). E a carta a Filemom deixa claro que Onésimo é o tal escravo fugitivo (v. 10), isto é, uma das propriedades perdidas de Filemom. Insinua que antes de fugir não tinha boa fama, antes, era considerado um inútil (achreston/euchreston – v. 11).

Podemos deduzir que era um escravo um tanto rebelde e ousado, pois tinha o péssimo costume de sonhar com a liberdade e de não se deixar chamar de “inútil” – essas coisas impróprias que alguns escravos insistem em cometer –, por isso resolve fugir (v. 15), toma “emprestados” a Filemom alguns objetos de valor e, talvez, mais algumas moedas e parte para a cidade grande (cf. v 19).

Também deduzimos que Onésimo era um tanto azarado, pois, ao que tudo indica,  acabou sendo preso em Roma (v. 10) – talvez por reincidir na prática de aliviar os cidadãos do incômodo peso de suas moedas.

Entretanto, Onésimo não deixava de ser sortudo, pois foi parar justamente numa prisão onde pôde ter contato com o apóstolo Paulo (v. 10). Sabemos que, por intermédio de Paulo, Onésimo conhece o Evangelho (v 10) e a possibilidade de uma liberdade infinitamente superior, a qual jamais sonhara poder existir.

Ao que tudo indica, há de tornar-se, mais tarde, importante líder religioso. Há quem diga que teria se tornado Bispo de Éfeso (citado por Santo Inácio de Antioquia, † 107).

Sabemos, porém, que, além da Boa Nova de libertação do Evangelho, recebe de Paulo, para seu azar (de novo!), a temível incumbência de servir de carteiro, levando uma mensagem justamente para o senhor de quem fugira levando algumas lembrancinhas e a grande e infeliz lembrança de que Filemom o considerava um inútil (v. 17).

Agora é preciso que nos detenhamos, por alguns instantes, revendo as informações que temos a respeito daquele que faz esse pedidos tão estranhos, tanto para Filemom quanto para Onésimo, o…

 … Remetente: Paulo

Sabemos que, nessa ocasião, Paulo estava preso em Roma, por contingência (desmios=prisioneiro), mas que era embaixador por vocação (presbytes – v. 9) e que, mesmo preso, era um inveterado e compulsivo remetente de epístolas.

Por seu ministério – e por suas cartas – muitos haviam sido gerados na fé, inclusive Filemom, o escravagista, e Onésimo, nosso azarado/sortudo escravo (v. 19 e 9, respectivamente).

Seus textos mostram que Paulo é alguém que estabelece forte vínculo afetivo com as pessoas que evangeliza (vv. 1,2,23,24). Não se contenta em dar o recado: insiste em comungar de corpo e alma.

Temos de reconhecer que, ao evangelizar, Paulo tinha o mérito de não fazer acepção de pessoas: considera cada um “irmão caríssimo” quer fosse senhor; quer fosse escravo (v. 16); quer fosse homem, quer fosse mulher; quer fosse da casa grande de Filemon, quer fosse da Senzala de Onésimo.

E mais, Paulo reconhece o potencial das pessoas. Leiamos: “Ele [Onésimo], antes te foi inútil; atualmente, porém, é útil, a ti e a mim” (v. 11) e “eu queria conservá-lo comigo mesmo para, em teu lugar, me servir nas algemas que carrego por causa do evangelho” (v. 13). (Note-se o trocadilho com o significado do nome “Onésimo” = “util”).

Como homem do seu tempo, Paulo respeita as praxes e convenções sociais: “nada, porém, quis fazer sem o teu consentimento” (v. 14). Não chega a ser explicitamente abolicionista… Mas acha que sempre é possível melhorar as praxes e convenções: neste caso, acha que Filemom deve considerar Onésimo não como mero escravo, mas “antes, muito acima de escravo, como irmão caríssimo” (16) – o que, convenhamos, não era pouca coisa para sua época.

Essa esperança de que o mundo pode ser melhor, de que as relações podem ser mais fraternas, de que as distâncias sociais e econômicas podem ser encurtadas, fez com que Paulo tivesse sido absolutamente solidário para com Onésimo. Por isso, não pôde permanecer indiferente, e passa a interceder junto a Filemom em favor do “filho gerado entre algemas”, certo de que Filemom poderá fazer muito mais do que o solicitado (v. 21): O perdão da dívida? A alforria? A autorização para que Onésimo voltasse para trabalhar com Paulo?

Finalmente, sabemos que Paulo não dá tarefas difíceis somente para os outros. A tarefa que atribui a si próprio é ainda mais árdua: assina uma promissória em benefício de um escravo inútil, fujão e ladrão (v. 19). Paulo empenha sua honra e seus bens na luta pela queda das barreiras sociais, culturais e econômicas. Barreiras essas que insistem em fazer de homens, como Filemom, escravos de um sistema que escraviza e segrega; ou que reduzem homens, como Onésimo, a fugitivos do medo e ladrões da ilusão. Sim, Paulo empenha sua honra, seus bens e a própria liberdade para que as pessoas deixem de se tratar como senhores e escravos, e passem a se tratar como “irmãos caríssimos” (adelphon agapeton).

Concluo com algumas…

 … Considerações pastorais

De Filemom, aprendemos que o fato de existirem cristãos exemplares, amorosos, cooperadores do Evangelho e possuidores de notável fé, não é garantia de uma comunidade que não escravize ou segregue; aprendemos que a santificação é um processo contínuo, que exige conversão constante, rumo à libertação plena. É preciso mais do que abrir as portas de casa para a Igreja, é preciso abrirmos as portas da Igreja para a Senzala.

De Onésimo aprendemos que resistir às cadeias, nos rebelarmos contra a opressão e, eventualmente, fugirmos da escravidão, não nos garante a conquista da liberdade – há uma liberdade superior que é preciso ser conquistada para que deixemos de ser fugitivos e inúteis: porque ser livres para é muito mais do que estarmos livres de. Estou certo de que Onésimo se sentiu infinitamente mais livre quando experimentou a liberdade para enfrentar seu passado do que quanto, fugindo, pensava estar se livrando do seu passado.

E de Paulo aprendemos que as cadeias não podem ser desculpa para o conformismo e não são justificativa que nos impeçam de tomarmos iniciativa na construção da sociedade fraternal.

Então, irmãos e irmãs, estaremos dispostos a empenhar a nossa honra, os nossos bens e a nossa própria liberdade para que, entre nós, não haja mais senhores e escravos; e para que haja, antes, uma e única família humana formada de irmãs e irmãos caríssimos e livres, livres, livres…?

Assim Deus nos ajude!

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(Pregado pela primeira vez na Faculdade de Teologia
da Universidade Metodista de São Paulo, em Maio
de 2003)

IMAGEM: Man Bound with Chains, © Kristy-Anne Glubish/Design Pics/Corbis,
COLEÇÃO, Design Pics, Padrão Royalty-Free (RF) 42-18915907

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