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T e x t o s & T e x t u r a s

Causos de amor & humor

Crônicas de Piraí do Sul, PR


Essa charmosa igrejinha, incrustada numa aprazível encosta na cidade de Piraí do Sul, PR, foi a minha primeira designação pastoral, isso em 1984/85. As lembranças que guardo desse tempo, e daquele povo, são definitivas. E aqui passo a reunir alguns dos episódios ali vividos, verdadeiros causos de amor & humor.

* * *

A mudança e o acidente de bicicleta

Cheguei de mudança no verão de 1984. Dois irmãos, presbíteros da igreja, foram me receber na casa pastoral e ajudar a descarregar a modestíssima mudança que eu trouxera comigo, depois de arrematar com parentes alguns parcos móveis e utensílios.

Os dispostos e voluntariosos irmãos que me receberam eram o Seu Salvador, de 73 anos de idade, e o Sr. Dário, que devia contar com uns 65. Depois de nos saudarmos e concluirmos os protocolos e formalidades das apresentações iniciais, notei que os nobres anfitriões estavam com as roupas um tanto rotas e sujas, sim, rasgadas na altura dos joelhos. Notei ainda que estavam bastante esfolados nos braços e cotovelos.

Intrigado, quis saber o que havia acontecido. Eles, em tom zombeteiro, com notável senso de humor, contaram que desciam a ladeira, os dois de bicicleta, o Sr. Dário ao guidão e o Seu Salvador na garupa. Na descida, perderam o freio e os dois se estatelaram em plena avenida central. Caçoando um do outro, levantaram-se, sacudiram o grosso da poeira, que a essa altura se lhes havia apegado de alto a baixo, e retomaram, mancando e rindo, seu caminho em direção à casa pastoral.

Trabalharam árdua e alegremente, descarregando a mudança, não sem fazer, claro, breves pausas para contar algum novo detalhe do “acidente”, e dar mais umas boas gargalhadas.

A amizade que surgiu desse primeiro encontro está entre os maiores tesouros que guardo do lado esquerdo do peito.

Assim foi o meu primeiro dia de pastor, num longínquo e saudoso janeiro, na querida cidadezinha paranaense de Piraí do Sul.

P.S.: A casa de madeira onde morei, parecida com a da foto, não pertence mais à igreja. Quando cheguei, ela já tinha mais de 70 anos, e havia engordado sucessivas gerações de vorazes cupins.

* * *

Salvador mediante este daqui

No domingo seguinte lá estava eu à frente da igreja.

Findo o culto, à porta, cumprimentando os fieis, abraço o Seu Salvador, com cuidado para não ofender os hematomas e arranhões, que ele ganhara após as peripécias ciclísticas, subindo e descendo as ladeiras na garupa da magrela do Sr. Dário.

Provoco.

— Então, o senhor é o salvador desta igreja?

E ele responde:

— Sou! Mediante este daqui!

Dizia isso rindo com o canto do olho e esfregando o polegar contra os dedos indicador e médio.

Era homem pobre, muito pobre. Humano, demasiado humano. Sabia que justamente o contraste com a sua figura, de austeridade ímpar, dava mais graça ainda à piada.

* * *

Nossa! Mas é só um menino!

Luiz Carlos Ramos, aos 23 anos de idade | Foto by José Carlos Potenciano

Certa manhã, eu estava na casa pastoral, debruçado sobre os livros, escritório já montado, máquina de escrever à mão, escrivaninha com aquela bagunça organizada repleta de anotações e livros espalhados, quando ouvi que alguém batia palmas junto ao portão.

Saio, então, e pergunto ao distinto senhor de chapéu que aguardava ser atendido:

— Pois não?

E ele:

— O seu pai está?

— Não, meu pai mora em outra cidade, por quê?

— Mas aqui não mora o pastor?

— Sim, mora!

— Ele está?

— Sim, sou eu.

— Nossa! Mas é só um menino!

De fato, aos 23 anos de idade, acho que não convencia muita gente como pastor. Tenho pra mim que esse foi o meu maior trunfo. Escapei do estereótipo do pastor velho, chato e moralista que a maioria das pessoas tinham em mente quando se tratava da imagem de um pastor.

Isso me fechou portas, mas também abriu muitas outras. E, cá pra nós, acho que sempre gostei mais dessas outras, as mais estreitas e ainda fechadas para a maioria dos pastores.

* * *

Não adianta, essas aí não viram gente!

Seu Salvador, já nosso conhecido, era uma figura! Padeiro aposentado, solteirão convicto, vivia modestamente numa casa muito simples, que dava para rua, bem de frente para a Igreja Matriz.

A casa tinha, na frente, uma porta e uma janela, mas nenhuma entrada de luz lateral, porque fora construída grudada às casas vizinhas. Afundando-se pela sala, passava-se em frente ao seu quarto, sempre na penumbra, por falta dessa fonte de luz natural, até se chegar à cozinha.

Típica cozinha do interior, com fogão à lenha e uma mesinha rústica, era o lugar mais agradável da casa, bem arejada e relativamente iluminada por uma janela e uma porta que estavam sempre abertas, voltadas para o quintal.

Nesse quintal o Seu Salvador criava umas galinhas. Como a porta estivesse sempre aberta, vez ou outra algum frango mais ousado resolvia entrar e dar uma volta passando a cozinha em revista.

Quando isso acontecia, o Seu Salvador se levantava e argumentava com o galináceo:

— Xô! Quantas vezes eu já disse pra vocês não entrarem aqui.

Então, encolhendo os ombros, se lamentava:

— Não adianta, por mais que eu ensine, essas aí não viram gente!

Eu costumava visitá-lo praticamente todos os dias. Não me lembro de que tenhamos alguma vez ficado na sala de visitas. O nosso lugar de prosear era a cozinha.

Às vezes almoçávamos juntos. Ele fazia tudo na casa: lavava, passava, limpava, cozinhava…

Um dos cardápios preferidos de ambos, dele e meu, era arroz, feijão e ovo frito. Um dia notei que, quando quebrava o ovo, antes de colocá-lo na frigideira, ele tirava com um talher a calaza, aquela membrana da clara que liga a gema aos pólos do ovo. Intrigado, perguntei por que ele tirava aquela parte.

Ele então respondeu:

— Minha mãe uma vez me disse que isso aí é o esperma do galo.

Achei graça, e saboreamos com gosto nosso delicioso prato de arroz com feijão, ovo frito e amizade.

* * *

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