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T e x t o s & T e x t u r a s

Com a palavra, o vento e o fogo!

Reflexões a partir de Atos 2.1-11

Luiz Carlos Ramos

 

Lá fora a festa estava animada. Celebrava-se o Pentecostes, festa antiga da tradição judaica em gratidão porque a terra dera o seu fruto. Havia gente de todo lugar. Enquanto isso, a Igreja, reunida, mas amedrontada, estava fechada, dentro de uma casa, como se sabe pela narrativa de João: “Chegada pois a tarde daquele dia, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham juntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, disse-lhes: Paz seja convosco […] e tendo dito isto soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo” (20.19-22). No relato de Lucas, no livro dos Atos dos Apóstolos – que alguém certa vez sugeriu que deveria se chamar Atos do Espírito Santo –, o vento sopra dentro da casa onde se encontravam os discípulos e as discípulas de Jesus (v.2) e é assim que acontece o Pentecostes Cristão. Não é surpreendente que tal experiência pneumática tenha se dado num lugar fechado?

O Pentecostes cristão é sinalizado, nesta perícope, por três elementos enfáticos que caracterizam a ação do Espírito Santo na comunidade dos discípulos/as: o Vento, o Fogo e a Palavra; e a dinâmica do texto sugere um movimento que conduz do cenáculo para a rua. Esses elementos e essa dinâmica nos levam a pensar nas implicações da doutrina do Espírito Santo para a vida das igrejas.

Comecemos por considerar o primeiro elemento: o vento, pois…

… O Espírito é vento impetuoso
capaz de arejar a mais fechada das comunidades

Constatamos, inicialmente, que o Pentecostes cristão acontece de dentro para fora e de forma inevitável. Não pode ser fabricado, ou manipulado, nem provocado, nem impedido pela ação humana. É manifestação da graça divina que desce e visita a comunidade de fé. E, sendo de Deus, não pode ser limitado no seu alcance e, por isso, é experiência comunitária para toda a casa (v.2), i. e., para todos que se encontram na casa.

O vento (pneuma = espírito) é incontrolável — “O vento sopra onde quer…’’ (Jo 3.8). Os discípulos e discípulas não imaginavam quão radical podia ser tal afirmação de Jesus, até que a experimentaram no dia de Pentecostes. “Onde quer”, para Jesus,  significa que o vento pode soprar até mesmo dentro de uma casa fechada.

Isto indica que até o grupo mais ensimesmado e obtuso pode ser visitado por esse Vento Impetuoso. A comunidade cristã é, assim, arejada pelo Espírito Santo.

Consideremos, agora, o segundo elemento: o fogo, afinal…

… O Espírito é labareda de fogo
capaz de aquecer a pessoa mais gélida

O Pentecostes cristão, além de ser experiência para toda a Igreja, é experiência para cada discípulo e cada discípula. Segundo o livro de Atos, línguas de fogo foram distribuídas “uma sobre cada um(a)” (v.3). A ação do Espírito é, portanto, labareda de fogo que aquece o coração daquele e daquela que integra a comunidade de fé. Não é massificadora, mas também não é marginalizadora. É para todos, mas também é pessoal e respeita a individualidade de cada pessoa. Mesmo a mais insensível das personalidades é transformada pela presença do Espírito Santo.

Sendo para todos e todas e para cada um e cada uma, não faz acepção de pessoas. Por não depender das virtudes do indivíduo que o recebe – por ser graça de Deus – o Espírito sopra onde quer, independente dos méritos humanos. Portanto, espiritualidade não é requisito para se receber o Espírito Santo, mas, antes, conseqüência da presença desse Espírito na nossa vida.

Tal presença sensibiliza e move o discípulo e a discípula para a missão. O Espírito Santo nos arranca do cenáculo e nos leva para a rua, para a praça e… para a experiência do terceiro elemento: a Palavra, porque…

… O Espírito é palavra divina na boca dos fiéis
capaz de fazer-se compreendida nos ouvidos das nações

O Pentecostes cristão é experiência para toda a Igreja, para cada discípulo ou discípula e também o é para todas as nações. A comunidade cristã, até então fechada em si mesma, uma vez arejada e aquecida pelo Espírito Santo, torna-se aberta, comunicativa e simpática (cf. 2.47).

Tímidos discípulos se tornam ousados pregadores que ganham a rua e fazem do mundo sua paróquia. E, ao contrário do que muita gente pensa, ao invés de falar em língua estranha, eles começam a pregar em um idioma muito familiar para seus ouvintes.

E aquela gente, de todas as partes do mundo, se admira porque, pela primeira vez, ouvem falar das maravilhas de Deus em sua própria língua (cf. vv. 7 e 8: língua materna = língua da mãe). Mais uma vez, o Pentecostes é experiência para todos e para cada um. Para todas as nações e para cada uma na sua particularidade — pois o emprego da língua natal é a demonstração da intimidade e respeito pela individualidade com que Deus trata as pessoas, as igrejas e as nações.

Conclusão

Provocados pela ação do Espírito que invade o espaço fechado pelo medo e abre as portas da Igreja para o mundo carente de ouvir as maravilhas de Deus na sua própria língua, somos levados a orar:

  • Para que o preconceito, o orgulho e o medo não levem nossas comunidades a se fechar e isolar da vida do povo;
  • Para que o Pentecostes cristão renove o ar, muitas vezes viciado, de nossas comunidades e sopre sobre elas o vento da liberdade e da libertação;
  • Para que nossas comunidades, pastores e pastoras, bispos e episcopisas, não caiam na tentação de querer manipular, controlar ou limitar as manifestações do Espírito, que sopra onde e como quer.

Uma vez que o milagre do ouvir das nações se dá quando acontece o milagre do falar das igrejas, oremos para que nossas igrejas se abram e estabeleçam uma comunicação eficiente com os de fora da comunidade.

Oremos, portanto, pelas nações, sedentas das admiráveis maravilhas de Deus, anunciada pela boca da Igreja, numa linguagem familiar, íntima, comunicativa que respeite as particularidades de cada interlocutor.

Finalmente, irmãs e irmãos, sejamos,  a comunidade do Espírito: que sopre sobre nós o Seu vento impetuoso e descortine diante de nós o horizonte do Reino de Deus; que desça sobre cada um e cada uma de nós o Seu fogo e nos faça arder os corações com sentimentos e pensamentos de Solidariedade e de Unidade; que sejamos a comunidade da Palavra, para que o respeito pela particularidade e pela individualidade nos permita o diálogo, a compreensão e o anúncio das maravilhas de Deus, desde as nossas igrejas locais, passando por toda a Igreja cristã, até os confins da terra. Assim Deus nos ajude.

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Mensagem pregada pela primeira vez durante a Semana de Atualização Teológica em outubro de 2000
IMAGEM: Quilted banner of flames and dove, for Pentecost

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