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T e x t o s & T e x t u r a s

Convite à coragem

Há textos que encontramos dos quais gostaríamos de ter sido o autor. Este é um deles, escrito pelo meu querido irmão e amigo de mais de 20 anos, Pe. Paulinho. Boa leitura…

Convite à coragem

“O espírito humano é uma lâmpada de Deus que sonda as profundezas do ser”.
(Provérbios 20:27)

 

Estamos no mês de dezembro (o décimo mês, no calendário romano): tempo de compaixão e de coragem, misericórdia e vigor. Tempo de equilibrar a alegria com o heroísmo. Tempo de dedicação e renovação!

É um tempo de muita luz, que nos desafia a uma postura tanto diante da sua ausência quanto de seu excesso: ambos podem nos cegar. Está na hora de enxergarmos a verdadeira luz em meio a tudo que ofusca!

E é preciso coragem para atravessar o que nos cega: com a mão à fronte, protegendo-nos da luz, atravessemos a ganância, o medo e a insegurança que reluzem tão poderosamente em nossos dias e noites…

Neste Natal, tenhamos a coragem de nos fazer presença, em vez de multiplicar os presentes! Estejamos presentes junto às pessoas, sobretudo os famintos, carentes e excluídos! Tenhamos coragem de deixar Papai Noel de lado, vestindo-o com calções e chinelos e lacrando todas as chaminés, para abrirmos nossos corações e portas à chegada salvadora do Menino Jesus em cada criança!

Tenhamos coragem de assumir o nosso verão escaldante, arrancando da árvore de Natal todos os algodões de falsas neves; trocando nozes e castanhas por frutas e saladas tropicais; simulações pinheirais por reais acácias e soberanos flamboyants…!

Tenhamos coragem somente de endereçar nossas cartas (e cartões) ao Criador-Deus-Menino, como fez o pequeno Lucas (de quatro anos): convencido de que Caim e Abel não teriam brigado se dormissem em quartos separados; propôs ao Divino que ninguém mais nascesse ou morresse e que todos nós vivêssemos para sempre; e se comprometeu a enviar seu agasalho ao filho desnudo de Maria e José, depois de tê-lo visto com frio no presépio!

Tenhamos coragem de falar às nossas crianças que, em vez de brinquedos e bolas, peçam bênçãos e graças, abrindo seus corações para destinar aos pobres todo supérfluo que entulha nossos armários e gavetas. A sobra de um é a necessidade de outro, e quem reparte bens partilha Deus.

Tenhamos coragem de, pelo menos um dia, desligar toda a parafernália eletrônica, inclusive o telefone e, nos recolher à solidão, fazendo uma viagem ao interior de nosso espírito, lá onde habita Aquele que, distinto de nós, funda a nossa verdadeira identidade. E entregues à meditação, fecharmos os olhos para ver melhor!

Tenhamos coragem de nos despir dos pudores, e fazer em família ao menos um momento de oração, ler um texto sagrado, agradecer ao Pai de Amor o dom da vida, as alegrias do ano que finda e até dores que exacerbam a emoção, sem que se possa entender com a razão. Finita, a vida é um rio que sabe ter o mar como destino, mas que ignora quantas curvas, cachoeiras e pedras haverá de encontrar neste seu percurso.

Tenhamos coragem de arrancar a espada das mãos de Herodes fazendo com que nenhuma criança possa ser condenada ao trabalho precoce: violentada, surrada ou humilhada… Todas têm direito à ternura e à alegria, à saúde e à escola, ao pão e à paz, ao sonho e à beleza.

Tenhamos coragem de reverter toda dieta em benefício do prato vazio de quem tem fome, e de lutar para que ninguém dê ao outro um presente embrulhado em bajulação ou escusas intenções. Que o tempo gasto em fazer laços seja muito inferior ao dedicado a dar abraços.

Tenhamos coragem de cobrir nossas mesas de Natal com afeto e compaixão… Dispostos a renascer com o Menino, com urgência, trataremos de sepultar iras e invejas, amarguras e ambições desmedidas, para que o nosso coração seja acolhedor como a manjedoura de Belém.

Tenhamos coragem de como os reis magos dar um voto de confiança à estrela guia, desviando-nos das indicações dos soberanos de plantão: não busquemos nosso próprio interesse, mas o da maioria, sobretudo dos que, à semelhança de José e Maria, foram excluídos da cidade e, como uma família sem terra, obrigados a ocupar um pasto, onde brilhou a esperança.

Tenhamos coragem de fazer do estrume, adubo para nosso canteiro de lírios: de recitar poesia mesmo que não sejamos poetas, de cantarolar melodias mesmo que não sejamos músicos, de pintar o sete/oito/nove/mil mesmo que não sejamos pintores ou escritores, de declarar nossos amores mesmo que ainda não tenhamos encontrado a pessoa amada… Só, e somente só, por sabermo-nos morada do amor que nos fecunda em gravidez inefável!

Tenhamos coragem de, mãos dadas com o Menino-Deus, deixar que as águas lavem o avesso de nossa pele e, em seguida, caminharmos silentes rumo ao novo ano… E com os olhos fixos na Divina Criança, deixar que seu verbo se faça carne em nosso coração de pedra, cuidando para que cresça despregada da cruz, exaltada pela vitória inelutável da Ressurreição.

Tenhamos coragem de trocar o Papai Noel pelo Menino Jesus, o shopping pela igreja, a mercadoria pela compaixão… E aquecidos pela fé, celebraremos assim uma verdadeira festa, aquela que, no dia seguinte, não deixa ressacas de farturas, faturas e fissuras, mas enche o coração de júbilo e simplicidade.

Enfim, tenhamos coragem de viver um terno natal, ousando corrigir o equivoco do poeta: pois o amor não é eterno enquanto dura, antes dura por que é terno. Amém.

Pe. Paulinho 
(Inspirado no texto “Desejos de Natal” de Frei Betto)
Cantando o Natal com as crianças do Colégio Pio XII,
Campinas, 6 de dezembro de 2005
Festa de São Nicolau

Um comentário

  1. Amém!

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