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T e x t o s & T e x t u r a s

“Deus, quando vier, que venha armado”

Luiz Carlos Ramos
(Escrito para o Natal de 2005)

 

 “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher…” (Gálatas 4.4) 

“Exultai, vós que sois justos, porque aquele que traz justiça nasceu neste dia. Exultai vós que estais fracos e vós que estais enfermos, pois aquele que traz a cura nasceu neste dia. Exultai, vós que estais em cativeiro, porque o vosso verdadeiro Senhor nasceu neste dia. Exultai, vós que sois livres, porque aquele que traz libertação, nasceu neste dia. Exultai, todos os cristãos, porque Jesus Cristo nasceu neste dia. Seu nascimento não tem fim e principia onde termina.” (Santo Agostinho)

Para qualquer um, o tempo pareceria absolutamente impróprio. Não se podia descer de Jerusalém a Jericó sem se correr o risco de ser assaltado ou ser vítima de tentativa de latrocínio. Era difícil conseguir um emprego, fosse de carpinteiro ou pescador, até mesmo um bico de bóia-fria. As escadarias e os cruzamentos eram disputados por molambos que imploravam esmolas. Os que tinham algum recurso, o iam perdendo aos poucos para a ganância dos coletores de impostos. Revoltas e quebra-quebras pipocavam por toda parte. Os cidadãos andavam armados. A polícia era violenta. A pena de morte exibia com orgulho seus troféus no alto das colinas ensangüentadas.

Ao que tudo indica, Deus, se quisesse visitar a terra naquela época, deveria seguir o conselho do Riobaldo, que dizia: — Deus, mesmo, quando vier ao sertão, que venha armado.

Mas não foi assim. Para os estranhos e teimosos profetas bíblicos, aquele tempo inoportuno era, na verdade, a plenitude dos tempos, o kairós, o tempo exato para que Deus irrompesse na história. E, a despeito de todas as condições desfavoráveis, “o verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14).

Deus nasceu desarmado. Sendo a luz do mundo, tudo o que se via eram dois olhos negros, brilhando no meio da noite. Sendo Palavra de Deus e Verbo divino, tudo o que sua boca podia fazer era chorar e sugar satisfeito o leite materno.

Sim, Deus nasceu desarmado. Lá está ele! Aquele, a quem os céus não podem conter, nasce do ventre de uma mulher pobre e aconchega-se no calor daqueles braços de mãe. Sendo o Senhor do universo, hospeda-se em uma estrebaria. Tendo a história nas mãos, dorme numa manjedoura.

De fato, Deus veio num tempo inoportuno para os que lucram com as armas, com os juros e com a morte, porque a sua chegada propõe um basta! a tudo isso. Para nós, que queremos a paz, que almejamos a justiça, e suspiramos pela vida, Deus nos vem em boa hora. Porque nós também clamamos: — Basta! Não queremos mais tanta violência. Não queremos mais tanta corrupção. Não suportamos mais tanta injustiça. Não queremos morrer indignamente. Queremos a plenitude dos tempos. O tempo da graça. O tempo de Deus…

É desse tempo que nos fala, sempre de novo, o Natal; e é ele que anuncia, sempre de novo, o Ano Novo. Sim, Deus continua a nascer entre nós. Mas não se deve procurá-lo entre os que estão  armados até os dentes, nem mesmo entre os que ocupam as tribunas dos poderosos.

Ele estará sempre por perto a nos olhar com dois olhos negros e brilhantes, e a nos dizer, sem palavras, que a vida é uma criança frágil e vulnerável que precisa ser embalada com ternura, protegida com cuidado e alimentada com carinho.

Que, neste Natal, o Filho de Deus, que por amor, se fez filho do homem, nos dê a graça de nos tornarmos, todos, irmãos e irmãs caríssimos e, portanto, filhas e filhos do Deus altíssimo.

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“Deus, quando vier, que venha armado” (prédica) by Luiz Carlos Ramos is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.

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