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T e x t o s & T e x t u r a s

E a Igreja…?

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Crônica escrita pelo Bispo João Alves de Oliveira Filho

Estava em casa e, de repente, toca o telefone. Era o Júlio que me perguntava: Bispo, o senhor pode me levar a Araraquara? Sim, o que vai fazer? respondi. Tenho uma entrevista sobre a oportunidade de um emprego e pensei no senhor para me levar, pois estou sem carro. Quando? Amanhã, pois tenho que estar lá por volta das 16 horas. Ok! Passo por sua casa às 14h, pois no trajeto até Araraquara, 90Km, o tempo será de mais ou menos uma hora e meia.

Tudo acertado, passei pela casa do Júlio no horário combinado, e lá fomos “nós” ao destino combinado. Durante o trajeto Júlio e eu conversamos bastante. Ele, nascido e criado na capital paulista, perguntava sobre as vegetações das quais tinha pouco conhecimento, tais como: cana de açúcar (plantação que domina a região), forma de colheita, cultivo do café, etc.

Chegando próximo a Araraquara, disse ao Júlio: Passaremos, creio eu, bem perto da casa da D. Benedita, onde está hospedado o Rev. Jorge Wagner. É bem possível que me lembre de como chegar ao local, pois da outra vez tinha o endereço em mãos. Vamos tentar encontrar? O Júlio perguntou: Quem é ele? Enquanto procurava memorizar alguns detalhes que me orientassem até a residência da D. Benedita, respondi que o Rev. Jorge é um pastor da nossa Igreja Metodista e que havia sofrido um AVC. Informei também, que havia se separado da esposa e vivia sozinho na Igreja, e que diante da situação, ou seja, sem família para ajudar, a ex-sogra tomou a decisão de acolher e cuidar dele. O Júlio perguntou: E a Igreja? Demorei bastante para responder, pois um filme passou pela minha mente. Esclareci ao Julio, com uma resposta institucional, que cada pastor/a tem a responsabilidade de cuidar do pagamento do seu INSS para fins de aposentadoria e outras questões. A resposta não foi suficiente e de novo a indagação: Mas ele não serve à Igreja? Por que o abandono? Quer dizer que ele “presta” somente quando está bem de saúde? Isto está certo Bispo?

O diálogo teve que cessar. Confesso que fiquei um tanto aliviado, pois localizei mais ou menos a rua da D. Benedita. Por que aliviado? Porque era bem provável que não encontraria resposta para o Júlio. Pois bem. Perguntei para uma senhora que estava na calçada sobre D. Benedita, porém disse que não conhecia e apontou para outra vizinha que residia há mais tempo. Fui na direção indicada e, de fato, a vizinha conhecia a D. Benedita e nos orientou como chegar.

Chegando, recordei da casa simples quando visitei o Rev. Jorge pela primeira vez. Percebi algum barulho na cozinha e chamei. Abrindo a porta, disse: D. Benedita é o Bispo… estou passando para visitar a senhora e o Pastor. Meio desconfiada, lá vem D. Benedita. Mulher simples, estampando o velho sorriso no rosto, o olhar de quem gosta de receber uma visita. Após o abraço, perguntei como ela estava, e apresentei o Júlio. Na sala humilde, mas acolhedora, indaguei pelo pastor e ela respondeu: está vindo. A espera demorou pouco e em seguida, lá vem o Rev. Jorge caminhando, ainda com alguma dificuldade, com a proteção de uma bengala, um dos braços quase sem movimentos. A cena não poderia ser como de um quadro triste, pois na minha memória o registro de um pastor dinâmico, falador, questionador, etc. Seus olhos não deixaram de registrar um pouco de emoção, e emudecidos por algumas lágrimas, me abraçou e agradeceu pela visita. D. Benedita e Júlio, sentados no sofá, ouviam nosso diálogo.  Ela, educadamente, após alguns momentos, disse que faria um café, porém o tempo nos cobrava, pois a finalidade era levar o Júlio para a entrevista. Respondi que não havia necessidade, ela, porém, respondeu: Pelo menos vocês tomam água? Aceitamos, tomamos a água, fizemos um círculo, oramos e fomos em direção ao outro compromisso.

A pergunta do Júlio sobre a Igreja foi respondida, pois neste momento, vivenciado pelo Rev. Jorge, a Igreja é a D. Benedita, que em sua residência simples, humilde, porém acolhedora, faz o papel institucional e pastoral que muitos deveriam praticar. A Igreja, D. Benedita, prepara as refeições, cuida das roupas, chama os filhos em alguns casos de necessidade, está presente, prepara os remédios, dá atenção, ouve o chamado… faz o papel de mãe.

Contudo, a pergunta do Júlio ainda ecoa: E a Igreja? A Igreja é a D. Benedita.

Pensei no ser pastor/a, no envolvimento com a Igreja, no despojar-se para a vocação, no apresentar-se à Igreja, no ser cobrado/a, na eficiência julgada e na ineficiência questionada, na intolerância personalizada, nos julgamentos pessoais meramente personificados pela aparência. Pensei na Igreja… na Igreja cheia, alegre, festejante, “bombante”. Pensei na Igreja, que almeja ter pastor/a desde que esteja com saúde, que seja vibrante, e pode até ser intolerante…

Enquanto tudo isto passa, como um filme, pela minha cabeça, a palavra de Deus reverbera e palpita no meu coração: “Quando foi que te vimos, nu, preso, com fome, enfermo, com sede, forasteiro e fomos te visitar?”  A resposta: “Sempre que o fizestes a um destes pequeninos irmãos, a mim me fizestes” (Mt 25.37-40).

E a pergunta do Júlio continua ressoando: E a Igreja?

A Igreja… é a D. Benedita!

3 Comentários

  1. a igreja está além das paredes… além dos bancos – além da música, dos louvores…

  2. Gostei, Bispo João, da sua inteligente colocação, que a faço minha. Penso assim.

  3. QUE ASSIM SEJA!

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