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T e x t o s & T e x t u r a s

E Deus plantou um jardim…

Apontamentos para uma pastoral ecológica à luz de Gênesis 2

 Luiz Carlos Ramos

Histórias das origens

O livro de Gênesis conta duas histórias distintas da criação. Diz-se da primeira, narrada no capítulo um, que é cosmocêntrica, pois pretende descrever sistematicamente como o cosmo inteiro foi criado (em sete dias), ao passo que a segunda, narrada no capítulo dois, é antropocêntrica, pois seu centro narrativo é a formação do ser humano e a sua condição no mundo criado (em um único dia). Embora esteja no segundo capítulo, os exegetas concordam em afirmar que esta última seja a versão mais antiga, pois já teria chegado à sua forma atual em meados do século X a.C.

Ora, as histórias da criação não oferecem respostas para perguntas científicas, antes, o objetivo dessas narrativas é indicar, por meio de uma linguagem viva, qual teria sido, desde o início dos tempos, o propósito original das coisas —neste caso, do cosmo e do ser humano. Assim, pela compreensão das origens (da gênese), pode-se avaliar o quanto nos aproximamos ou nos distanciamos do propósito original de Deus para nós e para o nosso mundo.

Distanciar-se do propósito original é o que a Bíblia chama de pecado, e voltar-se para Deus com intenção de cumprir sua vontade é chamado de conversão.

Deus criou os céus e a terra

“Esta é a gênese dos céus e da terra quando foram criados, quando o SENHOR Deus os criou. Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o SENHOR Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar o solo. Mas uma neblina subia da terra e regava toda a superfície do solo.”

O primeiro capítulo do livro de Gênesis diz que Deus criou do nada (bara’) os céus e a terra. O segundo capítulo conta a respeito do dia (yowm) em que o céu e a terra foram feitos (’asah). Dizendo de outro modo, a matéria prima do Universo é a vontade de Deus. Há, portanto, uma vontade divina por trás do Universo. Isto faz com que o nosso olhar para a natureza se revista de um sentimento especial, e se converta em contemplação de quem vê algo sagrado. Se a matéria prima do cosmo é Deus, então o universo é sagrado. Desde que o povo de Deus teve essa consciência, ele exclama exultante: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos […] por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo” (Sl 19.1-4). Portanto, o cosmo é sagrado na medida em que, sendo originado do Ser divino, manifesta a glória de Deus e revela a sua vontade.

As histórias da criação dão a entender também que, sendo Deus o criador do universo, este lhe pertence: “Teus são os céus, tua, a terra; o mundo e a sua plenitude, tu os fundaste” (Sl 89.11). Deus é o pai da mãe natureza! Isso implica em que é ele, o Criador, quem deve ter a última (ou a primeira) palavra em relação ao rumo ecológico da terra ou ao destino do meio-ambiente.

Deus formou o ser humano do pó da terra

“Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente.”

Deus criou os céus e da terra e formou (yatsar) o homem (adam). O verbo yatsar sugere a ação artística do escultor, daquele que molda o barro, modela a argila para produzir criativamente um utensílio ou uma obra de arte.

A terra foi criada do nada, ao passo que o homem (adam) foi formado da terra (adamah). A matéria prima do universo é Deus, e a matéria prima do homem é o universo: nós somos pó da terra. Não é, portanto, nenhuma heresia afirmar que o ser humano e a natureza são irmãos. Na verdade, nós somos a terra viva, a terra que respira, a terra que tem alma (nephesh). Nós somos a consciência da terra cuja existência depende do hálito de Deus, do sopro divino, do espírito da vida.

Portanto, matar a terra é cometer suicídio. Não ter consciência da nossa irmandade com o planeta é deixar de ser “alma vivente”, é rejeitar o “sopro” divino, é perder o “fôlego da vida”. Ao contrário, preservar o planeta, zelar por sua integridade, é ser “alma vivente”. Nós somos a terra que respira, nós somos a terra que sente, nós somos a terra que proclama a glória de Deus.

Deus plantou um jardim

“E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado. Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços. […] Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.”

A narrativa do gênesis nos revelou um Deus criativo, artista e, agora, nos apresenta um Deus jardineiro. Concluída a criação, Deus pôs-se a plantar (nata) um jardim e a cultivar um pomar. Ali fez “brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento”.

Note-se a intenção divina de que esse jardim deveria “agradar à vista” e prover sustento com coisas “boas para alimento”. Deus combina, nesse jardim, questões plásticas e práticas, estéticas e técnicas, poéticas e éticas. Deus não se contenta com uma beleza que não sustente a vida, nem quer uma vida que não nos alegre e faça feliz.

Cultivado esse maravilhoso jardim, Deus “pôs nele o homem (adam) que havia formado”. Deus pôs terra sobre a terra. A primeira função humana foi a de adubar, fertilizar, a terra: “tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim (gan) do Éden para o cultivar e o guardar”. Estas, pois são as funções dos seres humanos: fertilizar, cultivar e guardar o jardim.

De um lado, o termo hebraico que designa o ato de “cultivar” (’abad) significa também trabalhar, servir, executar, cuidar, laborar, lavrar, ser responsável por… Por outro lado, o termo que designa “guardar” (shamar), significa cercar, proteger, vigiar, cuidar, observar, contemplar, reservar, preservar, salvar, assegurar, olhar por… Com isso, ficamos sabendo que Deus quer de nós que sejamos servos do jardim laborando pela sua promoção para que seja produtivo, e proteção, para que seja preservado.

Uma reserva ecológica no meio do jardim

“[…] e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços […].”

Chama a atenção o fato de que Deus também plantou a “árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal” e que esta não deveria ser tocada. Trata-se de uma reserva ecológica, uma área restrita que a humanidade jamais deveria violar, localizada bem no centro do Éden. Com isso, Deus dava a entender que há regiões que devem permanecer virgens, livres do contato humano, tais como os resquícios de mata atlântica, as nascentes de água nas serras, os lugares dos quais nossa existência depende, nos dias de hoje. O equilíbrio ecológico depende desse respeito que lhe devemos. Violar essa ordem divina é cometer pecado grave.

Os seres humanos violaram essa regra a tal ponto que já não há jardim para que dele sejamos expulsos. Nós é que expulsamos de nós o jardim que Deus nos deu.

Todavia(!), talvez ainda haja tempo. Pois, ainda temos essa memória “genética”, esta bela história dos princípios. Talvez ainda possamos honrar a nossa vocação de sermos “almas vivente”, se nos tornarmos (conversão!) de fato a consciência da terra, se abraçarmos a nossa vocação primeira na promoção e na proteção desse jardim. Oxalá entendamos de uma vez por todas que o respeito e a preservação não são questões marginais, mas têm que estar no centro da nossa vida. As reservas ecológicas não devem ficar restritas às longínquas, descuidadas e amazônicas florestas, mas no centro da nossa casa, do nosso bairro, da nossa cidade.

Que Deus torne a soprar sobre nós o fôlego da vida de modo que possamos continuar a ser almas viventes, para a sua honra e a sua glória.

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