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T e x t o s & T e x t u r a s

Eu, porém, vos digo…

A Lei, o Evangelho e a Vida

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Sermon on the Mount by Marion Snyder

Mateus 5. 20-24: Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus. 21 Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. 22 Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo. 23 Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta.

Introdução

Atribui-se a John Wesley, patrono do Metodismo, o seguinte conselho:

“Cuidado com teus pensamentos, eles podem se tornar palavras. Cuidado com tuas palavras, elas podem se converter em gestos. Cuidado com teus gestos, eles podem virar hábito. Cuidado com teus hábitos, porque eles forjam o teu caráter.”

Esse sábio conselho pode nos ajudar a entender o trecho do Evangelho que acabamos de ler, e que é um dos mais importantes de todo o Novo Testamento, porque é por ele que conseguimos traçar o perfil que distingue o Cristianismo das religiões legalistas.

Quão grande deve ter sido o impacto das palavras de Jesus para os religiosos do seu tempo. Estes tinham a Lei por sagrada, imutável, inquestionável, inabalável… E Jesus ousa dizer: “Eu, porém, vos digo…”.

Jesus demonstra que o cristianismo não é fácil, como muitas das religiões de promessas, de regras e de autoajuda, que circulam por aí. Jesus adverte que a justiça dos cristãos deve exceder em muito a dos escribas e fariseus, isto é, a justiça dos advogados mais diligentes e a dos religiosos mais fervorosos (cf. v. 20).

A maneira como o texto de Mateus está estruturado nos apresenta seis exemplos muito concretos da nova proposta de Jesus (vd. CARTER, p. 194):

  • Sobre a ira e os relacionamentos (não matarás)
  • Sobre o adultério (não adulterarás)
  • Sobre o divórcio e os maus tratos às mulheres (divórcio)
  • Sobre a integridade de palavra e ação (juramento)
  • Sobre a resistência não-violenta ao mal (olho por olho e dente por dente)
  • Sobre o amor aos inimigos.

Essa abordagem propõe a ampliação da tradição (Lei) do Antigo Israel para além da exterioridade, a ponto de “tocar o ser humano no seu mais íntimo” (PL 38, p. 97). Não se trata de antítese, quando Jesus diz “eu, porém”, mas de aprimoramento na compreensão das regras do viver e do conviver.

Fiquemos com o primeiro desses exemplos, o que trata da ira e dos relacionamentos conflitivos entre irmãos. Vejamos como Jesus recorda a Lei, anuncia o Evangelho do Amor e os aplica à vida cotidiana da sua gente.

Jesus começa com a…

A recordação da Lei:

A Lei era bem conhecida dos interlocutores de Mateus:

“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás;
e:
Quem matar estará sujeito a julgamento.”

A Lei é clara, e ninguém pode ser julgado por não quebrá-la. Alguém pode desejar muito cometer um homicídio, odiar visceralmente determinada pessoa, prejudicá-la de inúmeras e perversas maneiras. Mas se não a assassinar, nunca poderá ser julgado nem condenado por esse crime.

O anúncio do Evangelho:

Jesus, no entanto, propõe uma radicalização da compreensão do espírito da Lei. A ira, o insulto, a ofensa, a difamação, a discórdia, passam a ser considerados crimes tão graves quanto o homicídio:

“Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo.”

Jesus amplia a compreensão do mecanismo da vida: Palavras e pensamentos são tão graves quanto as ações. Por suposto, um assassino não nasceu assassino, um estuprador também não… Muito provavelmente eles começaram sua “carreira” em pensamento, a aprimoraram com palavras, e a completaram com atitudes.

A radicalidade do Evangelho está em dizer que tão importante, ou mais ainda, do que o que transparece no exterior é o que está no íntimo das pessoas.

“Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias. São estas as coisas que contaminam o homem […].” (Mateus 15.19-20)

É por isso que Jesus afirma que quem profere uma palavra ofensiva, que agrida ou deprecie alguém, está sujeito às mesmas penalidades que um homicida.

A Psicanálise entendeu bem isso: que os grandes atos exteriores são apenas a ponta de um imenso iceberg entremeado de sentimentos, ressentimentos, pensamentos, palavras, e pequenos gestos que os antecedem e acompanham. Daí a importância de não subestimarmos o nosso subconsciente, de procurarmos conhecer e entender melhor os processos pelos quais fazemos o que fazemos e somos o que somos. A meditação e a oração, como a terapia e o aconselhamento, estão entre as melhores maneiras de lidarmos com essas forças, muitas vezes inconscientes e invisíveis.

A primazia da Vida:

Uma vez recordada a Lei e anunciado o Evangelho, Jesus aplica ambos à Vida do povo por meio de uma situação concreta.

“23 Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta.”

O culto não é um ato meramente exterior. Ele deve ser fruto de uma profunda experiência de devoção que nasce da mais íntima e verdadeira essência do ser humano. O culto é um ato externo de demonstração de Amor a Deus. Ora, lembram-se do que diz 1 João 4.20?

“Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.”

Por essa razão a reconciliação é  pré-condição para o culto (oferta). E o culto é a coroação da construção da Paz.

Uma notinha de esclarecimento: Essa oferta, mencionada no texto, não é a mesma do nosso momento do ofertório. Essa oferta é o sacrifício que era oferecido no Templo, era, portanto, o próprio culto de Israel. Isso significa que devemos nos esforçar para, ainda antes do culto, tratarmos de buscar aquela pessoa que porventura tenha algo contra nós (note que a iniciativa deve partir de nós, independente de quem seja o culpado pelo conflito), a fim de nos reconciliarmos.

É verdade que nem sempre a resolução de conflitos está em nosso poder, e por essa razão, as Escrituras nos orientam:

“Quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Rm 12.28).

Isso significa que não podemos esperar que a outra pessoa adivinhe que estamos querendo viver em paz com ela, mas que é nossa tarefa tornar isso explícito, e não de maneira áspera ou grosseira, mas com a mesma paciência e ternura com a que Deus nos perdoa e nos recebe sempre de volta em seus braços de amor.

Conclusão

O princípio do cristianismo não é a Lei, mas o Amor. E para o Amor, a observância de toda a Lei é ainda muito pouco. Jesus propõe não os limites da Lei, mas o Amor de Deus sem limites. Com base nisso, Santo Agostinho disse, certa vez: “Ama a Deus e faze o que quiseres!”. A Lei, diante do Amor, torna-se ínfima. A letra mata, mas o Amor vivifica.

Ajamos, pois, não com um amor ingênuo, que se deixa humilhar, mas com o Amor que é capaz de ser respeitoso, solidário e compreensivo, que ama não “por causa de”, mas “apesar de”. Porque as pessoas valem mais do que as coisas — valem mais até do que o culto!

E lembremo-nos sempre do sábio conselho:

“Cuidado com teus pensamentos, eles podem se tornar palavras. Cuidado com tuas palavras, elas podem se converter em gestos. Cuidado com teus gestos, eles podem virar hábito. Cuidado com teus hábitos, porque eles forjam o teu caráter.”

Que Deus nos ajude a viver o Evangelho do Amor! E forje em nós o caráter de Cristo!

* * *

Referências:

BARCLEY, William. The Gospel of Matthew. Edinburgh: The Westminster Press. (The daily study Bible volume 1)
CARTER, Warren. O Evangelho de São Mateus: Comentário sociopolítico e religioso a partir das margens. São Paulo: Paulus,2002.
PROCLAMAR LIBERTAÇÃO 38: Auxílios homiléticos. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2013.

* * *

Rev. Luiz Carlos Ramos
Sermão pregado na Igreja Metodista em Pirassununga, aos 16 de fevereiro de 2014
(Sexto Domingo após Epifania, Ano A)

 

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