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T e x t o s & T e x t u r a s

Lázaro, vem para fora!

Ilustração: (c) Marcos Brescovici

Lázaro é a personificação de todo enfermo. Por que Lázaro adoeceu? Por que Lázaro morreu? Segundo Jesus, a enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus. Como pode ser isto?

No tempo de Jesus, havia duas correntes predominantes no que diz respeito ao entendimento sobre a morte: (1) a dos saduceus, que não acreditavam na ressurreição física, mas entendiam a continuidade da vida por meio da descendência (daí a importância de gerar filhos, e a angústia em relação à infertilidade); e (2) a dos fariseus, que acreditavam, sim na ressurreição física, mas a projetavam para o “dia do juízo”, para o “último dia”.

Numa primeira leitura, é possível confundir a postura cristã com a farisaica, pois ambos acreditamos na ressurreição. Mas há uma diferença sutil, porém essencial entre elas. Ao adiar a ressurreição para um futuro remoto, o que poderia ser, num primeiro momento, sinal de esperança e de consolação, tornou-se, por interesses político-econômico-religiosos escusos, instrumento de opressão e dominação. Ao projetar a vida plena para um futuro, no além, abafavam-se e continham-se aspirações mais imediatas, reivindicações de melhores condições para o aqui e o agora.

Esse sistema de crença foi amplamente promovido ao longo da história, principalmente como mecanismo de contenção do espírito revolucionário das massas.

A teologia escapista das igrejas dos escravos nos EUA são um bom exemplo disso. Uma vez que não podemos esperar nada desta vida, resta sonhar com um “celeste porvir”, uma “pátria celeste”, na expectativa de subirmos para “gozar no céu”, pois lá, sim, “há morada feliz”.

Por influência de certos missionários, muito dessa teologia escapista dominou a cultura mediana dos protestantes brasileiros.

Voltemos ao texto do evangelho. Maria, bem doutrinada pelos pranteadores fariseus, que lá foram “consolá-la”, também cria na ressurreição do último dia. Mas Jesus a ensinou a não se conformar com a morte dizendo categoricamente: “Eu sou [!] a ressurreição e a vida.” Note-se que ele não diz “eu serei a ressurreição”, mas “eu sou…”

Ainda que corramos o risco de alegorizar, consideremos não o que dizem os fariseus, mas o que nos ensina Jesus, com a história da ressurreição de Lázaro.

O cheiro da morte (e o quarto dia)

Para a reconquista da vida é preciso ir até onde estão os sepulcros e enfrentar o cheiro da morte: “Já cheira mal, já faz quatro dias…” Quatro, simbolicamente, é o número da limitação humana. E a limitação humana tem cheiro de morte. Mas, como bem nos lembrou Nietzsche: “somente onde há sepulturas, pode haver ressurreições…”

A pedra

Além do cheiro da morte, nos damos conta de que há sempre pedras fechando os túmulos. Não faltam obstáculos tratando de impedir o acesso à vida. Jesus intercede em favor de Lázaro diante de Deus que sempre ouve as orações dos justos, mas Deus não faz o que compete a nós fazermos. Quem tem de tirar a pedra são os discípulos: “Tirai a pedra…”

A ressurreição

Depois de falar com Deus e pedir aos que estavam com ele para que tirassem a pedra, Jesus, agora, dirige-se a Lázaro: “Vem para fora!” Deus fez a parte dele, os discípulos fizeram a deles, mas agora é a vez de Lázaro. É preciso que Lázaro saída do sepulcro por seus próprios pés. Mais uma lição de autonomia… A superação da morte e a reconquista da vida é um trabalho em mutirão, de responsabilidade partilhada, que requer a participação efetiva e afetiva de todos.

As ataduras

Mas Lázaro não sai do túmulo em plenas condições de retomar a vida. Ainda está envolto na mortalha da morte. Esta adere à nossa carne, se prende ao nosso corpo com tamanha força que é como se quisesse agarrar também o nosso espírito.

Assim, da mesma forma como aconteceu com a pedra, haverá de ser com as ataduras. Deus, se pode, não quer tirar-lhe as ataduras, e Lázaro ainda que queira, não pode fazê-lo. Este é um privilégio concedido a nós: libertar os seres humanos das amarras que os mumificam.

Conclusão

Porque há morte, também há de haver ressurreições. Porque há pedras grandes sobre os túmulos, há de haver solidariedade. Porque há múmias, há de haver seres humanos autônomos e sujeitos da sua história. Porque há amarras há de haver libertação.

Cremos na ressurreição dos mortos, mas não somente lá, num futuro longínquo. Porque Jesus disse: “Eu sou [não “serei”] a ressurreição e a vida”, cremos na ressurreição já! e na vida plena, aqui e agora!

© Luiz Carlos Ramos, 2011

2 Comentários

  1. Excelente mensagem. .Deus seja Louvado.

    • Deus é fiel

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