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T e x t o s & T e x t u r a s

“Meus companheiros também vão voltar…”

(Para Anivaldo e Eliana,
como um copo de água refescante)

Marcos 9.41-47:
[Disse Jesus:] — Eu afirmo que quem der um copo de água a vocês, porque vocês são de Cristo, com toda a certeza receberá a sua recompensa.
Jesus continuou: — Quanto a estas pequeninas crianças que creem em mim, se alguém for culpado de fazê-las cair, seria melhor para essa pessoa que ela fosse jogada no mar, com uma pedra grande amarrada no pescoço.
Se uma das suas mãos faz com que você peque, corte-a fora! Pois é melhor você entrar na vida eterna com uma só mão do que ter as duas e ir para o inferno. [Onde os vermes não cessam de devorar, e o fogo nunca se apaga.]
Se um dos seus pés faz com que você peque, corte-o fora! Pois é melhor você entrar na vida eterna com um só pé do que ter os dois e ser jogado no inferno. [Onde os vermes não cessam de devorar, e o fogo nunca se apaga.]
Se um dos seus olhos faz com que você peque, arranque-o! Pois é melhor você entrar no Reino de Deus com um olho só do que ter os dois e ser jogado no inferno. Onde os vermes não cessam de devorar, e o fogo nunca se apaga. (Tradução nossa)

Na tarde de 14 de junho de 2011, numa cerimônia pública realizada em São Paulo, foram repatriados documentos e microfilmes, cópias feitas em segredo dos autos da ditadura militar no Brasil, mantidos a salvo no exterior pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), na Suíça, e pelo Center of Research Libraries (CRL), nos EUA. A preservação desses documentos só foi possível graças à cooperação ecumênica entre o Rev. Jaime Wrigth, pastor presbiteriano, e Dom Paulo Evaristo Arns, bispo católico-romano. Os documentos foram entregues às autoridades brasileiras e haverão de ser disponibilizados, para consulta pública de qualquer cidadão através da internet. Esse projeto chama-se “Brasil: Nunca Mais” Digit@l (cf. Marcelo Schneider ).

Naquela tarde, dois depoimentos, proferidos por pessoas muito próximas a muitos de nós da Capela da Serra, foram particularmente comoventes. Um foi feito pelo nosso irmão metodista Anivaldo Padilha, que foi preso em 27 de fevereiro de 1970. Torturado brutalmente durante meses, conseguiu finalmente partir para o exílio, onde foi forçado a viver longe da esposa, que à época estava grávida. O Anivaldo só veio a conhecer o filho depois da lei da Anistia, quando este já tinha 8 anos de idade. Esse seu filho, Alexandre Padilha, é o atual ministro da saúde.

No mesmo dia também havia sido presa Eliana Rolemberg, uma das amigas do Anivaldo, que é jundiaiense e cuja família ainda vive aqui em Jundiaí. Ela contou um pouco dos abusos sofridos nas mãos violentas dos torturadores e das ameaças que faziam envolvendo sua filha, que ainda era bebê na ocasião.

O horror era ainda maior porque podiam ouvir os gritos dos seus amigos sendo torturados.

Contaram, então, que, justamente nas horas mais difíceis, alguém, em alguma cela, começava a cantar “Minha jangada vai sair pro mar / Vou trabalhar, meu bem querer,…”, e uma a uma, as vozes dos prisioneiros e prisioneiras das outras celas, iam se somando “… Se Deus quiser quando eu voltar / Do mar, / Um peixe bom, eu vou trazer… / Meus companheiros / também vão voltar, / E a Deus do céu vamos agradecer!…”

O texto do Evangelho que lemos denuncia o escândalo que é alguém fazer cair algum dos mais pequeninos. “Escandalizar os pequenos é ser motivo pelo qual os pequenos se desviam e perdem a fé em Deus […]. Quem toca neles toca em Jesus!” ( Mesters e Lopes ). Antes de fazer mal a qualquer um dos mais pequenos, que não têm como se defender, é preferível fazer mal a si mesmo: arrancar a própria mão, pé, olho…

Ainda hoje não se sabe o paradeiro de muitos dos que foram perseguidos, presos, torturados e “desaparecidos”. Há quem diga que alguns foram jogados no alto mar. Recentemente, o pastor evangélico Claudio Guerra , ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), do Estado do Espírito Santo, assumiu com todas as letras que foi torturador durante o regime militar brasileiro e que participou da eliminação de muita gente. Contou inclusive que uma das maneiras empregadas para livrar-se dos corpos era incinerá-los na usina de açúcar Cambahyba, localizada no município de Campos, no Rio de Janeiro.

Sobre isso, Jesus diria que seria melhor para esses torturadores que amarrassem uma pedra ao próprio pescoço e lançassem a si mesmos no fundo do mar.

Mas quero concluir esta reflexão com uma palavra de esperança. Quando perguntado sobre se era capaz de perdoar os seus algozes, Anivaldo Padilha respondeu que perdoar, muitas vezes, é mais importante para quem perdoa, do que para quem é perdoado, porque quem não perdoa, será sempre assombrado pelo espectro dos seus exatores. O perdão liberta!

Por essa razão, o projeto “Brasil nunca mais” digit@al  e a Comissão da Verdade buscam não a vingança, que só ressuscita fantasmas, mas a justa responsabilização dos que cometeram crimes contra os Direitos Humanos durante a ditadura, justamente para defender a Vida e para que coisas terríveis como aquelas nunca mais tornem a acontecer nem a nós nem às nossas crianças mais pequeninas.

É essa a jangada da vida na qual queremos velejar!

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