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T e x t o s & T e x t u r a s

Música sacra ou música para o culto?

Luiz Carlos Ramos

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O que torna sacra uma música?

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estas linhas trataremos da concepção da música que se utiliza no culto público, realizado pelo povo de Deus no contexto da Igreja cristã. Que tipo de música se pode entoar, ouvir e executar no espaço/momento litúrgico? Qualquer uma serve ou só as “sagradas”? Para discutir o problema, nos propomos as seguintes questões: O que torna a música sacra é a melodia da lira ou o descanto da alma? É a harmonia dos acordes ou a dissonância da vida? É o ritmo do coração ou o compasso do corpo? É a letra que mata ou a música que vivifica? É a santidade do autor/compositor ou a graça de Deus?

A melodia da lira ou o descanto da alma?

Onde estaria a sacralidade da música? Na melodia? Será que existem melodias sagradas? Vejamos: uma melodia se faz, evidentemente, com notas musicais. Na convenção ocidental, as possibilidades melódicas são o resultado da combinação “matemática” de sete notas musicais e de seus intervalos —dó, ré, mi, fá… Ora, tanto uma peça de Bach, quanto um gospel moderno, de um lado, e uma música de gafieira, um rap ou um samba, de outro, se fazem com as mesmas notas elementares. Daí, a conclusão inevitável é que a santidade da música não deve estar na escala diatônica, pentatônica ou noutra qualquer, pois as mesmas notas que “falam” de Deus servem para “falar” de outras coisas. É melhor continuarmos a investigar o assunto…

A harmonia dos acordes ou a dissonância da vida?

Talvez a santidade esteja mesmo é na combinação simultânea das notas, ou seja, em sua harmonia. Acordes eufônicos e “redondos” tendem a ser identificados com as músicas de igreja, enquanto os dissonantes e truncados seriam mais próprios da música secular. Entretanto, a fórmula harmônica é grandemente utilizada por compositores seculares, ao passo que autores de muitas peças tradicionalmente aceitas como sacras se utilizam de dissonâncias. Ora, sendo a própria vida repleta de “dissonâncias”, a harmonia não deveria ser também expressão sincera da realidade do povo de Deus que, com fé, enfrenta cotidianamente os conflitos de vida-e-morte? Daí que a harmonia resulta ser uma expressão fluida demais para que limitemos a ela questão de tamanha importância —como o é sacralidade da música.

O ritmo do coração ou o compasso do corpo?

Se não é a harmonia, então deve ser o ritmo o que distingue uma música profana de outra sacra. Assim, devem existir ritmos sagrados e ritmos profanos. E quais seriam os ritmos profanos? Esta resposta parece fácil: seriam os ritmos associados às festas seculares e os praticados pela cultura popular em geral. Mas, espere um pouco. É possível compor uma música que não se enquadre em nenhum ritmo secular? Mesmo os hinos dos hinários oficiais das igrejas reproduzem inegavelmente os ritmos dos períodos históricos e dos grupos étnicos de seus compositores. Também os cânticos preferidos pelos jovens carismáticos contemporâneos são a versão “evangélica” da música pop norte-americana. E poderíamos seguir analisando as várias formas de música utilizadas na Igreja ao longo da sua história, e concluiríamos, inevitavelmente, que elas sempre se identificam com alguma forma de ritmo secular. Em outras palavras, ainda não foi inventado o ritmo sacro. A subjetividade do coração esbarra na corporeidade da fé e daí resulta que o ritmo do coração não é outro que o ritmo do corpo (mesmo porque o coração está dentro do corpo).

A letra que mata ou a música que vivifica?

Se não é a melodia, nem a harmonia, nem o ritmo, talvez o que confira sacralidade à música, seja, então, a letra. Uma letra religiosa contra uma letra secular faria a diferença, o que tornaria determinada música sagrada e outra profana. Se o critério for o que a letra diz, então teremos que classificar como “sagradas” a uma infinidade de músicas populares, pois nestas a temática religiosa —Deus, fé, amor, justiça, paz— é mais do que freqüente: “Andar com fé eu vou…”; “Se eu quiser falar com Deus…”; “Pai, afasta de mim este cálice”; “A paz invadiu o meu coração…”; “Quero a utopia, quero o vinho e o pão…”; “… quero o leito, quero a mesa, quero o vinho e quero o pão…”; “… eu perguntei, ai, a Deus do céu, ai, porque tamanha judiação”; etc. Por outro lado, poderíamos citar hinos e cânticos que pouco ou nada falam dos temas da fé, ou que os tratam de maneira antievangélica, tais como os hinos-de-guerra, e os carregados de preconceito: “eis marchando já os negros batalhões…”; “meu coração era preto…”, e outros de caráter individualista e teologia duvidosa.  Portanto, o fato da letra de uma música falar de Deus, sobre Deus ou sobre temas da fé, não é garantia de que ela seja sagrada. A Bíblia mesma nos ensina que “a letra mata, mas o espírito vivifica”.

A santidade do autor/compositor ou a graça de Deus?

Já sei, a diferença não está nem na melodia, nem na harmonia, tampouco no ritmo, ou na letra. A resposta só pode ser que a sacralidade da música está no seu autor/compositor. Se este ou esta for crente, então sua composição será sagrada. Mas espere um pouco, um dos mais populares compositores brasileiros de música gospel da atualidade tem uma agência de produção de jingles. Provavelmente a maior parte de sua clientela não deve ser composta de gente de igreja —nem os produtos anunciados, sagrados. Será, então, que seus jingles comerciais são sagrados porque esse autor é evangélico? E, mais, essas músicas sacras estariam servindo para vender pasta de dente, chiclete e sabão em pó? Não creio. E há um outro problema: já pensaram se esse compositor de música gospel, tão piedoso, vier um dia a cair em tentação, abandonar a fé, sair da Igreja, negar Jesus…? Sua composição deixará de ser sagrada? Será que podemos supor que todos os compositores dos hinos dos hinários evangélicos oficiais permaneceram fiéis até o fim? Uma afirmação desse tipo parece temerária.

Concluindo

À luz de tudo isso,  não resta outra conclusão que a de entregarmos a Deus a responsabilidade pela sacralidade do que cantamos no culto. Em outras palavras, a sacralidade da música depende unicamente da graça de Deus – “a minha graça te basta” (2Co 12.9). A música que utilizamos nos cultos não têm mérito em si mesmas. Dependem do kairós de Deus, do tempo oportuno da visitação, da salvação pela graça —“pela graça sois salvos (…); e isso não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8). Pela graça de Deus nós cantamos, não porque a música seja sacra em si, mas porque a música se torna sacra quando nós a cantamos para Deus. O profano, quando tocado pelo sagrado, é santificado porque “maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo” (1Jo 4.4). E porque sabemos que “Deus é maior do que o nosso coração” (1Jo 3.20) podemos crer que ele completa o que nos falta, tornando-nos puros – a nós e à nossa música. Da Palavra de Deus aprendemos que “para os puros, todas coisas são puras” (Tt 1.15). Assim, resta-nos que nos importemos menos com o culto da música, e mais com a música do culto. Não que adotemos uma música de Deus, mas que adoremos ao Deus da música.

Que, em meio às dissonâncias da vida,  a graça de Deus nos transforme os descantos da alma na música santa do Espírito, para ser entoada no compasso do corpo ressuscitado, para o louvor da Sua glória, hoje e para sempre. Aleluia!

Rudge  Ramos, 20 de maio de 2002.

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