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T e x t o s & T e x t u r a s

Não pensem que vim trazer paz, como os romanos

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Jesus continuou ensinando aos que o seguiam:

— Eu vim para atear fogo à terra e como eu gostaria que ele já estivesse ardendo! Mas primeiro tenho de receber um batismo… e como fico angustiado enquanto isso não acontece!

— Vocês ficam aí pensando que como os romanos, eu vim trazer paz para o mundo? Pois eu afirmo a vocês que não vim trazer esse tipo de paz. Ao contrário, a partir de agora, serei motivo de divisão, de tal maneira que se uma família tiver cinco pessoas, estas ficarão divididas: três contra duas e duas contra três.

— Acontecerá até de pais se voltarem contra os filhos, e os filhos, contra os pais. As mães vão ficar contra as filhas, e as filhas, contra as mães. As sogras vão ficar contra as noras, e as noras, contra as sogras.

Jesus disse mais ao povo:

— Entendam bem, isso tudo são sinais dos tempos. Quando vocês veem uma nuvem surgir no poente, dizem logo: “Vai chover.” E, de fato, chove. E, quando sentem que sopra o vento sul, dizem: “Vai fazer calor.” E faz mesmo.

— Hipócritas! Vocês conseguem explicar os fenômenos climáticos observando a terra e o céu, mas como é que afirmam não compreender o que está se passando justamente no tempo presente? (Lucas 12.49-56)

* * *

Depois de reprovar os ricos por sua avareza, e confortar os pobres  em suas aflições, Jesus muda radicalmente o tom do seu discurso.

O novo enfoque não é nem um pouco conciliador ou consolador. Jesus reconhece que, em lugar de integrar e reunir os filhos de Deus, separados e dispersos, ele mesmo será, a partir de agora, motivo de mais divisão, de mais confusão ainda.

Não bastassem as guerras étnicas e internacionais, Jesus aponta agora para as lutas internas que estão prestes a eclodir no seio mesmo dos lares daqueles que o ouvem.

Esse discurso de Jesus reflete, provavelmente, o tempo de perseguição dos cristãos que se se deu logo nos primeiros anos do surgimento das primitivas comunidades cristãs. Em parte, tais perseguições se deram dentro da própria família judaica, de modo que temos relatos de perseguição, prisão, tortura e pena de morte, aplicados por pessoas como Saulo de Tarso àqueles e àquelas que, a semelhança de Estevão, professavam sua fé no Nazareno.

Multiplicam-se, com o passar dos anos, os casos em que cristãos, denunciados pelos da sua própria casa, seriam entregues e sentenciados ao martírio, vindo a sofrer os mais horríveis e indescritíveis suplícios por causa da sua identificação com Jesus.

Discernir os sinais dos tempos é como reconhecer os fenômenos climáticos. São muitas as nuvens carregadas que se levantam no horizonte, prenunciando violentas tempestades… E insistimos em ficar de braços cruzados, como se não tivéssemos nada com isso.

Isso me faz recordar de um poema de Bertolt Brecht, intitulado “Intertexto”, que diz:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Os institutos climáticos evoluíram muito e ultimamente conseguem prever as condições do tempo com razoável precisão. Já sabemos com relativa antecedência quando vai esfriar, ou fazer calor, quando vai chover ou estiar, quando haverá vendaval ou calmaria… Sabemos muito sobre o clima do mundo, mas ainda continuamos ignorando os sinais que estão a nos indicar a quantas anda o clima da humanidade.

Hipócritas! Vocês conseguem explicar os fenômenos climáticos observando a terra e o céu, mas como é que afirmam não compreender o que está se passando justamente no tempo presente?

Se tivéssemos dado ouvidos aos ensinamentos de Jesus, talvez tivéssemos impedido muitas divisões, perseguições, torturas, martírios, chacinas,  genocídios, holocaustos…

Nosso mundo não precisa e nem merece uma Pax Romana, só para uns poucos, o mundo precisa e carece mesmo é do Shalom de Deus para toda a humanidade.

Só que o Shalom de Deus não se estabelece com hipocrisia e indiferença, mas com compromisso e responsabilidade daqueles e daquelas que estão sempre de olho nas nuvens que se levantam no horizonte.

Rev. Luiz Carlos Ramos
Para o Décimo Terceiro Domingo da Peregrinação após Pentecostes, Ano C, 2016

Um comentário

  1. “Se tivéssemos dado ouvidos aos ensinamentos de Jesus, talvez tivéssemos impedido muitas divisões, perseguições, torturas, martírios, chacinas, genocídios, holocaustos…” Pode ser que sim, pode ser que não! Mais provavelmente não. As palavras de Jesus se dirigiam a pessoas que, havendo dado ouvidos a ele, acabaram expulsas de suas casas e de suas famílias! Jesus sabia que haveria pessoas que o ouviriam e simultaneamente outras que tapariam os seus ouvidos! Nenhuma garantia é dada aos que o escutassem, não acha?

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