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T e x t o s & T e x t u r a s

O Pão e a Palavra

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Deuteronômio 8.1-3: Cuidareis de cumprir todos os mandamentos que hoje vos ordeno, para que vivais, e vos multipliqueis, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR prometeu sob juramento a vossos pais. Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o SENHOR, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do SENHOR viverá o homem.

Mateus 4.1-4: A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães. Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.

Quando se preparava para seu ministério público, ao ser tentado no deserto, Jesus respondeu à provocação materialista de Satanás dizendo: “Não só de pão viverá o ser humano, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4).

Com isso, Jesus reafirmava que a vida depende, basicamente, de dois elementos essenciais: do pão e da palavra.



Não só de pão…

Quando Jesus diz, “não só…” significa que também de pão vive a humanidade! Pão aqui representa toda a materialidade, toda a corporeidade, toda a concretude que dá sustento à vida e resulta da partilha justa e solidária entre os seres humanos.

No grande julgamento, o Pantocrator, Supremo Rei, Pastor e Juiz, deixa muito claro o seu plano de governo, que quer garantir a todos: Alimento, teto, inclusão, vestuário, saúde e justiça:

Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. (Mt 25.35-36)

Mas temos que reconhecer que esse é apenas um aspecto, pois se é verdade que o corpo não sobrevive sem pão, também é verdade não basta só o pão.

Se a materialidade que sustenta o corpo carecer de sentido, a vida perde a razão de ser, e já não vale a pena ser vivida. Não é de admirar que sejam justamente os países mais desenvolvidos, nos quais não há fome, nem desemprego, nem falta de moradias ou de atendimento médico-hospitalar, nem analfabetos, nem favelas… não é de admirar que justamente esses países detenham os mais altos índices de suicídio?

Por que alguém que tem tanto recurso material acharia que a vida não valha a pena?

Porque, para que o corpo sobreviva, é necessário que algo dê sentido à matéria. Por importante que seja, não basta o sustento do “corpo”, porque não há vida com qualidade (zoé) sem o alimento para a “alma”.

Na prática, como diz o vulgo, não há corpo sem alma (se encontrar um, pode enterrar que é defunto!), assim como não há alma sem corpo (se encontrar uma, corra que é fantasma!).



Mas de toda palavra…

Como o corpo necessita do Pão, a alma, da Palavra! É o que sempre ouvimos. Mas também poderíamos dizer o inverso e daria no mesmo: o corpo necessita da palavra e a alma do pão.

São dois lados da mesma moeda, ou como disse o Luciano, ontem em nosso minicurso da Rede de Homilética: “são as duas rodas da carroça”. Moeda que só tem cara, ou coroa, não vale nada. Carroça que só tem uma roda não anda pra frente, fica girando em círculos, arrastando-se com extrema dificuldade.

Milton Schwantes nos ensinava que, diferente dos gregos, na Bíblia Hebraica não há um termo para “palavra” que enfatize a teoria separada da prática. (Conquanto no texto de Deuteronômio, evocado por Jesus, não apareça explicitamente, subentende-se o termo hebraico Dabar.)

Para os hebreus, o que se diz e o que se faz são indissociáveis. “Palavra” (dabar) também significa “coisa” ou “ação”. De modo que dizer algo e não agir de acordo com o que se diz implica mentira, falsidade.

Dizer é fazer! Quando Deus fala, as coisas acontecem!

O texto grego de Mateus coincide com a versão da Septuaginta, e emprega o termo rhema, significando, aqui, é o logos encarnado, a palavra-ação procedente da boca de Deus.

Note-se, ainda, que o verbo traduzido do original grego como “procede da boca de Deus” é um particípio, o que sugere a ideia de hábito, de continuidade, de acontecimento constante. Portanto, a palavra que sustenta a vida, não é aquela que foi ouvida nesta ou naquela ocasião, mas a que é experimentada continuamente como evento-acontecimento-querigmático-encarnado.

A fonte dessa palavra é a “boca” de Deus. Outrora, essa boca era identificada com os profetas, e os escritos sagrados, porém ela culminou com a encarnação do Verbo (logos)

Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas (Hb 1.1-3)

Encarnação que se completou com o derramamento do Espírito Santo, que hoje motiva o anúncio-ação (anunciação) e ilumina a compreensão (ilumina-ação) da vontade de Deus.

(Um parênteses, no mínimo curioso: Segundo antiga tradição, quando alguém morre, o corpo volta à terra, como era (tu és pó e ao pó tornarás!), enquanto o espírito sobe para Deus que o deu (cf. Ec 2.7)… Mas com Jesus aconteceu o contrário: depois da sua morte, o seu corpo subiu para Deus, na Ascensão, e o seu Espírito desceu para a Terra, no Pentecostes.)



Portanto…

Concluímos que a vida com qualidade depende simultaneamente do Pão repartido e da Palavra de Deus proclamada e que se encarna habitualmente e constantemente na vida da gente.

Essa estrutura elementar deu consistência à liturgia cristã que se estabelece, até hoje, sobre as bases da Palavra e do Pão, da Proclamação e do Sacramento, do Púlpito e da Mesa.

A proclamação aponta para o acontecimento da Palavra, enquanto a mesa é a concretização dessa Palavra por meio do gesto supremo da solidariedade humana, no simbolismo do Pão repartido.

Santo Agostinho dizia que “a Palavra é o sacramento audível” e que “o sacramento é a Palavra visível”!

Podemos, assim, ver a palavra e ouvir o sacramento.

Portanto, tendo nos alimentado desse pão audível que é a Palavra, podemos agora nos aproximar da mesa para saborear essa Palavra que se faz Corpo em nossos corpos, Sentido em nossos sentidos, Vida em nossas vidas…

Pão para a alma, poema para o corpo…

Partilhar a palavra é também repartir o pão.

Partilhar o pão é também repartir a palavra.

Passemos à mesa, e bom apetite!

 

Luiz Carlos Ramos
(pregado no culto de encerramento da
Semana de Estudos Teológicos 2003 /
II Simpósio da Rede Latino-Americana de Homilética,
aos 23 de outubro de 2013)

 

 

2 Comentários

  1. Ao ler seus artigos posso entender como fui privilegiada em ter um mestre como você, e ainda sou abençoada com seus artigos! Ações de graças ao Verbo, que se fez carne. Abraços, mestre!

  2. Vejo a graça do Senhor Jesus em sua vida. Que Deus te abençoe.

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