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T e x t o s & T e x t u r a s

O Sal e o Sol

 

Salt4_DeadSea11_0453_Itamar Grinberg_normMateus 5.13-16 (ERAB): Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; 15 nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. 16 Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.

Jesus diz que nós, seus discípulos e discípulas, somos essenciais à vida na terra, como Sal e Sol. Os romanos tinham um ditado que dizia: Nil utilius sole et sale — “Nada mais útil do que Sol e Sal!”.

Deus deu o Sal…

O Sal dá saúde, preserva e dá sabor. No mundo antigo, o sal estava presente em todo o ciclo da vida. Ao nascer, a criança era colocada sobre os joelhos do pai, lavada e esfregada com sal para endurecer a pele, e então era enfaixada; só depois disso podia ser mostrada aos outros. Entre os egípcios, quando alguém que era estimado morria, usava-se o sal para embalsamar seu corpo, a fim de preservá-lo para o grande dia da ressurreição. Plutarco dizia que o sal é como uma nova alma inserida num corpo morto. Ainda hoje o sal é fundamental na medicina. E muitos dos medicamentos que ingerimos são sais. Todos já ouvimos falar da importância dos sais minerais…

Os antigos consideravam o sal a mais pura de todas as coisas, uma dádiva dos deuses. E os judeus ofereciam o sacrifício da tarde sempre com sal. Quando um judeu apostatava, mas depois se arrependia e queria ser reintegrado, era costume o penitente se deitar à porta de entrada da sinagoga enquanto convidava os demais para que o pisoteassem. Em certos lugares os cristãos adotaram a mesma tradição, e para que alguém que tivesse sido expulso da igreja fosse recebido de volta à comunhão, ele deveria se deitar à porta do templo e instar aos que entravam, dizendo: “Pisem em mim, porque sou sal que perdeu o sabor”.

Na culinária antiga, o sal era, muita vez, o único tempero dos mais empobrecidos. Mesmo hoje, o sal é “o” tempero, pois os demais condimentos lhe são complementares. Por que temperamos os alimentos? Porque as coisas insípidas não têm graça. E porque quando bem temperada a comida fica gostosa, fica saborosa, e todo mundo gosta do que é bom.

Não obstante, a dosagem é um fator crucial. Da mesma forma que a falta de sal deixa tudo insípido, e pode prejudicar a saúde (a falta de sódio em nosso corpo causa efeitos indesejáveis, como anorexia, tonturas, dores de cabeça, dificuldade de memorização e fraqueza), o excesso de sal é igualmente prejudicial, sendo muito perigoso para quem tem pressão alta, estando associado às doenças cardiovasculares.

Ser Sal da Terra, como cristãos e cristãs, implica em colocarmos nossas vidas a serviço da Vida na terra, no planeta Terra. Nos fazermos presentes na medida justa, na medida certa. Nada de hipercristãos, nada de hipercrentes, nada de hiperespirituais, porque isso pode ser insalubre, como a hipertensão. Mas também nada de infracristãos, fiéis subservientes  e submetidos, insossos, omissos… Trata-se de uma presença discreta, mas determinante; sutil, mas essencial; leve, mas insustentável para os que resistem à Vida do Reino.

Acho que é por isso que, além do Sal, Deus nos deu o Sol.

Da mesma forma que o Sal, o Sol dá saúde, mas também aquece e ilumina. Está igualmente ligado ao ciclo da vida. Quando nascemos, diz-se que viemos à luz. Quando alguém atingiu a plenitude da vida, dizemos que se tornou um iluminado (como Buda).

Não vivemos sem luz. Da Medicina, aprendemos que ela nos dá as vitaminas D e o cálcio, que torna nossos ossos fortes e resistentes, ou o contrário, na falta da luz do sol. Sabe-se agora que tomar sol diminui a pressão arterial e reduz o risco cardíaco. A Botânica procura explicar o milagre da fotossíntese, processo pelo qual a luz se converte em energia, em alimento. As plantas, literalmente, se alimentam de luz. A Filosofia relaciona a luz à cultura, ao conhecimento, à ciência e à razão plena (lembram-se das aulas sobre o Iluminismo, também chamado de Filosofia das Luzes, Ilustração, Esclarecimento? E que justamente o século XVIII é chamado de o Século das Luzes?).

Mas, como o Sal, Sol em demasia também é prejudicial. Há várias doenças associadas ao excesso de exposição ao sol, sendo a mais grave delas o câncer de pele. O excesso de exposição à luz também pode ferir a retina, e até redução ou perda total da visão. Isso porque a luz serve para a iluminar o caminho, e não para ser projetada na direção dos olhos. O problema, então, não é tanto a luz, mas a maneira como interagimos com a luz.

A propósito, a leitura da Epístola de hoje, Primeira aos Coríntios 2.1-16, nos lembra algumas pessoas que gostam de “usar” esse texto para justificar sua falta de estudo, de leitura e de ilustração. Tudo porque o apóstolo afirma que a sabedoria espiritual é superior à humana. Só que não devemos nos esquecer de que a autoria dessa epístola é atribuída ao grande e erudito Saulo ou Paulo de Tarso. Ele pode falar assim porque foi um dos mais sábios, estudiosos e eruditos cristãos de todos os tempos. O diferencial é que ele sabia em que direção apontar a luz da sua razão. Não se envaidecia direcionando-a aos próprios olhos, mas deixava que essa luz iluminasse seus pés nos caminhos do Reino.

É verdade que já tivemos um tempo, que já vai bem longe, em que os cristãos, especialmente os clérigos, eram pessoas eruditas, inteligentes, instruídas… Algumas até ficaram cegas, envaidecidas com tanta sapiência. Mas também é verdade que nunca vivemos um período tão obscurantista, de falta de razão, de tamanha ignorância, de tanto desconhecimento, abundante de incultura… Não são velas escondidas sob o pote de farinha, mas candeias apagadas colocadas no velador.

No movimento desse pêndulo, me parece que o que precisamos atualmente é de um pouco mais da luz do conhecimento, um pouco mais de saber com sabedoria. Oxalá ainda vejamos  o ressurgimento de uma geração de cristãos iluminados e iluminadores, que construam cidades  nas montanhas, e sejam candeias acesas no velador capazes de alumiar os que estão na casa, na cidade e no mundo.

Lux in tenebris lucet, et tenebrae eam non conprehenderunt
“ A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.”
João 1.5 ERAB.

Luiz Carlos Ramos
(5.º Domingo após Epifania, Pequeno Tempo Comum, 2014)

 

 

Um comentário

  1. Paz e bem amado Mestre Luiz Carlos Ramos – Foi uma bênção para minha vida ler esta meditação feita sempre com muito cuidado e carinho. Que Deus “CONTINUE” te abençoando e inspirando. – Com carinho

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