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T e x t o s & T e x t u r a s

O tapa e a túnica, a milha e a esmola, o amigo e o inimigo

Prédica para o 7.° Domingo após Epifania

SermonMountMateus 5. 38-48 (ERAB): 5.38 Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. 39 Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; 40 e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. 41 Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. 42 Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes. 43 Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. 44 Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45 para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. 46 Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? 47 E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? 48 Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.

Dizem que a Lei de Talião (Lex Talionis = lei de tal, idêntico), citada por Jesus, está entre as mais antigas leis já documentadas na história da cultura humana. Está lá, no Código de Hamurabi, e data de cerca de 1700 anos a.C. Mas provavelmente antecede em muito ao seu registro encontrado no famoso monólito mesopotâmio. Trata-se da muito conhecida lei da reciprocidade: “Olho por olho… Dente por dente…”.

Aos mais sensíveis, tal lei parece demasiadamente implacável, cruel, selvagem e, mesmo, rude demais para os nossos dias (se você quebrar meu dente, eu quebro o seu!). Mas, acreditem, trata-se de um avanço significativo rumo à graça e à misericórdia. Antes dessa lei, imperava o revide, a retaliação e a vingança irrestrita. Não raro, pagava-se com a vida por um olho perdido, ou mesmo, com a vida de toda uma família, clã ou tribo, por um único dente quebrado.

A lei estabelece um limite à vingança e proíbe a retaliação: O revide não pode ser maior do que a ofensa! A humanidade levou centenas de milhares de anos pra chegar a essa noção elementar de justiça.

Saber disso nos dá melhor noção de quão elevado é o padrão proposto pelo singelo jovem galileu: Se alguém agredir ou explorar ou maltratar você… ofereça também a outra face, a túnica e caminhe a segunda milha…

Numa primeira impressão, podemos supor equivocadamente que Jesus sugere uma atitude indignamente subserviente, humilhante, aniquiladora… Mas, acrescendo uma pitada de perspicácia à leitura, nos damos conta de que o que o movimento de Jesus propõe é mesmo muito revolucionário. Trata-se de uma atitude de resistência ativa não-violenta.

No caso da hermenêutica da subserviência, pressupõe-se que quem está no controle é o feitor que dá o tapa, o credor que toma a túnica, o soldado que obriga o civil a carregar sua mochila de guerra, e assim por diante.

Mas na hermenêutica da resistência ativa não-violenta, quem de fato está no controle é quem oferece a outra face e a capa, quem caminha a segunda milha e empresta ao carente, quem trata o inimigo com dignidade e lhe presta socorro… Como que dizendo: Não, não será como você quer, mas como eu quero! Você pensa que está no comando, mas quem de fato decide o que fazer sou eu!

Todas essas atitudes expõem o opressor, e tornam explícitas sua estupidez e arrogância, sua ganância e insensatez. O tapa com as costas da mão, o espoliado nu na frente do opressor, a exaustiva milha extra… provocam uma inversão na opinião geral sobre quem é que está humilhando e quem está sendo humilhado. Tais gestos evidenciam o abuso e colocam o observador do lado daquele que, da sua fraqueza, suscita força para resistir.

Na mesma lógica vem a proposta de emprestar ao que pede e de amar o inimigo. Quando alguém fala em empréstimo, todos se põem na defensiva. E essa desconfiança é ótima para os agiotas (bancos, financiadoras, operadoras de cartão de crédito), porque, afinal, o que seria deles se as pessoas conseguissem os recursos de que necessitam com seus amigos, sem precisarem se submeter às regras implacáveis e inclementes dos juros escorchantes?

Pela lógica dos agiotas, então, nós acabamos dando nosso dinheiro aos bancos, a troco de nada e, quando precisamos, tomamos emprestado dos mesmos bancos a juros exorbitantes. Que coisa…! Definitivamente, o capitalismo não gosta de Jesus, e investe muito dinheiro para promover a hermenêutica da subserviência.

E quanto ao amor ao inimigo, eis uma das ideias mais fascinantes das comunidades de Jesus, porque nos ajuda a entender que o conceito de “amor” cristão nada tem a ver com sentimentalismo, romantismo, pieguice ou ingenuidade. Amar, na Bíblia, não é o mesmo que gostar. Não é preciso gostar de uma pessoa para amá-la. Ora, gostamos de alguém por causa de, mas amamos apesar de.

O conceito do “amor” se degradou demasiadamente na sociedade moderna. Por isso precisamos apelar para outros termos que lhe sejam equivalentes e que possam ser usados como substituto à altura. Um desses termos é “solidariedade” (do latim solidus = sólido, maciço, firme, inteiro, pleno; resistente — no sentido físico e moral). Essa ideia nos ajuda a entender que não é preciso morrer de simpatia pelo outro para ser-lhe solidário, inclusive em relação ao inimigo. Amar o inimigo implica numa atitude de se manter íntegro, inteiro, de não usar de dois pesos e duas medidas. Não é porque tal ou qual pessoa é minha inimiga que vou agir de maneira tendenciosa, prejudicando-a, ou mesmo negando-lhe socorro, fazendo diferente do que faria com uma pessoa amiga.

Lembram-se da máxima do Voltaire: “Não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres”? E do que afirmava Hermann Hesse: “É permissível a cada um de nós morrer pela sua fé, mas não matar por ela”? Esses são bons exemplos do que significa “amar o inimigo”.

No mesmo capítulo 5 de Mateus, verso 20, lemos: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.”

A Lei de Talião representou um grande avanço na concepção de justiça para a humanidade, tirando-nos da condição de bestas feras e elevando-nos à condição de cidadãos civilizados. A Lei do Evangelho, por sua vez, amplia essa condição quase que infinitamente ao conceder, àqueles e àquelas que passam a viver por ela, a cidadania do reino de Deus.

 

Luiz Carlos Ramos
7.º Domingo após Epifania (Ano A)
Capela da Serra, 24 de fevereiro de 2014

 

3 Comentários

  1. Caro pastor Luiz, saudações em Cristo. Tenho lido alguns de seus artigos, dos quais tenho gostado muito, e gostaria de fazer um comentário à respeito deste. Eu tenho uma visão um pouco diferente do porquê Jesus deu esses ensinamentos, o que Ele realmente tinha em mente. Acho que a intenção Dele não era de que fossemos superiores a quem nos agride ou nos colocarmos em uma posição de suposta superioridade, a qual de fato, não nos serviria para nada. Acho que a intenção de oferecer a outra face, que na minha opinião é figurativa, é a de quebrar a corrente do mal e estabelecer a corrente do bem. Se revidamos, damos continuidade ao estado negativo de coisas que geraram o problema, (jogamos lenha na fogueira), se tomo uma atitude de amor (dou a outra face), quebro a corrente negativa e estabeleço uma nova corrente, uma corrente positiva que terá o poder de modificar a situação a nosso favor e quando digo nosso, me refiro a nós e ao agressor também, pois o ideal é que não haja vencedores ou perdedores. Acredito que o que Jesus queria era a harmonia, e não uma disputa sem fim, daí o dar a face, ou seja, mudar a atitude de negativa para positiva. Essas eram as observações que gostaria de fazer. Continue com seu maravilhoso e inspirador trabalho, que Deus o abençoe.
    Paulo Filho.

    • Caro Paulo,
      sua perspectiva está perfeita, e estou de pleno acordo com ela. As circunstâncias e as ocasiões das prédicas nos levam a enfatizar um ou outro aspecto, mas creio que não estamos em contradição.
      Abraço,
      Luiz

  2. Caro Professor, a cada aula, como esta que acabei de ter, me sinto presenteado com a oportunidade que tive de te-lo como professor. Espero que minha busca pelo conhecimento abencoe tanto as pessoas como o senhor tem me abençoado. Thiago Gaspar.

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