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T e x t o s & T e x t u r a s

Palavras fixadas com pregos

Biblioteca de Alexandria Incendiada pela Turba Cristã insuflada pelo Bispo Theofilo de Alexandria

Biblioteca de Alexandria Incendiada pela Turba Cristã insuflada pelo Bispo Theofilo de Alexandria

Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade,
antes que venham os maus dias,
e cheguem os anos dos quais dirás:
Não tenho neles prazer; […]

Antes que se rompa o fio de prata,
e se despedace o cálice de ouro,
e se quebre o cântaro junto à fonte,
e se desfaça a roda junto ao poço,
e o pó volte à terra, como o era,
e o espírito volte a Deus, que o deu.

 

Vaidade de vaidade, diz o Pregador, tudo é correr atrás do vento!

 

O Pregador, além de sábio, ainda ensinou ao povo o conhecimento; e, atentando e esquadrinhando, compôs muitos provérbios. Procurou o Pregador achar palavras agradáveis e escrever com retidão palavras de verdade.

 

As palavras dos sábios são como aguilhões,
e como pregos bem fixados as sentenças compiladas,
quando dadas por aquele que é o único Pastor.

 

Demais, filho meu, atenta:
não há limite para fazer livros,
e o muito estudar é enfado da carne.

 

De tudo o que se tem ouvido, a suma é:
Teme a Deus e guarda os seus mandamentos;
porque isto é o dever de todo ser humano.
Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras,
até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más.

A Biblioteca de Alexandria, idealizada por Alexandre, o Grande, três séculos antes da nossa E.C., foi o maior centro intelectual e cultural da antiguidade de que se tem notícia. Ao longo de 600 anos, chegou a acumular mais de meio milhão de livros. Longe de servir de mero depósito de obras literárias, era, antes, um laboratório de investigação e de produção científica que abrangia as mais vastas áreas do conhecimento: filosofia, medicina, astronomia, literatura, matemática, física, engenharia…

Alexandria era uma cidade portuária construída às margens do Mediterrâneo, na costa norte do Egito, e, conta-se, que todos os navios ou mesmo os viajantes que por lá passavam eram revistados, não em busca de contrabando ou de substâncias ilícitas, mas de livros. Se um livro fosse encontrado, esse era confiscado para a Biblioteca, e o portador devidamente indenizado.

Tal investimento no conhecimento pelo conhecimento —a fundo perdido, portanto—, patrocinado pelo Império Helênico (ou Helenístico), durante a dinastia ptolomaica, resultou em avanços e benefícios  inestimáveis para a humanidade.

Por essa época se fizeram os primeiros estudos avançados da anatomia humana por meio da dissecação de cadáveres; se presumiu, pela primeira vez, por meio de cálculos sofisticados, a medida exata da circunferência da Terra (com um erro de meros 8 km), elaborou-se uma teoria coerente do movimento dos planetas, e calculou-se o tempo de duração do ano solar, com um erro insignificante de 6 ou 7 minutos —isso tudo sem dispor de calculadoras científicas, satélites ou GPS.

No entanto, esse alvorecer da ciência e aprofundamento do conhecimento e dos estudos acadêmicos estava com os dias contados.

O famigerado Império Romano ia ganhando território sobre o Helênico, não graças à superioridade intelectual, que definitivamente não era o caso, mas à sua truculência —e nisso eram experts. Desde então soube-se que é mais fãcil o poder cair nas mãos dos truculentos do que nas dos sábios. Os romanos derrotaram os gregos e assumiram o controle também em Alexandria, isso por volta do ano 30 a.C. Durante uma batalha naval, atearam fogo aos navios que estavam aportados. O incêndio logo se alastrou e como a biblioteca ficava próxima ao porto ela também foi queimada.

O que sobrou não foi muito, e embora os romanos não fossem contra a existência de bibliotecas, não estavam dispostos a investir recursos econômicos nesse tipo de atividade não lucrativa.

Para se ter uma ideia do tipo de gente que assumiu o poder, na ocasião, basta lembrar que, enquanto do outro lado do Atlântico os Maias, os Astecas e Incas, desenvolviam um preciso e sofisticado calendário ao mesmo tempo que construíam cidades com engenharia avançadíssima; e em Alexandria, como já apontamos, estudavam-se as orbitas dos planetas, media-se a circunferência da Terra e definia-se a duração do ano solar, bem como pesquisava-se a cura de inúmeras doenças e faziam-se os primeiros protótipos de robótica… Enquanto isso, em Roma o povo se entretinha no Circo, assistindo às ruidosas corridas de bigas e aplaudindo os gladiadores que se decapitavam mutuamente.

Não bastasse isso, no período pós Constantino (sécs. seguintes ao IV da E.C.), os cristãos que, num processo de conversão inversa ao do Apóstolo dos Gentios, passaram de perseguidos a perseguidores, trataram de impor sobre os povos uma versão intolerante de cristianismo, já completamente distorcida e distanciada daquele de Jesus de Nazaré. Tais cristãos, de triste figura, mandaram queimar, dentre os livros que sobraram da Biblioteca, aquelas obras que de alguma forma discordassem da cosmovisão da Cristandade. Há quem diga que nessa ocasião se perderam para sempre algumas das obras mais importantes da humanidade, entre elas o tratado sobre o riso (a comédia) de Aristóteles. Afinal, se alguém suspeitasse que Deus também ri, isso, de alguma forma, poderia pôr em risco a sobrevivencia dos senhores da Cristandade. Bem, o que restou da famosa biblioteca já não era digno desse nome.

O golpe de misericórdia veio com a derrota dos cristãos pelos muçulmanos em 640 da E.C. Infelizmente, os que aí se estabeleceram não eram melhores que os cristãos. Simplesmente mandaram queimar todos os livros restantes, até o último, sob o seguinte argumento: Se esses livros contradizem o Islã e o Corão devem ser destruídos, por serem perigosos, e se os confirmam, também, pois nesse caso são desnecessários.

Tudo se apresenta ainda mais estarrecedor quando nos damos conta de que não somente os livros foram aniquilados, mas também seus autores, os pesquisadores, os mestres, os sábios, de sucessivas gerações, foram sumária e impiedosamente perseguidos, torturados, trucidados.

Perguntamo-nos, então, como pode ser isso: tanto saber, tanto conhecimento, tanta sabedoria desaparecer assim, sem mais…? Tornar-se pó, virar cinza?…

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Reverendo Luciano José de Lima (✭26/05/1978 – 05/06/2015✟)

Depositar as cinzas do reverendo Luciano no jardim da Biblioteca da Faculdade de Teologia na Universidade Metodista, neste ato memorial, me faz hoje refletir muito sobre todas essas coisas. Talvez não tenha havido nenhum aluno desta escola que tenha amado e frequentado mais a Biblioteca do que ele. O Luciano, por si só, já era uma biblioteca completa. Fico imaginando como teria sido se ele tivesse vivido em Alexandria, na época áurea dos Ptolomeus, e frequentado os laboratórios de experimentação e investigação daquela monumental biblioteca…

O Luciano tinha em comum com os grandes sábios da antiguidade que frequentaram todas aquelas admiráveis bibliotecas, assim como com o autor do livro do Eclesiastes, a inquietude das mentes inquiridoras, sempre com suas perguntas existenciais e sua paixão pelo conhecimento. Mas, diferente daquele pregador bíblico —que só viria a compreender o grande princípio da vida na velhice: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade… e teme a Deus e guarda os seus mandamentos” (Ec 12.1 e 13)—, sim, diferente daquele, desde a mais tenra juventude o Luciano foi consciente do grande amor do Criador por ele e por toda a humanidade e, por isso mesmo, consagrou-se e comprometeu-se, de maneira incansável, com o novo mundo de Deus.

Suponho no entanto, pelo que bem conheci do Luciano, que ele não concordaria com a ideia do Qohélet de que “não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne”. Pois já faz tempo que descobrimos, e sobre isso conversamos várias vezes, que Deus é um inveterado bibliófilo. Para nos revelar sua vontade, providenciou não um livro, mas toda uma biblioteca: Bíblia é o termo grego pra designar o plural de “livro”.

Em sua aula magistral, ministrada no dia da primeira Páscoa cristã a dois alu(m)nos peregrinos de Emaús, o Mestre caminhante fundamentou sua argumentação com uma ampla referência bibliográfica de pelo menos 36 títulos, compilados na Bíblia Hebraica, que estão organizados em três seções: a Torah, também chamada de livros da Lei de Moisés ou Pentateuco, os Nevihim ou livros Proféticos, e os Ketouvim ou Escritos poéticos. Como se vê, a lição discorreu sobre Direito, Política e Poética.

Não bastasse isso, descobrimos, lendo o Pentateuco, os Profetas, os Escritos, os Evangelhos, as Epístolas e principalmente o Apocalipse de João, que lá no céu também há livros, e que alguns servem até para comer. E por essa razão não me surpreenderia, se podendo dar uma espiadinha, flagrasse o nosso Luciano, ladeado por gente da estatura de um Milton Schwantes, um Rubem Alves, ou um Maraschin, entre tantos outros, debruçado, examinando atentamente o Livro da Vida, ainda fechado para nós, mas definitivamente aberto para eles.

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O Luciano, por si só, já era uma biblioteca completa.

Pode ser que hoje, como outrora, o poder caia nas mãos dos que acham o estudo um insuportável enfado da carne, dos que, se não destruírem nossas bibliotecas, também não farão questão de preservá-las, muito menos ampliá-las, mas há uma verdade que sempre prevalecerá: A memória de uma biblioteca barbarizada ou vandalizada ainda é mais nobre e digna que a infeliz lembrança dos nefastos vultos que a destruíram. E mesmo estes são forçados a reconhecer que a sociedade só avança em sua humanidade porque, em meio à multidão incontável de meros frequentadores de salas de aula, há uns poucos verdadeiramente estudiosos. Que privilégio tivemos de conhecer de perto um deles, um dos maiores!

Hoje, como nos recomenda o Pregador bíblico, devolvemos o pó ao pó, cinza à cinza… Na confiança de que o espírito está em Deus e continua a nos inspirar. Descanse em paz, querido Luciano, no jardim que você escolheu para plantar a sua história. Quanto à sua memória, já de longa data está enraizada no nosso coração, em alguns, está apenas germinando e, em outros, já produz frutos que alimentam e alegram àquelas e àqueles que foram por você tão ternamente pastoreados.

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Irismã e Luciano: e(m)terno amor

À Iris, nós só temos que agradecer por seu amor assim tão delicado, tão dedicado, e por ter cuidado dele nos momentos mais difíceis, inclusive na hora do a-Deus. Receba nosso carinho e no nosso abraço sinta-se abraçada pelo próprio Luciano, porque cada um de nós aqui carrega um pouco dele em nós mesmos, e conte sempre com as nossas preces e os mais veementes e comovidos anelos de saúde e bem-estar com gratas e felizes memórias.

O Senhor te abençoe e te guarde,
O Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti
E tenha misericórdia de ti,
O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê paz. (Nm 6.24-26)

Rev. Luiz Carlos Ramos
Prédica preparada para a o Culto in memoriam de Luciano José de Lima
e deposição de suas cinzas nos jardins da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, celebrado em 29 de agosto de 2015

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Licença Creative Commons
O trabalho “Palavras fixadas com pregos” de Luiz Carlos Ramos está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://luizcarlosramos.net.

Um comentário

  1. Profético. Poético. Comovente.

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