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T e x t o s & T e x t u r a s

Paraninfo

Luiz Carlos Ramos

Autoridades da mesa,
Familiares,
Gente amiga aqui presente,
Colegas docentes e discentes,
Toda a equipe parceira da comunidade acadêmica,
Formandas e formandos do Curso Teológico Pastoral, Turma Prof. Nicanor Lopes (2010)

Creio que posso expressar-me em nome dos meus colegas docentes, especialmente do Prof. Nicanor Lopes, que dá nome a esta turma (essa é a verdadeira turma “gente boa”!), agradecendo pela consideração e carinho, e pela manifestação de respeito para conosco e para com a nossa escola de profetas. Com humildade e gratidão recebemos essa homenagem que vocês nos prestam nesta noite.

Também parabenizo a vocês pela escolha do tema, extraído do Profeta Isaías (52.7): “Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina!”

Essa passagem bíblica sempre chamou a minha atenção. Por que será que o profeta não preferiu dizer: “Que formosos são os lábios, ou as palavras, do que anuncia a paz e as boas-novas”? Por que os “pés”?

O profeta, provavelmente, se refere àqueles mensageiros que viriam “sobre os montes” de Sião, que cercam a cidade de Jerusalém, anunciando a volta dos que haviam sido deportados para a Babilônia. Não se tratava apenas da publicação da manchete com a última notícia do dia, mas da boa-nova do que isso significava para eles: que “Deus reina” e de que era o próprio Deus que retornava pra casa!

Mas, e os pés? Na cultura bíblica, “pés” têm sentidos múltiplos e variados. Mas aqui parece sugerir agilidade, presteza, rapidez, eficiência. Quero, no entanto, chamar a atenção para um processo que, sim, começa no versículo 7, mas culmina no versículo 8: “Eis o grito dos teus atalaias! Eles erguem a voz, juntamente exultam; porque com seus próprios olhos distintamente vêem o retorno do SENHOR a Sião.”

O mister profético começa com os pés, depois passa pela voz, para então chegar aos olhos!

Me explico: Quando nos formamos, e nos julgamos aptos ao pastorado, pensamos, amiúde, que nossa tarefa será a de pregar. E é em parte verdade, mas discursar não é nem a primeira, nem a última coisa a ser feita no pastorado.

Lembram-se das aulas de homilética? Do que aprendemos sobre persuasão com Aristóteles? Há três tipos de argumentos que favorecem a persuasão:

O primeiro é o argumento lógico: se você quer ser convincente, comece dizendo a verdade. Péssima ideia a de utilizar-se da mentira para defender a verdade. Muitos que estudam teologia sonegam a verdade a suas congregações, subestimando-lhes a inteligência. Pensando com isso defender Deus e proteger a Bíblia. E o resultado é uma igreja raquítica na fé, medíocre no entendimento e débil na prática do Evangelho. Não precisamos defender Deus, antes, nós é que precisamos que Ele nos defenda.

O segundo é o argumento psicológico: para convencer alguém a abraçar uma causa, isto é, ir além de assimilar conceitos ou ideias, é preciso estabelecer com esse alguém vínculo afetivo e efetivo. Se o pregador não for amado pela sua comunidade, ainda que sempre diga a verdade, será rejeitado por ela. Grande exemplo temos em Jesus, carpinteiro que era sugeriu a Pedro, pescador experiente, que fosse pescar fora de hora, no lugar que habitualmente não dava peixes, e que jogasse a rede do lado errado do barco. O pescador calejado sabia que aquilo não tinha a menor chance de dar certo. No entanto, constrangido pelo que Jesus representava pra ele, responde: “Autoridade, acho que não vai adiantar, porque meus amigos e eu já tentamos a noite toda… mas porque é você quem está pedindo, eu lançarei as redes!” E naquele dia a pesca foi maravilhosa.

O terceiro argumento é o ético: Notem, pela experiência desse pescador, que quando um pregador é amado e convincente, ele consegue fazer com que suas ovelhas pratiquem atitudes verdadeiramente absurdas. Por essa razão, o elemento ético é crucial. Não basta dizer a verdade, não basta ser estimado, é imprescindível se ter caráter. O pastor, diferente do boiadeiro, vai à frente das ovelhas. O boiadeiro tange o gado com berrantes, chicotes e gritos. O pastor simplesmente caminha adiante. Ele é o primeiro a trilhar o caminho que propõe às suas ovelhas.

Portanto, queridas formandas e caríssimos formandos, antes de anunciar a verdade, e antes de convidar o povo a experimentar essa verdade, cabe ao pregador e à pregadora tomar a iniciativa e dar o primeiro passo.

É por essa razão que a pregação começa com os pés. Só então ela estará apta a alcançar os lábios. Para que, finalmente, o povo que andava perdido, como ovelhas que não têm pastor, encontre na pessoa do pregador ou pregadora, um pastor que as apascente com amor e cuidado, com justiça e juízo, com ética e verdade… e, assim, todos verão “com seus próprios olhos distintamente o retorno do SENHOR a Sião”.

Esses pés, aos quais o profeta se refere, são belos não porque estejam asseados, ou porque não apresentem calos ou ferimentos: esses pés são mais como os de cristo, na cruz. Derramam seu sangue, oferecem sua carne para anunciar as boas-novas, fazer ouvir a paz, anunciar coisas boas, fazer ouvir a salvação, e dizer a Sião: “O teu Deus reina! O teu Deus reina!”

Que assim sejam os seus pés, “gente boa”: verdadeiros, amados e belos!

4 Comentários

  1. Nunca me esqueci do discurso dele. Também estava na formatura que por sinal foi belíssima.

  2. Como os colegas acima também estava na formatura e me sinto honrada em ter sido sua aluna e ter feito parte desta turma 2007 ‘gente boa’. Este texto também tem marcado muito minha caminhada de fé. Obrigada Professor querido por nos fazer seres melhores-pensantes. Abraços!

  3. lembro-me desta pregação e, ela foi muito marcante na minha caminhada de fé, principalmente, no que tange a homilética. afinal, era a minha formatura.
    parabéns professor, por suas aulas e pelo seu esforço em nos ensinar; assim como, por sua compaixão para conosco, seus alunos.
    muito obrigado e, que Jesus o continue a abençoá-lo em todos os momentos de sua vida.
    um abraço.

  4. Muito bom mesmo seu texto.
    Estava na formatura e acheio-o pontual, muito feliz…
    Parabéns pela homenagem.
    Fica com Deus, inté mais…

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