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T e x t o s & T e x t u r a s

Protestantes, evangélicos, crentes e outros apelidos esquisitos

 

A pedido de alguns amigos da Igreja Metodista de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, estou escrevendo sobre os diferentes apelidos com os quais a história resolveu cunhar aqueles e aquelas que professam sua fé no Cristo dos Evangelhos.

Os do Caminho: No livro dos Atos dos Apóstolos encontramos esta que teria sido uma das primeiras  designações empregadas para indicar os seguidores de Jesus: “Saulo […] pediu cartas as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém” (At 9.1-2). Que caminho seria esse, senão o próprio Cristo, que afirmara: “eu sou o Caminho” (Jo 13.6). Ser do Caminho não era exatamente uma vantagem, pois implicava em correr o risco de ser perseguido, preso, torturado e martirizado—o que efetivamente ocorreu amiúde nos primeiros séculos do cristianismo.

Cristãos (messiânicos): Este foi um segundo apelido dado aos seguidores das idéias do jovem de Nazaré: “Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos” (At 11.26). Como se sabe, “cristo” é a tradução do termo “messias”, usado na Bíblia Hebraica. Um messias era alguém que fora “ungido” (tradução literal) ou consagrado, mediante o ato simbólico da unção com óleo, para o exercício de uma tarefa especial: rei, sacerdote, profeta. Ungia-se, ainda, os enfermos, como procedimento medicinal e expressão de confiança de que aquela pessoa estava sob os cuidados de Deus. “Cristão”, ao contrário do que o suposto superlativo poderia indicar, não é um cristo grande, mas um pequeno cristo, neste caso, um seguidor do Cristo: um “messiânico”. Ainda que não seja tão importante quanto o Cristo evangélico, ainda assim, um “pequeno cristo” continua proclamando e praticando os ensinamentos do Cristo/Messias.

Santos: Esta é uma terceira designação bem popular, empregada no período neotestamentário, para referir-se aos seguidores de Jesus. Veja-se, por exemplo: “Passando Pedro por toda parte, desceu também aos santos que habitavam em Lida” (At 9.32). Também Paulo usa freqüentemente esse apelido: “Havendo eu recebido autorização dos principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões” (At 26.10). Na epístola aos Romanos, a semelhança do que acontece em muitas outras, podemos ler a seguinte saudação: “Saudai Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas e todos os santos que se reúnem com eles” (Rm 16.15). O sentido original da palavra “santo” também designa alguém que é separado para uma tarefa específica. Ser santo, naquela época, não significava ter uma multidão de peregrinos no encalço querendo venerá-lo. Para ser santo, tampouco se necessitava passar por processos eclesiásticos complicados, para comprovar a operação de prodígios e milagres, e nem ter a chancela papal decretando a respectiva canonização. Para se ser santo, bastava abraçar a causa de Jesus por meio do compromisso de fé e do batismo. Feito isso, a pessoa já estava contada entre os santos de Deus.

Protestantes e Reformados: Dando um salto de mil e quinhentos anos, notaremos que a História conferiu outros apelidos a um determinado setor da Igreja de Cristo, a saber: protestantes ou reformados. Como é sabido, o movimento da Reforma se caracterizou por um ato de protesto de um monge agostiniano alemão chamado Martinho Lutero, que em 31 de outubro de 1517 afixou nas portas da igreja do castelo de Wittenberg, suas Noventa e Cinco Teses, nas quais denunciava uma série de abusos praticados pela hierarquia eclesiástica, manifestando, portando, sua decisão de seguir a sua consciência e não as determinações eclesiásticas que, no seu julgamento, estavam em flagrante contradição com os princípios do Evangelho de Jesus Cristo. Daí o termo “protestante” lhe ter caído tão bem. Enquanto isso, na Suíça, outros teólogos, pastores, leigos e leigas, faziam um movimento semelhante com a pretensão de mexer na estrutura religiosa que julgavam estar precisando urgente de uma reforma. Por essa razão, estes últimos foram chamados de “reformados”.

Evangélicos: Desde o século XIX, ganhou popularidade o apelido “evangélico”, para designar um grupo de tendências puritanas, pietistas, avivacionistas e fundamentalistas, que cresceram muito nas últimas décadas. O termo “evangélico”, originalmente um adjetivo, servia para indicar aquilo ou aquela pessoa que estava de acordo com o Evangelho. De adjetivo relativo a Evangelho, o termo evoluiu para a forma substantiva. Hoje, alguém pode dizer que é “um evangélico”, não com isso querendo referir-se ao fato de que tal pessoa se reporta ao Evangelho, mas para indicar a sua filiação a um determinado segmento religioso que, neste caso específico, se caracteriza pela distinção, ou diferenciação, do catolicismo romano.

Crentes (fiéis): Com o crescimento dos Pentecostais, no Brasil, o termo “crente” se difundiu grandemente. De certa forma, ocorre aqui o mesmo que aconteceu com o termo “evangélico”: o adjetivo virou substantivo. A expressão, no Novo Testamento, identificava os “fiéis” e referia-se não tanto aos que acreditavam em alguma doutrina, mas àqueles e àquelas que confiavam em Deus e em seu filho Jesus. Ser crente, na Bíblia, é ser fiel e não ser adepto de alguma seita, de alguma corrente teológica ou ideológica. Lembram-se do dito apocalíptico: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” Ap 2.10. Também aqui o desafio é permanecer firma em meio às perseguições. Quem permanece fiel, mesmo diante da morte, receberá a Vida.

Para concluir, gostaria de destacar que alguns desses apelidos tinham, na sua origem, cunho pejorativo. Foram atribuídos aos grupos que, cada um à sua maneira, supunham estar servindo à sua consciência da melhor maneira, não para demonstrar concordância com eles, mas para ridicularizá-los. Nota-se, também, que a maioria desses apelidos implicavam em riscos, até em perigo de vida, para aqueles e aquelas que os assumiam. Por último, queria chamar a atenção para o fato de que não é o apelido que, em última instância, é o mais importante, mas o compromisso que assumimos com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não é nossa adesão a certo grupo religioso, mas nossa confiança e compromisso radical com o Senhor dos senhores que nos conduzirá à Vida plena, à Vida em abundância (Jo 10.10).

 Luiz Carlos Ramos
(Agosto de 2006)

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