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T e x t o s & T e x t u r a s

Sejamos todos um

João 17.18-26

  
Oikoumene-corNão rogo somente por estes discípulos, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da palavra deles, que todos sejam um. E assim como tu, ó Pai, estás unido comigo, e eu estou unido contigo, que todos os que crerem também estejam unidos a nós, de tal maneira que o mundo creia que tu me enviaste. E a mesma glória que a mim me deste eu dei a eles, para que sejam um, como nós somos um. Eu estou neles, e tu estás em mim, para que sejam perfeitamente unidos, a fim de que o mundo saiba que me enviaste e que amas os meus seguidores como também tu me amas.

Pai, a minha vontade é que onde eu estou estejam também comigo os que me deste, para que vejam a glória que me concedeste, porque me amaste antes da fundação do mundo.

Pai justo, o mundo não te conhece, mas eu te conheço; e aqueles que me deste sabem que tu me enviaste. Eu fiz com que eles te conheçam e continuarei a fazer isso para que o mesmo amor com que tens por mim esteja neles e para que eu também esteja unido com eles.

A onda anti-ecumênica que afeta muitos segmentos do próprio cristianismo não deixa de ser surpreendente. Como imaginar que uma pessoa cristã seja contra a unidade da igreja? Como explicar a intolerância para com o “outro” por parte de pessoas que professam a fé cristã? Afinal, o cristianismo tem como elemento central a doutrina da encarnação do Filho de Deus que, vencendo a distância infinita que separava a humanidade de Deus, quebra a maior de todas as barreiras: aquela que separa o “Eu” do “Totalmente Outro”, e que exige, como consequência, a quebra da barreira com o “Tu”, isto é, com o próximo (vd. conceitos de Martin Buber).

A propósito dessa onda anti-ecumênica, esta reflexão pretende abordar o movimento ecumênico como uma resposta concreta à oração de Jesus pela unidade dos que creem.

A principal referência escriturística que inspira explicitamente o movimento ecumênico é a Oração Sacerdotal de Jesus, relatada no capítulo 17 do Evangelho de João: que eles sejam um, para que o mundo creia!

Ecumenismo como movimento de oração pela unidade dos que creem

O compromisso ecumênico, portanto, é, primeiramente, um compromisso de oração. Os discípulos perguntavam a Jesus como deviam orar. No Sermão do Monte, Jesus oferece o modelo da Oração do Pai Nosso, que tem no pronome “nosso” a indicação explicita de que toda oração cristã deve ter um caráter comunitário e expressar as aspirações relativas ao cumprimento da vontade de Deus na Terra, da mesma forma que ela é realizada no Céu.

A Oração Sacerdotal de Jesus oferece outro modelo de oração que reforça a convicção de que a preocupação com a unidade dos que crêem é prioritária na pauta das súplicas e nas intenções dos fiéis.

Orar é desejar, suplicar é querer, pedir é buscar. O que deseja Jesus nessa oração? A unidade. O que suplica? A unidade. O que busca? A unidade.

Como o próprio Cristo advertia, em outra ocasião, uma casa dividida contra si mesma não pode subsistir (Mc 3.23ss). Isso implica em que uma pessoa que se diz cristã, mas que se posiciona contra o movimento de oração pela unidade da igreja, está assumindo o seu inverso. Suas orações, se não são em favor da unidade, são, consequentemente, em favor da desintegração, da sectarização e, portanto, da diabolização (cf. sentido etimológico dia+ballo) da igreja e dos cristãos.

John Wesley expressava sua preocupação com essa tendência entre seus seguidores. Por isso dizia que não temia o desaparecimento do movimento metodista, mas que este viesse a se tornar uma seita pseudocristã.

Ecumenismo como movimento de comunhão solidária e celebrativa dos cristãos

Em segundo lugar, o compromisso ecumênico é um compromisso de comunhão. Jesus suplica ao Pai que os que crêem e os que vierem a crer sejam um. Em que sentido? No mesmo sentido em que Jesus, o Filho, é um com Deus, o Pai. O modelo comunitário da igreja é a Divina Comunidade, a Santíssima Trindade, o Deus Trino e Uno.

Na comunidade divina, há plena unidade, não obstante a evidente diversidade das divinas pessoas. Os teólogos clássicos explicam que essa unidade se dá em temos de natureza. O Pai, o Filho e o Espírito são da mesma natureza. Não obstante, desempenham funções distintas. Conquanto juntos, não se misturam. Sendo Um, ainda assim, são Trindade. A um compete criar e revelar, a outro revelar e salvar, e a outro, salvar e consolar.

Por mais diferentes que os seres humanos possam ser, jamais serão tão “diferentes” quanto as pessoas da Trindade Santa. Se Deus é o modelo de comunidade perfeita embora sendo tão distinta entre si, como podem os seres humanos fechar-se intolerantemente em relação a quem é diferente em termos de convicções intelectuais ou de funções assumidas no corpo de Cristo, mas que, por mais diferentes que sejam, ainda são, e sempre serão, da mesma natureza humana?

A teologia e a ciência advogam: a humanidade é uma única família, uma única raça: a raça humana, a família humana —e a fé insiste em professar, surpreendentemente, que todos têm um único e mesmo Pai divino.

Outra expressão reiterada pelos Doutores e Pais da Igreja, e reforçada em diferentes épocas pelos Patronos da fé que professamos, é a de que devemos viver a unidade no essencial, a liberdade no não essencial, e a caridade (solidariedade) em todas as coisas. Em contrapartida, os que são contra o movimento ecumênico assumem uma postura de intolerância que culminará com a desintegração do essencial, a intolerância no não essencial, e o ódio em todas as coisas.

Ecumenismo como movimento missionário dos cristãos a serviço da humanidade

Em terceiro lugar, o compromisso ecumênico é um compromisso missionário. A oração de Jesus explicita o propósito da súplica pela unidade: “para que o mundo creia”.

O que impressionava os ouvintes de Jesus era o fato de que ele não falava como os escribas, mas como quem tem autoridade. Essa autoridade estava relacionada à coerência da mensagem de Jesus com o seu estilo de vida. Os escribas, para defender a sua verdade, não hesitavam em recorrer à mentira. Assim fizeram em Tessalônica, quando contrataram “homens dentre a malandragem” para que instigassem a multidão e inventassem mentiras contra os missionários que vieram para pregar o evangelho naquela cidade. Para defender sua ortodoxia, recorriam a práticas heterodoxas.

O mesmo se dá com os que militam contra o movimento de unidade. Dizem pregar o Evangelho de Cristo, mas praticam o oposto dos ensinamentos do Mestre; dizem crer no Deus Trino-e-Uno, mas promovem a sectarização da igreja; dizem professar o evangelho do amor; e praticam o ódio e a intolerância para com aqueles e aquelas que, embora sendo da mesma natureza que eles, pensam e agem de modo diferente.

Além disso tudo, falta bom senso a muitas dessas pessoas para perceberem sua incoerência. Fazem o que fazem com boas intenções, pregam o que pregam supondo estarem fazendo isso em nome de Deus; acreditam no que acreditam porque são crédulos, mas não crentes, e se deixam levar por discursos falaciosos.

Ao que parece, o desejo de Cristo e a mensagem do seu Evangelho continuarão a ser a opção de poucos: dos que escolherem o caminho estreito, do pequeno rebanho que ainda distingue a voz do Pastor em meio aos uivos dos lobos e o alarido dos salteadores, de homens e mulheres dos quais o mundo ainda não é digno (cf. Hb 12).

Luiz Carlos Ramos

 

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