Menu de navegação de página

T e x t o s & T e x t u r a s

Sino: chamado a viver o amor de Deus

Girona-Old-Church-Bell

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor,
serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.” (1 Coríntios 13.1)

Na Bíblia, os instrumentos de percussão servem para louvar a JaWeH, entre eles os sinos e os címbalos feitos de bronze. A partir do belíssimo texto do apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 13, o sino de bronze passou a ser associado ao Amor. Na verdade uma simbologia por oposição. O amor não é vazio, nem simplesmente ruidoso, como os sinos. De modo que, sempre que se ouvissem sinos tocando ou dobrando, o cristão deveria lembrar-se de que seu primeiro compromisso é com o Amor.

Nas igrejas e nos vilarejos, sempre havia um sino como “instrumento de comunicação”. O toque dos sinos servia para convidar para uma reunião, ou para anunciar o falecimento de algum adulto ou infante, para avisar de um incêndio, para pedir socorro e alertar em situações de catástrofes naturais…

Mais especificamente, nas torres das igrejas, os sinos serviam para marcar as horas de oração (Laudes, Horas Médias, Vésperas, e Completas) e as vigílias da noite (à meia noite e 3h da madrugada, também chamadas de Matina).

Para santificar todo o dia e cumprir o mandamento de orar sem cessar, existiam […] sete ofícios litúrgicos: os dois principais, Laudes e Vésperas, ao surgir e ao cair do sol. O primeiro para recordar a ressurreição de Cristo, louvá-lo pelas suas maravilhas e a salvação que nos deu, e para interceder por todos os homens que começam um novo dia; o segundo para agradecer a Deus pela sua ajuda no dia que está acabando e recordar o fim do tempo com a vinda definitiva do Reino de Deus. Entre estes dois ofícios existem as chamadas Horas Menores, porque são mais breves, conservando o nome antigo: Prima às seis horas, a Terça às nove, a Sexta às doze, a Noa às quinze; elas acompanham e permeiam toda a jornada. Antes do repouso noturno existe um último ofício: as Completas, onde se entrega a Deus, que vigia o sono dos homens, e se pede perdão pelas faltas do dia. (cf. http://www.mosteirodeclaraval.org.br/vidamonastica.php)

IECLB_Castro-PR

Templo da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em Castro, PR

Mas, permitam-me terminar com uma experiência muito marcante, tocante seria melhor dizer, que tivemos, minha família e eu, com o sineiro da Igreja de Confissão Luterana da cidade de Castro, PR.

Ali ainda se guarda um costume que vem de tempos remotos. Uma hora antes do culto matutino, o sineiro, o Sr. Rubens, que se gaba de nunca ter falhado um domingo sequer em mais de 40 anos, toca o sino pra avisar os aldeões que haverá culto. Meia hora antes, toca novamente pra informar que a igreja está com as portas abertas e o pastor já está a postos. Naturalmente, na hora de começar e ao término do culto o sino é tocado outra vez. Mas há um outro momento em que o sino é tocado, e é para essa ocasião que quero chamar a atenção: durante o culto, na liturgia eucarística, quando chega o momento da Oração do Pai Nosso, o Sr. Rubens sai de fininho, vai até a torre e toca o sino durante todo o tempo que dura a oração.

Pois bem, intrigada, minha curiosa irmã, Elenise, perguntou ao Sr. Rubens por que ele sempre toca o sino durante a Oração do Pai Nosso. Ele então respondeu: — É que pode ser que, por algum motivo, um irmão ou outro não tenha podido vir ao culto (talvez uma pessoa da família esteja doente ou algum animal está para dar cria, ou outro motivo), então, lá onde estiver, ao ouvir o sino, saberá que estamos em oração, e poderá parar o que estiver fazendo para orar conosco.

Essa experiência me marcou tanto, que propus algo semelhante na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, no tempo em que fui professor de liturgia e coordenador do Centro de Estudos de Liturgia e Homilética daquela instituição. O sino era tocado antes e no início dos cultos semanais, bem como durante a Oração do Pai Nosso e a Bênção Final (e acho que ainda hoje se faz assim).

Não sei se algum aluno ou aluna, funcionário ou funcionária, que tivesse impossibilitado de ir ao culto —estando em seu posto de trabalho, ou na biblioteca, ou nos seus aposentos— se comportou como os aldeões lá de Castro e aproveitou para orar conosco, mas a oportunidade estava dada.

Esse era o nosso jeito de dizer que, mesmo que você não possa vir à Igreja, a Igreja sempre encontrará uma maneira de ir até você, preservando o vínculo da unidade, da comunhão.

Assim, o sino pode ser entendido como símbolo de comunhão, anúncio, convocação e, principalmente, como chamado a viver o Amor de Deus.

Reverendo Luiz Carlos Ramos

Post scriptum

Éder Beling, compartilhou comigo, muito oportunamente, a esse respeito,

a experiência de um outro grande sineiro, Sr. Alfredo Guilherme, no interior do Espírito Santo, na cidade de Santa Maria de Jetibá, o seu relato foi publicado no jornal A Gazeta, filiada a TV Globo. […] Lá se toca durante o Pai Nosso, três vezes os sinos badalam a cada pedido do pai nosso.

“A rotina começa nos domingos e feriados pela manhã, quando ele dá 80 badaladas no sino grande. Antes dos cultos também, cerca de meia hora antes. O sino ainda é tocado durante os cultos, na oração do Pai-Nosso, no Batismo, ao fim do culto, em casamentos e também para avisar que alguém morreu e está sendo sepultado.”

A reportagem na íntegra pode ser acessada em http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2015/07/noticias/cidades/3901849-em-nome-da-tradicao-luteranos-procuram-por-novo-sineiro.html.

E José Lima Júnior, meu querido amigo filósofo e doutor em semiótica, lembrou-me dessa preciosidade de Heidegger:

Em belíssimo texto (Caminho do campo), Heidegger lembra seu pai. Era quem cuidava do relógio e do sino. Chonos e Kairós. Tempo e temporalidade. Eis o parágrafo do sino:

“[…] Mais freqüente com o correr dos anos o carvalho à beira do caminho leva a lembrança aos jogos da infância e às primeiras escolhas. Quando, às vezes, no coração da floresta tombava um carvalho sob os golpes do machado, meu pai logo partia atravessando a mataria e as clareiras ensolaradas à procura do estéreo de madeira destinado à sua oficina. Era lá que trabalhava solícito e concentrado nos intervalos de sua ocupação junto ao relógio do campanário e aos sinos que, um e outro, mantém relação própria com o tempo e a temporalidade. […]

“Das baixas planícies do Ehnried o caminho retorna ao jardim do Castelo. Galgando a última colina sua estreita faixa transpõe uma depressão e chega às muralhas da cidade. Uma vaga luminosidade desce das estrelas e se espraia sobre as coisas. Atrás do castelo alteia-se a torre da igreja de São Martinho. Vagarosamente, quase hesitantes, soam as badaladas das onze horas, desfazendo-se no ar noturno. O velho sino, em suas cordas outrora mãos de menino se aqueciam rudemente, treme sob o martelo das horas, cuja silhueta jocosa e sombria ninguém esquece.

“Após a última batida, o silêncio ainda mais se aprofunda. Estende-se até aqueles que foram sacrificados prematuramente em duas guerras mundiais. O Simples torna-se ainda mais simples. O que é sempre o Mesmo desenraiza e liberta. O apelo do caminho do campo é agora bem claro. É a alma que fala? Fala o mundo? Ou fala Deus?” (HEIDEGGER, MARTIN (1889-1976), O caminho do campo (Der Feldweg – 1949). Tradução de Ernildo Stein.)

Um comentário

  1. Comovente.
    PS. Em belíssimo texto (Caminho do campo), Heidegger lembra seu pai. Era quem cuidava do relógio e do sino. Chonos e Kairós. Tempo e temporalidade.

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: