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T e x t o s & T e x t u r a s

Sossego nas tempestades

Stained Glass Jesus calms the storm

Naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes Jesus: Passemos para a outra margem. E eles, despedindo a multidão, o levaram assim como estava, no barco; e outros barcos o seguiam. Ora, levantou-se grande temporal de vento, e as ondas se arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava a encher-se de água. E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro; eles o despertaram e lhe disseram: Mestre, não te importa que pereçamos? E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança. Então, lhes disse: Por que sois assim tímidos?! Como é que não tendes fé? E eles, possuídos de grande temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem? (Marcos 4.35-41)

O novo mundo de Deus é uma semente que germina enquanto o semeador dorme. Foi isso que aprendemos lendo os versículos que antecedem aos desta perícope. Talvez por essa razão Jesus aqui seja encontrado dormindo… pra deixar o Reino germinar.

O Mar da Galileia, que habitualmente tem águas serenas como um espelho, costuma ser acometido repentinamente por rajadas de ventos fortes e gélidos que descem do norte, vindos das neves eternas do monte Hermon. Em poucos minutos a temperatura cai em até 18 graus centígrados e o mar se agita furiosamente. Essas, provavelmente, foram as circunstâncias que surpreenderam o barco onde estavam os deseperados discípulos e, dormingo, o sossegado Jesus.

Não se pode dizer quem estava mais agitado, o mar ou os discípulos. Estes, podemos imaginar, aos gritos de pavor, acordam o Mestre: “Não te importa que pereçamos?” Jesus, despertando, disse: “Acalma-te, emudece!” Será que Jesus se dirigia somente ao vento e ao mar, ou também, aos discipulos? Quem é que mais precisava acalmar-se?

Essa narrativa nos faz recordar do episódio no qual os irmãos Wesley, de viagem da Inglaterra para Georgia, no ano de 1735, em alto mar, a bordo do veleiro Simmonds, se viram em meio a uma apavorante tormenta. Enquanto a maioria se desesperava, um grupo de passageiros se mantinha impassivelmente calmo e, conquanto a água entrasse no barco e a vela principal se rasgasse, continuavam a cantar salmos. Mais tarde, John perguntou-lhes: “As vossas mulheres e os vossos filhos não tiveram medo?” Ao que aqueles admiráveis morávios responderam: “Não, as nossas mulheres e crianças não têm medo de morrer” (Journal, 25-26 de Janeiro de 1736).

Com essas impactantes histórias podemos aprender muitas coisas. Entre elas, que o fato de estarmos com Cristo, e de estarmos nos caminhos da missão, não garante que seremos poupados das tempestades. Aprendemos ainda que há diferentes maneiras de enfrentarmos as tormentas, sejam elas reais ou simbólicas. Podemos nos deixar tomar pelo desespero ou podemos enfrentá-las serenamente. Os que se desesperam perdem tempo e desperdiçam energia, porque há coisas que estão além do nosso alcance e possibilidades, são aquelas ocasiões nas quais debater-se é inútil. Na esperiência dos irmãos Wesley vemos a outra possibilidade, que é ainda mais impressionante que a vivenciada pelos discpípulos. Os discípulos só se acalmaram depois da bonança, enquanto os morávios mantiveram a calma mesmo em meio ao turbilhão.

Será que um dia conseguiremos aprender a descansar com Jesus, tranquilamente, em meio aos turbilhões da vida? Será que chegará o tempo no qual deixaremos de importunar o Mestre com nossos brados desesperados e preces egoístas, para nos aconchegarmos nos seus braços, e reclinarmos a cabeça, serenamente, dividindo com ele o mesmo travesseiro? Depois e tudo que “temos vivido, aprendido e visto”, ao lado do Mestre, como é que ainda não temos fé?

Rev. Luiz Carlos Ramos
(Para o Quarto Domingo do tempo da Peregrinação
após Pentecostes, Ano B)

3 Comentários

  1. Maravilhosa prédica, tão oportuna para os obscuros tempos político e social que estamos vivendo! Recordar que temos que ser a luz no meio da escuridão, a paz em tempos de tempestade, a esperança em meio à desesperança! Valeu!

  2. Ótima reflexão sobre tão significativo texto do Evangelho. Apropriada para os tempos que vivemos. Fraternal abraço!

  3. Lindo demais. Amo este trecho nos Evangelhos e a sua reflexão ficou excelente.

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