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T e x t o s & T e x t u r a s

Trinta, sessenta e cem por um

(Mateus 13)

Luiz Carlos Ramos
(a pro­pó­sito dos 77 anos da revista Voz Mis­si­o­ná­ria, setem­bro de 2008)

 

Um dos sermões mais famosos pregados em língua portuguesa é aquele proferido pelo Padre Antonio Vieira sobre a Parábola do Semeador. Nele há um momento em que o orador se pergunta a respeito do que estaria acontecendo com os sermões e com os pregadores, visto que já não produzem frutos, como prevê a parábola, de trinta, sessenta e cem por um. Muito ao contrário, parece que somente a cada trinta, sessenta ou cem sermões pregados, se verifica uma única conversão.

Refletir sobre a Parábola do Semeador parece bastante oportuno nesta ocasião na qual celebramos os 77 anos da Revista Voz Missionária. Na explicação que Jesus dá a essa parábola, é dito que a semente é a palavra de Deus que é “semeada”, isto é, que é pregada; e que os diferentes tipos de solo, sobre os quais a semente é jogada, são o coração humano que recebe essa palavra de diferentes maneiras.

O curioso dessa história é que um semeador se disponha a desperdiçar semente com terrenos ruins. Hoje em dia, com o concurso da agro-tecnologia, primeiro se prepara a terra e só então, quando esta está devidamente adubada e fertilizada, é que se procede a semeadura.

Mas o semeador de Jesus é diferente. Ele semeia nos lugares mais impróprios. Para esse semeador não há terreno bom e terreno ruim, há simplesmente terreno a ser semeado. Não faz análise de solo, o que equivaleria, na linguagem comercial de hoje, a não fazer pesquisa ou reserva de mercado. Ele não elege público alvo específico. Enfim, o semeador da parábola parece não ter feito aqueles cursinhos sobre “igreja com propósito”. Não aprendeu a lição tão propalada sobre estabelecer metas claras e objetivos específicos. Não compreendeu bem as instruções sobre evitar desperdício e duplicação de esforços. A julgar pelos critérios mercadológicos dos nossos dias, o semeador da parábola de Jesus faz tudo errado. Está condenado ao fracasso. Jamais conseguirá um banco que queira financiar sua lavoura.

Por que razão, então, alguém semearia em meio a espinhos? Ou à beira do caminho? Ou entre as pedras?

Deixando de lado as explicações de caráter econômico e tecnológico, esta mensagem de Jesus nos faz, antes, refletir teológica, pastoral e espiritualmente sobre os três elementos determinantes do processo de semeadura: o semeador, a semente e o solo.

O semeador saiu a semear e semeou…

Estranhamente, na parábola de Jesus, não compete ao semeador julgar nem a qualidade da semente, nem a qualidade do solo. Ele é, antes de tudo, uma pessoa desvestida de julgamentos, concentrada na sua tarefa, confiante que o resultado de sua semeadura não depende de sua habilidade, de sua competência ou de sua tecnologia. O resultado depende de uma única coisa: da Graça.

Assim, sai o semeador e faz o que tem que fazer: semear. Sua tarefa não é julgar, não é analisar, não é escolher. Sua função é tomar as sementes nas mãos e lançá-las como se fizesse uma oração com a fé e a esperança de que esta será ouvida.

A semente caiu… e germinou…

A semente é a palavra de Deus destinada a todas as pessoas. A maneira como estas a recebem não deve ser a preocupação do semeador. Isso diz respeito a cada um a quem essa palavra é anunciada. Em todos os tipos de solo, a semente germina: a Graça é para todos.

A semente é um mistério fascinante: um grão duro e minúsculo que carrega dentro de si o código da vida. É igualmente um paradoxo: morre grão e ressuscita trigo, milho, feijão… Como é possível o maior caber dentro do menor? a vida nascer da morte? do rude e duro, brotar a suavidade e o verdor?

O que é impossível aos seres humanos, é possível para Deus. Isso se chama Graça, e é para todos. Não depende de nós, não depende dos pregadores e pregadoras, não depende tampouco dos solos. Depende de Deus.

Entre os espinhos, à beira do caminho, entre as pedras e em terra boa…

O fato de alguns sufocarem essa palavra, deixarem que lha roubem, ou que essa palavra se seque no seu coração, é da competência e da responsabilidade desse mesmo coração. Seja como for, a semente germina, independentemente do solo. Quantas vezes já vimos plantas nascendo nos lugares mais improváveis: nas rachaduras das calçadas, nos telhados das casas, em cima de muros, nos semáforos, nos túmulos… As plantas simplesmente nascem.

É verdade que elas podem ser arrancadas, pisadas, sufocadas. Mas isso não é culpa de Deus ou do semeador. O que fazemos com a palavra semeada nos nossos corações é de nossa inteira responsabilidade. Podemos cultivá-la ou arrancá-la. Podemos praticá-la, ou pisar nela. Podemos deixá-la florescer e frutificar ou sufocá-la.

Se abrirmos nosso coração para receber a semente lançada pelos semeadores da palavra de Deus; se nos alegrarmos com a ação da Graça de Deus que faz germinar essa semente; e se cultivarmos essa palavra com carinho, respeito e gratidão, produziremos frutos e seremos considerados terra boa e fértil.

Então…

A Revista Voz Missionária, nos seus 77 anos, semeou a palavra. Certamente, caiu nos mais diferentes tipos de terreno. Não cabe a nós julgar. Certamente a palavra germinou em todos os solos onde foi semeada, pela Graça de Deus, e apesar das limitações humanas. E o fato de hoje nós estarmos aqui, para celebrar esses 77 anos, é uma prova de que parte da semente caiu em terra boa, e produziu fruto.

A equipe da redação e das colaboradoras e colaboradores da Voz Missionária é pequena, como a semente da parábola, e por isso, podemos dizer que aqui se cumpriu a palavra de Jesus: desse pequeno grão espalham-se pelas lonjuras do nosso chão, trinta, sessenta, cem, inúmeros frutos para a glória de Deus.

Um comentário

  1. Obrigado por esta semente

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