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T e x t o s & T e x t u r a s

Uma conversa junto ao poço

“Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, que ficava perto das terras que Jacó tinha dado ao seu filho José. Ali ficava o poço de Jacó. Era mais ou menos meio-dia quando Jesus, cansado da viagem, sentou-se perto do poço. Uma mulher samaritana veio tirar água, e Jesus lhe disse: — Por favor, me dê um pouco de água. (Os discípulos de Jesus tinham ido até a cidade comprar comida.) A mulher respondeu: — O senhor é judeu, e eu sou sa-maritana. Então como é que o senhor me pede água? (Ela disse isso porque os judeus não se dão com os samaritanos.) Então Jesus disse: — Se você sou-besse o que Deus pode dar e quem é que está lhe pedindo água, você pediri-a, e ele lhe daria a água da vida. Ela respondeu: — O senhor não tem balde para tirar água, e o poço é fundo. Como é que vai conseguir essa água da vi-da? Nosso antepassado Jacó nos deu este poço. Ele, os seus filhos e os seus animais beberam água daqui. Será que o senhor é mais importante do que Jacó? Então Jesus disse: — Quem beber desta água terá sede de novo, mas a pessoa que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Porque a á-gua que eu lhe der se tornará nela uma fonte de água que dará vida eterna. Então a mulher pediu: — Por favor, me dê dessa água!” (João 4.5ss)

* * *

A primeira notícia que ouvi pelo rádio, na manhã da última quarta-feira, foi a de que as autoridades japonesas informavam quanto à contaminação radioativa dos reservatórios da cidade de Tókio, que fica a 250 km de onde aconteceram os vazamentos das usinas nucleares, e alertavam a população para não beber mais água da torneira. A consequência foi, evidentemente, uma corrida desesperada em busca de água mineral. Podemos imaginar o caos: uma cidade mais populosa do que São Paulo, sem água.

Isso tudo acontecendo justamente na semana em que se comemora o Dia Mundial da Água. Mais do que nunca, o mundo está pensando seriamente na sua relação com o cuidado do planeta, e na importância da água.

O texto do evangelho escolhido para hoje, coincidentemente, nos remete ao mesmo tema. E o amplia de maneira significativa e plenamente oportuna para nós.

Trata-se de um encontro inusitado, por diversas razões: (1) é o encontro entre um homem e uma mulher, numa cultura em que a discriminação de gênero, ainda hoje nos choca (não que sejamos muito mais nobres…); (2) é o encontro entre um judeu e uma samaritana, inimigos históricos – discriminação etnico-social; (3) é o encontro entre um adorador de JaHWeH e uma adoradora de ídolos – discriminação religiosa.

Poderíamos continuar ampliando essa lista, mas estas já são razões suficientes para evidenciar o contexto deste episódio narrativo.

Será que podemos aprender algo novo, meditando, neste tempo quaresmal, sobre esta conversa junto ao poço? Imaginemos que também nós estamos hoje sentados ao lado da fonte maravilhosa da nossa tradição: a Bíblia. De que maneira ela pode nos refrescar, e saciar a nossa sede?

Primeiro, reconhecemos que a sede é uma condição humana universal, e que a necessidade da água não reconhece preconceitos de gênero.

Jesus se revela plenamente humano. Teve sede e pede: “Mulher, dá-me de beber.” A mulher precisava da água: tinha que vir muitas vezes até a fonte para buscá-la.

Diante das necessidades básicas, quando a sobrevivência está em jogo, esquecemo-nos das nossas diferenças. Antes, muito ao contrário, damos graças por elas, porque graças a elas, uns suprem as limitações do outro, da outra. “O poço é fundo, e você não tem balde, nem corda, como tirará água do poço?” 

Por isso precisamos uns dos outros. Porque nem sempre teremos tudo o que precisamos. É no mutirão de competências e responsabilidades que haveremos de saciar as nossas carências, e transformar a escassez em fartura. 

Jesus e a mulher trocam competências e responsabilidades. Ela pode lhe dar água fresca. Ele pode lhe dar água viva.

Segundo, reconhecemos que a sede é uma condição humana universal, e que a necessidade da água não reconhece preconceitos de raça.

Não vem ao caso detalhar, mas o chamado povo de Deus havia se dividido em dois reinos, o do Norte e o de Judá, ao sul. Isso em 930 a.C. Habitantes de uma região do Oriente Médio muito disputada, esses reinos foram frequentemente sitiados, invadidos, ocupados, e sua população amiúde deportada e exilada.

 Conta-se que, por volta do século VIII (c. de 720 a. C.), o reino do norte, que era onde estava a Samaria, teria sido invadida pelos Assírios. A estratégia de dominação desse povo era a de enfraquecer a população local por meio da miscigenação, deslocando parte da população dos territórios ocupados, obrigando-a misturar-se com estrangeiros; e, consequentemente, por meio do enfraquecimento cultural dos povos dominados, fazendo-os perder sua identidade. Outra estratégia, era a de escravizar a elite (política, religiosa, econômica), deportando-a para servirem de escravos na Assíria. Ficava, então, na terra ocupada, o povo pobre, misturado com estrangeiros trazidos de outros territórios igualmente invadidos.

Bom, tudo isso pra dizer que aí está, em boa medida, a raiz do desprezo dos judeus pelos samaritanos, esse povo desqualificado, miscigenado, pobre, idólatra. Aqueles diziam que os samaritanos já não eram raça pura. Haviam se contaminado, casando-se com estrangeiros, adoradores de ídolos.

Jesus, se fosse um bom judeu, primeiro, não passaria pela província da Samaria; segundo, jamais falaria amavelmente com alguém da região; se esse alguém fosse uma mulher, então, nem se fala (literalmente!)… Ele toma a iniciativa, e propõe a superação do preconceito étnico-social, porque quando se está com sede, somos todos humanos, e ponto! 

Terceiro, reconhecemos que a sede é uma condição humana universal, e que a necessidade da água não reconhece preconceitos de credo religioso. 

Jesus propõe ainda a superação do preconceito religioso. Ele tabula com a mulher samaritana uma animada conversa teológica sobre o culto verdadeiro. E ambos chegam à conclusão de que esse negócio de religião exclusiva é uma tolice, e que os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e em verdade.

Encantada com a perspectiva de Jesus, a mulher corre até a aldeia, compartilha essas ideias com seus concidadãos que, empolgados correm ao encontro de Jesus para conversar pessoalmente com ele.

A amizade se estabelece de tal maneira, que Jesus se esquece de que estava indo pra Galileia, e resolve usufruir da hospitalidade daquela gente ainda por mais dois dias.

A religião não pode ser água parada, mas expressão de fé viva e dinâmica que flui do coração de Deus e que transborda no coração humano. 

Concluindo…

Jesus teve sede em pelo menos duas situações registradas nas Sagradas Escrituras: neste episódio com a mulher samaritana, e na cruz, quando disse “tenho sede”. Nesta última ocasião, deram-lhe vinagre em vez de água.

O que teremos para oferecer, quando nos pedirem “dá-me de beber”?

Se, por um lado, Jesus se revela plenamente humano ao dizer: “tenho sede”, por outro, ele se revela maravilhosamente divino ao oferecer a água da vida: “Quem beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede.”

Luiz Carlos Ramos
27.03.11

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